sexta-feira, 27 de abril de 2007

Caminhos cruzados

Andros e Parsis partiram do porto de Haifa em direção a Esmirna, passando por Jerico, juntando-se a uma caravana de peregrinos, em direção a Antioquia. O sol deixara o céu, a lua e seu séqüito de estrelas dominava a paisagem árida da região, dentro da noite aveludada apenas se viam os olhos dos animais noturnos, os viajantes podiam sentir o quanto frágil era a vida humana e quão fácil ela pode ser espremida.
Eleaser está, a contragosto, no meio dessa caravana de gente que certamente nunca ouviu falar do Deus Vivo e deve estar presa nas armadilhas do maligno. Ele olha horrorizado para suas próprias roupas, um amontoado de trapos que não lembrariam mesmo lavados a condição de seu material de primeira. Seu estado pessoal também é lastimável, ficou sem comer e sem dormir por mais de uma semana até a partida dessa caravana, ainda está todo sujo com o sangue seco da rameira que se suicidou em desafio à sua autoridade e também estava todo sujo com o pó das roupas do velho zelador que se suicidou para humilhá-lo ainda mais. Entre tanta gente esfarrapada e ferida, ele notou alguns estrangeiros e suas roupas imorais, leves e coloridas, levando certamente consigo as marcas de seus pactos com o maligno.
Em outro lado está Joachim, levando consigo Miriam e Magdalena em direção a Esmirna, pedindo durante a viagem aos Deuses Antigos que a jovem sacerdotisa que lhe indicaram aceite as duas órfãs dentro de seu templo como suas serviçais. Não foi fácil conseguir permissão para viajar nessa caravana, teve que subornar o líder para que ninguém soubesse que levava uma carga preciosa de duas garotas sagradas. Entre pessoas civilizadas, elas seriam veneradas, ganhariam presentes, seriam louvadas e incensadas pelos adoradores; mas aqui entre essa gente que mal sabe balbuciar um som audível, elas seriam provavelmente estupradas para depois serem vendidas como meras escravas. Entre uma parada e outra, Joachim e Andros convergem em uma companhia agradável enquanto o velho Parsis se delicia com a sabedoria das jovens Mirian e Magdalena. O coitado do Eleaser consegue atrair a si apenas a companhia de ladrões e assassinos.
- Diga-me, Parsis, o que tanto te encanta no que dizem as jovens sacerdotisas?
- Ah, jovem mestre Andros, elas são ainda mais jovens que tu mas tem mais mel nos lábios que minha saudosa sacerdotisa. Tanto talento em tão fresca idade!
- Conte, bom amigo Joachim, sua aventura que veio a confiar a teus cuidados tais rosas.
- Jovem mestre Andros, não é uma bela história. Nós viemos de Elom, uma cidade que foi dominada por um grupo de hebreus seguidores do Deus Vivo, somos os poucos sobreviventes dos Ritos Ancestrais. Estas jovens são nossa última esperança.
- Arre! Cautela! Não sabemos que ouvidos há entre essa gente. Eu cá estou velho, nem meus ossos valem algo. Antes de estar em Minos, eu era o zelador de um templo de Baal, em Esmirna e eu vi do que são capazes os adoradores de Ormuz.
- Isso é algo que nosso amigo Joachim e as jovens sacerdotisas ainda não ouviram. Conte como foi parar em Minos somente para voltar para Esmirna comigo.
- Que grosseria a minha. Eu vim da Egéia para Esmirna quando ainda tinha a idade do senhor Joachim, com ordens expressas de tentar restaurar o templo de Baal. Eu consegui manter o templo por dez anos, mas estava difícil, a cada dia os ataques e discursos dos zoroastristas acabavam tirando os adoradores de dentro do templo até este ficar vazio. O governador local acabou confiscando os bens sob a alegação de impostos atrasados. Eu fiquei por minha própria sorte, sobrevivendo com a pouca plantação que sobrou no templo, que quase se tornou ruínas. Qual não foi minha surpresa ao ver uma jovem sacerdotisa, tão jovem quanto Magdalena, mais bela que Miriam e mais sábia que todos nós juntos. Ela o comprou de mim à vista, em ouro, mais que o suficiente para silenciar o governador. Com o restante, eu pude ir viver em Minos que eu havia conhecido em minha juventude e ainda se pode celebrar os Mistérios de Eleusis sem ser preso. Pelas graças dos Deuses Antigos, eu recebi com gosto a carta da sacerdotisa de Ephesus, recomendando o jovem mestre Andros aos meus cuidados para a busca de sua vida: o chifre amalteano. Partimos na primeira nau para o porto de Haifa e cá estamos nós, nessa caravana de peregrinos, em direção a Antioquia.
- Pelas sagradas vestais de Roma! Acontece que nós estamos indo a Esmirna exatamente para que Miriam e Magdalena possam continuar sua educação como sacerdotisas dos Mistérios Antigos com a nova sacerdotisa que lá chegou!
- Não fique com esse olho arregalado em minha direção, Parsis. Não me diga que está surpreso ou que imagina ser uma coincidência impossível. Para quem me atormentou com perguntas e testes, seria inconveniente.
- Mestre Andros foi educado nos Mistérios Antigos como nós? Eu adoraria ter com quem falar e trocar experiências.
- Parece ser uma idéia interessante, uma vez que nós cinco fazemos as pontas do sigilo sagrado. Entretanto, falemos por alegorias e sinais, para evitar quebrar nossos votos para com os Deuses.

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