sexta-feira, 27 de abril de 2007

Correspondências

O faraó Akenat II olhava satisfeito para sua obra que estava adiantada no cronograma. Ela estava deixando a cidade de Tebas com a sua marca e garantindo o implantação total do culto a Athon, suprimindo outros templos e apagando o nome dos outros Deuses. Ele fica feliz e aliviado que a semana passou em paz e silencio após a passagem e interferência de sua esposa.
O faraó estranhou a forma como ela apareceu, estranhamente dócil e suave, surpreendendo os engenheiros e pedreiros com sua sabedoria e mudando seus planos de acompanha-lo nas obras no dia seguinte. Ele não deu muita atenção aos motivos que ela deu para essa viajem especial, na verdade isto veio a calhar, pois o livrou de imaginar um motivo para afasta-la das obras e evitar mais participações dela entre os cismados engenheiros e pedreiros.
O faraó aproveita a sombra e senta em sua cadeira real para beber um gole de vinho de tâmara gelado, quando seu descanso é interrompido com a chegada de um mensageiro. Apesar das roupas, o mensageiro não era obviamente egípcio, ele tinha traços semitas. O rolo que ele entrega está escrito em copta, a forma de escrita popular no Egito e a mensagem tinha um conteúdo estranho.
Vossa Celeste Majestade, Faraó Akenat II
Eu Vos escrevo na data em que meu povo comemora a Pessach, o dia em que os Judeus saíram do Egito para voltarem à Terra Prometida, Eretz Israel. Nosso povo viveu como servos do faraó Ramsés que foi Vosso ancestral que primeiro conheceu o Deus Vivo.
Nessa data especial, eu devo Vos dizer que, mais uma vez, o povo Egípcio e o povo Judeu se unem debaixo do Deus Vivo, que Vós chamais de Athon, os Persas de Ormuz e nós de Yahveh. Vós deveis saber que isto não é uma coincidência, nós também travamos uma luta constante contra falsos deuses e os templos de cultos impuros.
Por isso, eu Vos suplico que me conceda uma audiência para Vos acautelar contra a presença de uma sociedade secreta que, vivendo entre as engrenagens do Governo, tem feito conspirações e planos escusos. Eu tenho indícios de que esta sociedade vem mantendo ocultamente os cultos aos falsos deuses e ajudam na resistência ao culto do Deus Vivo em outras regiões. Caso Vossa Celeste Majestade conceder-me esta audiência, eu coloco à Vossa disposição os serviços dos Inspetores da Ordem de Melquisedeck que vem, com sucesso, acabado com o culto das rameiras na Judéia.
Em serviço do Deus Vivo,
Anás Elijah, rabino ancião, sinagoga de Jerusalém.

O faraó lembra da história de Ramsés, seu real ancestral, o primeiro faraó que concedia aos servos o direito de acumular posses e ao servo estrangeiro a permissão de comprar sua liberdade, voltar à sua terra natal ou adquirir a cidadania egípcia. Enquanto administrativamente Ramsés mostrou-se à frente de seu tempo, em termos espirituais ele estava perdido em meio às superstições antigas. A libertação dos Hebreus pelo faraó Ramsés só foi comparável em nobreza com a libertação dos Judeus pelo rei persa Ciro.
O faraó Akenat sempre ficou sensibilizado com a história dos Hebreus e seus descendentes diretos, os Judeus, que mais uma vez estão sujeitos à servidão pelos Romanos. Os Egípcios sabem o que é ter o reino diminuído a uma colônia, eles estiveram dominados por Gregos, Assírios e Persas. O pior não é a submissão, é a invasão de línguas, de hábitos, de credos, de deuses estranhos que acabam por desfigurar a alma egípcia.
Sem demora, o faraó Akenat chama pelo escriba real para que seja redigida uma resposta em aramaico, como uma gentileza em troca da mesura que Anás teve ao redigir a carta dele em copta. Na carta, o faraó quis mostrar sua preocupação com o passado de sua amada rainha.
Vossa Reverência, rabino ancião Anás Elijah.
Nós recebemos Vossa mensagem uma semana após a festa do Pessach, que foi celebrada pela comunidade judaica local, que goza de nossa simpatia e proteção, por seus hábitos virtuosos e por venerarem o Deus Vivo, em harmonia com o culto a Athon, demonstrando que nossos povos compartilham o mesmo ânimo.
A história de Vosso povo se assemelha com o nosso, mas não temos a mesma experiência na luta contra os falsos deuses e cultos. Nós estamos tentando corrigir séculos de crendices e superstições e Vossa sabedoria é bem vinda, desde que não perturbeis nossos nobres e a realeza. Como Vós sabeis e é publico, Vossa Magnifica Majestade, a rainha Nefter, pertenceu outrora `a casta das sacerdotisas de Ísis, cujas cerimonias, rituais e práticas eram contrárias aos desígnios do Deus Vivo.
Considerando que esta carta chegue em Vossas mãos no fim do mês de Sivan ou no início do mês de Tamuz, nós resolvemos conceder-vos uma audiência para o décimo quinto dia de Vosso mês de Av, para que Vós possais observar os dias de culto ao Deus Vivo.
Pela Luz de Athon,
Faraó Akenat II

Nenhum comentário: