terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Consolidação

Vindo das fronteiras, as coortes se reúnem mais uma vez em Nicius e avançam em direção à Roma, tendo Domiciano à sua frente. Conspirações, complôs, conluios, conjurações aconteciam com tanta frequência que os cidadãos romanos se acostumaram com essa instabilidade e continuavam com suas vidas ordinárias.
Domiciano chega a tempo para salvar Roma de seus inimigos, os cerca e os espreme contra o enorme muro fortificado que cercava Roma desde a época de Otávio. mas ele não foi suficientemente rápido para evitar a morte de Vespasiano.
Com o fim do conflito, Domiciano é carregado em triunfo até o Senado aonde é proclamado como o sucessor de Vespasiano. No momento em que estava para receber a unção do Papa, revela ao público sua verdadeira identidade e os motivos que o levaram ao exílio. Que sucessores venham de nobres banidos ou exilados não constitui novidade em Roma e há tempos que não é mais importante que César seja da linhagem Juliana.
Em sua aclamação, Domiciano promete o fim das guerras e a confirmação dos tratados. Ele determinou a separação entre o Império e a Igreja, ordenou uma auditoria e investigação de abusos cometidos por bispos e centuriões, decretou a distinção entre os cultos de Mithra e de Crestos.
Enquanto no mundo terreno a dita cultura civilizada assiste seus mais altos dignitários firmarem acordos e convenções que podem ou não serem observados, no mundo astral ocorre outra assembléia. De um lado, os Deuses Antigos e do outro, o Deus dos homens, a sombra da humanidade que ambicionava de egrégora se tornar o Deus Absoluto.
- O que significa isso? Vós me prometestes que eu seria Deus!
- Nunca te prometemos o trono, a coroa e o cetro, pois eis que estas coisas devem ser conquistadas. Apenas concordamos em ceder e nos afastar dos homens, para que tu pudesses seduzi-los e estes devem escolher se submetem a ti ou não.
- A humanidade tem de submeter a mim, pois é viciosa, cruel e maldosa. Somente se submetendo a mim é que a humanidade será purificada!
- Tu ainda não percebeste que foste formado das paixões humanas, mas que te é preciso te fizeres de santo, pois é através da busca da virtude que tu podes dominar a humanidade.
- As paixões são a fraqueza da carne e deste mundo, mas eu venci este mundo!
- Cuidado com o que tu dizes. Nós te geramos do Espírito Humano que, para se desenvolver e amadurecer, tem que resolver o dilema entre o espírito e a carne, não pelo conflito, mas pela comunhão. Enquanto não perceberes e aceitares que não há separação entre espírito e a carne, entre o mundano e o astral, há de reinar conturbado contigo mesmo.
- O único conflito que existe é entre eu e Satan.
- E quem é Satan senão um reflexo de ti mesmo? Tu estás tão deslumbrado com a fantasia que criaste para seduzir os homens que começa a crer que ela é real.
- Eu não vos temo, vosso tempo acabou, nada nem ninguém pode me deter.
- Enquanto o Espírito Humano te conceder, tu serás adorado por muitos nomes. Tu serás conhecido por Ormuz, Yahveh, Mithra, Yeshu, Buda, Krishna, Razão. Por aquilo que representas, os homens estarão dispostos a matar e a morrer. A terra se embebedará com sangue e tu te fartarás com almas. O Aeon de Áries dá lugar ao Aeon de Peixes e este findará ao chegar o Aeon de Aquário. Este é o ciclo da Vida, tudo muda, tudo gira. Rei do Inverno, aproveite teu reinado, pois por mais terrível e absoluto que seja tua coroa, o Espírito Humano há de despertar e a Antiga Religião há de retornar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O confronto

O cenário na fortaleza de Argentum era desolador. Domiciano e Silvano percebem que boa parte da paliçada estava destruída. Os legionários deram as boas vindas ao reforço enquanto colhiam os corpos de seus colegas e os enterravam.
As boas vindas foram interrompidas pelos zunidos de várias flechas que atingiram os sacerdotes Crestanos que vinham no contingente. quando Domiciano ordenou o posicionamento das máquinas de guerra para que atirassem na direção de onde vinham as flechas, estas é que foram atingidas por bolas de fogo que as inutilizou ou destruiu.
Domiciano investigou em uma das máquinas que puderam ser resgatadas o que a atingiu. De alguma forma, os Saxões podiam atirar bolas feitas de algum tipo de betume que era incendiado. Assim mesmo, ordenou que as máquinas restantes atirassem tudo que podiam na direção de onde veio o ataque e em seguida ordenou a carga dos legionários.
Enquanto enviava um mensageiro pedindo mais reforços e mais máquinas, Domiciano embrenhou-se na floresta cerrada junto com seus legionários para combater os Saxões.
Os Saxões tiravam proveito da floresta, escondendo diversas armadilhas para pegar os legionários ou usando a familiaridade que tinham com o terreno para pega-los em pequenas emboscadas, eliminando aos poucos o Exército Romano.
Os Saxões não se rendiam, se capturados encontravam um jeito de cometer suicídio antes que fossem torturados. Havia disposição, organização e estratégia entre os saxões o que fez com que Domiciano gostasse de ter enfim um exército que valorizasse a beleza da batalha para enfrentar. Espada contra espada, lança contra lança, flechas zunindo de ambos os lados e a matança seguia sem misericórdia.
Em um momento, em uma clareira, encotraram-se Bran e Andros de um lado e Domiciano e Silvano de outro. Por alguma força inominável, ninguém mais entrava naquela clareira e os combatentes pareciam ter definido seu adversário muitos anos antes.
Domiciano encara Bran e lembra do encontro que tiveram em Roma há dez anos atrás. Muita coisa mudou, cada um passou por experiências que os amadureceram, mas Bran ainda exala uma aura que causa em Domiciano um sentimento de medo e reverência.
Silvano nunca havia conhecido Andros, ao menos na vida presente, fato que Andros leva em consideração pelo sentimento de ódio tão forte por aquele centurião.
Silvano não acredita nas coisas que o Império Romano lhe exige acreditar e lembra muito pouco das crenças de seu tempo de infância. Tudo que ele sabe e pensa é em lutar e vencer, então parte para atacar Andros e cumprir com seu destino.
Domiciano suspira, ele prefere postergar o conflito, mas não tem escolha. Ele foi destinado a isto e ele representa Roma e Deus. Ele luta com Bran e consigo mesmo, com uma parte dele que nasceu e foi criada na Religião Antiga, luta para vencer seu passado, luta para ganhar seu futuro.
Silvano luta com Andros e se surpreende em encontrar um pagão com um domínio tão refinado da espada. Faíscas saem das espadas enquanto seguem em um balé sequenciado de ataques, defesas e contra ataques. Um corte aqui, uma ferida ali, sangue escorre e espirra, não há hesitação ou vacilo.
Andros consegue golpear Silvano, mas também é atingido. Em um giro, Andros se livra da dor e da espada de Silvano e o golpeia novamente nas costas para encerrar o combate.
Silvano cai sem vida ao solo junto com a chuva e Andros encosta em um carvalho próximo. Sentindo suas forças se esvairem aos poucos, Andros observa o campo de batalha cheio de corpos e poças de sangue, como uma pequena amostra do que estava por vir. Em seu último fôlego, ele vislumbra os Mistérios Antigos desvelados e morre sorrindo.
Domiciano pega e atira um machado que estava caído próximo de um soldado Saxão na direção de Bran, mas não para acertá-lo, seu alvo é uma árvore que um espírito ou anjo enviado por Deus lhe indicou como sendo a fonte do espírito de guerra dos Saxões e do poder de Bran. O machado parte a árvore sagrada deixada pelos Deuses no lugar onde antes estava Ketar.
Por alguns instantes, silêncio e paz, mas os Saxões não pareciam estar dispostos a se renderem. O clima de tensão está alto quando chega um mensageiro vindo de Roma com uma ordem urgente do próprio César.

Vespasiano César, Imperador pela graça de Deus.
Eu convoco para que retornem imediatamente a Roma os comandantes Silvano e Marco, com todas as coortes que estão sob suas ordens, prontos para combater a conjuração formada por senadores, consules, governantes e bispos romanos orientais que vem, seguindo as ordens do General da Maldade, Satan, para tomar e usurpar a coroa de Roma.


Domiciano ordena a retirada do que sobrou de seu exército e envia mensageiros uma cópia da convocação para todas as fortalezas dos territórios conquistados, certo de que este é um sinal de Deus de que ele está marchando para seu triunfo e glória como César, como lhe fora prometido.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Combatendo os Pagãos

Os comandantes seguem de Nicius até Bergumum para conhecer as condições das coortes ali acampadas e as condições do campo de batalha.
Na fortaleza em Bergumum, foram tratar diretamente com um centurião que era também o bispo local que lhes relatou sobre os Dácios, o povo pagão que mais resistia e guerreava contra a Igreja e o Império de Roma.
- Os Dácios se orgulham de ser descendentes dos Frígios e adoram um Deus-Lobo. Os povoados conquistados se mostraram dóceis, mas nossas igrejas são imediatamente atacadas e destruídas nos ataques, onde os Dácios costumam comemorar queimando os pergaminhos com a santa palavra junto com meus sacerdotes.
- Eles são organizados?
- Não parece, mas o ataque de surpresa feito em cargas rápidas nos tem mantido ocupados.
- Muito bem. Construamos mais uma vez a última igreja que foi destruída, para atrair o ataque de um destacamento.
O centurião-bispo torce seu rosto, mas obedece com medo da represália que sofreria de Vespasiano. Reuniu os construtores e lhes prometeu proteção e mais ouro para reerguerem a Igreja de Panônia. Entre os pedreiros e carpinteiros, Domiciano misturou legionários disfarçados e postou uma coorte em um local oculto da vista. Não demorou muito, bastou juntar algumas pedras para as fundações para que os Dácios fizessem seu ataque.
Os Dácios eram muito parecidos com os Godos, mas eram mais morenos e seus trajes pareciam ser feitos de linhas com cores diferentes.
No momento certo, os legionários disfarçados avançaram em um contra-ataque, causando surpresa e desorientação nos atacantes. Quando estes se agruparam para rechaçar os legionários, foram cercados pela coorte e rendidos.
Com os prisioneiros, através de tortura, Domiciano extrai o que pode sobre posições, acampamentos, armamentos e organização do exército dos Dácios.
Mesmo não sendo uma informação completa ou confiável, o bispo-centurião consegue reverter a desvantagem e conquista de forma concreta a região da Panônia.
Satisfeito com o resultado, Domiciano e Silvano seguem para Tullum. O centurião local lhes informa que ali o combate é contra os Francos.
- Os Francos se dizem descendentes dos Celtas e adoram uma Deusa-Lua. Constantemente ouvimos seus tambores, cítaras e flautas soando entre as árvores, anunciando suas cerimônias satânicas. Quem tenta se aventurar por estas florestas acaba esfolado e pendurado nas árvores.
- Muito bem. Tu fizeste as adaptações nas máquinas de guerra?
- Sim e estão prontas para uso.
- Postem as máquinas de guerra e despejem o máximo de fogo grego que puder na direção que os Francos podem estar. Na clareira formada pelo fogo, construa uma Igreja Romana e na cerimônia façam com que essa Deusa-Lua seja caracterizada como um demônio.
O centurião usa todo o estoque, causando uma grande destruição na floresta densa e na clareira aberta improvisa um altar Crestano onde se realiza a cerimônia combinada. Como esperado, os Francos tentam impedir a cerimônia, quando então são vencidos, capturados e torturados. Na manhã seguinte a região do Reno pertencia ao Império Romano.
Sem demora, Domiciano e Silvano partem para Belginum encontrando uma situação diferente. Ali, o centurião tinha problemas de ordem doutrinária entre os Germanos. Parte da região dominada por Roma ainda resistia às encíclicas do Papa e a parte setentrional resistia à idéia de um Deus que se sacrifica ao invés de cair em combate.
A contragosto, Domiciano deu lugar ao seu lado ministerial, reuniu os sacerdotes Crestanos na Germânia Meridional e discutiu os pontos controversos. Na Germânia Setentrional, Domiciano usou do mesmo artifício usado por Cláudio César e comprou o apoio dos reis locais para a causa de Roma.
Sem ser preciso dar uma simples flechada, a conquista da Germânia é consolidada e uma gigantesca missa é celebrada. No dia seguinte, Domiciano e Silvano seguem até Argentum, de onde ouviram rumores sobre os Saxões.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Domiciano se torna comandante

Vespasiano chega em Nicius e trata de melhorar as condições de sua estadia. Ele calculou que o tempo necessário para chegar em Nicius seria o suficiente para que seus mensageiros conseguissem convocar os centuriões e que estes chegariam junto ou antes que o comandante Derico.
No final da tarde, o comandante Derico chega com uma pequena comitiva na coorte em Nicius e se apresenta com a ordem de César, tendo ao seu lado o centurião Silvano e o sargento Domiciano. O legionário, previamente instruído, conduz o trio a uma sala de espera, para então avisar por meio de seus superiores, ao César da chegada do comandante.
Vespasiano estava farto das desculpas dos centuriões e os mandou para o carrasco, colocando todas as tropas sob o comando dos centuriões que ele conhecia e confiava. Ele mandou entrar a Derico e não fez muita questão de seus acompanhantes.
- Muito bem, Derico, eu ouvi teus centuriões e agora quero saber de ti a razão de teus fracassos.
- Meu Divino César, apesar de estar batalhando ferozmente contra os Godos, eu mantinha as demais frentes com instruções precisas e se ali não houve vitória foi por indisciplina dos centuriões.
- Tu estás tentando te esquivar de tua responsabilidade? Os centuriões foram nomeados por ti e, se estes eram indisciplinados, tu os deveria substituir.
- Meu Divino César, eis que comigo estão o centurião Silvano e o sargento Marco. Estes receberam as mesmas instruções e foram vitoriosos, o que demonstra minha capacidade. Se eu tivesse substituído os centuriões toda vez que houvesse derrota o moral das tropas cairia e eu perderia a linha de comando.
- Eu ouvi alguns boatos sobre esses soldados. Centurião Silvano, se o sargento Marco não fosse satisfatório em suas funções, o que tu farias?
- Ele seria imediatamente rebaixado.
- E se as tropas não trabalhassem com o novo sargento ou mostrassem falhas na disciplina?
- Todos enfrentariam a corte marcial e seriam punidos conforme a regra.
- Sargento Marco, o que tu farias se as condições no campo de batalha mostrassem que a estratégia do centurião Silvano são ineficazes?
- Conforme a regra, eu teria que procurar a solução que melhor se encaixasse nas condições do campo de batalha e enviaria um relatório ao centurião Silvano.
- Então, comandante Derico, teus subordinados conhecem melhor do ofício militar que tu e teus centuriões? Aqui tens tuas ordens. Dirija-se ao patíbulo e mostre que realmente é um soldado honrado.
O comandante Derico segura com as mãos tremulas a ordem dada por Vespasiano, faz uma misura e se retira da sala. Sem hesitar um instante, Vespasiano promove o centurião Silvano e o sargento Domiciano logo que o comandante Derico sai da sala.
- Muito bem, comandante Silvano e comandante Marco. Vós deves seguir até as oito frentes para tomarem as devidas providências. Nestes pergaminhos estão os relatórios com as condições de cada frente, bem como minha autorização total para utilizarem quaisquer meios e recursos, desde que vós me garantis a vitória. Então leiam e digam-me agora do que vós precisais.
O som seco de um machado vindo do patíbulo faz o comandante Silvano tremer todo, mas o comandante Domiciano não se abala, rapidamente lê os relatórios e esboça uma estratégia.
- Meu Divino César, eu vos peço que espesses uma ordem a todas as frentes para dotarem as alterações nas máquinas de guerra como as que fizemos contra os Godos. Eu vos peço que nos conceda mais três coortes para cada uma das frentes, armadas da mesma forma que estivemos armados contra os Godos. Por fim, eu vos peço que ordene aos centuriões que nomeiem sargentos para conduzirem os pelotões, em grupos de nove e em quatro linhas, com a mesma formação usada contra os Godos.
- E tu achas que a estratégia usada contra os Godos será bem sucedida contra os demais povos pagãos?
- Em termos gerais, sim. Conforme nós estivermos no campo de batalha, nós faremos as adaptações necessárias.
- Excelente! Comandante Marco, tu és um exemplo a todo soldado romano! Deus abençoe tua firmeza e determinação! Avante!
Domiciano faz uma misura e trata de por seus planos em execução, sendo seguido por Silvano, ainda trêmulo.
- Estamos condenados! Nós seremos descartados como o comandante Derico!
- Não, meu colega, apenas Deus pode julgar. Mas quem se arrepende de seus pecados e aceita o Senhor Yeshu Cresto como seu Salvador, não será condenado nem morrerá, pois o Senhor nos garante a Vida Eterna.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Bizâncio derruba Roma

Vespasiano recebe, no palácio imperial do oriente, inúmeros relatórios das vitorias do Exército Romano em espalhar a Igreja de Roma por todo o oriente e além. Mas ele fica mais satisfeito com os relatórios de seus agentes infiltrados nas frentes sob as ordens de Vitélio contando as parcas vitórias e muitas derrotas.
Assim que Vespasiano recebe a confirmação da tomada de Lívia, a cidade no mais extremo oriente, ele envia mensageiros aos senadores e bispos de Roma, com uma mensagem ousada.
Vespasiano César, Imperador da Roma Oriental, saúda aos nobres representantes do povo Romano e os sagrados representantes de Deus.
Eu vos anuncio, sem falsa modéstia e humildade, o completo sucesso na campanha de conquistar os povos pagãos para o Nosso Senhor, ao menos nesta parte oriental. Bizâncio pode se orgulhar de ser a capital da Igreja de Crestos, mas perceber que sua irmã, Roma, ainda está abandonada aos agentes de Satan devido à timidez e à fraqueza de Vitélio César, Imperador da Roma Ocidental.
Por Deus e por Seu Filho, Bizâncio irá marchar até Roma para salvaguardar os santos de Deus, as santas igrejas e todos aqueles que devotam a crença sagrada.
Eu envio a vós a súplica para que nos dêem a permissão e as bênçãos para afastar os que são fracos na fé ou no braço, para que os verdadeiros soldados de Deus levem a Palavra, a Verdade e a Salvação aos povos que ainda resistem nas sombras malignas do paganismo.
Pelo bem de Roma, em nome de Deus, que eu possa ser aclamado por vós como César de todo o Império e possa dar-vos o Reino de Deus que nós desejamos.
Em seguida, envia ordens a todos os comandantes e centuriões que estavam em campanha pelo oriente para que retornem a Bizâncio e se preparem para cercar e invadir Roma. Em algumas semanas, todos os centuriões e comandantes chegaram e acamparam em volta de Bizâncio, aguardando a ordem oficial de Vespasiano, sem questionar, pois sabiam muito bem que podiam ser mortos e substituídos.
Vespasiano olha com satisfação a extensão do seu exército, pronto para realizar o mais mínimo desejo de seu coração. Sem esperar a resposta de Roma, ele sai até a sacada de seu escritório e, entre salvas e aplausos dos legionários, declama sua ordem.
- Soldados de Deus, avante até Roma! Nós vamos ou nos juntar com outros soldados de Deus ou nos bater com os soldados de Satan. Deus esteja conosco e nos abençoe!
Vespasiano marchou e é recebido como verdadeiro César na Macedônia, na Etrúria e em Venetia. Nas portas de Roma, a Guarda Pretoriana traz até ele o humilhado e destronado Vitélio César. Os senadores entregam a ele a coroa e o cetro que antes pertenciam a Vitélio. Os bispos excomungam e decretam nulas todas as unções dadas a Vitélio e confirmam a unção de Deus a Vespasiano como único e legítimo César.
Vespasiano, entusiasmado e inflado por ter sido reconhecido como se julgava merecedor, coloca Vitélio de joelhos e o decapita com seu gládio.
- Que todos vejam e saibam! Deus não aceita fracos, tímidos, inseguros ou hesitantes. Que os povos pagãos tremam, ajoelhem-se e se convertam ao Senhor ou pereçam pela espada!
Vespasiano marcha então em direção à Gália, ordenando a presença do comandante Derico em Nicius, para revisar as estratégias de campanha e exigir resultados positivos em todas as frentes.
Nos territórios Godos conquistados, o comandante Derico recebe a ordem com evidente nervosismo e resolve garantir a saúde de seu pescoço ordenando que o centurião Silvano e o sargento Domiciano o acompanhem.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Batismo de sangue

No dia seguinte, o comandante Derico, juntamente com o centurião Silvano, entrou com o batalhão na floresta cerrada, seguindo a trilha que os novos sargentos indicavam, na formação que Domiciano havia recomendado, usando as máquinas de guerra para remover as árvores, pedras ou rochas que estivessem no caminho.
- O que tu achas da estratégia de Marco, centurião Silvano?
- Eu não vi formação como esta, comandante e receio que essa incursão em grupos de nove, em colunas distantes a nove passos, pode propiciar os ataques de emboscada.
- Eu fico intrigado com o uso das lanças mais curtas e leves nas fileiras secundárias e a batida forte e ritmada dos gládios nos escudos nas fileiras primárias. Como poderemos cercar e surpreender o inimigo fazendo tanto barulho?
- Eu acho que o barulho serve mais para provocar do que assustar. Ele deve estar contando que os rebeldes tentem atacar de surpresa os grupos, para então cercá-los.
- Eu gostei da última recomendação. Ele disse aos legionários que mantivessem a formação em qualquer circunstância.
Distante da conversa entre os superiores, no fronte das primeiras fileiras, Domiciano segue os sinais que ele conhecia, sabendo que era uma questão de tempo antes de ter algum ataque ou de se depararem com um acampamento rebelde.
O soar de um chifre anunciou o ataque esperado e logo a Segunda fileira avança contra os rebeldes, pelos flancos com as lanças, dando à fileira da frente um corredor seguro para avançar contra o bloco central. Domiciano contava com essa formação militar no ataque dos rebeldes, uma vez que eles foram treinados pelo finado centurião Lapidatus.
Uma Segunda carga de rebeldes aparece mais atrás, com as lanças mais longas e pesadas. As colunas recuam para atrair a Segunda carga mais para frente, até que fiquem na mira das máquinas de guerra, que estraçalham a segunda carga.
Assim, palmo a palmo, o exército faz sua incursão até os acampamentos, que são cercados e atacados com as catapultas carregadas com o fogo grego. Mas a preocupação central de Domiciano estava nos Godos e nas estratégias de batalha destes. As pesadas máquinas de guerra fazem um bom trabalho, ampliando a trilha e apoiando a formação, mas limitam muito o alcance e a velocidade da campanha.
Uma saraivada de flechas incendiárias zunem por entre as árvores e acertam com precisão as máquinas de guerra, mostrando a presença de algum exército organizado bem próximo. Uma carga de soldados barbudos, sem uniforme, atacando a coluna romana com machados, sem um foco ou formação indica que, enfim, se combate os Godos. Seguindo as instruções de Domiciano, uma terceira fileira se forma, composta por arqueiros que atingem os soldados mais adiantados e uma quarta fileira se forma por lanceiros que atinge o meio da carga com as lanças mais longas e pesadas.
Depois deste contra ataque, a primeira e Segunda fileiras avançam em formação contra o restante da carga, mas não perseguem os soldados Godos quando estes se dispersam.
Com poucas baixas e perdas materiais, o exército finalmente chega a uma cidade fortificada, sem dúvida construída pelos Godos devido aos inúmeros cadáveres de soldados romanos que enfeitam a paliçada.
Aos poucos, as máquinas de guerra se posicionam e despejam sem misericórdia sua carga letal na cidade fortificada. Com parte da paliçada destruída ou incendiada, os habitantes saem com armas improvisadas para combater os Romanos, sem medo da luta ou da morte.
Contra ancinhos, lanças; contra foices, espadas; contra um ataque feérico e desorganizado, a movimentação fria e cirúrgica; contra homens, mulheres, jovens e crianças, solados forjados e acostumados à batalha. Quando o comandante Derico e o centurião Silvano chegam ao sítio, a cidade fortificada está destruída e tomada, os soldados se divertem com os prisioneiros e repartem o butim.
Domiciano surge do meio do campo de batalha, todo coberto de sangue e exausto, para fazer um pedido inusitado ao comandante, sem ter muita noção do significado de seu ato.
- Meu senhor, nós vencemos por Deus. Eu vos peço que seja erguida uma Igreja Romana nesta cidade e que sobre as ruínas deste povo seja rezada uma missa pela conversão dessas almas perdidas.
- Meu jovem, não apenas isto será feito como também eu te indicarei para a Guarda Pretoriana, para que sua carreira seja um exemplo a todos os que servem a Deus!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Jogos de guerra

O comandante Derico subdivide o enorme batalhão em oito frentes ao entrar na Gália, para que pudesse se infiltrar melhor através das fronteiras, entre os povos pagãos. Chegando em Nicius, as frentes seguiram para Genua, Bergumum, Tullum, Licium, Belarum, Argentum, Belginum e Lugdunum.
Mesmo com um oitavo do que era, o batalhão ainda causa espanto e comoção ao chegar na cidade fronteiriça de Belarum e o comandante Derico é recebido efusivamente pelo centurião Silvano.
- Ave, comandante Derico, seja bem vindo a Belarum. Nós os estávamos esperando, nós torcemos muito para termos a sorte de vos receber.
- Ave, centurião Silvano. Eu creio ser desnecessário lembrá-lo de que nós não viemos aqui a passeio, mas para cumprir nossa sagrada missão dada por César, pelo Papa e por Deus.
- Certamente, certamente. Os editais de nosso Divino e Augusto César nos chegou em bom tempo, nós temos muitos problemas com os rebeldes e os Godos.
- Rebeldes? Conte-me mais sobre eles.
- Meu senhor, é com vergonha que devo vos dizer que o governador comandante Lapidatus, nomeado por César para cuidar desta coorte e desta região, não apenas rejeitou a Igreja de Roma como se associou ao pior tipo de culto a Satan. Após uma dura e árdua batalha, conseguimos cercar e executar os líderes, mas alguns seguidores debandaram para a floresta cerrada, onde ainda vivem fazendo escaramuças contra nossas patrulhas.
- Entendo. E quanto aos Godos?
- Meu senhor, na palavra de um legionário, os Godos são os demônios em pessoa. Existem partes da floresta que simplesmente devoram vivos os santos de Deus.
- Isso é o que veremos. Eu gostaria de conversar com as patrulhas que conheçam um pouco esta floresta e a nossos inimigos.
- Sim, senhor. Imediatamente, senhor.
Silvano ordena ao oficial do dia que se dê o toque de reunir para todas as patrulhas, trinta grupos com até cinco pessoas que escolhiam para si uma alcunha. Entre estas, estava a patrulha dos cães que sempre era posta em último lugar nessas reuniões. O centurião faz uma breve preleção, apresentando o nobre visitante que então faz seu discurso aos legionários.
- Legionários! Eis que vos dou uma oportunidade inigualável! Quem dentre vós se oferece para comandar, junto comigo e o centurião Silvano, o Exército Romano em uma campanha contra os rebeldes e os Godos?
Um grande burburinho toma conta do pátio, enquanto os grupos discutem entre si. Por mais que tenha vindo um enorme reforço, os legionários sabem por experiência própria que isso não é vantagem na floresta cerrada. As patrulhas foram diminuídas de dez para cinco homens exatamente para minimizar as baixas.
Domiciano sentiu um comichão, como se uma mão poderosa o estimulasse e se apossasse dele, o fazendo se aproximar e se apresentar, dizendo algo que ele mesmo não entendeu o significado naquele momento.
- Envia-me a mim, Senhor.
O velho Patmos corre desesperadamente até onde Domiciano estava, sendo seguido pelos demais da patrulha dos cães, sem entenderem muito o que estava ocorrendo.
- Meu senhor, perdoe o ímpeto desse jovem legionário, ele não está em seu juízo perfeito.
- Quem me dera ter mais iguais a ele! Quem és tu, legionário?
- Marco, meu senhor.
- Meu senhor, ele é muito jovem e está na pior patrulha desse campo. Ele mal tem barba, como pode comandar?
- Isso é verdade, Marco?
Mais uma vez, as palavras vêm aos lábios de Domiciano, sem que ele se dê conta do significado.
- Deus escolhe os pequenos para humilhar os grandes e os últimos serão os primeiros.
- Pois me parece que este jovem demonstra a unção de Deus sobre ele. E tu, velho legionário? Pretende continuar vivendo com uma alma morta? Ou prefere avivar a alma e morrer para o mundo, confessando a Yeshu Cresto como teu Senhor?
Patmos empaca, engole a seco, e fica suando frio. Baruc o cutuca, mais por instinto de sobrevivência.
- Aceita, pelas barbas de Ormuz! Eu não me incomodo de fingir ser Crestano se isto vai tornar-me rico!
Assim, diante do comandante Derico, há uma verdadeira conversão em massas daqueles legionários, que foram batizados pelos sacerdotes que estavam na campanha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Fera marcha

O Papa Lino está gravemente enfermo, mas assim como o finado Galba ele desejava construir o Reino de Deus na terra, então ele indica não só seu sucessor como endossa a decisão dos senadores e cônsules em deixar um César para cuidar das províncias e das campanhas no Ocidente e outro para fazer o mesmo no Oriente, certo de que assim a Evangelização seria espalhada por todo mundo.
Assim que Anacleto foi aclamado Papa na Santa Sede pelos bispos, estimulados pelos guardas pretorianos, este devolveu a gentileza coroando e ungindo Vitélio para cuidar do Ocidente e Vespasiano para cuidar do Oriente.
Diante do público foi lido então o edital onde a Igreja reconhece Roma como sua defensora e Roma, em consideração à Igreja, irá marchar para tirar os povos pagãos das trevas demoníacas e irá levar as palavras da Verdade e da Vida. Nem a Igreja, nem o Império descansariam enquanto não acabasse o domínio de Satan nesse mundo. Mas oculto do público, a Igreja e o Império deixaram bem divididos os resultados do butim.
Vitélio enviou quinhentas centúrias para se estabelecerem na região da Gália Setentrional, com o que tinha de mais forte no Exército Romano. Os legionários levaram em suas mochilas uniformes de inverno, seguindo logo atrás deles um carroção com espadas e lanças pesadas. No final, um enorme contingente de torres, catapultas e aríetes prontos para arrasarem totalmente uma cidade. Conforme o enorme batalhão marchava, recebia aplausos, elogios e louvores do povo. Em algumas vilas, milícias famélicas tentavam se misturar ao efetivo.
O comandante de tal armada parou por alguns instantes próximo da cidade de Ravena, enviando batedores até a cidade para que vissem se os boatos sobre a cidade condiziam com a realidade. Os batedores voltaram pouco tempo depois, felizes e eufóricos.
- Ave, comandante Derico. Nós vimos que a cidade de Ravena tem uma sólida e próspera igreja romana.
- Graças a Deus! Não há um herege, uma bruxa, uma rameira sequer?
- Aqui e acolá vimos coisas assombrosas, mas não vimos mal algum cometido por estes, que vivem harmoniosamente com o povo e os santos de Deus.
- Então é nosso dever apagar Ravena do mapa. Só há um Senhor, uma só Igreja, um só Império!
- Meu comandante, devemos matar a todos?
- Sim, todos! Do barão ao feirante, da debutante a viúva. Deus irá conhecer os seus.
A monstruosa máquina de matar, certa de suas convicções faz em Ravena uma pequena amostra ao mundo do que o aguarda. O pequeno exército local tenta uma tímida reação, enquanto das muradas os nobres pedem para que se poupem ao menos as mulheres e as crianças. Mas o Deus dos homens e o homem feito Deus despertou o ódio, a fúria e a sede de sangue da sombra da humanidade.
Por milênios, os piores sentimentos da humanidade foram alimentados até se tornar uma egrégora. A Religião Antiga manteve a sombra selada, a sombra é uma fraqueza da humanidade que tem encontrado condições propícias para se reerguer, fincar suas raízes na consciência e nunca teve escrúpulos em usar qualquer pessoa ou circunstância para existir, enganando o Espírito do Homem e usurpando o trono entre o mundo astral e o terreno.
Essa egrégora tem apenas que encontrar um indivíduo firmemente imbuído de uma missão religiosa, totalmente obstinado com suas convicções quanto à sua auto-imagem de santidade, virtude e divindade. Oportunidades assim ocorriam raramente, em povos e épocas específicas. A egrégora lambeu os beiços com os Israelitas ao se aproveitar de um ressurgente sentimento de patriotismo quando ainda eram servos no Egito, os iludiu com a liberdade e a promessa de um Reino apenas para que ela pudesse satisfazer as suas paixões enquanto os exiguia com privações. A egrégora teve o primeiro vislumbre de um Império teocrático regido por ela com os Persas, se apossando de mais um profeta visionário no momento exato em que os Persas estavam em uma encruzilhada existencial que os deixava frágeis e vulneráveis.
A egrégora quer agora dominar o mundo e seu plano é bastante simples. Como ela não pode resistir à luz do Espírito do Homem, a reflete para enganar a humanidade de que ela é Deus, ao mesmo tempo que projeta seus defeitos e real aparência em outra direção. A humanidade é enganada, tem a consciência adormecida para que esta mergulhe cada vez mais fundo na lama da sombra enquanto grita por salvação para um Deus externo, estranho e distante.
Seduzir a humanidade não é difícil, todas as pessoas em qualquer posição anseia pelos mesmos desejos que sempre tivemos desde nossos ancestrais que é riqueza, prestígio e poder a qualquer preço. Quanto maiores nos julgamos ser, mais facilmente mordemos a isca da armadilha e mais almas são sacrificadas em nome da egrégora, que fica cada vez maior e mais forte.
O batalhão passa por cima de Ravena como se nunca tivesse existido e o comandante Derico segue sua marcha com firmeza, certo de que Deus está satisfeito com ele e se permite a vaidade de sorrir com sua corajosa empreitada.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O grande rito

Conforme o sol se põe e a noite chega, milhares de Saxões e bruxos vão se juntando para celebrar a Festa da Colheita. O vale reúne tantas pessoas que é possível circundar a montanha de onde os Deuses desceram;
Enquanto Andros e Bran vão junto com outros sacerdotes e bruxos em busca dos materiais para a cerimônia, Ketar e as outras sidhes se preparam, juntamente com outras sacerdotisas e bruxas, para evocar os quadrantes e invocar os Deuses Antigos.
- Muito bem, minhas irmãs. Nós nos separaremos em nove grupos que irá conduzir nove círculos, para que todas as pessoas possam ouvir e participar do grande rito.
As sacerdotisas concordaram e separaram os grupos conforme a procedência e a sidhe da região coordenaria o círculo. Todas concordaram igualmente que caberia a Ketar a condução geral do grande rito, para manter o ritmo.
Quando as sidhes saem em direção ao público para congregá-los e prepará-los, chegam os bruxos com seus cestos cheios dos [itens necessários. O que agilizou a separação dos materiais para cada círculo.
Conforme as sidhes encontravam os habitantes de suas regiões, os deixavam a par da organização e da posição onde ficariam, de acordo com a direção da região em relação ao grande altar. Cada círculo foi marcado em um espaço de nove léguas, cada um com um altar menor no centro e os quadrantes assinalados. Ao redor de todos os círculos foi traçado um círculo maior e os quadrantes assinalados com grandes torres feitas com troncos.
O grande rito tem início com Andros empunhando sua espada para consagrar o círculo, evocando a presença dos ancestrais e das entidades da natureza para se postarem ao redor, a fim de que haja perfeito amor e perfeita confiança na cerimônia, sendo imitado pelos sacerdotes e bruxos dos demais círculos.
Ao encerrar a evocação, Andros se posta diante do quadrante norte e aguarda Ketar ficar ao lado dele com o incensário. Estando ela do seu lado esquerdo, ambos iniciam a abertura do véu entre os mundos, desenhando o sinal do Guardião da Torre Norte com a espada e evocando-o com o incenso. O mesmo é feito consecutivamente nos quadrantes leste, sul e oeste, mudando apenas os sinais e as evocações.
Novamente diante do quadrante norte, Andros e Ketar passam a invocar a Deusa e o Deus, fazendo os sinais e pronunciando as palavras sagradas, na direção do firmamento e na direção do solo. Uma suave névoa luminescente de cor púrpura surge do altar central e se expande até o horizonte.
Com as palavras sagradas, Andros incorpora o Deus e Ketar incorpora a Deusa, para então ocorrer o Hieros Gamos.
O Deus falou então para toda a humanidade.
- Meus filhos, cantem, dancem, façam música e amor pois o Inverno começou. O Deus dos homens e o homem feito Deus começará sua marcha pelo mundo para espalhar a desolação. Vós nos chamareis, mas não vos atenderemos porque vós colocastes uma separação entre nós. Vossas almas anseiam pelo rigor ascético, a dura certeza da doutrina, a revelação por escrituras. Vós temeis os ciclos da natureza e vós pretendeis eternizar-vos com um Deus idealizado. Vós vivereis e vos fartareis do medo, da ignorância e do terror pelas mãos deste Deus e dos reis que vós coroastes. Vós rejeitastes este mundo e este mundo refletirá vossa rejeição até que a Religião Antiga retorne. Assim vós quisestes, assim será feito.
Em um turbilhão de luz, Ketar se eleva para manifestar a presença e as palavras da Deusa.
- Meus queridos, meus amados! Vós ireis passar por um período de sombras terríveis, mas não vos desanimeis! Assim como certo foi o fim do Verão, a passagem do Outono e a chegada do Inverno, certa é a esperança da Primavera e o retorno do Verão! Verdadeiramente, o trono foi entregue a um Deus estranho, ciumento e vingativo. Por esta bandeira, o mundo irá mergulhar em sangue, povos irão sumir e muitas almas irão se perder. Em busca de respostas e certezas fora de vós, ireis procurar a salvação para aliviar tanto sofrimento e serão devorados pela Besta deste tempo. Vós ireis abandonar o êxtase pela vida pela privação pela virtude. Nossos templos serão escondidos, enterrados, demolidos e nossos nomes serão difamados, deturpados, degenerados. Nós só retornaremos depois que vós mesmos vos libertardes desses grilhões, recuperarem a razão, porem os pés em minha face e redescobrirem o sagrado dentro de vós mesmos e neste mundo. Assim seja!
O Deus abandona Andros e volta ao Submundo. A Deusa, ao se retirar, leva consigo Ketar, deixando no lugar dela uma árvore sagrada com runas gravadas advertindo que quando a árvore fosse cortada, seria o fim da humanidade.
Bran chora por causa de sua mãe, mas leva hidromel a Andros para que ele se recupere as forças. Muito em breve a batalha começará.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O exílio de Domiciano

Usando os documentos e as ordens falsificadas dadas pelo Papa Lino, Domiciano foge de Roma, percorre a Gália e chega em Belarum. Ele se dirige até a fortaleza romana e apresenta os papéis ao guarda do portão, que o conduz até o centurião Silvano.
- Marco Leto, legionário da II coorte, X centúria. Tu pareces ser muito jovem. Tu estiveste em combate?
- Sim, como aspirante, durante o terrível incêndio que devastou Roma e nos levantes de Toscana e Vicena.
- Ótimo. Belarum foi recentemente recuperada de seus usurpadores e iremos precisar de legionários com experiências em lidar com os hereges e os pagãos. Tu deves te apresentar ao oficial do dia com esta ordem.
Domiciano se apresenta ao oficial do dia, um germânico desconfiado e arisco por ter sido um dos poucos legionários que restaram da coorte rebelde.
- Muito bem, Marco Leto, tu farás parte das patrulhas na fronteira, em busca de rebeldes. Se tu fizeres um bom serviço, eu te incluirei nas tropas avançadas e poderá participar das conquistas de Roma contra os Godos.
- Isso será feito para a glória de Deus.
- Muito cuidado com o que diz, novato. Nós estamos na fronteira entre o Deus de Roma e os Deuses desse mundo. Aqui mesmo tu hás de encontrar diversas visões e opiniões, não convém se indispor com teus colegas. Se uma adaga cravar em tuas costas, ninguém dará por tua falta.
Domiciano guarda consigo o conselho e saberia dar a resposta num momento mais adequado. O oficial do dia o leva até um grupo de quatro legionários e emite a ordem.
- Muito bem, meninas! Eu trouxe uma novata para que troquem receitas culinárias e conselhos de beleza. Nos intervalos, se não for pedir muito, vós devereis levar a boneca para passear no bosque, para que tenham todas juntas um agradável piquenique com os Godos! Divirtam-se!
O mais velho e mais experiente se levanta e dá as boas vindas com um forte tapa nas costas.
- Bem vindo ao Inferno, novato. Eu sou Patmos, grego. Aquele é Remix, gaulês. O mais escuro é Cratos, trácio. Esse magrelo é Baruc, persa.
- Ave. Eu sou Marco, romano.
- Enfim, a patrulha dos cães terá um romano! Quem sabe agora nós recebamos mérito? Muito bem, novato, fora as regras conhecidas, essa patrulha tem uma única regra que é não falar em Deus, entendido? Nós não pensamos, não discutimos, não ponderamos. Nós nos concentramos no serviço, entendido?
- Perfeitamente.
- Ótimo. Então venha conosco e mostre o que sabe fazer. Vejamos quantos coelhos tu consegues tirar da toca.
A patrulha dos cães atravessam os campos e embrenham-se na floresta acirrada, em busca de sinais de rebeldes ou de Godos. Domiciano percebe facilmente sinais que indicam a presença dos seguidores da Religião Antiga pelo que aprendeu com sua mãe, Magdala. Por simples associação, esses sinais deveriam ser indícios da presença dos rebeldes ou de seus acampamentos, em alguma direção.
- Atenção, colegas, nós estamos muito perto dos rebeldes.
Repentinamente, dois grupos surgem na frente e atrás da patrulha, atacando-a com lanças e espadas.
- Evoe!
- Agrupem! Agrupem!
Domiciano não perde tempo e acerta um golpe fatal naquele que deveria ser o líder do bando, pois tinha um lírio bordado no uniforme, fazendo com que alguns se dispersassem e outros se rendessem.
- Muito bom! Como tu sabia que estavam perto e quem era o líder?
- Eu não posso dizer sem quebrar meu voto com a patrulha dos cães.
- Então tu decides o que fazer com os prisioneiros.
Domiciano os liberta, com a condição de que levem o recado de que ele estava na região. Patmos questionou a decisão de Domiciano.
- Por que os libertou? O que disse a eles?
- Nada do que disserem, mesmo sob tortura, será verdade e nada acrescentará. Se os levássemos, poderíamos arriscar os postos avançados. Livres, eles podem semear o medo com o que eu disse a eles, mas isso é outro segredo.
- Haha! Se tu não fosses romano, eu poderia jurar que tu pertences a alguma escola de mistérios!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Bran cresce

No povoado de Teutos, no vale da montanha Druar, na Saxônia, a presença da nova sidhe desperta a curiosidade dos outros povoados e a inveja das sidhes locais.
Ketar tem vinte anos, mas mantém a mesma exuberância que tinha desde seus doze anos. O talento e a sabedoria que ela tem nas Artes Secretas surpreendem as sidhes que vão visitá-la e maravilham as pessoas que a consultam.
Muitas sidhes vão apenas para desafiar Ketar, certas de que é impossível a alguém tão jovem possuir tanto conhecimento e poder, mas elas desistem ao sentir sua forte aura. Felizmente a maioria vai para trocar experiências, receitas e técnicas para então voltarem ao seu povoado, não mais com um conhecimento fragmentado, mas consistente.
Convites chegam vindo de toda a Saxônia para que Ketar realize as cerimônias aos Deuses Antigos em seus povoados, muitos reis vêm pessoalmente e isso suscita um certo ciúme do rei Roden. Então este tem a idéia de fazer um grande ritual a todos os reinados na Saxônia, com todos os reis e sidhes, para celebrar a Estação da Colheita, no que Ketar concordou, pois ela estava mais interessada no desenvolvimento de seu filho.
Bran tem seis anos, mas demonstra perfeito domínio e habilidade da Arte da Batalha, desconsertando os velhos soldados com a força e resistência que ele demonstra. Roden e Ketar chegam no horário do descanso, onde são distribuídas comida e bebida aos jovens soldados.
- Então, querido, como estão as coisas?
- Estão ótimas, mamãe. Tio Andros tem muita paciência comigo, me ensinando como manejar a espada, seja na batalha, seja no círculo.
- Que bom, querido. Assim que tu estiver com o tio Andros, diga a ele que estamos preparando um grande ritual para toda a Saxônia. Gostaria de ir e ajudar a mamãe?
- Oh sim, eu gostaria muito. Eu ainda não vi a senhora abrir o véu entre os mundos.
- Que bom, meu amor. Da forma como tu estás se desenvolvendo, tu certamente será admitido entre os soldados e passará por um rito de passagem. Eu acharei uma sidhe bem bonita para iniciá-lo na Religião Antiga, no dia do grande ritual.
- Ah, mamãe! Não tem sidhe mais bonita que a senhora!
Ketar ri e abraça seu filho enquanto o rei Roden conversa com Corman, o instrutor dos jovens soldados, que confirma que não há mais o que ensinar a Bran e que ele deve ter sua admissão formal entre os soldados.
Roden vai então ao templo de Wodan, onde os soldados se reúnem e, ao entrar, conversa com os soldados presentes sobre a situação inusitada e especial do jovem Bran. Todos recebem com satisfação e alegria, fazendo questão de ir até a Escola de Armas para anunciar para o dia seguinte o rito de passagem para Corman e Bran.
Ao perceber a chegada da comitiva, Corman se aproxima de Ketar e Bran para avisá-los do que ia ocorrer.
- Sidhe, vosso filho cresceu e não há mais o que eu tenha para ensiná-lo. Ele irá começar sua vida como soldado e defenderá nosso povo.
- Viu? Eu não disse, querido? Em breve tu irá lutar e serás rei.
Corman sabe que deve se calar e deixar a temível sidhe curtir um pouco mais seu filho. A confraria chega e o rei Roden faz o convite formal, acertando para o dia seguinte o rito de passagem.
Mal o sol nasceu, Corman vai até a casa de Bran e o encontra pronto para o rito. O jovem está vestido apenas com uma rústica roupa de couro e armado com uma adaga. Corman o deixa na entrada do povoado com o objetivo de caçar e matar um cervo sagrado, banhar-se em seu sangue, comer seu coração e levar a pele e a cabeça ao templo de Wodan.
No templo de Wodan, os soldados esperam pela chegada de Bran, fazendo apostas, bebendo comendo e fazendo graça às mulheres que lá estão para servi-los. De tempos em tempos, as mulheres ficam do lado de Ketar, a única mulher que não era incomodada, mas não porque Ketar quisesse ser tratada de forma diferente ou que fizesse questão de sua posição como sidhe.
Enquanto seu filho não chega, Ketar tratou de divertir a si e as outras mulheres, provocando os homens, fazendo piadas, comendo, bebendo e apostando. Ela mostra às mulheres que elas são igualmente consagradas, sendo femininas e participando do jogo da sedução.
Por volta do meio dia, Bran chega vitorioso, trazendo seu troféu, sendo efusivamente aclamado por alguns solados enquanto outros resmungavam porque tinham apostas a pagar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Deuses morrem

Os planos de Galba estão prestes a se concretizar e ele lê com satisfação os relatórios das vitórias apesar das baixas, o que é de se esperar quando se luta por Deus contra Satan.
A única frente em que a luta tem causado muitas baixas e prejuízos a ambos os lados é a liderada pelas Igrejas Orientais.
Militarmente, Galba sabe que o conflito pode se estender indefinidamente e ele deseja poder celebrar sua procissão de triunfo até a festa do Sol Invictus, uma das poucas cerimônias tradicionais romanas que Galba assimilou como parte das cerimônias da Igreja Romana. Então ele enviou diplomatas aos governantes e bispos das províncias orientais com uma oferta irrecusável para o apoiarem em troca de benécies.
As províncias da Pérsia e do Egito concordaram com os termos e não apenas suspenderam a ajuda à província da Judéia como também passaram a ajudar no cerco. Em pouco tempo, Galba teve seu desfile de triunfo em plena Jerusalém, sentado em um trono no alto de uma torre móvel enfeitada com a cabeça dos líderes dos revoltosos.
Em Bizâncio, Galba teve a recepção digna de um Deus e como ele achava merecida a homenagem, tolerou esse pequeno pecado. Diante da multidão, ele e todos os bispos assinaram a Encíclica Universal, contendo os pontos fundamentais da Igreja Romana, que praticamente tornava oficialmente canônicas as epístolas anteriores ditadas por Galba. Como parte do acerto, a capital do Império passaria a ser em Bizâncio e anularam-se todas as ordens sacerdotais das mulheres.
Galba então parte para Roma para ter mais um desfile de triunfo, como os antigos Césares, além de ordenar e iniciar a transferência do núcleo de comando do Império para Bizâncio. Paralelamente, ele mandou aos bispos para prepararem a festa do Sol Invictus em nome dele. Ele teve o cuidado de acompanhar pessoalmente cada detalhe da cerimônia, inclusive trocar toda sua guarda pessoal para evitar ser vitima de uma cilada.
Estando tudo pronto e faltando poucas horas para o início do desfile e da cerimônia, Galba vai com sua escolta pessoal até a Escola Militar para pegar seu filho com Magdala, Domiciano, que estava sendo treinado para suceder Galba no trono.
No caminho até a Via Capitulina onde Galba teria seu triunfo e seria aclamado Sol Invictus, este conta a seu filho o que ele pretende fazer nos longos anos que Deus o concederá, antes que o menino possa herdar tal honra.
- Excelso Augusto César, vosso reino está unificado pelas graças de Deus. Não é hora de levarmos a Verdade e a Palavra de Deus às nações bárbaras e pagãs?
- Chama-me de pai, Domiciano. Mas tu me enche de orgulho, ao mostrar tua preocupação pelos povos que ainda jazem nas trevas, dominados pelo Maligno. Eu te prometo que te darei o comando de várias coortes para levar o domínio de Deus e de Roma aos bárbaros. Eu te dei o nome de Domiciano exatamente por isto, Deus me revelou teu destino.
- Eu confio em Deus, pai, mas desejo não receber qualquer privilégio. Eu devo conquistar e construir minha carreira militar como tu.
- Muito justo. Mas por esta noite, tu serás o convidado especial do Imperador. Eu quero que tu vejas e te acostumes com as honrarias e glórias que hás de receber.
Galba e Domiciano chegam no palanque montado para receber os nobres e os eclesiásticos, onde são efusivamente cumprimentados e saudados. No camarim reservado do Imperador, vinho e mulheres o esperavam para trocá-lo e satisfazê-lo. Mas Domiciano mostrava estar incomodado com tanto consumo de vinho e mulheres, trocando-se sozinho em um canto.
Galba escolheu um traje de gala imperial todo branco, tendo apenas bordados em fio de prata como contraste. Ele não deu muita importância que Domiciano vestia o uniforme comum de um legionário, apenas saiu em direção ao púlpito assim que o Papa Lino chegou.
O átrio que cercava o púlpito estava reservado apenas às pessoas de confiança do Imperador e, por ser uma área consagrada, apenas Domiciano e o Papa Lino puderam entrar. Galba estava a pouco mais de dez passos do púlpito e da aclamação popular quando sentiu uma forte estocada nas costas.
Instintivamente, Galba põe a mão nas costas e sente algo líquido e quente nas mãos. Olhando-as, estas estão cheias de sangue. Galba olha na direção de onde veio o golpe e vê Domiciano com um punhal. Antes que Galba pudesse gritar ou reagir, Domiciano descerra um golpe certeiro no pescoço de Galba e o vê agonizar com indiferença.
- Deixe o resto comigo, agora, fuja!
Domiciano corre através dos corredores, sai na rua e some pela noite romana. No púlpito, o Papa Lino comunica ao público que César estará ausente na cerimônia devido a um mal estar. Como tais coisas eram naturais, as cerimônias seguem seu curso normal e uma efígie de Galba recebe as honras. Nos bastidores, o Papa Lino inicia com seus conjurados as negociações pela sucessão de Galba.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Honra

Conforme as guerras e os rumores dos conflitos se espalham, em outras cidades chegam exilados e sobreviventes trazendo mais medo e pânico.
Para os civis e legionários que chegam em Belarum, Lapidatus deixa bem claro as regras para entrar e permanecer na cidade. Os sacerdotes Crestanos entram por outros meios e procuram os seus, que os avisam da política local.
A contragosto, os sacerdotes exilados chegam e vão se estabelecendo, sabendo que nada poderiam fazer senão viver em clausura, enquanto a cidade se preparava para o solstício de inverno, até a chegada recente de mais um sacerdote exilado.
- Meus irmãos, eu me junto a vós nesse momento de angústia e provação com boas novas! Eu vi, bem próximo dessa vila dominada pelos demônios, o santo exército enviado pelo Imperador para varrer toda essa idolatria, feitiçaria e orgia profana! Regozijemos, pois em breve Belarum será liberta!
- Oh não! Isso é terrível! Assim que o governador ver a chegada do Exército Romano, nós seremos massacrados!
- Ânimo, meus irmãos! Pois é melhor entregar a vida por Deus e viver no Paraíso do que viver por este mundo e morrer no Inferno.
- Tu deves ter feito teus votos recentemente. Teu entusiasmo é compreensível, mas infelizmente não terás oportunidade de ter a mesma experiência que nós.
- Ah, meus pobres irmãos! Eu percebo que vossa fé esfriou devido a essa convivência com os hereges. Mas vós vereis que Crestos é o mesmo hoje, ontem e sempre!
- Tolo! Quer nos ensinar o que sabemos de cor? Tu ainda cheira a leite do seminário e quer discutir teologia? Saiba então, pobre novato, que muito do que se ensina vem da boca dos homens, não de Deus.
- Isso é heresia! A palavra de Deus é uma só!
- Se isso fosse verdade, as Igrejas do Ocidente e do Oriente não estariam em guerra.
- Mentiras espalhadas pelo maligno! Certamente as poucas igrejas rebeldes existentes foram dominadas por um espírito imundo!
- Tolo novato! Se as igrejas estão tão fracas que um espírito imundo pode se apossar delas, como tu podes saber qual é de Deus e qual é de Satan?
O diálogo é interrompido pelo barulho dos vitrais das janelas se quebrando e com flechas incendiárias se cravando no assoalho de madeira. Alguns sacerdotes correm em busca de água, outros tentam fugir da igreja. O poço da igreja está seco e a porta está bloqueada.
Mais uma saraivada de flechas incendiárias entram pelas janelas da igreja, acertam bancos, cortinas e alguns sacerdotes desafortunados. O fogo se espalha e intensifica, a fumaça começa a preencher o altar, fazendo alguns sacerdotes tentarem uma fuga pela torre do sino.
A escada que sobe pela torre até o sino é pequena e frágil, logo cede pelo peso e calor, isolando alguns na pequena campânula onde fica o sino e jogando outros de volta à fornalha.
O fogo domina a igreja, os gritos sobem com a fumaça, a torre do sino cai com o calor e então silêncio. Lapidatus envia alguns legionários até a ruína da igreja, com ordens de se certificarem que todos morreram, de uma forma ou outra.
Conforme chega a manhã, soam as trombetas do Exército Romano anunciando sua chegada. Lapidatus dá suas últimas ordens e responde com o toque indicando estado de atenção. Não é muito, mas a cidade sabe que deve se preparar para lutar e o Exército Romano entende que será tratado como invasor.
Lapidatus está feliz e tranqüilo. A manhã é uma boa hora de desafiar o destino.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A devastação se alastra

Em Tamar, Ceres e Eleaser tentam se movimentar entre a população apavorada, tentando fugir da invasão do exército romano com o máximo de pertences. Todos os templos em Tamar foram abandonados e seus sacerdotes carregavam o máximo possível de manuscritos e pertences sagrados, para que não caíssem nas mãos dos sacerdotes Crestanos.
Ao redor da cidade, as centúrias de legionários haviam dominado e fechado todas as entradas de acesso, cercando cada vez mais a cidade, mas sem pressa em tomá-la. O desespero dos habitantes trazia para sua sequiosas mãos os bens e as vidas para serem colhidas.
Conforme o cerco aperta e os habitantes percebem o massacre iminente, uma enorme massa vai se concentrando no pequeno porto, dando início a brigas a mortes entre as pessoas.
Não há navios mercantes em número suficiente, muitas pessoas mergulham no mar, outras tentam tomar os navios à força. Os capitães dos navios que deviam chegar e desembarcar vêem a cena, alguns seguem para outros portos, outros dão meia volta.
Miriam fica sabendo que o capitão de seu navio pretende seguir em frente e só desembarcar em algum porto na Hispânia. Miriam se angustia, pois vê no meio dessa luta pela sobrevivência a sacerdotisa Ceres e Eleaser.
Do lado do porto, Ceres se despede de Miriam, pois os Romanos iniciam a marcha que irá varrer e apagar a cidade de Tamar e seus habitantes da existência.
Como uma orquestra tocando uma ópera belicosa, as catapultas lançam as novas bolas de ferro com fogo grego que explodem tudo ao redor assim que tocam o chão.
Nenhum edifício tem estrutura para suportar tal ataque e se estilhaçam ou caem sobre a população indefesa. As casas, que em maior parte são feitas de madeira, se incendeiam instantaneamente com as fagulhas das explosões, carbonizando famílias inteiras ou asfixiando crianças e bebês com a grossa fumaça.
No segundo movimento dessa opera bélica, os legionários atiram sem parcimônia suas pesadas lanças para atingir as pessoas, trespassando muitos jovens e mulheres.
Os legionários passam então em executar os sobreviventes, sem poupar ninguém do gosto do fio de seus gládios. As espadas seguem golpeando e seccionando cabeças, braços e torsos. O sangue espirra sobre os legionários para depois se juntar aos corpos que vertem rios de sangue.
Ao chegarem ao porto, tudo o que resta de Tamar são ruínas fumegantes sobre um lago de sangue.
Miriam chora copiosamente, sem entender como tal coisa pôde acontecer e se pergunta onde estão seus Deuses agora. Seu pensamento chocalha como o navio onde ela e muitos outros tentam exílio. Uma enorme nau de guerra romana impede o prosseguimento da viagem, com seus ganchos de abordagem e não pretendem fazer prisioneiros.
O último pensamento de Miriam foi se perguntar se valeu a pena todo o esforço e trabalho que ela teve em servir dedicadamente os Deuses Antigos.
No porto, os legionários tocam a trombeta da vitória. Os sacerdotes Crestanos se juntam à festa de triunfo e colocam uma cruz sobre os corpos mutilados, iniciando com os legionários uma oração para agradecer a Deus por ter dado a eles a oportunidade de conquistar e purificar a cidade em nome de Deus.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os conflitos se expandem

Os conflitos entre o Império e governantes provincianos e entre a Igreja Romana e igrejas locais nem sempre são contendidos por meio de palavras ásperas ou excomunhões recíprocas. Em algumas cidades, as disputas chegavam a serem resolvidas com agressões mais físicas. Os habitantes eram levados ora a apoiar um lado, ora outro, em troca de mais pão. Em alguns casos, os habitantes formavam pequenas milícias que, sob as ordens do governante ou do bispo, atacavam de forma organizada e metódica ou a postos militares ou a templos religiosos.
No templo de Ishtar, em Esmirna, Roe organizou com os homens do templo um contingente para vigiar e proteger o templo. Na maior parte das vezes, as tentativas de invasão eram facilmente frustradas, as milícias não passavam de três pessoas que rapidamente se dispersavam quando percebiam que a resistência no templo era grande. Isso mesmo assim prejudicava o serviço do templo, que estava ficando abandonado por causa do medo das pessoas e muitas cerimônias não foram realizadas por estas circunstâncias.
A intuição de Roe disparou naquela tarde e ordenou a todos os servos e servas do templo para pegar em armas e ficarem na porta da frente. Ele correu até o quarto de Miriam e a conduziu pela saída dos fundos.
- Onde está Magdala?
- Ela foi ao mercado para comprar vinho.
- Eu não poderei ajudá-la, mas tu deves fugir. Vá até Tamar e se refugie no templo com Ceres.
Roe montou Miriam em um camelo e o colocou em disparada. Seguiu então para a porta, tomando em mãos a sua velha e preciosa espada que o acompanhou por tantas batalhas, pronto para enfrentar seu destino.
Ao se juntar aos demais servos do templo, se deparou com uma milícia de vinte pessoas reforçada com o destacamento de uma centúria de legionários. O centurião que devia estar organizando esse ataque proferiu a ordem que supostamente veio cumprir, como se fosse uma sentença de condenação.
- Por ordem do governador Plínio e do bispo Teodósio, vosso templo cessará suas atividades para que aqui seja instalada uma Igreja Romana. Vós deveis pegar vossos pertences e desocuparem este templo ou enfrentareis as conseqüências.
O embate inevitável se inicia e Roe sabe que não há chances de vitória. Ele é o único acostumado ao campo de batalha e servos armados só assustam ladrões de galinhas. Roe bem que gostaria de ser um Leônidas e morrer em batalha em nome de um propósito maior, mas a mulher que ele ama está em terras muito distantes.
Os milicianos não são um oponente, aqueles que ousam enfrentá-lo caem feito moscas. Os legionários são outro nível e compensam o esforço.
O gosto pela luta e a emoção de estar de novo em campo de batalha faz Roe esquecer de sua Ketar e dos Deuses por um instante. Nesse precioso instante, o centurião trespassa o corpo de Roe com sua lança. Uma voz feminina doce e suave dá a despedida da Vida ao velho soldado.
- Como ousa duvidar de meu amor por ti? O amor nunca se divide ou diminui, apenas multiplica e aumenta. Adeus, Roe, nos vemos na Terra da Juventude.
O sangue se espalha pela rua, correndo dos corpos caídos. Os legionários entram no templo e iniciam a reformá-lo, quebrando todas as estátuas e pilhando seus tesouros. O telhado é removido para dar lugar à abóbada e à torre do sino. Ainda com os legionários ocupados com o saque do templo, chegam três sacerdotes Crestanos, que vieram para purificar e consagrar o local, para poderem ali ministrarem, dando fim a qualquer indício de seu propósito original.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Entre os Saxões

Dois meses se passaram, a estrada romana deixou de existir e não há qualquer marco romano indicando a rala trilha por onde Andros e Ketar seguem. Em ambos os lados da trilha, uma floresta exuberante e densa, quase intocada pelo homem.
Em algumas dessas árvores, peles e crânios de animais e de humanos enfeitam os galhos como sinal de aviso aos invasores. Quatro homens surgem na trilha, vindo de dentro da floresta e apontam suas lanças para os viajantes.
- Laedenware?
- Nan. Hofu Gotten peows.
Andros se espanta. Ketar consegue compreender e falar a língua dos bárbaros.
- An cuman nean?
- An cuman Esmirna. Stan cuman Epheso.
- Tu falas bem nossa língua. Quem te ensinou?
- Eu sirvo a Deuses que conhecem todas as línguas.
Os estranhos soldados ficam assustados, baixam as lanças e se ajoelham.
- Perdão, sidhe! Não nos machuque!
- Os Deuses nos ensinam a nenhuma dor causar. Eu vim aqui para criar meu filho e preservar a Antiga Religião.
- Será uma honra e um prazer em receber tua família em nosso povo, sidhe.
Os soldados mostram aos viajantes o caminho pela trilha até o povoado, onde Ketar foi recebida com aclamação.
- Sidhe! Sidhe!
Um homem alto, forte, barbado e usando um elmo feito de ouro se aproxima dos visitantes e acalma os habitantes. Um dos soldados que os tinham acompanhado cochicha algo a este homem, que então dá as boas vindas aos peregrinos.
- Saudações, sidhe! Eu sou Roden, o rei dos Saxões destes vales. A nossa sidhe irá providenciar uma cama para dormir, um quarto para teus pertences e um berço para teu filho.
- Muito obrigada. Assim eu posso trocar idéias com uma sidhe como eu.
Uma velha senhora, que tinha anéis feitos de osso nos cabelos trançados, aproxima-se de Ketar e a saúda com um sinal que Andros lembra de ter visto em Lívia. Certamente este era um sinal de saudação trocado entre as sacerdotisas que existia desde tempos imemoriais.
A velha parou diante de uma amoreira selvagem, próximo a uma casa nova porém abandonada e empoeirada.
- Esta casa era para os jovens Eric e Gilia. Eles estavam para se casar, mas os Romanos vieram e eles morreram na batalha.
- Nesse caso, nós temos que fazer uma oferenda a seus espíritos, para que eles não se ofendam com nossa estadia aqui.
Ketar deixa Bran na cama e pega de seu alforje um punhado de mirra, um maço de sálvia, um maço de alcaçuz e uma raiz de olíbano. Andros estendeu um almofariz enquanto preparava um incensário em cima de uma cômoda. Prestimosamente, Ketar reduziu os ingredientes em pedaços minúsculos e os lançou em cima da brasa no incensário.
Estavam todos bem dispostos, na forma de um triângulo na frente do incensário, prontos para proferir uma runa ao casal falecido, mas foi Bran que se adiantou e mostrou um talento incomum para um menino de quatro anos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A coroa da Igreja

Magdala está acuada. Diariamente chegam cartas e emissários das igrejas, com reclamações e relatos do conflito entre as vilas e o governo romano por causa da ordem de César para unificar a religião.
Por causa da posição inflexível de Galba, o lento e delicado trabalho de infiltração, instalação e fixação das igrejas nas vilas periféricas do Império Romano corre o risco de fracassar. Mesmo os acordos feitos com as Igrejas Orientais está ameaçado e o clima de repúdio e revolta podem explodir em uma guerra civil em larga escala.
Como Suma Sacerdotisa, Magdala é constantemente cobrada para tomar uma posição, o que ameaça sua frágil aliança com Galba que, por sua vez, exige que ela referende as decisões dele. Ela estava de mãos atadas, qualquer que fosse a decisão dela, as conseqüências seriam fatais para ela.
A indefinição e indecisão de Magdala também eram um sinal inaceitável. Ela não se surpreendeu quando seu secretário particular, o bispo Lino, entrou em seu escritório com um guarda pretoriano fortemente armado.
- Santa Senhora, vós estais ficando velha demais. Nós cremos que é momento de vós vos aposentar.
- E tu trouxeste este guarda pretoriano para garantir nossa retirada para o Orco?
O bispo Lino deixa escapar um sorriso pérfido e, estendendo uma ânfora, oferece uma alternativa, como se estivesse fazendo um imenso favor.
- Tu não precisas ser tão dramática. Tu podes beber do vinho de Sócrates e sair com todas as honras.
Magdala compreende muito bem o que significa o eufemismo. O bispo Lino não chegaria a este ponto se não tivesse o apoio de Galba, dos senadores e dos bispos. Entre ser humilhada em uma procissão pública, onde ela seria exposta e enxovalhada, conduzida como cativa e penitente, com os bispos declamando seus supostos pecados ao povo para então ser garroteada, esquartejada e queimada em praça pública, ela preferiu beber o vinho envenenado e receber as exéquias com a dignidade que merecia.
Poucos instantes depois, o guarda pretoriano sai e vai até o Imperador e anuncia conforme uma senha combinada.
- Ave, Excelso Augusto César! O bispo Lino me enviou para vos comunicar, com grande pesar, que a Suma Sacerdotisa foi chamada por Deus.
- Que seja proclamado e apregoado por todo o Império o passamento da Suma Sacerdotisa e o luto oficial por três semanas. Que sejam convocados todos os senadores e cônsules para as exéquias e o funeral de nossa amada Suma Sacerdotisa.
As três semanas se reduziram a três dias, a cerimônia do funeral foi um mero evento protocolar. O bispo Lino foi aclamado pelo Imperador e pela alta hierarquia da Igreja como Papa Lino, um título que seria passado aos seus sucessores, todos homens.
O primeiro ato do Papa Lino foi assinar todas as epístolas que Galba queria para dar ao Império Romano a unidade espiritual, dentro da Igreja Romana.
Vários emissários foram enviados às províncias para afixar as epístolas em todas as igrejas e templos, com a ajuda de uma escolta de três centúrias de legionários.
As epístolas determinavam a todas as igrejas e templos que somente se adorasse a Deus e cultuasse a Mithra, Yeshu e César. Para isso, o fofo para qualquer decisão doutrinária é a Santa Sede em Roma, a quem todas as igrejas e templos devem se submeter, conforme a hierarquia. Todas as comunidades, fraternidades, ordens e conventos devem se submeter ao bispo local. Aos bispos locais ficará o encargo de cuidar da boa conduta e moral de suas dioceses, para que estas sigam conforme a mais pura doutrina da Santa Sede. Considera-se banido e proibido os demais cultos.
As medidas foram bem recebidas pelos bispos das províncias na península itálica, que eram favoráveis a essa moralização e estavam fartos das cerimônias profanas. Na prática, isso diminuiria a força e a influência das mulheres na Igreja e apagaria o nome de Magdala.
Entretanto, quanto mais longe de Roma as províncias eram, maior resistência aparecia. Em parte porque cada vila se orgulhava das tradições que preservavam e em parte porque a igreja local tinha seus próprios objetivos. Assim, tornou-se comum haver acordos paralelos entre os sacerdotes e os governantes, que se apoiavam mutuamente por meio da força ou do dinheiro contra eventuais interferências ordenadas pelo Imperador. Apenas nas Igrejas do Oriente não houve conciliações, uma resistência foi formada pelos bispos do Egito, Judéia e Pérsia, decretando a Igreja Romana anátema, excomungando o Imperador e aclamando o Patriarca Nicodemo de Bizâncio o verdadeiro Papa da Igreja de Crestos.
Com isso tem inicio a disputa pela coroa da Igreja.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Celebremos a Vida

No dia seguinte, a vila toda foi enfeitada e preparada para a celebração da Estação da Seara. Os habitantes estavam animados e eufóricos pois, após tantos anos sendo coibidos e proibidos pela Igreja e pelo Governo de Roma de celebrarem suas festas, graças ao novo governador eles podem voltar a festejar.
Na fortaleza, Lapidatus se prepara para participar da festa, tendo liberado todos os legionários para se juntarem aos civis na festa. O oficial do dia achou por bem acautelá-lo de possíveis resistências.
- Senhor, eu não desejo criticar tua posição, mas o senhor pensou no que os Romanos e os sacerdotes Crestanos podem tentar fazer contra o senhor?
- Sim, Fidius, eu imaginei. Mas como a maior parte das pessoas e dos legionários crêem no mesmo que eu, não há riscos.
- Por via das dúvidas, não é melhor deixar um destacamento de sobreaviso?
- Eu pensei bem, Fidius e tenho uma solução mais prática. Venha comigo.
Fidius, um frígio que se tornou centurião e conhecia bem os Romanos sabia bem o que podia acontecer, mas a firmeza de Lapidatus o surpreendeu. Ambos foram até o edifício da administração romana, onde Lapidatus deu um ultimato aos funcionários públicos que ali trabalhavam.
- Senhores e senhoras. Como governador de Belarum e comandante da VIII coorte, eu os convido a se juntarem na festa. Mas eu não admitirei rebeldia ou traição.
Lapidatus sai em olhar para trás e segue em direção da igreja, para dirigir um ultimato menos ameno aos sacerdotes ali presentes.
- Senhores, vós tendes duas escolhas. Ou convivem e toleram as crenças locais, ou peguem vossos pertences e partam imediatamente. Se aqui permanecerem e houver qualquer reação de Roma, vós sereis os primeiros a serem responsabilizados e punidos por traição.
Não houve qualquer resposta ou ruído vindo da igreja, mas Lapidatus não se importava com o que aqueles sacerdotes tramavam.
Sem demora, Lapidatus e Fidius foram até o terreno sagrado onde, segundo as crenças locais, os Deuses desceram e se juntaram com esse povo. Ali, uma imensa e farta mesa cheia de comida e bebida os aguardava.
Ao longo da noite, em volta da fogueira, as pessoas cantavam, dançavam nuas, celebrando o fim do inverno e a véspera da primavera, a Estação da Seara. Debaixo da lua minguante, não haviam mais diferenças, não haviam velhos ou jovens, os apaixonados podiam se amar sem restrições, os vivos dançavam com os mortos.
Lapidatus estava se divertindo bastante com duas belas moças que lhe ofereciam vinho, comida e seus corpos para saciá-lo quando um velho embriagado lhe contou uma história.
- Um brinde ao governador! Ele realizou a profecia da sacerdotisa!
- Uma sacerdotisa passou por aqui?
- Sim, três semanas antes do senhor chegar.
- Como era ela?
- Ah, meu senhor, impossível descrever uma beleza que pertence à Deusa.
- O que ela disse?
- Que não devemos nos dobrar a um Deus estranho nem entrar em templos que ensinam a desprezar a Vida. Ela nos predisse que logo viria alguém que nos devolveria a alegria.
- Ela carregava uma criança?
- Sim, um filho sagrado que todos nós vimos que se tornará um grande rei.
- Havia mais alguém com ela?
- Apenas um homem, de cabelos castanhos cacheados e uma roupa típica dos povos que vivem pelos mares do sul.
- Sabe para onde foram?
- Eles foram para o norte, em direção dos Saxões.
- Meu velho, tu achas que nada nessa vida é uma coincidência?
- Meu senhor, eu não sei. Os Deuses desenham o futuro, mas nós trilhamos o presente.
- Pois a Fortuna e o Destino são caprichosos, mesmo quando são moldados pelos Deuses ou pelos homens. Eu conheci esta sacerdotisa, aquela criança é meu filho e aquele homem é um mestre que veio de Ephesus. Esta bem pode ser a última vez que podemos celebrar a vinda da primavera. Celebremos a Vida!

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os Deuses do campo

Lapidatus acorda bem cedo e sai do dormitório dos oficiais para participar da refeição matinal comunitária junto com os legionários, um hábito que ele adquiriu quando era legionário e admirava os oficiais que dispensavam o tratamento especial.
Depois, pediu ao legionário nativo mais jovem que encontrou, para conhecer os pontos principais da vila, os hábitos, os costumes, as tradições e crenças do povo.
A vila não tem muitas construções, a maior parte eram prédios e marcos romanos. Apenas as casas de fazenda mantêm as características peculiares.
As ferramentas têm ferro, que estava mais bem trabalhado graças às forjas romanas, mas o equipamento continuava bem rústico.
A plantação é separada em colunas, cada qual com uma hortaliça. Terrenos mais extensos são preparados para o plantio de frutas, mas os campos de trigo são maiores.
Os frutos são colhidos e postos em cestos feitos de palha de faia, sendo estocados em celeiros reforçados para resistir ao frio e protegidos dos ataques de animais com maços de açafrão e caledônia.
- estas coisas teu povo sempre fez ou aprenderam com os Romanos?
- Muitas destas coisas nossos velhos nos ensinaram, outras aprendemos com os povos vizinhos, mas os Romanos também trouxeram suas experiências.
- Os Romanos tiveram suas origens em povos que viveram como o teu, mas teu povo acredita em quais Deuses?
- Os velhos nos contam de uma época muito mais fria que hoje, quando nós vivíamos como feras. Então os Deuses desceram do monte Carpus, nos juntaram, nos ensinaram a lavrar a terra e a criar gado. Eles nos ensinaram a importância de velar os que partem, de libertar a alma do corpo na pira e de honrar anualmente a memória de nossos ancestrais. Os Deuses se misturaram a nós e nos deram nossos reis e sacerdotisas, assim surgiu nosso povo.
- O que aconteceu com a chegada dos Romanos?
- Os velhos nos dizem que isto estava predito, mas que mesmo assim nós tínhamos que provar nossa honra e a honra dos Romanos.
- Então não foi difícil ao seu povo se adaptar ao modo Romano.
- No início não, até a chegada da Igreja de Roma. Os sacerdotes chegaram, se instalaram e até mostraram simpatia, ajudando os órfãos e pobres. Conforme o tempo passou, a Igreja cresceu e foi se intrometendo em nossos costumes e cerimônias. O governador anterior ao senhor enfrentou uma rebelião de meu povo, ao tentar nos fazer adorar ao Deus da Igreja Romana, chamando os nossos Deuses de espíritos malignos.
- Igreja de Roma? Eu nunca ouvi falar de tal Igreja nem da obrigação em adorar só um Deus. Leve-me a tal Igreja.
O legionário levou Lapidatus até a igreja, toda feita em pedra esculpida, cheia de adornos e imagens desconhecidas por ele. Por dentro, a igreja parecia muito com os templos mithraicos, por causa do piso e bancos de madeira. Um sujeito franzino, em uma túnica escura, se aproxima para recebê-lo.
- A paz do Senhor Yeshu.
Lapidatus seque se move. Em sua armadura de comandante e usando o medalhão de governador, deu uma boa volta pela igreja, deteve-se no altar e olhou enigmaticamente para a imagem de Yeshu pendurado na cruz.
- Sabe, jovem Catus? Eu estive em várias cidades, conheci vários templos, vários sacerdotes, vários Deuses. Este templo é o primeiro que eu conheço que não sinto a presença de Deus algum. Vai ver que é por isso que não sinto qualquer santidade nos homens que ocupam este lugar, apenas trapaça e hipocrisia. Venha, vamos fazer o primeiro discurso público.
Lapidatus saiu e, ao passar pelo portal da igreja, fechou a porta de madeira que separava o altar da rua, mostrando suas intenções. Conforme se aproximava do grande auditório que ficava na praça central da vila, ele e o legionário convidavam a todos, civis e militares, para ouvirem o discurso.
No auditório, as pessoas foram afluindo, curiosas para ouvir o que o novo governador tinha a dizer, muito embora os mais velhos mostrassem certo receio.
- Povo de Belarum! Eu aqui vim, como estrangeiro, por ordem de César, mas quero aqui ficar, como convidado, por vossas vontades. Assim como vós, eu honro aos meus ancestrais, celebro as estações e louvo aos Deuses do campo. Assim como vós, eu prezo a tradição, os costumes e a vossa cultura. Assim como vós, todas estas coisas eu quero preservar para aqueles que herdarão essa terra, para que possam se orgulhar de onde nasceram. A custo de minha posição ou de minha vida, eu me disponho a lutar contra qualquer um que ameace aquilo que é mais valioso para esta comunidade, seja este um rei, um César ou Deus!
O povo aplaude e faz um grande clamor. Os sacerdotes Crestanos, na igreja, sentem seu prestígio ameaçado e começam tramar contra Lapidatus. O jovem Catus, ao seu lado, disse extasiado, um segredo local.
- Sabe, senhor? O senhor escolheu o melhor dia para teu discurso.
- E porque, Catus?
- Hoje meu povo comemora a chegada dos Deuses e o fim do Inverno.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Lapidatus, comandante e governador

Lapidatus chega na vila em Belarum, uma vila pouco urbanizada, mas com extensos terrenos para plantio. De todo lado da estrada, os campos se perdem de vista e os camponeses olhavam com curiosidade para ele.
Lapidatus só se sentiu mais à vontade ao entrar na fortificação onde se estabeleceu a coorte. Cobrindo-se precariamente com uma manta, mostrou suas ordens ao guarda do portão que, assustado, chamou o oficial do dia.
- Ave, comandante Lapidatus. Permita-me conduzi-lo ao setor dos oficiais, onde o senhor poderá trocar teu uniforme por outro mais apropriado.
No salão reservado aos oficiais, mais quente graças à calefação e uma lareira, Lapidatus pode deixar de lado a manta e refazer as forças com um bom vinho. O oficial do dia trouxe, logo a seguir, o uniforme de comandante que havia preparado para ele.
Lapidatus estranha as duas peças, uma que encobre dos ombros até os quadris e outra que encobre dos quadris até a canela.
- Esse uniforme é bem diferente. Será que nas outras coortes longe de Roma também tem diferenças?
- Eu creio que sim, comandante. Os primeiros Romanos que aqui chegaram adaptaram vestes locais ao uniforme, por causa de nosso clima mais frio. Esta peça que cobre o tronco e os braços é chamada de camisa. A peça que cobre o torso até as canelas é chamada de calça. Também forma substituídas as alparcatas por botas.
- Confortáveis e elásticas. Houve mais alguma adaptação?
- Sim, senhor. As lanças são mais compridas e pesadas, com uma ponta curta terminada em seta. As espadas são feitas de ferro, com lados que cortam.
- Eu gostei do cabo feito em osso. Vejamos agora meus legionários.
Lapidatus veste o elmo e as botas, enquanto o oficial do dia toca um sino para chamar todos os legionários. Assim que Lapidatus sai na varanda que tem na frente do setor dos oficiais, os legionários estão prontos, dispostos em cinco filas encabeçadas pelos seus respectivos centuriões.
- Saudações, legionários. A partir de hoje eu sou vosso comandante. Eu vejo que muitos são nascidos aqui, mas eu vos digo que cada um tem a mesma possibilidade que eu de fazer careira na Legião Romana. Eu nasci em Dácia, Macedônia e cheguei aqui. Sirvam bem a Roma, honre vossas espadas e nós conquistaremos muitos méritos.
Muitos brados, muitas salvas. Lapidatus então cumprimenta um a um de seus legionários, fazendo questão de saber o nome e onde nasceu. Em seguida, conferiu os mantimentos, os recursos, os armamentos e a situação da fortaleza.
Lapidatus fica satisfeito com a parte militar, a parte mais fácil. Deixa o comando ao oficial do dia e se dirige aos prédios da administração civil.
Lapidatus se esforça para esconder a aversão e o nojo que ele nutre contra essa classe de gente, funcionários públicos de carreira, cheios de fanatismo burocrático.
Na entrada, Lapidatus apresenta o edital ao funcionário que o recebe com indiferença e desânimo, mostrando que é recíproco o sentimento.
- Ave, governador Lapidatus. O senhor pode contar conosco. Todos os funcionários da administração são Romanos e seguem carreira. Eu vou apresentar ao senhor teus secretários.
Lapidatus passeia por várias salas e conhece diversos funcionários, cada um encarregado de uma parte da vida da comunidade. Um secretário de finanças, de habitação, de estradas, de construções, da semeadura, da colheita, da estocagem e assim por diante. O dia passa e Lapidatus se esgota, o que o faz deixar para o dia seguinte a parte mais delicada que é quebrar o muro que existe entre ele e os habitantes locais.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Enfrentando o Destino

Magdala retorna a Roma após duas semanas de intensos debates em Bizâncio com os bispos da região oriental do Império Romano. Neste concílio, Magdala percebeu estar perdendo sua base de sustentação, os bispos que estavam intimamente ligados a ela estavam ficando velhos ou morrendo, dando lugar a bispos nomeados por suas comunidades e mais interessados nas necessidades locais.
Este é um fenômeno comum, toda instituição acaba tomando rumos que o fundador ou administrador não previa e não pode controlar.
De Roma, Magdala não pode ver a mudança que se operou entre as comunidades dos Crestanos no oriente, resistindo às epístolas vindas da Santa Sede, resistindo às interferências do Imperador.
Os bispos, com um pensamento mais provinciano, estavam resgatando algumas tradições que vieram dos movimentos messiânicos da Judéia, como a recusa da adoração a César e o sacerdócio das mulheres. Ao invés das cerimônias que lembravam os Ritos Ancestrais, uma missa com uma liturgia mais ligada ao simbolismo gnóstico.
As questões e pendências foram diminuídas, mas não resolvidas. A nova Igreja, assim como Roma reconstruída, tem fome de poder e não ficará satisfeita enquanto não dominar o mundo. A fissura entre as igrejas do ocidente e do oriente aumentava pouco a pouco e Magdala sabia que isso levaria a um cisma, a guerras, ao sucesso e ao fracasso dos Crestanos, quando então a humanidade ficará cansada de tanto sofrimento e opressão e redescobrirá a Religião Antiga.
Enquanto Magdala se entretém com sonhos se neste futuro ela será lembrada e se nesta geração ela terá seu trabalho reconhecido, o condutor da caravana a alerta da aproximação de uma coorte.
- Saudações, Vossa Santidade. Eu sou o centurião Anquilum da II legião da VI coorte para vos escoltar em vossa volta a Roma.
Magdala sabe que o centurião mente, a missão dele é o de providenciar um acidente que a mate. Potencialmente, muitos nobres de Roma ou bispos adversários podem ter contratado o serviço deste centurião, mas o maior interessado é Galba. Magdala faz uma insinuação ao centurião para garantir a ela mais alguns meses.
- Nós agradecemos a preocupação do Imperador conosco, mas não necessitamos de proteção. Ninguém ousaria nos atacar sabendo que carregamos a semente do Imperador.
O centurião fica pálido, retém a marcha e cochicha algo no ouvido de um legionário que, em seguida, sai em disparada. Com certeza, foi avisar ao mandante sobre a condição dela. O centurião volta a se aproximar da liteira de Magdala, com olhos perturbados.
- Vossa Santidade, vós sabeis que temos que cumprir nossas ordens e o nosso Imperador nos puniria se descuidássemos de vós e de vosso santo herdeiro.
Magdala pode transcorrer sossegada até Roma, onde foi recebida com festas e honrarias. Como boa conhecedora dos protocolos da corte, somente por indicar estar grávida de César garante a ela alguns privilégios, mas ao mesmo tempo jogava um escândalo dentro de sua Igreja. Enquanto Galba estiver no poder, ela estará no rol das amantes dele e seu futuro filho no rol dos possíveis sucessores muito embora ela saiba que isso possa reverter.
Apesar de toda a aparência, Roma não é assim tão diferente das cidades ditas bárbaras. A única diferença são os adereços e a crença cega de que essa fachada é real, lhe concedendo a aura de ser uma civilização evoluída e superior.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Conspiração na Igreja

Galba, em poucas semanas, havia conseguido unificar a Religião Romana na península itálica. Ele teria que esperar mais um tempo até acertar os acordos necessários, para então dar início ao seu projeto nas províncias do império Romano.
A aliança entre as Igrejas e sua união com Magdala juntava em suas mãos a força da Guarda Pretoriana e o clamor da população. Para que seu plano fosse bem sucedido, ele teria que atrair a nobreza e seduzi-la com o poder e a riqueza que a Igreja podia oferecer.
A Religião Antiga resistia em Roma, em salões privados, em cerimônias escondidas, preservada por poucos dos velhos nobres. A helenização ajudou a criar um clima crescente de inadequação dos velhos ritos, mas a jogada de mestre foi o de utilizar o pensamento clássico para dar aos dogmas da Igreja uma fachada de lógica racional.
O plano se desenhava com clareza e precisão na mente de Galba, o que o tornava prudente e prático em cada passo tomado. A concessão do terreno no monte Palatino e a construção da Santa Sede foram calculadas para deixar a Igreja mais próxima do Palácio Imperial, para facilitar o comando de Galba dentro da Igreja, ao mesmo tempo em que diminuía a força de Magdala.
Apesar de Galba ser o Imperador de Roma e Sumo Sacerdote de Mithra, entre os Crestanos ele era considerado como mais um bispo subordinado à Suma Sacerdotisa, Magdala. Para remover Magdala desse trono, Galba teria que apoiar os bispos certos e comprar o apoio de outros, se não substituir ou matar os resistentes ao seu projeto de reestruturação da Igreja.
Tendo Magdala viajado para Bizâncio para transmitir aos bispos dos Crestanos a constituição da Igreja, Galba se aproxima do secretário pessoal de Magdala, o cardeal Lino, considerado o mais provável sucessor de Magdala.
- Saudações, Santo Lino.
- A paz do Senhor Yeshu Crestos, Excelso Augusto Galba César.
- Graças ao Senhor Yeshu e ao Senhor Mithra, Roma está em paz. Mas para que esta paz perdure, nós temos que ser fortes.
- O Senhor Yeshu não abandonaria seu povo, ele é a nossa força.
- Certamente. Mas o Senhor Mithra nos ensina que, muitas vezes, é preciso que nós tenhamos uma atitude. Deus, muitas vezes, espera que nós tenhamos a iniciativa.
- Eu não entendi. O que vós quereis dizer com atitude e iniciativa?
- Simples, meu caro. Roma está firme em seu curso por nossos esforços, coma benção de Deus. Antes, Roma esteve à deriva, porque os Césares se deixaram levar por seus apetites e fraquezas carnais, muitas vezes manipulados por suas mulheres, cortesãs e amantes.
- Então não temos mais com o que nos preocuparmos.
- Oh, não, engana-se meu caro Lino! A união de Roma depende da união da Igreja. Assim como Roma é conduzida por um Imperador, a Igreja deve ser conduzida por um Sumo Sacerdote. Assim como Roma não se sujeita mais aos caprichos das mulheres, a Igreja não pode mais se submeter a elas.
- Mas que absurdo! Todos nós somos irmãs e irmãos em Crestos que contribuem com a obra de Deus.
- E nós não discordamos do valor das mulheres consagradas a Crestos e Mithra. Mas as mulheres são mais frágeis, sensíveis, volúveis, portanto inferiores ao homem. As irmãs continuarão seu serviço, mas se submetendo à hierarquia da Igreja.
- Eu estou começando a vos entender. Realmente, algumas comunidades têm se direcionado perigosamente à heresia e à apostasia por causa da falta de disciplina. Infelizmente não podemos fazer nada, pois a Igreja deve obedecer a Suma Sacerdotisa.
- Sim, meu caro. Mas quando for o desejo de Deus de levar a Suma Sacerdotisa de nós, teremos que estar preparados para a sucessão dela. Se tu me apoiares na moralização da Igreja, tu podes contar com meu apoio para sua aclamação a Sumo Sacerdote.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A coroa e a cruz

Lapidatus e Portius chegam em Roma quase no fim do outono e admiram a cidade reerguida, mas ainda é possível ver pelos escombros o tamanho dos danos causados pelo incêndio. Sem demora, seguem até o Quartel General da Guarda Pretoriana, cuja entrada estava bastante movimentada.
Conforme se aproximavam do portão para se identificar, notaram que haviam três filas sendo organizadas. A mais curta estava destinada aos centuriões, devidamente trajados com seus uniformes e insígnias. As duas outras estavam mais tumultuadas, pois estavam cheias de pessoas em trajes civis alegando serem centuriões que brigavam com indivíduos que mal pareciam romanos.
- Ave César. Nome, posto e ordens.
- Ave César. Lapidatus Marco Nuno, XIII coorte, atendendo a convocação do Imperador.
- Ave César. Portius Laico Sexto, XI coorte, atendendo a convocação do Imperador.
O guarda confere as ordens, os uniformes e as insígnias. O portão se abre e os dois centuriões são guiados por um oficial de pátio até o edifício central, onde fica o Ministro do Exército. Dentro do prédio, cerca de cem centuriões aguardam o Imperador.
Passadas algumas horas, a comissão de senadores e cônsules entram no salão de audiência para se pronunciarem aos centuriões ali reunidos.
- Nobres defensores de Roma, nós pedimos vossa atenção. Roma passou por muitas dificuldades nos últimos oito anos, dificuldades que causaram perdas de patrimônio e vidas preciosas. Para combater e evitar tais dificuldades, vós fostes convocados para receber vossas novas missões do Imperador em pessoa. Saudemos César! Ave, Galba César!
Lapidatus ouvira falar de Galba por seu comandante, nas curtas folgas que eles passavam em Damasco. Entre os generais da Guarda Pretoriana, Galba mostrava ser o mais ambicioso. Ele certamente conhecia os meios e as pessoas certas para galgar os degraus do poder e isto certamente o levou até o topo.
- Nobres centuriões, companheiros em armas! Muitos de vós nos conhece e esteve conosco em batalha! Nós vos convocamos por que o Império deve reconhecer vosso esforço e dedicação! Vós sereis promovidos a comandantes, com direito a administrar as vilas da circunscrição. Procederemos agora com a chamada e a entrega das missões.
Um adido passa a fazer a chamada, os centuriões vão até o Imperador, recebem o edital e o cumprimento de César. Portius recebe o comando da IX coorte, na província da Germânia e Lapidatus recebe o comando da VIII coorte, na província de Belarum. A promoção é comemorada e a administração das vilas é um prêmio extra que os podem tornar rico e abrir as portas da corte romana.
- Nós contamos com vossos serviços para que a paz e a união de Roma continue. Para isso, nós determinamos que haja no Império um só credo em Deus e em seus divinos filhos Mithra, Yeshu e César. Assim como há um Império, um César, devemos ter uma só Igreja. Vós nos aclamastes César para conduzir o Império. Que seja aclamada a Suma Sacerdotisa para conduzir a Igreja!
Magdala entra e imediatamente é saudada e reverenciada. Muitos dos centuriões presentes a conheciam ou ouviram falar dela e de sua manifestação no templo de Mithra. Galba contava com esse clamor e a influência de Magdala para iniciar seu plano ambicioso de tornar o Império Romano em um Império Sagrado e eterno, o que daria a ele a memória perpétua como sendo o Santo Restaurador do Império.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A consumação da aliança

Magdala olha estarrecida para os restos fumegantes do que fora sua igreja enquanto seu filho brinca com os tições carbonizados, desenhando no calçamento. Em sua volta, Roma vai se reconstruindo aos poucos, ao mesmo tempo em que enterra seus mortos.
A tragédia foi tão extensa que falta tudo em Roma. A prioridade é atender aos feridos, estocar comida, guardar água, restaurar as estradas. Os mortos são empilhados, falta espaço nos cemitérios e os crematórios não dão conta. As famílias não podem contar com o consolo dos sacerdotes, muitos fugiram assustados e outros morreram.
No meio desse cenário desolado, dois legionários se aproximam de Magdala.
- Vossa Santidade, o Excelso Augusto César solicita vossa presença.
- Eu não tenho mais minha igreja, só me restou meu filho.
- Isso não nos diz respeito, Vossa Santidade. Tome teu filho e nos acompanhe.
Fingindo ter um resto de dignidade, Magdala sacode a fuligem de cima do que restou de sua túnica sacerdotal, pega seu filho e segue altivamente os legionários até o palácio do Imperador. Na entrada do palácio, um grupo de pretorianos davam salvas e elogios a César. Estes, ao verem Magdala se aproximando, fizeram reverência e louvores a Suma Sacerdotisa.
Magdala entrou no palácio do Imperador, cujas paredes mantinham presas as almas das vítimas inocentes mortas pelos Césares que ali reinaram. Magdala foi conduzida até uma parte onde ficava o templo imperial de Júpiter, ali encontrando com o general Galba, outros generais da Guarda Pretoriana, senadores e cônsules.
- Seja bem vinda, Vossa Santidade.
- Nobres senhores, eu não mereço este título. Minha igreja foi arrasada e a sentença de César contra nós se espalhou tão rápido quanto as chamas que destruíram Roma.
- Nós vos garantimos, Vossa Santidade, que vosso cargo é vitalício e que vossa igreja será reconstruída em um local mais digno de vossa posição.
- Mas e quanto ao decreto de Nero César?
- Por isso que Vossa Santidade foi convidada a comparecer a esta distinta assembléia. Nós esperamos de vós que se junte na aclamação de Galba César e nos conceda a benção de Deus.
- Eu não entendo. O Império primeiro nos ignorou, depois nos tolerou, nos usou, nos descartou e de repente nos pede ajuda?
- Nós vos dissemos, Vossa Santidade, que nossa aproximação vos renderia alguma vantagem. O Império reconhece vossa contribuição para a união e a paz no reino.
- Oh bem...sendo assim, o que eu ganho por te aclamar César, Galba?
Galba ri ruidosamente enquanto a confraria espantada cochichava pela falta de formalidade e decoro de Magdala. Galba sabe que Magdala está ciente de que o apoio que ele tem dos generais, senadores e cônsules custou muito ouro e trocas de favores. Toda circunstancia e protocolo soa apenas atos de fachada para dar um ar de austeridade, mas a despeito das togas refinadas e dos altos cargos, todos ali eram salteadores.
- No devido tempo, Magdala! Eu quero primeiro consumar a aliança entre o Império e a Igreja. Tu ainda celebras os Ritos Ancestrais?
- Então é assim? Para compartilhar a coroa eu devo compartilhar meu leito? Assim seja.
Aqueles distintos e empertigados senhores enrubesceram com a vulgaridade de Magdala. Galba se diverte com seus aliados e admite para si mesmo que, em certas circunstâncias, o eufemismo é uma afetação inconveniente e é melhor deixar de lado o verniz da cultura. Por seu lado, Magdala sabe que nem isso garante seu futuro, pois assim como os verdadeiros senhores de Roma se cansam de seu César e o substitui por outro, ela é substituível. Magdala acompanha Galba até seu leito, sentindo apertar a corda no pescoço.