sexta-feira, 27 de abril de 2007

Chegada em Antioquia

Após três semanas seguindo disfarçado dentro de uma caravana, Eleaser chega em Antioquia satisfeito por ter se livrado da companhia nada recomendáveis de bandidos e assassinos. Tirando a diferença de idioma, sinais e costumes, Antioquia o faz lembrar de Jerusalém. Nenhum templo do culto das rameiras, nenhuma presença das estátuas malignas, nenhuma presença de adivinhos. Aqui e acolá, um ou outro monumento em homenagem a Ormuz, o que ele compreende ser como os locais devem chamar YHVH. Aqui e acolá, tropas romanas e persas dividem a vigilância das ruas. Por todo lado, a presença dos penitentes com suas túnicas alvas, sozinhos ou em grupo, lotando os templos ao Deus Vivo, preenchendo o ambiente com os hinos ao Altíssimo. Eleaser sonha com o dia em que poderá estar em sua própria cidade para ter tal felicidade, suspende sua vontade de também vestir uma túnica e se misturar aos coros, é importante que ele procure um Ministro, algum ancião da Ordem de Melquisedeck, para relatar as estranhas ocorrências que ele havia passado e aguardar as ordens superiores. Com tantos templos a Ormuz e Mithra, estava difícil encontrar uma sinagoga para poder falar com o rabino para saber quais pessoas e locais deveria ir.
O único que sabia informou, nervoso e desconfiado o local de entrada para as reuniões dos anciãos da Ordem de Melquisedeck responsáveis por esta cidade. Engenhosamente oculto nos fundos de um prédio da administração pública romana, Eleaser abriu feliz a pequena porta, ao se certificar nos batentes das marcas da Ordem que ele conhecia bem. Um inspetor o interpelou.
- O que deseja, forasteiro? Esta é uma Casa Santa, não um lugar para mendigar.
- Eu sou Eleaser, Inspetor de Jerusalém, eu tenho uma grave ocorrência a relatar.
- Isso é alguma brincadeira? Eu conheço Eleaser, nós fomos colegas na Escola da Retidão.
Eleaser aperta os olhos, olha atento, de perto, puxa pela memória até lembrar com quem falava. Claro! Este era seu bom amigo Zacharias. Bom Deus! Eleaser imaginava como deveria estar assustado e confuso seu bom amigo.
- Zacharias! Filho de Shoelen e de Jeniana! Meu Bom Deus! Como faz tempo! Olha, eu sei que minha aparência não é das melhores, mas creia, debaixo destes trapos e sujeira está seu amigo Eleaser.
Zacharias aperta os olhos, olha atento, de perto. Poucos conheciam seus pais, todos eram da Ordem. Seria possível que aquele trapo humano fosse o garboso e imponente Eleaser? Ele agarra o homem pelas mangas e procura algo no pescoço. Sim, lá estão as marcas e o pingente que marcam por toda a vida o privilégio sagrado dos Inspetores neste mundo endemoniado. Nervoso, abre o pingente quase duvidando no que iria encontrar: a Letra da classe, da turma, mais o Número do inspetor e de seu superior. Estava bem claro e não é possível haver falsificação ou engano: Tav 33. Zacharias chora. O homem é Eleaser.
- Meu Bom Deus! Homem! O que te aconteceu? Vamos, vamos, venha tomar banho e trocar de roupas imediatamente! Não é decente a um homem de sua posição andar assim!
Eleaser, um homem acostumado às durezas da vida, também se emociona com a preocupação e cuidado vindo de seu bom amigo. A água na banheira é um bálsamo, Eleaser se esfrega todo, usando sem restrição o caro sabonete de ervas sagradas. As roupas ficam bem ao lado, aguardando o fim do banho. Banhado e vestido, Eleaser é conduzido a uma sala onde uma farta mesa o aguarda para que sacie sua sede e fome. Só então, banhado, vestido e alimentado, começa a contar a Zacharias sua aventura nas últimas semanas.
- Tudo começou em Elom. Nós conhecíamos as atividades impuras das rameiras e feiticeiras naquela cidade. Nós tínhamos tudo nas mãos, foi muito fácil colocar a população contra o culto antigo. Mas eu confesso, meu caro amigo, que aquela mulher me pegou de surpresa. Eu devia ter percebido! Ela queria apenas me despistar para salvar as herdeiras de suas práticas abomináveis! Ela foi muito inteligente! Jogou o sangue imundo em mim, conturbou minha mente e agora tem duas aprendizes das Artes Negras soltas por aí. Mas o mais grave foi quando eu me dirigi ao núcleo em Jerusalém. Não havia ninguém! Pior! O único que prezou a me ouvir, enforcou-se! Mais tarde, um Magistrado, veja bem, um Magistrado, falou coisas da Ordem que nem ouso repetir! Tudo o que me restava então era vir aqui e falar tudo com um superior. Imagine! Eu tive que ir até Haifa! Eu tive que me misturar com pessoas que nunca ouviram falar no Deus Vivo! Eu tive que me vestir de trapos e viajar em uma caravana até aqui em meio a bandidos e assassinos!
- Meu Bom Deus! A que ponto chegou a influência do Mal neste mundo! Foi bom que tenha vindo para cá. A Antioquia continua, felizmente, como um oásis de santidade aos que buscam verdadeiramente o Deus Vivo.
- Louvor seja dado ao Senhor dos Exércitos! Eu te agradeço, amigo, graças a ti eu estou mais apresentável para falar com o Ministro. Tu sabes com quem devo falar?
- Eu posso dizer com satisfação que conheço pessoalmente o Ministro. Este é o mui santo e sábio Anás, que em breve irá colocar seu genro Caifás como Sumo Sacerdote em Jerusalém.
- Noticia alvissareira! Alguém de pulso firme para dar ordem no Sinédrio! Eu fico escandalizado com a forma que os rabinos e sacerdotes convivem com os romanos e suas práticas abomináveis!
- Então vamos até Anás, ele te contará os planos ousados que temos para derrubar Roma, acabar com seus cultos perversos e converter todos os gentios para o credo em YHVH, o Deus Vivo!
- Excelente! Conquistada Roma, em breve cai o Egito e a Pérsia! O mundo inteiro se ajoelhará diante de Deus Vivo! Todos professarão um só credo, todos seguirão a Verdadeira Religião, Israel se erguerá e tomará o trono que lhe cabe no mundo!
- Sim, meu caro, a Era do Messias está próxima e nós iremos testemunhá-la. Acabará o jugo de Satan neste mundo, os ímpios perecerão e a Terra será herdada pelos puros e limpos de coração.
- Amem! Assim seja! Todos poderão enfim confessar: ouvi oh Israel que somente o Senhor é Deus.

Nenhum comentário: