sexta-feira, 27 de abril de 2007

Astúcia

Pretendentes aparecem na porta do templo, no dia seguinte, fazendo fila, esperando que alguém do templo receba suas credenciais, enquanto os participantes da celebração da noite que findou saem trôpegos em direção à suas casas na cidade ou no campo, certos que seus pedidos seriam atendidos. Dentro do templo, Ketar ainda dorme nos braços de Roe, junto com muitos de seus serviçais e alguns participantes que exageraram na diversão. Por volta da hora segunda, Ketar acorda e passa a despertar primeiro seus serviçais e depois, com a ajuda destes, os participantes mais exaltados. Roe corre para a cozinha com alguns serviçais, pois sabe que seria desastroso ao templo se os participantes que passaram a noite no templo partissem sem ao menos uma refeição matinal. Assim, apenas pela hora terceira, Ketar e seus serviçais estão de volta à sua rotina diária, limpando o salão principal do templo e as louças usadas na celebração. As portas do templo voltam a ser abertas na hora quinta, momento em que os pretendentes começaram a se engalfinhar para entrar no templo e terem suas credenciais avaliadas e analisadas. Platão, um sábio grego, sempre em busca da verdade, consegue entrar apesar da multidão que se espremia na entrada do templo. Ninguém se dava conta de quem estava sendo espremido, pessoas reduzidas ao comportamento animal agem de acordo com o instinto de rebanho. No salão principal, pessoas de diversos lugares e povos se espalhavam, aguardando sua vez, enquanto os membros do templo atendiam um a um em mesas improvisadas. Cada pessoa atendida acenava com ênfase para suas credenciais ou em ultimo caso para suas bolsas repletas de ouro. Aqui e ali, alguns magos indignados com a indiferença com que suas credenciais eram avaliadas, tentavam demonstrar o grande poder que julgavam ter, sem sucesso. Ao seu lado, uma garota puxou a orla de seu manto e lhe perguntou com ar sério: - Você não vai apresentar suas credenciais?
- Não, minha cara. O que eu posso dar a este templo que a Sacerdotisa não saiba? Eu não freqüentei nenhuma Escola Esotérica, não faço parte de Fraternidade alguma, apenas vou buscando na natureza as respostas para meu maravilhamento diante dela.
- Eu sou Ketar, filha de Nefter, discípula de Mirian e quem és tu?
- Eu sou Platão, filho de Sólon, discípulo de Sócrates.
- O que aprendeu enquanto observava a natureza?
- Os ciclos vão e vem, apesar de serem constantes manifestam-se de formas diferentes, em partes diferentes, para espécies diferentes. Nada é desperdiçado, cada coisa tem sua função e sem ter quem os ensine, sabe o que deve fazer. Ainda assim, sinto pesaroso que nós estamos distantes desta Suprema Consciência presente na natureza e nos animais.
- Entretanto, em todos os templos tu vês os Deuses e Deusas em formas humanas e celebrações para os ciclos da natureza por meio de magia cerimonial.
- Sim, eu me pergunto como podemos adorar Deuses que estão ligados à natureza e nos dizendo filhos deles quando nós mesmos estamos distantes da vida natural, vivendo em cidades.
- Esperas encontrar tua resposta em nosso templo?
- Em minhas perambulações não faltaram sábios que tentaram explicar, mas nunca puderam responder minhas dúvidas, no que então eu cheguei à conclusão que eu só poderei encontrar a resposta dentro de mim mesmo. Ketar ficou na ponta dos pés e beijou o queixo do sábio e saiu correndo, sumindo por entre as colunas do templo. Platão caiu em si, aquela garota se vestia de forma diferente e se portava de forma diferente, alem dele ela foi a única que não parecia estar interessada em provar nada a quem quer que seja. Observando os membros do templo que atendiam o publico, Platão pode ver alguns sinais e cores em comum na veste que a garota usava. Pela forma como ela se deslocou pelo salão indo sumir atrás de uma coluna indicava que ela conhecia bem o templo, sendo então óbvio que ela devia ser alguém do templo mais importante que os que atendiam ao público. Platão observou pacientemente o público se dispersando, ficando até anoitecer para ver se a sorte lhe dava uma outra oportunidade de falar com aquela garota. Com a noite, o templo acende as velas para receber outros visitantes: velhos, inválidos e mendigos que procuram nas paredes do templo um pouco de comida e abrigo. Roe toma Platão como sendo algum viajante encarecido e lhe serve sopa e pão. Platão em ato cortês agradece com um leve aceno da cabeça e experimenta a sopa, molhando a ponta do pão nela. Platão reconhece de imediato o sabor da sopa, feita com fava e açafrão, ele já havia sorvido uma sopa assim há muito tempo em Delfos, antes dos zoroastrianos chegarem, dominarem e proibirem os Ritos Ancestrais dos Mistérios de Eleusis. Não estranhou também em notar que o pão era feito de cevada e trigo. Como um alimento tão tradicional entre os Arcadianos veio parar em meio da Babilônia, em um templo de culto de origem sumeriana? Ou todos estes cultos de Mistérios Antigos tiveram uma origem em comum? O pensamento de Platão foi interrompido quando sentiu a orla de seu manto ser puxado mais uma vez.
- Encontrou a resposta que procurava?
- Não, mas os Deuses me propiciaram a sorte de falar-te mais uma vez.
- No que falar comigo te ajudaria em tuas dúvidas?
- Sócrates ensinou-me o método do diálogo, é incrível o que se pode aprender em uma simples conversa.
- O que aprendeu com o que conversamos anteriormente?
- Que certamente és membro deste templo e a julgar pelas vestes mais coloridas e de tecido mais suave, que deves ter algum cargo importante neste templo.
- Ficarás conosco esta noite? Nós gostaríamos de compartilhar nosso café da manhã contigo. Platão sorri e acena levemente com a cabeça. Ketar então bate palmas e logo seus serviçais trazem uma ânfora de vinho e uma taça. O cheiro do vinho enquanto é vertido até encher a taça evoca novas lembranças em Platão de outros templos e de mitos que ele somente havia ouvido falar de outros povos. Ketar dá um gole longo e oferece a Platão que sorve em um gole o restante do vinho que havia na taça. O vinho tem o sabor da Armórica, um povo que existia no litoral do Mediterrâneo, um vinho que ele havia experimentado em Lundunum, na região Nordeste do Império Romano. Era uma longa viagem cultural, seria possível que os tantos Mistérios Antigos, apesar das diferenças, foram passadas de forma alegórica a partir de uma única origem? Qual seriam os símbolos originais e o mais curioso, quais seriam seus verdadeiros significados? A taça em sua mão contém uma decoração bem parecida com a que ele viu entre os Minóicos, uma arte que seus compatriotas considerava primitiva embora ninguém conseguisse decifrar os desenhos, nem como um povo considerado primitivo conseguia produzir tal arte. Mesmo a peça em si, uma cerâmica que dificilmente se encontra mesmo entre os Etruscos, que seus compatriotas tentam imitar, mas o gosto estético dos gregos não conseguia imitar tal técnica. Nem as taças de bronze dos Macedônios, nem as taças de ferro dos Arianos conseguem tal elaboração, simplicidade e durabilidade.
- Percebemos que possui grande conhecimento e sabedoria, mas ainda te dispõe a aprender. Platão olha para Ketar e fica deslumbrado com tanta beleza. Não é apenas as roupas delicadas e coloridas, nem o sorriso ou a pele morena, algo mais nela emanava que não vinha do ambiente do templo iluminado por velas, algo indescritivelmente divino. Com um aceno, Ketar providencia que um serviçal acompanhe Platão até os quartos de hóspedes, igualmente decorado com inúmeros artigos que convinham a um ambiente sagrado. Antes de deixar o sábio à vontade no quarto, a jovem que o acompanhou perguntou-lhe: - Minha Senhora deseja saber se o senhor deseja dormir com alguma companhia, qualquer companhia.
A mente de Platão rapidamente lembra que aquele é um templo de Ritos Ancestrais, ritos que ele havia visto na Trácia e certamente havia celebrado em Hipona a Festa de Dionísio junto com os Pelasgeanos. Ali não havia inibições nem o estranho ascetismo que ele encontrara entre os Elamitas, caso fosse do seu desejo ele teria a companhia por toda a noite, seja de um garoto ou uma garota, ou aquilo que seu coração desejasse. Naquele momento não sentia necessidades carnais, mas sentia que recusar poderia ser falta de educação, então pediu: - Se não for incômodo, eu dormiria melhor se uma mulher viesse dormir comigo por esta noite.
- Eu transmitirei seu desejo para minha Senhora. Platão sorri consigo, achando ter se saído bem. Durante o tempo que observara o atendimento que os serviçais dava ao público, não viu nenhuma mulher entre os membros do templo, assim não sujeitaria uma bela mulher a deitar com ele somente por ser um serviço obrigatório do templo. Despiu-se, fazendo bravatas, deitou-se na cama macia com várias almofadas recheadas com ervas e olhou para a janela que lhe oferecia um belo quadro da noite estrelada do céu noturno de Esmirna. Estava quase adormecendo quando a porta de seu quarto fez um barulho ao abrir, fechar-se e o pesado fecho reclamar seu uso.
- Nós sabíamos que tu irias aceitar nossa oferta. Era Ketar, completamente nua, que não esperou qualquer resistência ou conversa de Platão, correu em direção a ele e se atirou em seus braços.

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