sexta-feira, 27 de abril de 2007

Caminhos convergentes

Passaram-se quase duas semanas e a jovem Ketar estava entediada, mesmo suas horas de lazer brincando com Roe e Platão não a agradavam mais. Roe era muito físico e Platão era muito mental. Ela podia sentir o verão se esvaindo e o outono chegando, as filas de pretendentes para o duro treinamento nos Mistérios Antigos aumentava a cada dia e em questão de semanas ela completaria 13 anos. Para ela, a simples idéia de chegar aos 15 anos sem ter herdeiros é tão apavorante quanto a chegada aos 40 anos para as mulheres de nossos dias. Ela lembra de como sua mãe cuidava de seus irmãos menores sem deixar de lado suas tarefas como sacerdotisa.
Mas isso foi nos bons tempos, antes do faraó Akenat II, antes da reforma religiosa, antes de seu exílio forçado longe de sua mãe e da corajosa entrega que seus irmãos menores fizeram para garantir a vida e a viagem dela. Ela imagina por qual capricho os Deuses Antigos ainda não a favoreceram com um ventre cheio. Ela sabia como evitar ou incentivar a gravidez, por muitas vezes não tomou os devidos cuidados e nunca interrompia o trabalho de seus parceiros de cama.
O mais gostoso não era se acabar nos braços de um homem, mas ver quanto tempo podiam agüentar antes de derramar dentro dela o liquido precioso e sagrado que carregavam. Oportunidade e vontade não faltaram, diversas vezes escolhia casualmente ou um de seus servos ou um dos pretendentes ao serviço no templo. O único inconveniente são os homens que tornavam isso algum sinal de sentimento, afetividade ou intimidade e se sentiam companheiros fixos ou mesmo donos dela. Um incomodo breve, laminas afiadas em suas mãos removiam qualquer empecilho.
Impaciente, resolve sair do templo, dar uma volta pelas redondezas. Passa a mão e veste a primeira túnica que pega, com passos rápidos passa pelos corredores até o salão principal, evita ser interrompida pelos serviçais ou visitantes, fuzila com os olhos uns e outros mais impertinentes com perguntas, abre os portões do templo com um piscar de olhos, dá vinte passos em direção à praça, abre os braços e respira profundamente.
- Santa Senhora Ketar, é mesmo tu quem vejo?
A voz familiar, macia e segura de homem sábio e experiente a faz esquecer completamente Roe e Platão que, a essa altura, seguiam os passos dela. Ketar vira suavemente seu rosto, deixando a brisa acariciar seus cachos, seus olhos brilham, ela sorri e lança os braços abertos em direção e em torno do velho Yussef.
- Papai! A quanto tempo! Porque não me escreveu avisando que vinha?
- Ah, querida, eu não nego que passei o melhor ano de minha vida como companheiro de sua mãe, Nefter. Por um ano fui seu padrasto e sou testemunha de seus talentos. Eu não te escrevi porque a situação não me permitia e eu venho aqui para, como seu humilde servo, pedir para que receba em seu templo estas duas jovens aspirantes ao sacerdócio.
Ketar olha para Miriam e Magdalena. Uma, jovem demais mas com um corpo mais formado, a outra, mais velha, mas acanhada demais. Em segundos, ela vê toda a vida que cada uma teve e os sofrimentos que passaram. Então ela percebe o velho egeu de quem comprou o templo e um rapaz ao seu lado.
- Qual o nível em que elas estão?
- O bastante para conhecer o azevinho, mas não o suficiente para conhecer o carvalho.
- E esses dois, quem são?
O velho Parsis tem um calafrio na espinha, ele conhece esse tom de voz e olhar. O velho Yussef conhece sua afilhada e sabe que não é bom sinal quando ela fala e olha para outras pessoas como "aqueles ali".
- Eles vieram conosco desde Haifa. O velho tu deve conhecer, pois comprou dele esse templo. O jovem é um mago que vem desde Ephesus em busca do chifre amalteano. Ambos são iniciados nos Mistérios Antigos como todos nós.
- Realmente? Eu gostaria muito de verificar isso. Vai ser muito mais divertido do que ensinar às jovens sacerdotisas.
A aura agressiva de Ketar se expande, provocando a movimentação do ar. Yussef, Miriam, Magdalena e Parsis ficam com muito medo. O jovem Andros apenas olha e sorri suavemente, deixando que a onda de energia o alcance, deixando que a desconfiança de Ketar o atinja em cheio. Da porta do templo, Roe observa a cena e a calma do jovem, algo a que ele como ex-combatente sabia lidar naturalmente, ele sabia que Ketar era capaz de criar um campo energético igual a de um campo de batalha em segundos . ele recorda, de suas viagens em terras distantes, de guerreiros capazes de cortar uma pedra ao meio somente com a energia gerada pelos seus espíritos. Logo atrás dele, Platão fica completamente em estado de choque, o que é comum afinal, pessoas que consideram apenas a Razão como a única verdade transcendente jamais estará preparada para suportar as manifestações de outra ordem.
- Eu estou cansada de ficar no templo, perdendo tempo com principiantes. Leve-me para Siloe, eu quero me banhar no lago da Galiléia.
Roe, instintivamente, prepara o camelo pessoal de Ketar, mesmo sem poder ouvir a conversa do grupo.
- Santa Senhora, eu estou a seu dispor, mas os demais acabaram de chegar de uma longa viajem, é bom que ao menos estes descansem.
- Como eu disse, não tenho tempo para gastar com principiantes.
Ketar sobe no camelo trazido por Roe e segue adiante, sem olhar se seu padrasto a segue ou não. Yussef ajeita as jovens sacerdotisas como pode e os três seguem Ketar. Andros não se dá por vencido, sobe em seu camelo e segue atrás. Parsis fica olhando Roe e Platão, os três não tem muito a perder, servem-se dos camelos do templo e seguem por ultimo. Dentro do templo, os serviçais tentam prosseguir com as obrigações do templo, enquanto tentam dispersar a enorme fila de pretendentes.

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