domingo, 29 de abril de 2007

Voltando para casa

Saindo de Lívia, o velho Scire olha e sorri discretamente para seu companheiro de viagem, Andros. Ele havia crescido, sem dúvida, algo enfim aconteceu para que o jovem mestre alcançasse o grau de Mago. Sem querer entrar em detalhes pessoais, Scire quebra o silêncio.
- Então, jovem mestre, para onde irá agora?
- Eu não sei. Eu não tenho para onde ir ou a quem contar minhas aventuras.
- Vejo que encontrastes teu equilíbrio, mas algo ainda o perturba. Será a jovem sacerdotisa que disse ter conhecido em Esmirna?
- Sem dúvida, ela impressiona. Eu levei dez anos de minha vida para conseguir compreender os Mistérios Antigos e como os Deuses agem, mas ela parece ter nascido com esta sabedoria.
- Hohoho! Desculpe meu riso, meu jovem. Seja bem-vindo ao grupo dos Magos. Eu passei trinta anos de minha vida, como oficial do Império Romano, viajando até os confins da terra, mas foi na Bretanha onde eu encontrei o que procurava!
- Conte-me mais sobre sua terra e o que encontrou por lá.
- Não há muito o que contar, a maior parte das coisas tu conheces. Infelizmente, não posso te contar sobre o grupo de antigos sacerdotes e sacerdotisas que ainda celebram os Ritos Ancestrais na Bretanha, devido aos meus votos.
- Eu entendo. Mas e tu, o que pretendes fazer?
- Meu jovem, não me faltam muitas primaveras, isto é certo. Devo me preparar para seguir até a Terra da Juventude, onde aguardarei meu retorno entre os meus. Eu sei que encontrarei um tempo muito difícil e tenebroso aos que seguem a Antiga Religião.
- Tiveste algum augúrio?
- Oh sim, jovem mestre. Tu te lembras do que me contaste das palavras da sacerdotisa, quando celebraste o Equinócio de Outono na Galiléia?
- Impossível esquecer tal manifestação e talento.
- Este é o vaticínio que está no brilho de cada estrela e em cada folha de árvore. As estações mudam não só na terra, mas no Cosmo todo. Ninguém sabe porque começou, ninguém viu ou conheceu Zoroaster, nem porque os Deuses Antigos estão se calando. O fato é que a humanidade será amordaçada pelos cultos a um Deus.
- Nesse caso, eu acho que devo voltar a Ephesus e alertar ao meu povo e tentaremos preservar a memória dos Mistérios Antigos.
- Não quero tirar sua esperança, mas tenha sorte! Eu ouvi falar que mesmo na Grécia os pensadores e filósofos fazem pouco dos Mistérios Antigos, os relatos são fragmentários e confusos. A norma culta não consegue registrar a riqueza dos mitos e lendas.
- Eu percebi isto em Ephesus. Eu sempre preferi ouvir as lendas pelas vozes dos mais velhos do que as ler por pergaminhos. Felizmente, existe a pintura e a poesia. Devias ir a Ephesus para ver nossos afrescos.
- Talvez o deva! Em breve, toda Arte será proibida e os templos serão pedras vazias e nuas, para louvar um Deus estranho e cruel. A simplicidade e alegria de servir aos Deuses será esmagada por cultos repetitivos e burocráticos, dominados por sacerdotes mais interessados em sua fortuna do que em orientar espiritualmente seu povo! Um novo tipo de sacerdócio, arrogante, intolerante, prepotente, sanguinolento substituirá aqueles que representam os Deuses. Ao invés do êxtase, pregação e interpretação da vontade deste Deus estranho por estes lobos vestidos de sacerdotes, pela leitura de algum texto ou livro forjado por um templo homicida!
Andros fica assustado com as palavras de Scire. Qual será o destino da humanidade? Qual será o sentido desta loucura? Por que os Deuses Antigos estão se calando? Quem será este Deus que diz ser o único Senhor? Quem serão tais futuros sacerdotes que se servirão do hábito para trazer tanta desgraça à humanidade? Por que a humanidade irá permitir tal domínio tirânico? Andros fica ansioso. Tinha resolvido muitas de suas dúvidas, mas outras surgiam. Esta mania de questionar nunca acabaria? Algum dia ele conseguirá entender o motivo desta era de trevas?
- Se não há nada que possamos fazer, todos os nossos esforços de nada valeram.
- Oh, não, meu jovem mestre! Não é o fim de tudo! Eu também estou aturdido quanto à decisão dos Deuses Antigos em conceder à humanidade uma era onde só haverá terror, morte e sangue. Muitos inocentes darão sua vida e a terra será banhada em sangue, este Deus será louvado e adorado por muitos, mas por maior e mais poderosa que seja sua influência, Ele igualmente está sujeito ao ciclo das existências. Sua coroa enferrujará e aqueles que dividem o trono deste mundo com Ele serão quebrados!
- Mas por que tanto sacrifício?
- Em breve, em algum lugar da Judéia, um profeta ensinado pelos Livros Esquecidos e pelos Livros Sagrados dos Judeus será sacrificado como sinal do que irá vir. Ele não dará sua vida aos Deuses, mas pelo que ele crê. Os que o segue darão início a um credo que reunirá Judeus e gentios debaixo de uma crença, para depois se tornar uma religião universal pelas mãos dos Romanos. Este credo se tornará religião oficial do Estado e com a força política, econômica e militar varrerá toda a terra conhecida, até esta religião tornar-se ela própria um Estado. Este tipo de Teocracia virá a ter outras versões, outro Deus como Senhor, mas terão em comum esse ódio pela diversidade e liberdade de culto.
- Mas por que as pessoas permitirão tal julgo?
- As pessoas estão acostumadas a serem comandadas. Elas deverão aprender sozinhas a reencontrar seu centro, como nós o encontramos.
- Eu espero então que eu possa ver estes dias em que as pessoas serão libertas da escravidão e voltem a celebrar os Ritos Ancestrais.
- Este é um bom objetivo, eu digo. Vamos até Bizâncio e lá bebamos pelo futuro e pelas gerações que nos seguirão. Que estejamos todos de volta ao mundo, em harmonia com nossos irmãos, com a Natureza e com os Deuses Antigos!
- Assim seja!

sexta-feira, 27 de abril de 2007

O outro Messias

Eleaser acorda e percebe que não está mais em Petra, mas de volta ao deserto próximo ao lago da Galiléia. Seus amigos estão murmurando algo em voz baixa, certamente cada um contando vantagem do que fez na cerimônia do equinócio de Outono. Zacharias, mais próximo dele é quem o saúda.
- Boa tarde, dorminhoco! Nunca provou de uma mulher e se lambuzou! Então, meu caro, o que tu viste durante teu transe?
- Nada. Não vou mentir nem contar coisas para vos impressionar. Se este é o grande mistério que os círculos internos guardam, nem merece ser guardado em sigilo.
O trio olha Eleaser com creta surpresa, mas Zacharias lhe dá um tapinha nas costas.
- Este é o velho Eleaser que eu conheço! Realmente, muitos de nós fingem ou inventam, tu és um dos poucos que passou no teste. Mas a iniciação é apenas o primeiro passo, necessário para que conheça todo o plano do Mestre Anás.
- Eu quero ver até onde vai tanta ilusão. Qual é vossa próxima tolice? Raptar-me para levar-me aos portões da própria Babilônia e ver uma criança ser imolada no fogo?
- Ora, vamos Eleaser, tu sabes que isto não é verdade. Era hábito dos Cananeus apresentarem seus filhos diante do fogo que saía do ídolo e que os rebentos eram rapidamente passados sobre chamas a título de consagração. Tu virás conosco para conhecer o outro messias, o que cumprirá as escrituras pela linhagem de Davi e irá com Johannes purificar os Judeus de seus pecados e os preparar para a vinda do novo Reino de Judá.
- Vejamos, então, tal rabino.
Os quatro seguiram então rumo ao subúrbio da Galiléia, chamado de Nazaré e bateram na porta de um humilde cômodo de um velho carpinteiro. Zadoque anunciou o grupo para o velho.
- Saudações, Yussef Rabar, guardião do Prometido de Deus, gerado e treinado nos Círculos Iniciáticos da Sagrada ordem de Melquisedeck.
Um homem velho, arqueado, sai do cômodo dizendo o que parecia ser uma contra senha.
- Bendito o que vem em Nome do Senhor.
- Meu irmão, nós gostaríamos de apresentar o rabino Yheshua para nosso irmão Eleaser. Nós temos certeza de que ele entenderá nossos propósitos se ouvir as doutrinas do jovem mestre.
- Mas...ele...
- Sim, iniciado e de confiança.
- Sigam-me. Ele deve estar na casa da sacerdotisa.
A cabeça de Eleaser pulsa com fúria. Uma sacerdotisa em plena Galiléia, um local considerado totalmente liberto dessas abominações. Sua curiosidade e ânimo em ir adiante para descobrir a verdade o impulsiona. Seus próprios colegas, Inspetores da ordem de Melquisedeck envolvidos com sociedades secretas e proteção ao culto inominável das rameiras. Eleaser pede forças e sabedoria a Deus para saber o momento certo de agir, muito embora sua fé em Deus havia diminuído depois da recente experiência. Depois de algumas ruas apertadas e quadras acima, Zadoque torna a apresentar o grupo diante de uma porta de um humilde cômodo.
- Saudações, Miriam Hilel, senhora abençoada com a semente divina que nos trouxe o messias pela linhagem de Davi.
Duas senhoras aparecem no portão e olham o quinteto, de alto a baixo. Sem nada dizer, abrem a porta para que o grupo possa se sentar.
- Mais peregrinos para seu teatro, meu esposo?
- Miriam, nós estamos diante de irmãos, não de meros curiosos ou gentios. Traga cá o nosso filho, dado por Deus.
- Oh sim, meu esposo, ou devo dizer, padrasto, visto que aquele que orgulhosamente chama de filho não foi feito de sua semente, mas sim de algum estranho que tu e teus loucos do Sinédrio arrumaram para me engravidar em seus cultos malignos. Eu tinha dezesseis anos, homem! Dezesseis!
- Sim, sim, Miriam, eu sei que foi traumático e que nunca me perdoará por eu ter traído tua confiança. Traga nosso filho, por favor.
Miriam sai furiosa da minúscula sala, deixando os homens debaixo da vigilância atenta da outra mulher. Eleaser sente que Miriam ainda tem esperanças e renova as esperanças dele mesmo, os Judeus ainda tem salvação. O fundo do casebre tem um quintal comum aberto para outras casas, Miriam sai de sua casa e entra em outra e interrompe a aula de Magdala.
- Yheshua, venha com a mamãe. Tem alguns sábios querendo te ouvir.
- Quanto tempo acha que ainda poderá tratar ele como criança?
- Quanto tempo essa loucura permitir que ele ainda seja meu filho.
Miriam sai da casa da sacerdotisa, levando Yheshua pelos braços, através do quintal, tomando cuidado para que os vizinhos não os vejam.
Eleaser repara que o jovem trazido por Miriam é um jovem de no máximo dezessete anos, mal tem barba, é fraco, tímido e inseguro. Como pode ele ser o outro messias?
- Meu filho, estes senhores são sábios que vem ouvir suas mensagens. Poderia dizer algo a eles?
O garoto, repentinamente ganha confiança, porte, olhos faiscantes e sua voz sua clara como um relâmpago.
- Tu não é meu pai. Meu Pai é aquele que me enviou para as ovelhas de Israel.
Eleaser se empolga com a mudança do jovem. Ali ele sente que terá as palavras que lhe foram ensinadas e são tão caras. Provocativamente, Eleaser resolve inquirir o jovem.
- E quem te enviou?
- Aquele que ouve meus preceitos e testemunha meus milagres vê aquele que me enviou.
- Por que foste enviado?
- Para que se cumpra totalmente as promessas dadas, desde Abraão, pelos profetas.
- Como as profecias serão cumpridas?
- Pelo Filho do Homem, ao ser sacrificado pelos pecados dos Judeus.
- E o que acontecerá depois das profecias serem cumpridas?
- O Julgamento. Quem se arrepender e receber o novo sacramento, viverá. Quem não se arrepender, irá sofrer no Sheol junto com Satan, por toda a eternidade.
- E os gentios?
- Eu falo a todos os que querem ouvir. Aos gentios a palavra convida a vir e se juntar, renegar seus falsos deuses e seus hábitos impuros, pois Deus é o Senhor.
Eleaser exulta. Ele ouve exatamente o que deseja ver acontecer. Ele olha para Johannes, que conseguiu tapear com sua falsa pregação, mas este jovem fala com convicção, com alma! Ele percebe Johannes piscar para Zadoque o que o faz olhar para Zacharias, pedindo com os olhos uma explicação.
- Meu caro amigo, Yheshua foi concebido em um ritual exatamente igual ao que tu testemunhastes em Petra. No dia, Miriam foi escolhida por sua linhagem pertencer ao do Rei Davi. Este jovem tem por pai um centurião romano, foi treinado na Torah por Anás, mas sua escatologia vem toda de Johannes. Este jovem é o elo que irá possibilitar a união de Judeus e gentios, debaixo de uma poderosa Nação, debaixo de Deus, debaixo da fé verdadeira.
- Mentira! Mentira! Eu sou o Filho de Deus! Eu sou o escolhido! Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida! Ninguém vai ao Pai senão por mim!
Yheshua se ajoelha e fica em posição fetal repetindo a palavra ‘mentira’, enquanto suga o dedo. Eleaser fica alarmado. Como um jovem tão instável pode ser a última esperança dos Judeus? E quanto aos ‘outros’ pares de messias que estão sendo preparados? Miriam puxa Yheshua para dentro do quarto enquanto fuzila o grupo com seus grandes olhos negros. Eleaser ainda está cheio de dúvidas e perguntas. Como? Quando? Por que? De que jeito? Havia um enorme abismo entre os Judeus e os gentios, era um projeto ousado demais para dar certo! Então surge uma terceira mulher, vinda da porta que dava ao quintal comunitário. Uma mulher que parecia e muito com a sacerdotisa Sulamita que meses atrás Eleaser havia tentado capturar. Uma memória péssima para ser revivida para esse momento.
- Senhores, que bom que estejam aqui. Diga a Anás que o jovem promissor está dando trabalho e que irá custar mais.
- Mais? Magdala, tu estás viva graças à nossa proteção e nós estamos pagando com peças de ouro seus serviços. Não há mais!
- Bom, talvez eu poderia ter mais sucesso em ensinar o jovem os Ritos Ancestrais que vós me proibistes de celebrar se não tivesse a interferência de uma mãe superportetora.
Magdala olha para trás em direção a Miriam, sacudindo seus fartos cachos castanhos de forma provocante e olha com uma sensualidade fatal ao grupo do homens, sentindo o desejo de cada um pelos seus atributos, nada disfarçados por suas vestes sacerdotais.
- Tu esqueces que teu sucesso irá garantir a continuidade de teus cultos antigos de forma velada, quando o Reino de Judá for restaurado e o mundo tiver Deus por Senhor. Em verdade, tu podes muito bem explicar ao nosso embasbacado irmão Eleaser quais são seus serviços e como eles se encaixam no Plano de Deus.
Magdala olha para Eleaser, com indiferença, ousadia e desprezo. Eleaser finge medo, afinal estes olhos não se comparam com os olhos da sacerdotisa que ele conheceu na sinagoga de Petra. Magdala ri com vulgaridade, balança seus quadris e véus. Como se estivesse falando o maior segredo e verdade do mundo, ela explica aquilo que, na verdade, a convenceram.
- Olhe bem para meus olhos e corpo luxuriante, Inspetor. Toda tua missão foi de perseguir, fechar e proibir os cultos antigos. Mas tu não sabes que teu superior os celebra ocultamente! Os Judeus nunca esqueceram seus dias de fartura e felicidade entre os Cananeus, Assírios, Egípcios e Persas! Os Judeus nunca esqueceram os cultos de seus ancestrais Hebreus! Este que vós chamais de gentios são como nós e vós quereis abarcar o mundo para vosso Senhor e Deus! Aqui está, Inspetor, o verdadeiro propósito de sua missão! Não é para varrer, mas para ocultar os Ritos Antigos. O povo comum irá abraçar novamente o culto ao Deus, como o Sinédrio deseja que seja cultuado! Quando todos forem unidos, Roma será derrubada e Judá reinará, debaixo de uma crença tanto Judaica quanto gentílica! Para isso, Inspetor, todos os messias estão sendo iniciados e treinados por sacerdotisas como eu, no que vós chamais de Círculos Internos. As mensagens dos messias, contendo tanto a doutrina da Torah quanto dos Livros Esquecidos, irá chamar para debaixo de Deus, o Senhor, toda Nação. Haverá, então um só Povo, uma só Nação, um só Deus, uma só Religião!

No fim do desejo

Andros estava em constante estado de graça com as coisas que estava aprendendo nas últimas duas semanas, mas o velho Scire deu-lhe a má notícia que só poderiam ficar até o próximo esbath. Andros resolveu então passear sozinho pelos templos para reavaliar tudo o que aprendeu e tentar resolver o enigma do chifre amalteano. Ele ainda não tinha certeza do que era, como era, se existia, para que servia e porque isto ainda o obcecava.
Ele parou no santuário de Ardat no lago Sival e mais uma vez comparou o que via com o que conhecia. O santuário de Ardat no lago o faz lembrar do templo de Ártemis em Creta. Este era um habito que o estava irritando, Andros teve a impressão de que isto o impedia de ler e ver as pistas que o ajudariam a encontrar as chaves dos Mistérios Antigos ou a compreender o enigma do chifre amalteano. Seus pensamentos dançam entre a sofisticação acadêmica e o niilismo meditativo. Andros ria de si mesmo, pois lembrou dos monges budistas que ele encontrara e tentavam chegar ao Nirvana pela negação de vida e do pensamento. Ele asseverou consigo mesmo que é impossível atingir um objetivo idealizado negando a existência do instrumento que facultava tal realização.
- Pois tua falha é que tu resistes ao efeito do que te leva a solucionar tuas dúvidas.
Andros se vira assustado na direção da voz e vê um vulto que se aproxima. Quem lhe falava era Shakti, a sacerdotisa que havia conduzido a cerimônia para o equinócio de Outono com o sacerdote Indra. A mente de Andros voltou a se encher de perguntas que Shakti viu a todas na mente de Andros.
- Tu perguntas demais. Tudo que mostramos e ensinamos, a nada questionastes, apenas assimilastes sequioso e se deslumbrava ao ver o resultado evidente.
- Então razão e crenças são antagônicos?
- Sim e não. São opostos, mas não em conflito, são extremos de um mesmo atributo humano.
- O principio da dualidade, da polaridade! Eu esqueci!
- Não esqueceu. Como muitos que vivem tempo demais com discussões acadêmicas, acabam valorizando a razão e se esquecendo de aproveitar a simplicidade da vida. Razão e crença são formas de se explicar o mundo e se perceber as verdades, mas não são esses fatos em si mesmos.
- Então eu devo procurar um ponto de equilíbrio?
- De forma alguma! Isso o levaria à inércia e à indiferença. Tu conheceu os monges budistas e viu que essa estática não os conduz a lugar algum, apenas os enclausura em uma gaiola dourada, dentro de suas mentes.
- Então qual a resposta?
- Não perguntar. Permitir que a vida te arrebate e tirar proveito das experiências, pois o caminho é a maestria.
- Então tudo que aprendi foi desnecessário?
- Depois que tu aprendeste, te perdeste em mais perguntas, mas enquanto aprendias não tinhas satisfação? O que aprendeste serve para que tires maiores proveitos da vida, aprimorando os sentidos, desenvolvendo as percepções, removendo tuas amarras, derrubando teus muros. Quando tu tornares teu corpo todo hábil em sentir a vida dentro e fora de ti, verá o teu espírito divino interior se espelhar neste mundo. Este é o segredo dos Mistérios Antigos! Não há segredo! Nós é que velamos a realidade e apagamos nossa chama.
- O que eu faço para ter essa percepção vívida, acender minha chama e afastar de vez os véus?
- Tu o fizeste, jovem mestre, em cada cerimônia, ao deitar-se com a sacerdotisa. Isto é algo que profanos não entenderão. O Grande Rito não é orgia ou sexo casula, mas é o rito necessário para manter a vida em nosso mundo e para remover as amarras que nos impedem de viver plenamente.
- Grato por tua orientação. Em breve será lua cheia e eu poderei, com sorte, participar da cerimônia e tentar, com a ajuda da sacerdotisa, livrar-me de vez das amarras.
- Se tu estás preparado, não espere até o fim da semana. Eis-me aqui e lá em cima a lua. Vem, façamos os rituais antigos.
- Podemos faze-los com a lua ainda crescente?
- Os antigos não nos ensinaram que os ritos antigos devam ser feitos apenas nas luas cheias. Os Mistérios Antigos que nos foram ensinados nos contam que a Deusa recomenda que os ritos sejam feitos na lua plena, mas Ela está igualmente presente nas outras faces da lua. Crescente, Ela é a Dama; cheia, Ela é a Mãe; minguante Ela é a Anciã. Quando a lua está oculta, a Deusa mostra sua face de Morte e Renascimento, mas poucos ousam olhar esta face.
- Não estamos com incensos, velas, pratos, sinos, adagas, espadas ou pergaminhos.
- O bruxo é mais importante que o instrumento que ele maneja com maestria. O bruxo deve ser mestre do seu corpo, o resto é acessório. Antigamente os ritos antigos eram simples, como a vida. Tudo que tu precisas é de um membro ereto.
- Cara sacerdotisa Shakti, basta um homem olhar em teus olhos para ficar excitado.
Shakti beija Andros, põe a mão entre as pernas dele e fica satisfeita em encontra-lo preparado. Ambos tiram as roupas, lançam o circulo, evocam os Guardiões dos Quadrantes e evocam o Deus e a Deusa. No momento do Grande Rito, Shakti deita-se na relva, Andros fica sobre ela e ambos iniciam o rito da fertilidade. O toque macio e cheiroso da pele de Shakti embriaga Andros. Por fim ele entende, na tração das coxas de Shakti o chamando para dentro dela, como funciona o dinamismo da polaridade sagrada.
Andros vê claramente o cone de poder subindo e envolvendo a lua que retribuía enviando um facho de luz que envolveu o casal. No momento do êxtase, a lua ficou cheia quando Andros preencheu o ventre de Shakti. O raio de luar que desce no ápice da cerimônia sobre todos os casais sacerdotais é o chifre amalteano. Andros sente claramente a presença do Deus e da Deusa.

Correspondências

O faraó Akenat II olhava satisfeito para sua obra que estava adiantada no cronograma. Ela estava deixando a cidade de Tebas com a sua marca e garantindo o implantação total do culto a Athon, suprimindo outros templos e apagando o nome dos outros Deuses. Ele fica feliz e aliviado que a semana passou em paz e silencio após a passagem e interferência de sua esposa.
O faraó estranhou a forma como ela apareceu, estranhamente dócil e suave, surpreendendo os engenheiros e pedreiros com sua sabedoria e mudando seus planos de acompanha-lo nas obras no dia seguinte. Ele não deu muita atenção aos motivos que ela deu para essa viajem especial, na verdade isto veio a calhar, pois o livrou de imaginar um motivo para afasta-la das obras e evitar mais participações dela entre os cismados engenheiros e pedreiros.
O faraó aproveita a sombra e senta em sua cadeira real para beber um gole de vinho de tâmara gelado, quando seu descanso é interrompido com a chegada de um mensageiro. Apesar das roupas, o mensageiro não era obviamente egípcio, ele tinha traços semitas. O rolo que ele entrega está escrito em copta, a forma de escrita popular no Egito e a mensagem tinha um conteúdo estranho.
Vossa Celeste Majestade, Faraó Akenat II
Eu Vos escrevo na data em que meu povo comemora a Pessach, o dia em que os Judeus saíram do Egito para voltarem à Terra Prometida, Eretz Israel. Nosso povo viveu como servos do faraó Ramsés que foi Vosso ancestral que primeiro conheceu o Deus Vivo.
Nessa data especial, eu devo Vos dizer que, mais uma vez, o povo Egípcio e o povo Judeu se unem debaixo do Deus Vivo, que Vós chamais de Athon, os Persas de Ormuz e nós de Yahveh. Vós deveis saber que isto não é uma coincidência, nós também travamos uma luta constante contra falsos deuses e os templos de cultos impuros.
Por isso, eu Vos suplico que me conceda uma audiência para Vos acautelar contra a presença de uma sociedade secreta que, vivendo entre as engrenagens do Governo, tem feito conspirações e planos escusos. Eu tenho indícios de que esta sociedade vem mantendo ocultamente os cultos aos falsos deuses e ajudam na resistência ao culto do Deus Vivo em outras regiões. Caso Vossa Celeste Majestade conceder-me esta audiência, eu coloco à Vossa disposição os serviços dos Inspetores da Ordem de Melquisedeck que vem, com sucesso, acabado com o culto das rameiras na Judéia.
Em serviço do Deus Vivo,
Anás Elijah, rabino ancião, sinagoga de Jerusalém.

O faraó lembra da história de Ramsés, seu real ancestral, o primeiro faraó que concedia aos servos o direito de acumular posses e ao servo estrangeiro a permissão de comprar sua liberdade, voltar à sua terra natal ou adquirir a cidadania egípcia. Enquanto administrativamente Ramsés mostrou-se à frente de seu tempo, em termos espirituais ele estava perdido em meio às superstições antigas. A libertação dos Hebreus pelo faraó Ramsés só foi comparável em nobreza com a libertação dos Judeus pelo rei persa Ciro.
O faraó Akenat sempre ficou sensibilizado com a história dos Hebreus e seus descendentes diretos, os Judeus, que mais uma vez estão sujeitos à servidão pelos Romanos. Os Egípcios sabem o que é ter o reino diminuído a uma colônia, eles estiveram dominados por Gregos, Assírios e Persas. O pior não é a submissão, é a invasão de línguas, de hábitos, de credos, de deuses estranhos que acabam por desfigurar a alma egípcia.
Sem demora, o faraó Akenat chama pelo escriba real para que seja redigida uma resposta em aramaico, como uma gentileza em troca da mesura que Anás teve ao redigir a carta dele em copta. Na carta, o faraó quis mostrar sua preocupação com o passado de sua amada rainha.
Vossa Reverência, rabino ancião Anás Elijah.
Nós recebemos Vossa mensagem uma semana após a festa do Pessach, que foi celebrada pela comunidade judaica local, que goza de nossa simpatia e proteção, por seus hábitos virtuosos e por venerarem o Deus Vivo, em harmonia com o culto a Athon, demonstrando que nossos povos compartilham o mesmo ânimo.
A história de Vosso povo se assemelha com o nosso, mas não temos a mesma experiência na luta contra os falsos deuses e cultos. Nós estamos tentando corrigir séculos de crendices e superstições e Vossa sabedoria é bem vinda, desde que não perturbeis nossos nobres e a realeza. Como Vós sabeis e é publico, Vossa Magnifica Majestade, a rainha Nefter, pertenceu outrora `a casta das sacerdotisas de Ísis, cujas cerimonias, rituais e práticas eram contrárias aos desígnios do Deus Vivo.
Considerando que esta carta chegue em Vossas mãos no fim do mês de Sivan ou no início do mês de Tamuz, nós resolvemos conceder-vos uma audiência para o décimo quinto dia de Vosso mês de Av, para que Vós possais observar os dias de culto ao Deus Vivo.
Pela Luz de Athon,
Faraó Akenat II

Corações de Petra

Por caminhos conhecidos apenas pelo nômades, um trio segue através das dunas do deserto, rebocando um estranho pacote amarrado nas costas de um camelo. No meio da vastidão estéril, uma formação rochosa se destaca e para lá o grupo se dirige.
Em um determinado ponto onde é possível ver a rocha escavada pelo tempo e mãos humanas, eles param para se identificarem ao destacamento de dez guardiões que impedem a passagem de estranhos. Os viajantes possuem os papeis confirmando suas identidades e filiação, mas os guardiões cismaram com o cativo amarrado e vedado no último camelo.
O mais velho dos guardiões, possivelmente o chefe, foi até os anciãos da sinagoga de Petra para perguntar o que deviam fazer, uma vez que três irmãos insistiam em levar o prisioneiro para a cerimonia a fim de ser iniciado.
Enquanto aguardavam, Zacharias, Zadoque e Johannes seguravam firmemente nas franjas de seus mantos, entoando suplicas ao Principio Inefável, com receio de serem pegos pela tempestade de areia que se aproximava. O guardião voltou trazendo um ancião que se aproximou e olhou o trio um a um nos olhos e depois examinou o quarto homem. Os Deuses Antigos estavam de bom humor, pois fizeram com que os quatro pudessem entrar em Petra, apesar deles não os louvarem.
A abertura na rocha é estreita, todos tem que seguir em fila indiana até onde o maciço de pedra se abre até o céu. Conforme todos entram na parte aberta, vigilantes postados nas ranhuras ao longo das paredes os observam, mantendo seus arcos retesados e suas flechas apontadas, prontos para dispararem. O ancião que havia seguido até a parte de fora bate de forma ritmada em uma pesada porta de madeira, ricamente entalhada. Como uma forma de senha, as batidas fazem a porta abrir e só então depois os vigias relaxam seus arcos. Uma vez dentro da sinagoga, o ancião bate palmas e os servos do templo aparecem.
- Por gentileza, nobres cavalheiros, sigam os servos. Eles os levarão a suas celas, onde os senhores poderão se banhar, trocar de roupa e se prepararem para a cerimônia.
- Os senhores podem cuidar de nosso amigo?
- Os senhores o trouxeram, ele é de vossa responsabilidade.
Os servos tiram o pobre Eleaser de dentro do saco que o cobriu durante todo o percurso involuntário, o livraram das amarras e da mordaça. Eleaser abriu seus olhos aos poucos devido às péssimas condições em que viajou. Zacharias não quis arriscar e o segurou pelo braço, levando-o consigo enquanto seguia o servo. O trio não gostou de Ter que ficar em celas separadas, mas mesmo sendo contra as regras Zacharias empurrou Eleaser para a sua cela e subornou o servo para nada denunciar. Percebendo que as forças voltavam a seu amigo, Zacharias achou melhor por as cartas na mesa.
- Meu velho amigo, nós vamos passar algumas noites juntos nesta cela. Para nossa segurança é bom deixar algumas regras combinadas.
- Pelo Deus Vivo! Tu me bates, me seqüestras, me amarras, me traz a este local impuro e vem falar em regras?
- Silêncio! Primeira regra! A segunda é que ninguém pode saber que dividimos a mesma cela. A terceira é que tu não irás tentar fugir daqui. A quarta é que tu irás colaborar. A quinta é que tu não contarás sobre o que aconteceu enquanto estivemos juntos.
- Imagino que se eu não observar estas regras, estarei morto.
- Sim, mais eu e todos os outros irmãos.
- Tu consideraste de que isto de forma alguma me traria remorso?
- Acredite, Eleaser, existe coisas piores do que morrer e ir para o Sheol.
Eleaser sabia que não tinha muita escolha, apesar de amarrado e vendado era possível sentir que tinha passado muitos dias de viagem no deserto e ele não tinha a menor idéia de onde ele estava. Sentando no catre de palha, assentiu com a cabeça.
- Excelente. Descanse enquanto eu pego comida e água para ti.
Zacharias sai da cela confiante na palavra de Eleaser, que se deita e se ajeita no catre de palha e dorme. Duas horas depois Zacharias volta e acorda Eleaser.
- Aqui está tua comida. Lentilha, cevada, peixe e água. Como pode ver, eles não são bárbaros e observam a dieta dos homens santos.
Eleaser pôs suas mãos sobre o prato e o comeu devagar para mostrar que ainda mantinha sua dignidade. Assim que terminou, Zacharias o pôs em pé e ambos seguiram pelos corredores.
- Venha comigo conhecer a biblioteca. Tu ficarás assombrado.
Eleaser fica encantado e entretido ma biblioteca pelo período da semana que antecedia a data da cerimônia. Eleaser ficou assombrado com os rolos da Torah bem conservados e mais antigos do que a versão que ele leu em Jerusalém. As primeiras Torah foram escritas na época do Segundo Templo, após a libertação do povo Judeu pelo Império Persa e cópias eram dadas a cada sinagoga com autenticação dos rabinos mais velhos. Quando os Judeus foram dominados pelos Gregos e depois pelos Romanos, as cópias tinham que serem feitas ocultamente e sem autenticação. Eleaser olhou a parte final dos rolos, onde ele viu o autenticador daqueles textos: Anás. Ao voltar à cela para dormir, por alguns minutos Eleaser remoeu consigo as historias que Zacharias e Zadoque lhe contaram. O que ele faria se fossem verdadeiras? Então chega a noite do primeiro Sábado do mês de Sivan, que seria de lua cheia e o começo do Outono. Eleaser percebe que há uma grande movimentação e Zacharias entra na cela com a face lívida.
- Por Abraão e pelo Deus Vivo, Eleaser, a sua vida, a minha e a de nossos irmãos está em tuas mãos. Tu irás participar da cerimônia e aceitará sua iniciação ou prefere conhecer o Abismo?
- Apenas diga o que devo fazer.
- Quando o sacerdote perguntar quem quer atravessar o Abismo, tu deves se aproximar respeitosamente do círculo marcado no chão e se apresentar. Quando o sacerdote perguntar qual a senha para entrar, tu deves dizer perfeito amor e perfeita confiança.
- E depois?
- Mais nada, faça o que te disserem fazer.
Eleaser entrega sua alma nas mãos do Deus Vivo e se justificou de seguir adiante com sua fingida colaboração com uma oração silenciosa.
- Senhor, sabeis que só Vós sois Deus. Mas se eu quiser matar a Serpente que Vos afronta, eu devo entrar nesse círculo e cortar a cabeça da Serpente assim que encontra-la. Eu Vos suplico por Vossa ajuda e proteção, pois a minha vitória será para Vossa glória.
Eleaser assinalou com a cabeça e Zacharias entendeu que ele colaboraria e ambos seguiram, juntando-se a Zadoque e Johannes.
- Então, Zacharias, teremos que usar a força?
- Não, Zadoque. Eu conheço Eleaser e ele sempre cumpre com sua palavra.
Johannes faz um sinal de aprovação para Zadoque e o quarteto segue para o templo no interior da sinagoga. Eleaser se impressiona com a extensão do templo a ponto de se perguntar se ainda estavam dentro da rocha onde Petra foi escavada. Os amigos de Eleaser tiram suas roupas e Eleaser os imita meio embaraçado, mas percebe que dentro do círculo todos estão nus. Os quatro se juntam a um grupo que espera pacientemente pelo inicio da cerimônia, na parte externa do círculo. Quatro enormes pratos de cobre postados em pontos eqüidistantes são golpeados, produzindo um som forte, estrondoso e sobrenatural. Cânticos vão preenchendo o imenso salão conforme o som dos pratos se esvai, incensários são acesos e enormes tochas revelam o altar central. Silencio e todos os celebrantes se ajoelham, sendo imitados pelos convidados. Discretamente Eleaser olha em direção ao altar central e vê entrar uma belíssima mulher, gravida e despida, que senta em um trono no altar central. Então o rabino sacerdote entoa uma saudação cerimonial, se dirigindo à mulher.
- Salve Sagrada Senhora! Santa Sacerdotisa que representa Shekinah nessa celebração do equinócio. Nós vos suplicamos para que abras os portais das colunas que sustentam este mundo.
Nefter se levanta e sente a emoção de conduzir um culto novamente. Apesar de sua grande experiência, um pouco de nervosismo sempre acontece, cada cerimonia é única. Eleaser observa a sacerdotisa indo a pontos logo abaixo dos grandes pratos de cobre, fazendo sinais e dizendo palavras estranhas. Ao passar próximo de onde ele se encontrava, Eleaser sente que essa não é uma sacerdotisa qualquer do culto das rameiras, existe uma aura de poder, dignidade e nobreza em volta dessa admirável mulher e ele sente medo. Nefter completa a sagração do círculo e retorna ao trono no altar central, fazendo com que todos os celebrantes se levantem e recomecem os cânticos.
A cerimônia chega ao seu ponto mais alto e alguns rabinos se aproximam do grupo que aguarda fora do círculo. Gestos no ar simulam a formação de uma passagem e os convidados são desafiados, um a um. Conforme entram, suas mãos são amarradas pelos pulsos, atrás das costas e são levados por cordas mais grossas presas ao pescoço. Eleaser, bem instruído por Zacharias, também é admitido dentro do círculo e junta-se aos demais de frente ao altar, ficando de frente à sacerdotisa.
- Santa Senhora, nós vos suplicamos para que escolhas um destes profanos para que seja feita a União Sagrada que trará sobre nós as bênçãos do Deus Vivo e da Shekinah.
Nefter olha para o rabino e para os homens amarrados à sua frente. Os cânticos são outros, os símbolos estão misturados, mas na essência os Ritos Ancestrais estão sendo celebrados ocultamente por estes judeus. Ela respira fundo, pois sabe que é a única sacerdotisa presente neste círculo e terá que honrar os Deuses Antigos com estes homens, mas terá que escolher o primeiro. Eleaser sente sua alma em risco e se encolhe ao máximo atrás dos demais, clamando silenciosamente pela proteção e misericórdia do Deus, que parece distante e ausente. Outro poder está no comando e Eleaser sente sua espinha gelar, ele olha para a sacerdotisa que então enfaticamente olha e aponta para ele. Imediatamente Zacharias e Zadoque o pegam pelos braços, o levando para a sacerdotisa que deixa o trono e se deita no altar, em uma parte acolchoada. Zacharias o deixa a poucos centímetros do corpo da sacerdotisa e sussurra no ouvido de seu amigo uma recomendação.
- Este é teu momento, amigo. Faça amor com a sacerdotisa, tu passarás a ser um iniciado e tu poderás conhecer toda a glória do Deus Vivo.
Zacharias dá um pequeno impulso em Eleaser que cai entre as pernas da sacerdotisa. Eleaser luta contra o desejo, mas o corpo é fraco, o cheiro da mulher, o toque da pele macia, as mãos amarradas fazem com que o controle mental desapareça. Eleaser sabe que está possuído, o Deus Vivo não mais está com ele e seu corpo assume todo o controle, fazendo com que Eleaser se arraste para cima do corpo da mulher, fazendo seu rosto roçar nos pelos pubianos dela, passar pelo ventre e pelos vãos entre os seios, até ficar olho no olho. Olhos que Eleaser nunca irá esquecer e estará em seus pesadelos.
Nefter olha satisfeita e vitoriosa para sua presa. Ela nunca tinha visto Judeus participarem dos Ritos Ancestrais ou de celebrarem a Religião Antiga. Ela lembra dos dias em que os Judeus eram uma das tribos dos Hebreus que foram, junto com seu povo, adoradores dos Deuses Antigos. Ela sente que o homem desconhecido que ela caprichosamente escolheu está num terrível dilema, sente que ele tenta resistir ao impulso natural de seu corpo. Ela então ajuda o corpo, inserindo o membro do homem em sua vulva, o enlaça com suas pernas e começa com o movimento de cópula.
Eleaser sente pela primeira vez um toque tão intimo, profundo e suave com uma mulher. Acostumado a uma vida fria, vazia e estéril, distante de qualquer carinho ou amor, a experiência não o enoja. A mente treinada e condicionada desaparece em uma imensa onda de luz liquida e ele deixa ser arrebatado pelo êxtase.

Panis et Vinis

A exuberante floresta cheia de bichos que Andros só havia ouvido falar de relatos dos legionários romanos cercava os viajantes. A trilha era bem rala e escassa, qualquer passo ou virada na direção errada e os dois viajantes poderiam se perder para sempre nesta mata selvagem. Mas o velho Scire tinha uma aparência tranqüila e serena, parecia estar passeando nos campos da Bretanha, seu lugar de origem. A densa mata só abriu conforme eles chegavam a Lívia, a cidade mais extrema do Império Ariano, cuja técnica de construir cidades em meio a selva as manteve intactas mesmo depois de tantos séculos. Os impressionantes pisos de pedras entalhados ostentam orgulhosamente a poeira, mas ervas rasteiras cresce nas ranhuras entre os pisos. Andros reconheceu que havia visto símbolos semelhantes aos entalhados nos pisos, tanto em Ephesus quanto em Cairo, o fazendo lembrar das discussões acadêmicas na Grécia de como tantos povos, em distancias tão longas, em tempos tão distintos, puderam produzir símbolos místicos tão semelhantes. Como que adivinhando os pensamentos de Andros, o velho Scire enfim quebra o silêncio.
- Não se engane com teorias acadêmicas, jovem mestre. Não estamos vendo uma cultura descendente dos Atlanteanos ou Lemurianos. Alguns poetas sonhadores querem crer que os britânicos são os sobreviventes de Tróia, mas existiam povos ali muito antes que a civilização Minóica atingisse seu auge. O que vemos aqui é a mistura do que os Arianos trouxeram de sua terra pátria, com a cultura Pelasga que eles assimilaram ao conquistar o que agora é Bizâncio, mais a cultura local dos Dravidianos, o povo nativo da região do Indus. Na história da humanidade, vencidos se misturam aos vencedores e ambos se tornam uma outra cultura. Por mais terrível e tirânico que seja o Estado, o povo sempre manterá seus segredos e tradições. Finda a tirania ou morto o tirano, as pessoas tendem naturalmente a manifestar a Antiga Religião, a adorar os Deuses Antigos e honrar seus ancestrais.
- Eu gostaria de crer nisso, mas na Pérsia o culto a Ormuz cresce cada vez mais, no Egito o faraó também está se esforçando para instaurar à força o culto a Athon e em Judá é crescente a pressão dos rabinos pelo culto a Yahveh.
- O que você vê aqui são as ruínas do Império Ariano. Eles também trouxeram um culto parecido com o que domina a Pérsia. Ele reinaram absolutos e por todo o Império só existia o culto a Ahruda Mazda. Mesmo assim, os servos eram todos Dravidianos e com engenhosidade e malícia eles conseguiram esconder como temas decorativos esses símbolos que nos são tão preciosos e conhecidos. O Império sumiu, a Arte ficou. Por mais que dure essas revoluções monoteístas, elas não durarão para sempre, existem divisões dentro delas mesmas que a farão ruir em vários cismas, cultos ou seitas ou simplesmente perderão os poderes, as pessoas terão mais liberdade, os Ritos Ancestrais reaparecerão e lentamente todos estes Impérios religiosos desaparecerão.
O velho Scire falava com tal segurança que parecia adivinhar o futuro. Andros começou a acreditar ao ver na entrada de Lívia os mesmos inconfundíveis dois pilares que ele conheceu em Ephesus e viu em Delphos. Conforme se aproximavam dos pilares e entravam na cidade, um grupo de quatro pessoas se aproximavam deles, acenando com boas vindas. Quando chegaram bem perto, Andros pode perceber que se vestiam de uma forma incomumente familiar, pareciam ser dois sacerdotes e duas sacerdotisas dos Mistérios de Eleusis. Sinais misteriosos com as mãos foram trocados de cada lado, identificando todos como Iniciados nos Mistérios Antigos. O sacerdote que parecia ser mais velho e experiente deu as boas vindas aos peregrinos.
- Feliz encontro, mestre Scire. Nós aguardávamos ansiosamente tua chegada. Entretanto, não sabíamos que viria acompanhado. Quem é o jovem mestre que tão habilmente mostrou os sinais dos Iniciados?
- Feliz encontro, mestre Indra. Para mim é uma grande satisfação encontrar irmãos e irmãs da Arte em terras tão longínquas. Quanto ao jovem mestre, creio que é bom que ele se apresente.
- Eu sou Andros. Nascido, criado e crescido em Ephesus. Em minha busca por compreender melhor a Antiga Religião eu estive em muitas escolas de mistérios, perambulei de Bizâncio a Cairo, celebrei os Ritos Ancestrais em Minos, Etrúria e Galiléia. Eu me juntei a Scire em algum ponto da velha estrada que sai de Enki em direção a Bizâncio, desviando em direção a Lívia, onde espero compreender mais dos Mistérios Antigos e talvez encontrar o chifre amalteano.
O casal de sacerdotes mais novos taparam a boca com as mãos para tentar segurar a risada, no que forma repreendidos pela sacerdotisa mais velha no dialeto local.
- Perdoe nossos jovens aprendizes, jovem mestre Andros, eles se esqueceram de como é a vida de um buscador, de um peregrino, uma falta de humildade indesculpável.
- Eles agiram certo, tolo fui eu em minha ingenuidade. Eu espero poder ouvir de vós o conhecimento que falta.
- Muito justo e muito pertinente teu pedido. Nós te contaremos durante a refeição cerimonial que faremos em vossa homenagem.
Os dois casais de sacerdotes entram com os peregrinos em Lívia, se dirigindo a uma ruína de um antigo templo a Agni, uma forma posterior desenvolvida do Deus Ahruda misturado ao Deus do Fogo e ao Deus do Sol local. Quando os Arianos debandaram, voltando à sua terra natal, seus filhos e descendentes mestiços com Dravidianos ficaram e retomaram o culto dos ancestrais, removeram cuidadosamente o telhado e substituíram no altar central a estátua de Agni pelos Deuses Antigos, mas ainda mantendo a estátua ariana respeitosamente intacta em um ponto do tempo. O arranjo diplomático mostra um bom efeito no cenário, cuja beleza escaparia a um observador mundano. No centro do templo havia uma mesa onde sete pessoas aguardavam a chegada do grupo.
- Feliz encontro, irmãos e irmãs. Celebremos e festejemos a chegada de nossos irmãos Scire e Andros.
Mais troca de saudações, sinais, cumprimentos e apresentações de ambos os lados. Todos sentados e acomodados, Indra toca uma sineta, fazendo entrar dois rapazes com cestos de pães e três moças com odres e vinho. O velho Scire cutuca Andros e cochicha algo em seu ouvido.
- Os Dravidianos ensinaram aos Arianos sobre o pão e o vinho, os Arianos deram a tecnologia para melhorar a plantação de trigo e uvas e melhorar a produção de pão e vinho.
- O mais incrível é ver que culturas civilizadas tão antigas e tão distantes desenvolveram a produção de pão e vinho e igualmente transformaram estes em alimento sagrado nas cerimônias aos Deuses Antigos.
- Não posso confirmar nem negar, mas é bem possível que muitos de nós copiamos e assimilamos estas receitas. A verdade, meu jovem mestre, é que não pertence a povo ou cultura algum os tesouros da humanidade e dos Deuses Antigos.
Indra se levanta e junta-se a ele a sacerdotisa que deve ser a companheira dele na celebração dos mistérios. Indra tira de seu habito monástico uma longa adaga enquanto a sacerdotisa pega um belo cálice do altar aos Deuses Antigos. Os cestos de pães são expostos a Indra e a sacerdotisa enche o cálice com vinho. Indra traça com a ponta da adaga um pentagrama logo acima dos pães, enquanto a sacerdotisa beija cinco vezes a borda do cálice com vinho.
- Bendito sejam estes pães por Shiva, Senhor da Semeadura, Senhor da Chuva, Senhor da Ceifeira. Dele é o grão, a farinha, a massa e o fogo. Recebamos em nosso corpo o corpo de Shiva.
- Bendito seja este vinho por Kali, Senhora da Plantação, Senhora dos Frutos, Senhora da Colheita. Dela é o bago, a maceração, o fermento e a ânfora. Recebamos em nosso sangue o sangue de Kali.
Conforme os presentes recebiam o pão, fazem uma prece silenciosa, colocando as mãos em forma de um triângulo sobre o pão e o come. Conforme recebem um copo com vinho, fazem mais uma prece silenciosa, colocando as mãos em forma de triângulo invertido sobre o copo e o bebe.
Andros recebe o pão e medita. O pão é o símbolo de que os Deuses nos dão alimento através da Natureza, mas que é preciso cultivar, cuidar, coletar e transformar. Andros recebe o vinho e medita. O vinho é símbolo de que os Deuses nos dão a vida para tirar proveito, para que haja alegria, prazer, festa e amor.

A Ordem de Hórus

A rainha Nefter está com a beleza deslumbrante que cabe a toda mulher em seu terceiro mês de gravidez. Mas como toda mulher ativa e independente, ela fica enjoada com o cuidado excessivo de suas aias e cansada de ficar parada no Palácio Real de Kefrem. Ela lembra que deu a luz em um estábulo ao seu primeiro filho que se tornou comandante do exército do Egito e quando Ketar veio ao mundo, as condições estavam bem longe de serem ideais. Ela se levanta, toma um banho, veste uma de suas roupas de viagem, chega no estábulo e pega uma das charretes reais.
- Levem-nos até onde o faraó se encontra.
O capitão da guarda nem pisca, abre os portões do palácio e o charreteiro estala o chicote para os cavalos trotarem. O charreteiro, visivelmente nervoso, segue pela alameda em direção ao obelisco para então seguir pela alameda principal da cidade de Kefrem, sem ter a menor idéia de para onde deve ir.
- Como é teu nome, charreteiro?
- Harup, Vossa Magnifica Majestade.
- Querido, por favor me leve até Tebas. Eu sei que Akenat está lá.
- Imediatamente, Vossa Magnifica Majestade.
- Querido, vamos passar oito horas juntos, não acha ridículo ficar com tanto formalismo? Me chame de Nefter.
- Ahn...sim...ahn...senhora Nefter.
Nefter ri, ela sempre se diverte com a reação dos serviçais quando ela quebra estas paredes sociais invisíveis que separam as pessoas comuns dos nobres. Ela conversa com Harup como se fossem íntimos, familiares, ela provoca Harup como toda mulher gosta de provocar um homem, ela divide seu cesto com tâmaras e o odre com água fresca, equipamento obrigatório em toda charrete real. Enfim Harup cede e deixa o protocolo de lado e conta algumas piadas sobre homens, mulheres, sexo e o faraó. Ele ganha confiança com as risadas de Nefter e ousa lhe fazer a pergunta proibida, mas que todo povo quer saber.
- Senhora Nefter, é verdade que a senhora é uma sacerdotisa dos cultos proibidos pelo faraó?
Nefter olha para a paisagem enquanto passa a mão nos cabelos, fingindo que não ouviu a pergunta. Ao longe, mostrando a tênue linha do Nilo, as preciosas plantações, nuvens anunciando mas chuvas e algumas estrelas enfeitando a noite que chega. Nefter gira lentamente seu rosto na direção de Harup, deixando que a luz da lua faça um belo efeito.
- Harup, ama sua esposa?
- Sim, como a própria vida.
- Então nunca perguntou a ela de seus segredos mais íntimos.
Harup olha por uma ultima vez a rainha em seus profundos e belos olhos negros. Mais alguns minutos e toda a magia daquelas oito horas acabariam. Harup faz questão de aproveitar bem estes minutos.
- A senhora seria muito mais amada pelos egípcios como sacerdotisa do que como rainha. A senhora não é a única a ter que guardar segredo.
Nefter sorri e se ajeita. Está na hora dela reassumir o papel de rainha. Mas isso não irá tirar a satisfação dela de ver que ainda é possível ser surpreendida pelo povo comum.
- Nós agradecemos por teu serviço, companhia e considerações. Nós saberemos recompensa-lo. Boa noite.
- Boa noite, Vossa Magnifica Majestade.
Para a sorte do charreteiro estas ultimas palavras forma ouvidas pelo pajem, não pelo capitão da guarda do Palácio Real de Tebas, que apareceu a seguir para pavonear a rainha. Nefter detesta este tipo de gente que faz carreira dentro da corte puxando o saco. Nefter não dá atenção a ele nem aos ministros inúteis que cercam o faraó. Ela entra sem cerimônias na Sala de Reunião, com o faraó discutindo com os engenheiros e pedreiros alguns problemas com suas obras.
- Então, meu divino esposo, qual é a dificuldade agora?
- Minha divina esposa, não devia ter vindo aqui nestas suas condições.
- Minhas condições? Por Athon, esta não é a primeira vez que fico grávida ou que vou dar a luz. O que os meninos tanto discutem?
- Com o devido respeito, Vossa Magnifica Majestade, nós estamos com um problema de cálculo...
- Um problema muito complicado...
- Estes pedreiros teimosos dizem que não é possível cortar a pedra assim...
- Estes engenheiros bufões querem saber mais de corte de pedras do que nós...
- Por favor, meninos, controlem-se. Pelo que eu vejo na planta, tudo se resume a cortar um ângulo na calcita. Se a serra for constantemente banhada com água misturada com areia, vós podereis cortar como bem quiserem.
- Mas... isso..
- Sim...isso...é possível.
- O que estão esperando? Movam-se!
Os engenheiros e pedreiros recolhem as plantas e saem às pressas, imaginando como a rainha pôde resolver tão rapidamente um problema que só poderia ser resolvido por um profundo conhecedor dos Mistérios do Grande Arquiteto. Atarantado, as aliviado com a solução e continuação de suas obras, o faraó enfim pode ficar à vontade com sua rainha.
- Por Athon, mulher, o que fazes aqui?
- Eu também tive saudades suas querido, obrigada por dizer.
- Pare de dissimular, tu sabes que é muito perigoso andar pelo local das obras.
- Querido, antes que me conhecesse, eu lidava com chacais e leões. O que pode ter em um canteiro de obras que eu não possa lidar?
- Isso foi antes, quando tu eras uma guerreira das tribos nômades que desafiavam os faraós e quando tu eras uma sacerdotisa de Ísis que desafiava Athon. Agora és rainha do Egito e mãe do herdeiro do trono. Tu vais desafiar a vida, a sorte e o destino?
- Nossa, tu ainda levas a sério demais nossas conversas! Olha, eu prometo ser boazinha e não dar trabalho. Eu só quero ficar ao lado de meu marido.
- Ahn...bem...certo. Eu vou pedir para prepararem um quarto decente para ti.
O faraó deixa a rainha na Sala de Reuniões imaginando porque ela estava tão flexível e doce. O faraó ficava dividido entre ser um efeito da gravidez ou ser uma intercessão de Athon. Assim que o faraó saiu, a rainha percebeu que mais alguém havia observado e ouvido sua conversa. Ela encara o vulto ao longe, friamente.
- O que desejas?
- Continuar com nossa agradável conversa, senhora Nefter.
- Harup? Não lembro de ter te autorizado a tal ousadia fora da charrete. O que significa isso?
- Simples, minha senhora. Providência dos Deuses. Eu estava justamente designado a falar contigo em nome da Ordem de Hórus.
- Ordem de Hórus?
- Sim, minha senhora. Os responsáveis por sua salvaguarda. Os responsáveis pela fuga segura de sua filha Ketar e de sua chegada em Esmirna.
- Minha filha! O que sabe dela?
- Que ela tem seu templo, é bem sucedida e está grávida, como a senhora.
Nefter chora. Fica espantada em sentir mais uma vez lágrimas percorrerem seu rosto que ficou duro pelas amarguras da vida. Saber de sua filha, que ela está bem e está para dar a luz a um herdeiro que pode dar continuidade a sua linhagem sacerdotal a emociona profundamente.
- Harup, querido, eu estou em duplo débito contigo e não sei como recompensá-lo.
- Eu ficaria satisfeito se me ajudasse a cumprir com minha missão.
- E isto envolve a Ordem de Hórus.
- Sim. E uma cerimônia da Antiga Religião no Solstício de Verão, na sinagoga de Petras.
- Petras? Sinagoga? Rabinos? Isso está ficando estranho demais, até para mim.
- Eu posso te explicar tudo durante a viajem, se sairmos amanhã em direção a Petras.
- O faraó, meu esposo, irá desconfiar da minha mudança de planos.
- Deixe ele conosco, nós cuidaremos dele, como sempre temos cuidado.

A conspiração interna

Ao sul do lago da Galiléia, ao norte da cidade de Gilead, no deserto de Siloe, Eleaser luta por sua liberdade e por sua alma. Johannes, Zadoque e Zacharias tentam segurá-lo, amarrá-lo e vendá-lo. Eles estão decididos a levá-lo a Petras, uma sinagoga encravada na pedra para que os rabinos dos círculos esotéricos pudessem se encontrar com os sacerdotes dos antigos ritos.
O destino era longe, 15 dias de viagem, mas o tempo e o local tinham uma razão estratégica. Eles sabiam que naquele lugar, em exatas duas semanas, seria realizado o Sabath do Solstício de Verão, com a presença da cúpula do Sinédrio, da Ordem de Melquisedeck e da Ordem de Hórus. Eles sabiam que, como a Ordem de Melquisedeck operava em Judá, a Ordem de Hórus operava no Egito ocultamente, nos meandros da máquina do estado, entre príncipes e nobres que habilmente manipulavam o fraco faraó Akenat II, mas isto fica para outro capítulo. O trio estava decidido a fazer com que Eleaser subisse mais um degrau, conhecesse um grau mais reservado da Ordem de Melquisedeck, isto era um recurso arriscado, extremo e violento, mas Eleaser era provavelmente o único Inspetor que ainda seguia o doutrinamento fajuto da Batalha Espiritual, ele precisava saber qual era a verdadeira missão dos Inspetores e o objetivo da Ordem.
- Em nome do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, me soltem!
- Mas é por Deus que queremos que tu conheças o credo de Abraão, Isaac e Jacob.
- Correto. Johannes, declame a Shema Israel.
- Ouvi, oh Israel, que o Senhor é Deus.
- Zacharias, qual o segredo na declamação?
- Aquele que saiu do meio do povo comum e quer seguir no caminho espiritual deve responder: e Shekinah é a Soberania e o Trono.
- Blasfêmia! Sacrilégio! Vós estais dominados por Satanás.
- Johannes, quem é Satan?
- O Anjo criado por Deus para nos testar, nos provar.
- Mentira! Mentira!
- Então leia na Torah, meu caro, bem aqui em Isaías, 45,7.
- Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.
- Nós fazemos com que o Bem e o Mal se manifestem neste mundo. Isto é livre-arbítrio. Deus nos criou com a habilidade de escolher e ter consciência das conseqüências destas escolhas.
- Quem não tem responsabilidade viverá sempre preso em um complexo de culpa e com medo permanente das tentações.
- Não há santidade na virtude quando, por medo, se deixa de se agir como se deve.
- Sofismas! Falácias!
- Existe um código secreto, uma chave, entregue somente aos Iniciados dos círculos esotéricos da ordem, essa é a técnica da Cabala.
- Infâmia! Profanação!
- Todos os rabinos, os Altos Sacerdotes e os Digníssimos Anciãos. Todos, sem exceção. Aprenderam as chaves secretas nos círculos esotéricos, na Pérsia, com os Altos sacerdotes de Ormuz, que conviviam com os Altos Sacerdotes dos Cultos Antigos.
- Nós ainda éramos pastores de ovelhas e os Altos Sacerdotes dos Cultos Antigos, que existiram bem antes de Abraão, receberam uma mensagem perturbadora dos Deuses Antigos.
- Mentira! Invenção! Só o Senhor é Deus!
- A mensagem é que os segredos e mistérios não existiam mais, todos tinham acesso aos Deuses Antigos. Seres astrais e humanos conviviam como iguais e as celebrações não aconteciam mais.
- Era necessário fazer as pessoas acreditarem que havia uma separação. Assim, aos poucos, a magia foi confiada a poucos escolhidos. Lentamente, os sentidos humanos se tornaram grosseiros demais para perceber o mundo astral.
- Assim começaram a aparecer os sacerdotes, o assombro e a reverencia retornaram, os Deuses eram novamente adorados em cerimônias.
- Alguns Deuses entraram em conflito, alguns sumiram e outros foram banidos. Os que permaneceram estabeleceram regras para cada mundo.
- Mas nasceram novos Deuses, que não conheciam a humanidade nem a convenção entre os Deuses Antigos. Estes Deuses ansiavam por autoridade e poder. Eles se infiltraram entre os Deuses Antigos para usar as regras em seu favor.
- Eles perceberam que a ilusão da separação lhes dava margem para agir entre os humanos e com isso conquistar a atenção e a adoração deles.
- Nunca te chamaste a atenção que o primeiro mandamento do Deus Vivo seja "não adorarás a outros Deuses"?
- O Senhor em Sua Infinita Sabedoria assim o fez para proibir a idolatria infame e abominável.
- Por que as pessoas perderiam tempo e material precioso se não para dar forma ao que remotamente lembravam ser a aparência dos Deuses?
- Se não nos fosse permitido fazer imagens ou símbolos das coisas santas nenhum de nós poderia ostentar a marca de Inspetores que tanto nos orgulha.
- Basta. Ele ouviu mais do que merece. Vamos levá-lo a Petra para que ele veja com os olhos e sinta com a pele o que sabemos.

Levantando o véu

Durante sua caminhada até Lívia, Andros conhece um velho pitoresco, que contava as mesmas lendas e sagas que ele conhecia, mas deixava o velho contar assim mesmo porque sempre se admirava com as variações e entonações dadas pelos cronistas.
- Eu venho de uma ilha chamada pelos romanos de Bretanha. Nós demos trabalho aos romanos, resistimos bastante com a ajuda dos druidas.
- Eu não conheço tua ilha, em minhas viagens eu fui até Etrúria. Eu não conheço os druidas, mas conheci os augures romanos.
- Tu irias gostar de conhecer. Ali as sacerdotisas dos cultos antigos celebram juntamente com druidas e romanos em círculos no meio das florestas.
- Eu conheci os Mistérios Antigos nos templos de Ephesus, me espanta saber que eles chegaram tão longe.
- Eu garanto, caro jovem, que aquilo que aprendeu em Ephesus é igual ou semelhante ao que aprendi em Glascow. Tudo começou bem por aqui, com os Kurgans vindo de Lívia, para aumentar o Império Ariano. Eles chegaram em Bizâncio, Etrúria, Gália, Saxônia e então Bretanha.
- Os Ritos Ancestrais são celebrados nos solstícios e equinócios, nas vésperas das Estações e em dias de lua cheia? Há um sacerdote e uma sacerdotisa que executa os Ritos de Fertilidade? Há a nudez ritual, técnicas para a alteração do estado de consciência? Há celebrações com comida, bebida, música e amor?
- Oh certamente que sim, os Kurgans aprenderam isto com os Celtas e estes se misturaram com os hábitos de meu povo. Os Mistérios Antigos viverão para sempre.
- Eu não tenho tanta certeza. Eu vim de uma cerimônia de esbath, feita no lago da Galiléia pela mais bela sacerdotisa dos Ritos Ancestrais que eu conheci. Ela revelou que o mundo será dominado e sofrerá nas mãos dos seguidores do Deus Vivo.
- Eu tive a mesma visão em meu círculo, meu jovem. Ao que tudo indica, os Deuses Antigos estão permitindo que alguns povos escolham, dentre seus Deuses, um apenas para adorarem. Haverão tempos e que pessoas como nós serão perseguidas, presas, torturadas, banidas e mortas. Isto tem algo com a Era em que estamos, a Era de Pisces. Mas apesar de todas as guerras, prisões, perseguições e mortes, os Mistérios Antigos serão preservados dentro dos círculos e secretamente pelos sacerdotes do Deus Vivo.
- O que o faz vir até Lívia de tão longe, então?
- Eu procuro pelo chifre amalteano. E tu, jovem?
- O mesmo que o senhor, mas talvez por motivos e objetivos diferentes. Muito embora eu não saiba onde procurar e com quem falar. Eu não possuo cartas de referência.
- Não se preocupe, mesmo que tenha saído de seu templo em Ephesus sem que sua sacerdotisa saiba ou tenha concordado com sua aventura, tu deve ter recebido um voto de confiança.
- Eu espero que sim, eu venho de uma experiência conflituosa com a jovem sacerdotisa que conheci em Esmirna, a mesma que celebrou o esbath no lago da Galiléia e me expulsou de seu círculo.
- Meu jovem, ela levantou o véu em sua presença?
- Sim e fez a mim e outros tantos celebrarem o Grande Rito com as sacerdotisas que ali estavam.
- Então, meu caro, naquele instante, todos os véus foram erguidos. O que te falta é entender o que aconteceu depois da cerimônia.
- O senhor acha que eu poderei encontrar esta e outras respostas com o chifre amalteano?
- Não, nada que há fora de nós pode realmente nos dar aquilo que deve ser encontrado dentro de nós.
- Se encontrarmos o chifre amalteano, como compartilharemos seu poder?
- Da mesma forma que se compartilha a energia da magia. Veja bem, não há dissipação da energia da magia porque não há lugar onde não há a presença da energia da magia. O brilho e o calor do sol não se dissipam, porque a magia seria diferente?
- Assim como no Alto, se manifesta no Mundo.
- Exatamente, vejo que realmente és um Iniciado. Como é teu nome?
- Andros e o teu?
- Pode chamar-me de Scire.

O problema com as mulheres

Eleaser, Zacharias e Zadoque saem de Jerusalém em direção a Gilead, uma cidade ao sul do lago da Galiléia. Ao chegarem ali, Zadoque sugere fazerem uma leve ceia noturna e dormirem em uma estalagem mantida pela Ordem, onde todos eles poderiam passar a noite sem pagar um siclo. Convenientemente, o restaurante era na estalagem que oferecia outros serviços aos clientes e viajantes, para o horror de Eleaser. Zacharias e Zadoque se fartavam com os pratos generosos da estalagem, comendo as carnes oferecidas enquanto assistiam ao espetáculo das dançarinas. Eleaser mantinha seus olhos em sua frugal refeição feita de lentilha, aveia, frutas e vegetais. Zadoque aproveitou para provocar seu celibatário colega.
- Vejo que o dileto irmão tem uma dieta vegetariana. Isto explica porque não gosta de carne nem de mulheres.
- A dieta de um homem de Deus não pode conter carne nem alimentos proibidos. A carne contém sangue e no sangue está a vida. O consumo de carne nos faz ficar mais apegado à matéria, impedindo a comunhão com Deus. Através destas falhas é fácil uma alma se perder.
- Eu te perguntei em minha casa o que haveria de maligno nestas criaturas tão belas, macias e perfumadas. Quanto mais eu vejo estas dançarinas, mais me convenço que são inofensivas. Com tão pouca roupa onde esconderiam a maldade?
- Nem tudo que aparenta inocência é inofensivo. Eva não viu o potencial no pomo dado pela Serpente e por causa dela Adão cometeu a mesma desobediência a Deus. Por isso que dizem que por um Homem veio o pecado ao mundo e por um Homem o pecado será extirpado.
- Estas mulheres são pecadoras por causa da herança de Adão ou por causa de sua natureza igual ao de Eva?
- Por causa de Eva, as mulheres acabam sendo ferramentas da tentação. Por isso que cabe ao homem a responsabilidade de controlar as mulheres como controla sua concupiscência.
- Então meu caro, porque evita olhar as dançarinas? Nós, homens santos, devemos controlar essas criaturas e as usar para os propósitos de Deus.
- Tu foste pego pela armadilha, crês mesmo que poderá dominar estas mulheres se já as deseja carnalmente? Por conta de ter sempre um leito quente irás servir quem te é servo.
- Meu caro, se não fosse o desejo de Deus que homem desejasse a mulher não teria nos dito "crescei-vos e multiplicai-vos".
- Antes de virmos viver nesse mundo. Agora, existe muita lascívia e luxúria. A Santa União foi distorcida por Satan. Agora vejo homens santos se deliciar com mulheres que, por sua condição, são exploradas.
- Tem certeza de que não será pela carne de uma mulher ou por sua condição que não nos advirá a redenção? Como espera que venha o Messias?
- Certamente não de vós, mas de homens realmente santos unidos dentro da Santa União, ungida por um Santo Rabino, para cumprir sempre as Leis de Deus.
Zadoque riu muito, riu alto. Evidentemente Eleaser não sabia nada do que acontecia dentro dos muros da Ordem nem de como os Messias estavam sendo gerados. No momento certo, ele receberia a instrução e, se recebesse a iluminação, ele o conduziria à Iniciação Secreta que existe dentro da Ordem e que ocultamente vem adorando o Casal Divino como era feito desde o tempo de Abraão, tal como este ensinou a um grupo seleto enquanto deixava para as pessoas comuns o culto a Jeová. Eleaser não entendeu qual era ou quem era a piada, mas foi dormir seu sono da virtude enquanto seus colegas repartiam as dançarinas em outro quarto.
No dia seguinte, Eleaser ignorava seus colegas, enquanto estes falavam piadas sobre mulheres e sexo. Não muito longe de Gilead, bem na margem do lago da Galiléia, uma platéia cercava um homem vestido com pele de cabra, anunciando o Reino de Deus. Eleaser logo simpatizou com a figura, era um homem mediano, de tez escura pelo sol e pela magreza devia se alimentar de raízes, frutas e verduras. Forçando entre a platéia, Eleaser aproximou-se o máximo possível para ouvir o que este homem tinha a dizer.
- Deus está com sua mão pesada sobre Israel por que os Filhos de Deus ainda se dobram diante de ídolos, ainda fazem oferendas nos altos dos montes e procuram os templos das rameiras.
- Amém, amém, aleluia!
- A fúria e a justiça de Deus irá banir todos aqueles que permanecem infiéis aos seus Santos Desígnios. Não se demore! Arrependa-se, pois o Fim dos Tempos virá em breve! Os santos receberão a Vida Eterna e os ímpios a Condenação na Geena!
- Amém, amém, aleluia!
- Eu sou o profeta escolhido por Deus para guiar as Ovelhas de Israel de volta ao Pasto Seguro, eu os irei conduzir pela perfeita senda da obediência às Leis de Deus. Vós sereis purificados, sereis libertos da Nação maligna e poderão habitar na Jerusalém Eterna!
- Amém, glória, aleluia!
- Apresente-se aquele que aceita ao Senhor como Deus para que eu possa batizá-lo como sinal de sua renovação diante de Deus.
As pessoas fazem filas, se confessam, se arrependem, renovam seus votos e então seguem de volta a suas casas, levando consigo a mensagem cheia de ódio e vingança contra aqueles que o profeta lhes apontou como responsáveis por sua condição pecadora. Eleaser está cheio da mesma alegria e êxtase, enfim acertaram na escolha do Messias que viria a conduzir o Povo de Deus de volta ao credo verdadeiro. Assim que partem toda a audiência, atrás deles seus amigos explodem em risadas.
- Muito bom, Johannes, até eu me converteria.
- Zadoque! Meu caro, eu espero que tenha trazido algo para eu comer e beber.
- Evidente. Ah! Este boquiaberto é Eleaser e este ao meu lado é Zacharias.
- Prazer. Desculpe-me por não lhes dar atenção, mas agora eu vou comer.
- Eu não entendo. Isto tudo foi encenado?
- Lógico, meu caro Eleaser. As pessoas que estão em extrema miséria não querem soluções, querem que alguém lhes dê algo para que odeiem. Pelo ódio a um povo, um culto ou um Deus é possível manipular as pessoas, fazer com que elas trabalhem por sua causa.
- Mas e o nosso Santo Propósito?
- Vejo que meu irmão ainda está verde.
- Ele ainda é um soldado. O que acha, Zacharias? Devemos contar aquilo que Anás não contou?
- A questão é se ele está preparado para ser iniciado.

As chuvas vêm em Nissan

Após um esbath bem-sucedido, Ketar acorda ainda exausta e volta para Esmirna, para seu templo. Desta vez, ela é seguida bem de perto pelas duas aprendizes de sacerdotisas, agora aptas a servirem aos Deuses. Seu padrasto, Yussef, resolveu seguir viajem com Lapidatus até Jerusalém, pois estava havendo uma grande movimentação de pessoas em torno de um novo profeta e cada um desses homens importantes de sua vida tinham seus motivos para conhecer este novo profeta. Quando estava no Egito com sua mãe, Ketar conheceu vários profetas e iluminados, a maioria falava no fim dos tempos e na falta de vergonha dos ritos antigos, mas muitos secretamente freqüentavam a cama de sua mãe.
Nos próximos nove meses muita coisa irá mudar na vida de Ketar e ao pensar em sua mãe, ela sente a certeza de que em breve terá um novo irmão, uma vida marcada para trazer alegria e satisfação ao seu padrasto, o faraó Akenat II. Na estrada de volta a Esmirna, ela sente a mudança dentro dela e em sua volta, naquele esbath ela comemorava 13 anos e a providencial ajuda de Lapidatus a deu uma herdeira antes que ficasse velha demais. Suas novas companhias, Miriam e Magdalena, terão que assumir o seu lugar no templo de Ishtar, ela teria que deixar de brincar com Roe e com os serviçais do templo.
Olhando a paisagem árida, ela decidiu então a suspender as admissões do templo, teria que enviar muitas cartas e dispensar os que estavam a caminho. Seguindo logo atrás, Roe estava com a cara mais amarada que o de costume, ele nutrira a esperança de ter o privilégio de dar a Ketar um herdeiro e silenciosamente discutia com os Deuses porque logo um perfeito estranho, um centurião romano. Em alguns dias, a importância dele na vida de Ketar e na do templo diminuirão, o fazendo reconsiderar o convite de seu centurião quando ele deixara a legião romana de ficar morando em alguma vila, em alguma colônia romana.
Pela metade do caminho, Ketar sente um mal-estar, que não devia ser de sua gravidez, havia duas presenças em algum lugar mais ao norte que convinha evitar cruzar o caminho. Ela olha na direção e consegue perceber um pouco quem são estas pessoas que são uma ameaça à sua vida. Um é mais velho, baixo e corpulento. O outro é mais jovem, alto e magro. Um conhece muitos povos e teve contato com muitos sábios. O outro mal conhece o próprio povo e sequer compreendeu os poucos pergaminhos que lera. Um admira as mulheres e conhece os Mistérios Antigos. O outro é claramente misógino e mal conhece o mistério daquele que chamam de Deus Vivo. Um é o acadêmico. O outro, o fundamentalista. Por alguns instantes, Ketar ficou com vontade de ataca-los, mandar uma tempestade de areia, chacais ou simplesmente mata-los. Nada a impedia e poder tinha de sobra. Isto certamente daria algo para seus colegas pensarem, mas Ketar sacudiu os ombros, sorriu e cheia de felicidade deu as boas vindas ao período de chuvas, que começavam a cair sobre o grupo.
Começava o mês de Nissan, a paisagem árida ganharia mais vida, as pessoas seriam mais alegres e cantariam novamente o nome do antigo Deus esquecido, o Deus Chifrudo da Fertilidade, o Senhor dos Campos que foi celebrado entre os cedros da Filistéia, o Senhor dos Grãos que era silenciosamente reverenciado pelos Hebreus nas florestas da Cananéia.
A chuva parou quando o grupo chegou em Esmirna, em frente ao templo que, apesar de ser fim de tarde, ainda tinha uma fila grande de pretendentes ao serviço do templo. Os serviçais do templo ficaram aliviados com o retorno de sua sacerdotisa, tinham muitos pedidos de avaliação e pedidos de bênçãos que somente a sacerdotisa poderia atender. Ketar desceu de seu camelo e energicamente dispersou o grupo.
- Xô, xô! Pelos Deuses, procurem templos em suas cidades! Cuidem de sua família! Não vêem que os tempos estão mudando?
As pessoas vão saindo sem falar nada, mas contrariadas. Ketar se dirige ao seu quarto e Roe vem logo atrás.
- Eu sei o quanto tu querias ter sido o pai de minha herdeira. Oportunidade não faltou, mas estas coisas eu não escolho. Escreva cartas a todos os templos e escolas que ensinam os Mistérios Antigos que nosso templo está suspendendo a admissão ou avaliação de pretendentes ao serviço do templo.
- Imediatamente, Santa Senhora. Eu queria entender o que virá a seguir. Vossa Santidade disse que os tempos estão mudando, mas eu não vejo tão bem quanto Vossa Santidade.
- Estes novos profetas, principalmente os vindos da Judéia. Há uma força nova, algum Deus que tem permissão para agir sozinho. Os Deuses Antigos estão sumindo, os templos estão sendo fechados sem que nenhuma catástrofe ocorra, muitas de minhas irmãs de ministério estão sendo perseguidas, presas e executadas. Isto tem ligação com a profecia que eu disse no lago da Galiléia e está ligado àquele lugar. Não é coincidência que meu padrasto e o centurião que foi escolhido para ser quem me impregnaria estão indo para lá, alegres e curiosos para ouvir o discurso deles. Oh, meu bravo e querido Roe. Haverá tempo que até tu me voltará as costas.
- Por minha vida, isto nunca acontecerá.
- Que seja. O dia que me renegares, morrerás.

A Voz que Clama no Deserto

Eleaser e Zacharias seguiram alegremente a estrada de volta a Haifa até chegar na estrada secundária a Esmirna para então desviar para a rota até Enki para chegar a Galiléia. Anás forneceu-lhes os melhores camelos e providenciou servos, víveres e moedas para a longa viajem. Voltar pela mesma estrada não era ruim para Eleaser, pois agora ele seguia com a pompa e o trato que seu cargo pede, mas Zacharias não conhecia a estrada e as condições de tempo, fazendo com que constantemente reclamasse do calor, bebesse muita água e se manteve debaixo da sombra da proteção sustentada pelos servos. De noite, Zacharias reclamava do frio e freqüentemente se assustava com os sons noturnos. Eleaser, com mais experiência nos assuntos das artimanhas a Noite, apreciava a lua e as estrelas, apreciava o uivo dos chacais, apreciava a melodia do vento.
- Meu caro amigo, tu é bem mais forte que eu. Toda minha atividade se restringia a Antioquia e mesmo a viajem que empreendi para chegar nela foi sofrível e cansativa. Mas ao te ver tão tranqüilo com tantas manifestações do maligno em nossa volta, eu invejo sua experiência.
- Meu caro irmão, a experiência me ensinou que há manifestações e manifestações. A natureza e os animais manifestam espontaneamente o espírito que possuem. Estes espíritos são menores e fáceis de dominar. O espírito mais terrível é o que se aloja na rameira e a orienta nas Artes Negras. Como ele age por permissão de um demônio local, por intermédio da conjuração e consórcio dos espíritos menores, capacita a rameira na execução de suas Artes diabólicas. Assim como o Deus Vivo manifesta sua bondade e benignidade sobre os homens por anjos e auxiliares menores, da mesma forma o Diabo tem os demônios e os espíritos da natureza.
- Deus seja louvado! Somente Deus em sua infinita sabedoria e bondade teria a paciência de agüentar a rebeldia do Diabo e dos homens! Graças a Deus existe homens santos como Anás para nos orientar como proceder com nossas vidas num mundo tão condenado!
- Por isso que é nossa missão sagrada combater ao culto das rameiras e garantir que os homens santos possam falar ao povo para convertê-los desse terrível engano! Nosso Senhor fez o mundo em um tempo determinado e irá consumi-lo em outro tempo determinado. Quem persistir em viver segundo as obras do mundo irá ser consumido com ele. Este é o destino dos infiéis, do culto das rameiras, dos espíritos da natureza, dos demônios e do Diabo.
- Deus seja louvado! Ele criou tudo conforme sua imagem, perfeito. Mas a inveja do Diabo o levou a perder a humanidade e transformar o mundo em seu domínio. Nós estamos levando a todos o conhecimento de sua condição de impureza e a chance de se converter aos caminhos do Deus Vivo. Ainda assim, somos perseguidos, caluniados e difamados!
- Não podemos esperar outra coisa de pessoas em um mundo dominado pelo Diabo e pelas sensações prazerosas efêmeras que a carne traz através do pecado. Por isso que é importante fechar todos os templos das rameiras. Atrás da licenciosidade vendida como sagrada, existe um complô secreto para devorar as almas de seus freqüentadores. Sem o domínio de seu apetite carnal, o infiel se perde em coisas cada vez mais graves e pecaminosas, sem perceber, porque seu espírito está dormente.
- Sim, eu ouvi falar de glutonia, embriaguês e sacrifícios sendo feitos em meio a orgias desenfreadas em culto a estátuas sem vida!
- Antigamente não se tinha compreensão, o culto das rameiras esculpiram para satisfazer os medos das pessoas comuns tantos deuses quanto a imaginação popular os via na natureza. Assim, os espíritos da natureza e os demônios podiam se apresentar aos infiéis em roupagens mais agradáveis, orientá-los nessa estrada da perdição disfarçado em culto. Entretanto, não nos enganemos com suas filosofias vãs ou estratégias sutis, o que cultua a natureza e deuses esculpidos, dando vazão a apetites e emoções carnais, é um culto ao Senhor deste mundo, que é o Diabo.
- Sem dúvida. De mais a mais, nossas vitórias e constantes conversões apenas demonstram que nós trazemos o culto ao Deus Vivo.
- Sem essa certeza, nossa missão seria inútil. Deus seja louvado por nos ter permitido ser agentes de sua justiça, impedindo a ação do Diabo e de seus agentes.
- Deus seja louvado!
Os inspetores seguem a viagem, falando dos tempos de aprendizado, do quanto suas vidas antes da conversão era terrível e tenebrosa, dos milagres e libertações que testemunharam, sempre louvando ao Deus que foram ensinados a adorar e servir. Ao fim do dia, conforme se aproximavam da Galiléia, junto com a noite de lua cheia vem uma chuva que, para estes viajantes, é apenas um incomodo molhado. Na mesma noite, Ketar chega de volta a Esmirna e recebe a chuva com alegria pois é um sinal claro da chegada da nova estação. Mais detalhes no capítulo seguinte.
Chegando em Galiléia, Eleaser e Zacharias se abrigam da chuva em uma estalagem e passar a noite. No dia seguinte, ambos seguem até o salão local da Ordem, curiosamente mais visível e mais acessível ao público. A entrada, magnificamente decorada com arte e vasos com flores era certamente destoante dos demais salões. Mais adiante, havia uma mesa grande onde um rapaz e uma moça estavam incumbidos de receber todos os visitantes.
- Bom dia, senhores. O que podemos fazer pelos senhores?
- Bom dia. Meu caro jovem, eu sou Eleaser, Inspetor de Jerusalém e este é Zacharias, Inspetor da Antioquia. Nós viemos para falar com Zadoque.
- Por gentileza, aguardem na sala de estar enquanto Sara vai anunciá-los ao Mestre Zadoque.
Enquanto Eleaser e Zacharias se dirigem à sala de estar, Eleaser estranha a presença de uma mulher a serviço da Ordem. A jovem era muito nova e certamente não se vestia de forma apropriada a uma mulher dedicada aos serviços de Deus. Puxa Zacharias pela borda da túnica de perto do bule de chá gelado para comentar a estranha presença.
- Eu acho que Zadoque deve ser algum liberal. Espero que Anás saiba em quem está confiando esta missão tão delicada.
- Eu não me importaria em ter algumas jovens belas como Sara em Antioquia. O distinto irmão não pode ser radical quando o assunto é mulher.
- Ora veja! Depois de ter conversado tanto sobre o perigo que há em ceder aos apetites carnais, logo tu me decepciona!
- Não se engane! Ver e apreciar não é o mesmo que consumir! Não podemos esquecer que quando estivermos no Reino do Senhor, teremos mulheres e a missão de povoar o reino!
- Volte de onde vieste, Satanás! Não me tenteis com suas vãs filosofias. Ver e apreciar é dar espaço à concupiscência, luxúria e lascívia.
- Eu vejo que o distinto irmão é da escola radical dos ascetas. Graças dou a Deus por Anás ter me escolhido para preparar os messias para a região de Jerusalém. Muito prazer, eu sou Zadoque.
Pouco atrás de Eleaser e Zacharias, próximo da entrada da sala de estar, um jovem com trajes romanos e cabelos em estilo grego, aproximava-se da dupla, junto com a jovem Sara.
- Embora não me conheça, eu vi uma vez o senhor Eleaser em ação, o que me indica ao outro senhor como Zacharias. Veja bem de perto, Eleaser, acha mesmo que uma criatura tão doce, meiga e suave possa ser agente do Diabo?
Antes que Eleaser responda algo, Zacharias se adianta e aperta a mão de Zadoque, pois ambos compartilhavam uma igual apreciação pelo sexo oposto.
- Perdoe os maus modos de meu irmão. Não convém criticar os hábitos de quem nos recebe. Nós viemos por orientação de Anás exatamente para saber do projeto que o senhor está coordenando para a escolha e treinamento dos messias.
- Será uma satisfação, quem sabe o irmão Eleaser não aprende algo? Venham e conheçam a Johannes. Nós o chamamos de a Voz que Clama no Deserto.

Três homens, um destino

Saindo da Galiléia, seguem Andros, Parsis e Platão pela estrada que vai a Bizâncio, o caminho mais curto para voltar à Grécia, Egéia e Ephesus. A celebração da noite anterior foi uma experiência que poucos tem o privilégio de assistir, mas a presença deles não seria mais tolerada pela sacerdotisa Ketar. Voltar pelo caminho que segue até Antioquia os colocaria em curso de encontro aos seguidores do Deus Vivo, seja pelo nome de Ormuz, Athon ou Yahveh. Seguindo por esta estrada até Bizâncio os faria passar pelo sul da Pérsia onde, segundo dizem, ainda existem os antigos cultos e os sacerdotes de Ormuz não tem muito poder. Curiosamente vieram desta região os hititas que causaram tantos estragos ao reino de Israel e por um tempo permitiu ao povo hebreu celebrar os cultos antigos que aprenderam com os caldeus.
Conforme deixam as planícies da Judéia, aparecem pequenos arbustos e plantas rasteiras, eles estão se aproximando do rio Tigre, local onde outrora havia o impressionante império da Babilônia e onde ainda se pode ver as ruínas do Império Acadiano, ainda mais antigo. Este é o resumo da história humana, povos crescem, reinos aparecem, impérios degeneram. Mudam as bandeiras, os motivos, mas a humanidade está sempre em busca de algo, de mais uma conquista, de mais uma realização. Aqui e ali, estátuas de um passado silencioso, Deuses que não são mais lembrados, reis e heróis que não são mais reverenciados. Quando fechou o último templo, quando morreu seu último sacerdote, quando seu povo desapareceu, onde estavam e o que faziam esses Deuses? Estaria mesmo a humanidade enfrentando uma guerra entre os Deuses por um domínio absoluto, um único Rei dos Reis, Senhor dos Senhores? O que seria da humanidade quando se alcançar o perfeito monoteísmo?
A estrada para Bizâncio corta outras estradas, uma era uma antiga via que ligava Enki até Biblos; outra, ligava Galiléia a Lívia. Os três homens, olham-se mutuamente. Naquela encruzilhada, cada um segue um rumo diferente. Platão segue a estrada para Biblos, Parsis segue a estrada para Bizâncio e Andros segue na estrada para Lívia. Platão voltaria por esta estrada para sua Grécia, a fim de reunir os ensinamentos de Sócrates e tentar conservá-los para as gerações futuras, com a esperança de fundar a Escola Filosófica que tanto seu mentor queria. Parsis voltaria para Egéia ou talvez a Minos para passar o resto de seus dias, pois seu coração morrera naquele lago na Galiléia. Andros seguiria sozinho até Lívia, uma cidade que foi destruída e reconstruída inúmeras vezes, na esperança de ter alguma pista para encontrar o chifre amalteano, ainda que tenha que ir até os confins do reino Ariano.
Dos três, Andros é que mantêm sua devoção, apesar da mágoa. O caminho espiritual pelos Mistérios Antigos nunca foi fácil para quem quer que seja, não poderia ser diferente para eles. Esta é a razão pela qual os Mistérios Antigos e os Ritos Ancestrais se mantém além do tempo, local e língua dos povos que os conheceram. Faz parte do ensinamento que tudo nasce, cresce e morre. Reinos e impérios não são diferentes. Deuses Antigos e seus cultos não são diferentes. Ketar manifestara diante deles porque os cultos antigos estão sendo perseguidos e erradicados pelos seguidores do Deus Vivo, em seus muitos nomes. Tudo tem um propósito, uma razão de ser e isto está visceralmente envolvido com os desejos da humanidade. Assim como é no Alto, é no Mundo; assim como é no Mundo, é no Alto. O homem é pequeno enquanto indivíduo, mas imenso em termos de espécie. Nem todos estão preparados para perceber e aceitar tamanha responsabilidade.
Então por que ainda o jovem Andros persevera em sua busca é algo que ele se pergunta, porque se segue numa missão sabendo que não tem sentido, não há ganho, não há recompensa. Ouvir as sagas dos heróis quando se é criança é uma coisa, estar disposto a ter tal romantismo fatalista não parece ser um bom exemplo. Ele continua em sua busca não porque espera encontrar um chifre físico com propriedades mágicas e místicas, a busca deve seguir até seu destino para uma solução deste enigma, para que a alma encontre seu caminho de volta ao espírito. Conforme conduz seu camelo por uma planície cada vez mais verdejante, o jovem mago recorda os ensinamentos que ele aprendeu dentro dos círculos secretos em Eleusis. A voz de seu tutor, Hagiarco, soava limpa e cristalina em seus ouvidos.
- Jovem Andros, esta aparente solidez do mundo visível pode ser alterada. Existem quatro princípios que fazem este mundo visível ser tangível, palpável. Estes princípios podem ser divididos em duas duplas de características: quente e frio; seco e úmido. O mago, entretanto, sabe moldar o quinto elemento que é o éter.
- Como estes princípios podem ser quentes ou frios ou secos ou úmidos sem serem sólidos?
- Não tome a conseqüência como causa, jovem aprendiz. Quando nós dizemos que em tal quadrante está a Torre do Vigia do elemento Fogo, não é efetivamente o fogo que lá está, mas o elemento cuja característica é quente e seca. A vibração de todo elemento nesta condição revela para nós uma cor entre o laranja e o vermelho, a sensação de calor e a reação de queimadura.
- E os demais elementos? Quais são as relações?
- Ao elemento Água os princípios frio e úmido; ao elemento Terra os princípios quente e úmido; ao elemento Ar os princípios frio e seco.
- E quanto ao elemento éter?
- Nisto consiste todo o aprendizado e compreensão do mago. Isto deve ser apreendido pelo trabalho e combinação com os outros elementos, nisto consiste o Mistério que encerra a capacidade dos Deuses e dos homens.

A conspiração messiânica

Em uma casa pequena, discreta e distante de ruas movimentadas, bateram na porta e o servo egípcio abre uma portinhola.
- Queremos falar com Anás.
- A quem devo anunciar?
- Aos Inspetores Zacharias e Eleaser.
- Por favor, aguardem.
Eleaser esfrega as mãos. Logo ele, controlado e metódico, nervoso como um estudante novato. A porta é pequena e frágil, duas pessoas poderiam derrubá-la. Eleaser sabe que as aparências enganam. Esta é a casa de um dos anciãos, daquele que será o responsável pela moralização no Sinédrio. A fragilidade é sempre a melhor armadilha, lembra ele de seus estudos. Tantas noites sem dormir para logo agora ficar tão ansioso.
- O Mestre Anás os irá receber.
A porta abre-se para um pequeno mas bem cuidado jardim cercando a fonte de água para a limpeza do corpo e para saciar a sede. Passando por uma entrada, Zacharias e Eleaser chegam ao vestíbulo central, onde os visitantes podem deixar suas capas, odres, sandálias e bagagens. De dentro do salão principal, Anás os chama.
- Entrem, entrem. Não recebo muitas visitas, mas sendo recomendado pelo jovem e promissor Zacharias é porque tu tens uma grande pureza.
- Mestre Anás, é um prazer conhece-lo. Eu, pobre que sou, de puro nada tenho, mas sirvo com competência e o que tenho a relatar é grave.
Anás fica surpreso com este homem, jovem para os padrões dos Inspetores, mas certamente com uma vivida chama de devoção. A face carregada daquele homem mostra que não se trata de uma brincadeira. Zacharias olha ao seu Tutor com olhos carregados, confirmando.
- Ora, ora, vamos! Nada ocorre sem que seja do conhecimento de Deus. Mas diga, desde o começo, quem é tu e o que te trouxe aqui.
- Pois bem, Mestre. Eu sou Eleaser, Inspetor de Jerusalém. Eu estava em uma missão em Elom para acabar com o culto das rameiras, minha missão estava sendo bem sucedida, entretanto escapou-me a última meretriz e esta trapaceou, deixando duas de suas aprendizes ocultas do Juízo Santo. Eu, consternado com minha falha e impureza por um ato inominável daquela mulher, fui até a central da Ordem em Jerusalém, mas lá ninguém vi. O único ser vivo que lá estava, certamente conturbado por espíritos malignos, ceifou sua vida. Eu esperei algum superior aparecer, quando veio um Magistrado, que não quis me ouvir mas disse barbaridades sobre nossa pia Ordem. Não tive outra alternativa senão a me misturar entre ladroes e assassinos numa caravana para chegar aqui e receber de tua sagrada pessoa uma orientação e pedir-te providências ao descaso que encontrei em Jerusalém.
- Muito bem. Eleaser, correto? Nada de nomes. Entre nós temos um sinal e uma senha para nos conhecer, isto basta. Agora, quanto a Jerusalém, creio que Zacharias tenha te dito dos Planos de Deus para a Casa de Sião.
- Eu ouvi meu irmão Tav 47 conferenciar-me algo sobre o senhor estar introduzindo uma reforma no Sinédrio por meio de teu genro, Caifás.
- Conhecendo o jovem Zacharias como eu o conheço, ele deve ter te dito um pouco mais.
- Mestre! Meu conhecimento é pequeno! Aquilo que eu e meu irmão Tav 33 sabemos é um segredo que corre entre todos os Inspetores, desde a fundação da Ordem!
- Então, não é segredo! Não fiquem tão conturbados. Esta é uma piada de um velho rabino, nada mais. O que não é brincadeira é o momento em que vivemos. Sabe que momento é este?
- O Mester Daniel, abençoado seja seu nome, disse claramente que restava ao Povo de Israel setenta semanas para a vinda do Messias, o Julgamento e a volta do Reino de Judá.
- Exatamente. Mas não são setenta semanas comuns. Estas semanas tem uma contagem especial. Uma vez a cada sete anos há a semana do Jubileu e é esta semana especial que é comemorado o Ano Sabático. Mas o que ou quem é o Messias?
- Este conhecimento me escapa, Mestre. Alguns dizem que é um anjo enviado por Deus, outros, que será como o Filho de Deus, que será como Deus encarnado neste mundo.
- Percebem, meus meninos, como a heresia se infiltra até entre uma Ordem tão antiga e poderosa quanto a nossa? Existem facções, dissidências, grupos dentro de grupos, cada um com uma parte da Verdade, mas querendo que a sua parte domine as santas doutrinas de nossa Ordem. Para que possam cumprir com suas tarefas corretamente, eu lhes direi quem é o Messias que, na verdade, são dois!
- Dois? Mas...isso é impossível!
- Paciência, meu garoto, paciência. Desde Abraão, nosso mui pio fundador este dia é esperado, o profeta Daniel apenas marcou sua contagem. Desde o tempo de Moisés, nosso libertador, há duas linhagens sagradas entre o Povo de Israel. Uma é a linhagem de Davi, a outra de Levi. Para que aconteça o Advento, é necessário que venham a ser ungidos, portanto serem chamados de Messias, dois valentes especialmente separados por Deus.
- Entendi! Teu genro Caifás será um dos Messias e a Ordem está preparando um descendente da linhagem de Davi.
- Não, meu jovem, não será Caifás e nós não estamos preparando um, mas vários valentes da linhagem de Levi e de Davi para assumirem nas diversas regiões da Judéia o seu lugar sagrado como lideres para o levante total do Povo de Israel contra o exército de Satan. Derrubaremos seu vicário, César, acabaremos com o Reinado da Babilônia e assumiremos nosso lugar como regentes deste mundo, como é a profecia de Deus.
- Então, o que devo fazer, Mestre?
- Ouça a voz de tua devoção. Confia e faz teu serviço. No momento certo, terá as duas pequenas invocadoras dos demônios em suas mãos. As coisas que ouviste do Magistrado foram registradas e serão averiguadas. Eu quero que vá para Galiléia e procure Zadoque. Ele te apresentará ao indicado para Messias em tua região. Vá, veja, ouça e aprenda.

Dançando à luz da lua

O som das flautas, tambores e hinos ressoavam pelas pradarias ressecadas, chamando, agregando na caravana os nômades que se somavam às pessoas dos vilarejos do Vale do Hinam, aumentando a força, trazendo mais mulheres e aprendizes de sacerdotisa. O imenso grupo foi se espalhando em torno da orla do lago da Galiléia, tanta gente que poderia encher uma cidade, tendo a jovem sacerdotisa Ketar como centro das atenções e poder.
Ketar desceu de seu camelo e mergulhou nas águas do lago, sendo imitada por todas as mulheres presentes. Assim que saiu, ela viu uma oportunidade sem par de ensinar às jovens aprendizes algo que não se ensina em templos. Ela deu um leve aceno e Roe se pôs a improvisar um altar sagrado, sendo ajudado por Yussef, Andros e Parsis. Lapidatus parecia ansioso para ajudar em alguma coisa, então Ketar sussurrou em seu ouvido um pedido.
- Eu gostaria muito que tu fizesses um leito para nós feito de peles de carneiro.
Lapidatus partiu com dez de seus mais próximos soldados em direção aos montes para retornar alguns minutos depois com vários carneiros para pelar e comer. As demais pessoas ficaram sentadas, avistando a preparação do altar improvisado. Mais ao Norte, Roe construía com um tronco de Urze um poste cheio de inscrições. Ao Leste, Yussef construía com um tronco de Salgueiro um poste com outras inscrições. Ao Sul, Andros construía um poste com um tronco de Freixo que levava inscrições próprias. Ao Oeste, Parsis construía um poste com um tronco de Teixo enfeitado com sinais. Ao centro, Lapidatus colocou as peles de carneiro e em volta traçou um círculo. Ketar completou o trabalho, colocando os sigilos nos pontos certos do círculo. Assim que todos estavam acomodados, Ketar explicou o que estavam para testemunhar.
- Antes que o homem tivesse erguido seu domínio, antes de cidades serem construídas, antes da Noite do Tempo. Em uma noite de lua cheia, vinham os seguidores dos Ritos Ancestrais. Desde este tempo, têm surgido os sacerdotes e sacerdotisas do Deus Cornudo e da Deusa Lunar. Desde este tempo, tem-se evocado os Guardiões dos Portais. Desde este tempo, tem-se reverenciado os ancestrais. Todos, homens, mulheres e crianças, podiam fazer livremente suas oferendas aos Deuses Antigos. A lua está cheia hoje, estamos longe das vistas dos reis e dos falsos sacerdotes. Evoquemos os Guardiões e invoquemos os Deuses Antigos, para sermos livres mais uma vez!
Palmas, assovios, gritos. Ketar põe-se em posição, Lapidatus acena aos soldados para começarem novamente as músicas e os cânticos. Yussef está preocupado, as jovens sob sua guarda ainda não estão prontas para conduzir uma cerimônia, mas Ketar havia deixado bem claro sua indisposição para pajear aprendizes. Andros percebia o desafio que ela lançava, devia ser ali e agora que ou se estava preparado, ou se devia fugir. Sem ter muita certeza do que aconteceria, Magdalena assumiu sua posição, perfeitamente alinhada com Ketar, tentando sinalizar para Miriam onde ela deveria ficar. Parsis desejava ver uma cerimônia tradicional, como ele vira na Egéia, antes de morrer, então se arriscou a posicionar Miriam na posição correta. Para sua sorte, Ketar não estava interessada quem estava alinhado ou não, ela simplesmente pegou o gládio de Lapidatus e começou, diante do tronco ao Leste, a evocação dos Guardiões.
- Baga lache bacheba, lamac cahe achabe karelyos. Lamac bachalyas cahagy sabalyos. Baryolos lagoz atha cabyolas, samahac atha famolas. Eko, eko, Azarak, eko, eko, Zamilak, eko, eko, Tammuz, eko, eko, Ishtar. Akhera goiti, akhera beiti, harraya!
Terminado as evocações, Lapidatus demonstrou que observava os ritos ao trazer a Ketar bacias de bronze contendo o sangue dos cordeiros. Sem olhar, Ketar molha a ponta do gládio no sangue e asperge-o na testa de Yussef, seguindo Andros, Parsis e finalmente Roe. Ketar se dirige ao centro, aspergindo mais sangue sobre os sigilos escritos no círculo interno, depois em Lapidatus. Ela ajoelha-se e põe o gládio diante dela, ergue-se e diz a Lapidatus as palavras sagradas.
- Os Deuses Antigos estão presentes. Diante da Sagrada Presença, não devemos conhecer restrições ou inibições, bebamos, comamos, façamos música e amor.
Ketar deita nas peles de carneiro e puxa Lapidatus para si. Ele deixa de lado os protocolos ritualísticos e rasga as vestes ainda úmidas de Ketar, rasgando as suas a seguir e possuindo as carnes de Ketar até saciar seu desejo. Exausto, Lapidatus cai como um feliz vencido ao lado de Ketar. Não é momento de fraqueza ou arrependimentos. Magdalena e Miriam sabem que são as próximas. Na sorte lançada, um soldado e Andros vão ao leito de Magdalena e Miriam, ali ficando até igualmente caírem felizes vencidos ao lado das jovens aprendizes. Depois, os demais presentes fazem igualmente a devida cerimônia e oferenda aos Deuses Antigos.
- Então, as jovens aprendizes, no final das contas, estavam prontas. Não foi muito difícil, foi?
- Não, Santa Senhora, não foi. Eu gostei muito e quero mais.
- Eu me sinto engraçada.
Ketar está feliz, satisfeita e pensativa. Ela olha para Miriam, sabe que ela engravidou em sua primeira cerimônia. Ketar também sente o mesmo, os Deuses enfim mostram como são caprichosos. Quando ela menos esperava, com quem ela menos pretendia, ela deveria receber o fruto que tanto esperava para completar seu sacerdócio. Magdalena teria que esperar mais, quem mais se dá ao serviço acaba sempre esperando mais. Ketar se ergue, limpa o pouco de areia em seu corpo e se congratula por ter vencido em trinta minutos um centurião romano tão forte e poderoso. Ela então se dirige a Andros para provocá-lo.
- E tu, jovem mago, o que aprendeu?
- Que o homem está sendo punido por abandonar os Antigos Ritos.
- Punido? Deuses, não! Nenhum Deus é tão pequeno, mesquinho e ridículo para querer punir o homem! Encontrar o chifre amalteano não te adiantará de nada!
- Então porque o homem está se distanciando tanto dos Ritos Antigos e sendo dominado por esses cultos estranhos a um único Deus?
- Fora daqui, tu e Platão! Não acabou de presenciar os Ritos Antigos? Não sentiu a Nossa presença? Acaso há poder maior que o Nosso?
Fez-se então um silêncio, as estrelas no céu foram afastadas como se fossem nuvens, ficando apenas o negrume límpido da Noite e a Lua. Intoxicada com a presença da Deusa Lunar, Ketar faz a dança sagrada, a dança do universo, da geração e decadência, da luz e da sombra, desenha em seus pés as galáxias e os seres vivos. Ketar torna-se, totalmente e absolutamente, a encarnação da Deusa Lunar que dançando desvela o segredo das épocas do porvir.
- Nós estamos em vós, vós estais em Nós. Vós sois a manifestação de Nós neste Mundo. Nós conhecemos vossa natureza como Nossa Natureza. Houve tempo em que estivemos neste Mundo, agora ouvimos o vosso desejo de caminhar com os próprios pés. Então, vós conhecêsseis seus reis. Houve tempo em que lhe falávamos diretamente pelas árvores, agora cedemos ao vosso desejo de ouvir as mesmas verdades por meio dos sacerdotes. Houve tempo em que os espíritos e os encarnados andavam como um só povo, agora permitimos que vos afasteis para formarem vossas cidades. Houve tempo em que éramos muitos como vós mesmos, agora que vós crescêsseis, credes em Um para que sejais apenas Um povo santo. Vós sofrereis sim e muito, por vossos desejos e atos, não por nossa mão. Por causa de vosso desejo por União, há de surgir vestido como ovelha, da Casa de Israel, o nome do Lobo que varrerá vosso Mundo para cumprir com vossos desejos. Este é o descendente do Chacal que veio de Ur e é o ascendente do Leão que há de vir dentre as tribos nômades desta mesma região. Vós conhecerei a loucura da palavra escrita e serão subjugados pelos reinos monstruosos erguidos por estes predadores de almas. Debaixo do símbolo desses reinos cruéis haverá rios de sangue sem fim, irmãos matando irmãos, nações destruindo nações, tudo por causa do que credes neste Um. Havereis de ver os limites da humanidade se perder sem conseguir parar esta demência porque este é vosso desejo, o desejo de conhecer a apenas Um Deus Vivo, de ter apenas Uma Religião Verdadeira, de ser apenas Um Povo Santo! Quando vós tornares o mar em sangue e vossa existência estiver por um fio, Nós vos chamaremos novamente, dentre vós Nosso culto renascerá e vós tereis uma oportunidade de escolher entre viver e morrer. O vosso Destino está onde sempre esteve, em vossas mãos.