sexta-feira, 27 de abril de 2007

Corações de Petra

Por caminhos conhecidos apenas pelo nômades, um trio segue através das dunas do deserto, rebocando um estranho pacote amarrado nas costas de um camelo. No meio da vastidão estéril, uma formação rochosa se destaca e para lá o grupo se dirige.
Em um determinado ponto onde é possível ver a rocha escavada pelo tempo e mãos humanas, eles param para se identificarem ao destacamento de dez guardiões que impedem a passagem de estranhos. Os viajantes possuem os papeis confirmando suas identidades e filiação, mas os guardiões cismaram com o cativo amarrado e vedado no último camelo.
O mais velho dos guardiões, possivelmente o chefe, foi até os anciãos da sinagoga de Petra para perguntar o que deviam fazer, uma vez que três irmãos insistiam em levar o prisioneiro para a cerimonia a fim de ser iniciado.
Enquanto aguardavam, Zacharias, Zadoque e Johannes seguravam firmemente nas franjas de seus mantos, entoando suplicas ao Principio Inefável, com receio de serem pegos pela tempestade de areia que se aproximava. O guardião voltou trazendo um ancião que se aproximou e olhou o trio um a um nos olhos e depois examinou o quarto homem. Os Deuses Antigos estavam de bom humor, pois fizeram com que os quatro pudessem entrar em Petra, apesar deles não os louvarem.
A abertura na rocha é estreita, todos tem que seguir em fila indiana até onde o maciço de pedra se abre até o céu. Conforme todos entram na parte aberta, vigilantes postados nas ranhuras ao longo das paredes os observam, mantendo seus arcos retesados e suas flechas apontadas, prontos para dispararem. O ancião que havia seguido até a parte de fora bate de forma ritmada em uma pesada porta de madeira, ricamente entalhada. Como uma forma de senha, as batidas fazem a porta abrir e só então depois os vigias relaxam seus arcos. Uma vez dentro da sinagoga, o ancião bate palmas e os servos do templo aparecem.
- Por gentileza, nobres cavalheiros, sigam os servos. Eles os levarão a suas celas, onde os senhores poderão se banhar, trocar de roupa e se prepararem para a cerimônia.
- Os senhores podem cuidar de nosso amigo?
- Os senhores o trouxeram, ele é de vossa responsabilidade.
Os servos tiram o pobre Eleaser de dentro do saco que o cobriu durante todo o percurso involuntário, o livraram das amarras e da mordaça. Eleaser abriu seus olhos aos poucos devido às péssimas condições em que viajou. Zacharias não quis arriscar e o segurou pelo braço, levando-o consigo enquanto seguia o servo. O trio não gostou de Ter que ficar em celas separadas, mas mesmo sendo contra as regras Zacharias empurrou Eleaser para a sua cela e subornou o servo para nada denunciar. Percebendo que as forças voltavam a seu amigo, Zacharias achou melhor por as cartas na mesa.
- Meu velho amigo, nós vamos passar algumas noites juntos nesta cela. Para nossa segurança é bom deixar algumas regras combinadas.
- Pelo Deus Vivo! Tu me bates, me seqüestras, me amarras, me traz a este local impuro e vem falar em regras?
- Silêncio! Primeira regra! A segunda é que ninguém pode saber que dividimos a mesma cela. A terceira é que tu não irás tentar fugir daqui. A quarta é que tu irás colaborar. A quinta é que tu não contarás sobre o que aconteceu enquanto estivemos juntos.
- Imagino que se eu não observar estas regras, estarei morto.
- Sim, mais eu e todos os outros irmãos.
- Tu consideraste de que isto de forma alguma me traria remorso?
- Acredite, Eleaser, existe coisas piores do que morrer e ir para o Sheol.
Eleaser sabia que não tinha muita escolha, apesar de amarrado e vendado era possível sentir que tinha passado muitos dias de viagem no deserto e ele não tinha a menor idéia de onde ele estava. Sentando no catre de palha, assentiu com a cabeça.
- Excelente. Descanse enquanto eu pego comida e água para ti.
Zacharias sai da cela confiante na palavra de Eleaser, que se deita e se ajeita no catre de palha e dorme. Duas horas depois Zacharias volta e acorda Eleaser.
- Aqui está tua comida. Lentilha, cevada, peixe e água. Como pode ver, eles não são bárbaros e observam a dieta dos homens santos.
Eleaser pôs suas mãos sobre o prato e o comeu devagar para mostrar que ainda mantinha sua dignidade. Assim que terminou, Zacharias o pôs em pé e ambos seguiram pelos corredores.
- Venha comigo conhecer a biblioteca. Tu ficarás assombrado.
Eleaser fica encantado e entretido ma biblioteca pelo período da semana que antecedia a data da cerimônia. Eleaser ficou assombrado com os rolos da Torah bem conservados e mais antigos do que a versão que ele leu em Jerusalém. As primeiras Torah foram escritas na época do Segundo Templo, após a libertação do povo Judeu pelo Império Persa e cópias eram dadas a cada sinagoga com autenticação dos rabinos mais velhos. Quando os Judeus foram dominados pelos Gregos e depois pelos Romanos, as cópias tinham que serem feitas ocultamente e sem autenticação. Eleaser olhou a parte final dos rolos, onde ele viu o autenticador daqueles textos: Anás. Ao voltar à cela para dormir, por alguns minutos Eleaser remoeu consigo as historias que Zacharias e Zadoque lhe contaram. O que ele faria se fossem verdadeiras? Então chega a noite do primeiro Sábado do mês de Sivan, que seria de lua cheia e o começo do Outono. Eleaser percebe que há uma grande movimentação e Zacharias entra na cela com a face lívida.
- Por Abraão e pelo Deus Vivo, Eleaser, a sua vida, a minha e a de nossos irmãos está em tuas mãos. Tu irás participar da cerimônia e aceitará sua iniciação ou prefere conhecer o Abismo?
- Apenas diga o que devo fazer.
- Quando o sacerdote perguntar quem quer atravessar o Abismo, tu deves se aproximar respeitosamente do círculo marcado no chão e se apresentar. Quando o sacerdote perguntar qual a senha para entrar, tu deves dizer perfeito amor e perfeita confiança.
- E depois?
- Mais nada, faça o que te disserem fazer.
Eleaser entrega sua alma nas mãos do Deus Vivo e se justificou de seguir adiante com sua fingida colaboração com uma oração silenciosa.
- Senhor, sabeis que só Vós sois Deus. Mas se eu quiser matar a Serpente que Vos afronta, eu devo entrar nesse círculo e cortar a cabeça da Serpente assim que encontra-la. Eu Vos suplico por Vossa ajuda e proteção, pois a minha vitória será para Vossa glória.
Eleaser assinalou com a cabeça e Zacharias entendeu que ele colaboraria e ambos seguiram, juntando-se a Zadoque e Johannes.
- Então, Zacharias, teremos que usar a força?
- Não, Zadoque. Eu conheço Eleaser e ele sempre cumpre com sua palavra.
Johannes faz um sinal de aprovação para Zadoque e o quarteto segue para o templo no interior da sinagoga. Eleaser se impressiona com a extensão do templo a ponto de se perguntar se ainda estavam dentro da rocha onde Petra foi escavada. Os amigos de Eleaser tiram suas roupas e Eleaser os imita meio embaraçado, mas percebe que dentro do círculo todos estão nus. Os quatro se juntam a um grupo que espera pacientemente pelo inicio da cerimônia, na parte externa do círculo. Quatro enormes pratos de cobre postados em pontos eqüidistantes são golpeados, produzindo um som forte, estrondoso e sobrenatural. Cânticos vão preenchendo o imenso salão conforme o som dos pratos se esvai, incensários são acesos e enormes tochas revelam o altar central. Silencio e todos os celebrantes se ajoelham, sendo imitados pelos convidados. Discretamente Eleaser olha em direção ao altar central e vê entrar uma belíssima mulher, gravida e despida, que senta em um trono no altar central. Então o rabino sacerdote entoa uma saudação cerimonial, se dirigindo à mulher.
- Salve Sagrada Senhora! Santa Sacerdotisa que representa Shekinah nessa celebração do equinócio. Nós vos suplicamos para que abras os portais das colunas que sustentam este mundo.
Nefter se levanta e sente a emoção de conduzir um culto novamente. Apesar de sua grande experiência, um pouco de nervosismo sempre acontece, cada cerimonia é única. Eleaser observa a sacerdotisa indo a pontos logo abaixo dos grandes pratos de cobre, fazendo sinais e dizendo palavras estranhas. Ao passar próximo de onde ele se encontrava, Eleaser sente que essa não é uma sacerdotisa qualquer do culto das rameiras, existe uma aura de poder, dignidade e nobreza em volta dessa admirável mulher e ele sente medo. Nefter completa a sagração do círculo e retorna ao trono no altar central, fazendo com que todos os celebrantes se levantem e recomecem os cânticos.
A cerimônia chega ao seu ponto mais alto e alguns rabinos se aproximam do grupo que aguarda fora do círculo. Gestos no ar simulam a formação de uma passagem e os convidados são desafiados, um a um. Conforme entram, suas mãos são amarradas pelos pulsos, atrás das costas e são levados por cordas mais grossas presas ao pescoço. Eleaser, bem instruído por Zacharias, também é admitido dentro do círculo e junta-se aos demais de frente ao altar, ficando de frente à sacerdotisa.
- Santa Senhora, nós vos suplicamos para que escolhas um destes profanos para que seja feita a União Sagrada que trará sobre nós as bênçãos do Deus Vivo e da Shekinah.
Nefter olha para o rabino e para os homens amarrados à sua frente. Os cânticos são outros, os símbolos estão misturados, mas na essência os Ritos Ancestrais estão sendo celebrados ocultamente por estes judeus. Ela respira fundo, pois sabe que é a única sacerdotisa presente neste círculo e terá que honrar os Deuses Antigos com estes homens, mas terá que escolher o primeiro. Eleaser sente sua alma em risco e se encolhe ao máximo atrás dos demais, clamando silenciosamente pela proteção e misericórdia do Deus, que parece distante e ausente. Outro poder está no comando e Eleaser sente sua espinha gelar, ele olha para a sacerdotisa que então enfaticamente olha e aponta para ele. Imediatamente Zacharias e Zadoque o pegam pelos braços, o levando para a sacerdotisa que deixa o trono e se deita no altar, em uma parte acolchoada. Zacharias o deixa a poucos centímetros do corpo da sacerdotisa e sussurra no ouvido de seu amigo uma recomendação.
- Este é teu momento, amigo. Faça amor com a sacerdotisa, tu passarás a ser um iniciado e tu poderás conhecer toda a glória do Deus Vivo.
Zacharias dá um pequeno impulso em Eleaser que cai entre as pernas da sacerdotisa. Eleaser luta contra o desejo, mas o corpo é fraco, o cheiro da mulher, o toque da pele macia, as mãos amarradas fazem com que o controle mental desapareça. Eleaser sabe que está possuído, o Deus Vivo não mais está com ele e seu corpo assume todo o controle, fazendo com que Eleaser se arraste para cima do corpo da mulher, fazendo seu rosto roçar nos pelos pubianos dela, passar pelo ventre e pelos vãos entre os seios, até ficar olho no olho. Olhos que Eleaser nunca irá esquecer e estará em seus pesadelos.
Nefter olha satisfeita e vitoriosa para sua presa. Ela nunca tinha visto Judeus participarem dos Ritos Ancestrais ou de celebrarem a Religião Antiga. Ela lembra dos dias em que os Judeus eram uma das tribos dos Hebreus que foram, junto com seu povo, adoradores dos Deuses Antigos. Ela sente que o homem desconhecido que ela caprichosamente escolheu está num terrível dilema, sente que ele tenta resistir ao impulso natural de seu corpo. Ela então ajuda o corpo, inserindo o membro do homem em sua vulva, o enlaça com suas pernas e começa com o movimento de cópula.
Eleaser sente pela primeira vez um toque tão intimo, profundo e suave com uma mulher. Acostumado a uma vida fria, vazia e estéril, distante de qualquer carinho ou amor, a experiência não o enoja. A mente treinada e condicionada desaparece em uma imensa onda de luz liquida e ele deixa ser arrebatado pelo êxtase.

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