sexta-feira, 27 de abril de 2007

Dançando à luz da lua

O som das flautas, tambores e hinos ressoavam pelas pradarias ressecadas, chamando, agregando na caravana os nômades que se somavam às pessoas dos vilarejos do Vale do Hinam, aumentando a força, trazendo mais mulheres e aprendizes de sacerdotisa. O imenso grupo foi se espalhando em torno da orla do lago da Galiléia, tanta gente que poderia encher uma cidade, tendo a jovem sacerdotisa Ketar como centro das atenções e poder.
Ketar desceu de seu camelo e mergulhou nas águas do lago, sendo imitada por todas as mulheres presentes. Assim que saiu, ela viu uma oportunidade sem par de ensinar às jovens aprendizes algo que não se ensina em templos. Ela deu um leve aceno e Roe se pôs a improvisar um altar sagrado, sendo ajudado por Yussef, Andros e Parsis. Lapidatus parecia ansioso para ajudar em alguma coisa, então Ketar sussurrou em seu ouvido um pedido.
- Eu gostaria muito que tu fizesses um leito para nós feito de peles de carneiro.
Lapidatus partiu com dez de seus mais próximos soldados em direção aos montes para retornar alguns minutos depois com vários carneiros para pelar e comer. As demais pessoas ficaram sentadas, avistando a preparação do altar improvisado. Mais ao Norte, Roe construía com um tronco de Urze um poste cheio de inscrições. Ao Leste, Yussef construía com um tronco de Salgueiro um poste com outras inscrições. Ao Sul, Andros construía um poste com um tronco de Freixo que levava inscrições próprias. Ao Oeste, Parsis construía um poste com um tronco de Teixo enfeitado com sinais. Ao centro, Lapidatus colocou as peles de carneiro e em volta traçou um círculo. Ketar completou o trabalho, colocando os sigilos nos pontos certos do círculo. Assim que todos estavam acomodados, Ketar explicou o que estavam para testemunhar.
- Antes que o homem tivesse erguido seu domínio, antes de cidades serem construídas, antes da Noite do Tempo. Em uma noite de lua cheia, vinham os seguidores dos Ritos Ancestrais. Desde este tempo, têm surgido os sacerdotes e sacerdotisas do Deus Cornudo e da Deusa Lunar. Desde este tempo, tem-se evocado os Guardiões dos Portais. Desde este tempo, tem-se reverenciado os ancestrais. Todos, homens, mulheres e crianças, podiam fazer livremente suas oferendas aos Deuses Antigos. A lua está cheia hoje, estamos longe das vistas dos reis e dos falsos sacerdotes. Evoquemos os Guardiões e invoquemos os Deuses Antigos, para sermos livres mais uma vez!
Palmas, assovios, gritos. Ketar põe-se em posição, Lapidatus acena aos soldados para começarem novamente as músicas e os cânticos. Yussef está preocupado, as jovens sob sua guarda ainda não estão prontas para conduzir uma cerimônia, mas Ketar havia deixado bem claro sua indisposição para pajear aprendizes. Andros percebia o desafio que ela lançava, devia ser ali e agora que ou se estava preparado, ou se devia fugir. Sem ter muita certeza do que aconteceria, Magdalena assumiu sua posição, perfeitamente alinhada com Ketar, tentando sinalizar para Miriam onde ela deveria ficar. Parsis desejava ver uma cerimônia tradicional, como ele vira na Egéia, antes de morrer, então se arriscou a posicionar Miriam na posição correta. Para sua sorte, Ketar não estava interessada quem estava alinhado ou não, ela simplesmente pegou o gládio de Lapidatus e começou, diante do tronco ao Leste, a evocação dos Guardiões.
- Baga lache bacheba, lamac cahe achabe karelyos. Lamac bachalyas cahagy sabalyos. Baryolos lagoz atha cabyolas, samahac atha famolas. Eko, eko, Azarak, eko, eko, Zamilak, eko, eko, Tammuz, eko, eko, Ishtar. Akhera goiti, akhera beiti, harraya!
Terminado as evocações, Lapidatus demonstrou que observava os ritos ao trazer a Ketar bacias de bronze contendo o sangue dos cordeiros. Sem olhar, Ketar molha a ponta do gládio no sangue e asperge-o na testa de Yussef, seguindo Andros, Parsis e finalmente Roe. Ketar se dirige ao centro, aspergindo mais sangue sobre os sigilos escritos no círculo interno, depois em Lapidatus. Ela ajoelha-se e põe o gládio diante dela, ergue-se e diz a Lapidatus as palavras sagradas.
- Os Deuses Antigos estão presentes. Diante da Sagrada Presença, não devemos conhecer restrições ou inibições, bebamos, comamos, façamos música e amor.
Ketar deita nas peles de carneiro e puxa Lapidatus para si. Ele deixa de lado os protocolos ritualísticos e rasga as vestes ainda úmidas de Ketar, rasgando as suas a seguir e possuindo as carnes de Ketar até saciar seu desejo. Exausto, Lapidatus cai como um feliz vencido ao lado de Ketar. Não é momento de fraqueza ou arrependimentos. Magdalena e Miriam sabem que são as próximas. Na sorte lançada, um soldado e Andros vão ao leito de Magdalena e Miriam, ali ficando até igualmente caírem felizes vencidos ao lado das jovens aprendizes. Depois, os demais presentes fazem igualmente a devida cerimônia e oferenda aos Deuses Antigos.
- Então, as jovens aprendizes, no final das contas, estavam prontas. Não foi muito difícil, foi?
- Não, Santa Senhora, não foi. Eu gostei muito e quero mais.
- Eu me sinto engraçada.
Ketar está feliz, satisfeita e pensativa. Ela olha para Miriam, sabe que ela engravidou em sua primeira cerimônia. Ketar também sente o mesmo, os Deuses enfim mostram como são caprichosos. Quando ela menos esperava, com quem ela menos pretendia, ela deveria receber o fruto que tanto esperava para completar seu sacerdócio. Magdalena teria que esperar mais, quem mais se dá ao serviço acaba sempre esperando mais. Ketar se ergue, limpa o pouco de areia em seu corpo e se congratula por ter vencido em trinta minutos um centurião romano tão forte e poderoso. Ela então se dirige a Andros para provocá-lo.
- E tu, jovem mago, o que aprendeu?
- Que o homem está sendo punido por abandonar os Antigos Ritos.
- Punido? Deuses, não! Nenhum Deus é tão pequeno, mesquinho e ridículo para querer punir o homem! Encontrar o chifre amalteano não te adiantará de nada!
- Então porque o homem está se distanciando tanto dos Ritos Antigos e sendo dominado por esses cultos estranhos a um único Deus?
- Fora daqui, tu e Platão! Não acabou de presenciar os Ritos Antigos? Não sentiu a Nossa presença? Acaso há poder maior que o Nosso?
Fez-se então um silêncio, as estrelas no céu foram afastadas como se fossem nuvens, ficando apenas o negrume límpido da Noite e a Lua. Intoxicada com a presença da Deusa Lunar, Ketar faz a dança sagrada, a dança do universo, da geração e decadência, da luz e da sombra, desenha em seus pés as galáxias e os seres vivos. Ketar torna-se, totalmente e absolutamente, a encarnação da Deusa Lunar que dançando desvela o segredo das épocas do porvir.
- Nós estamos em vós, vós estais em Nós. Vós sois a manifestação de Nós neste Mundo. Nós conhecemos vossa natureza como Nossa Natureza. Houve tempo em que estivemos neste Mundo, agora ouvimos o vosso desejo de caminhar com os próprios pés. Então, vós conhecêsseis seus reis. Houve tempo em que lhe falávamos diretamente pelas árvores, agora cedemos ao vosso desejo de ouvir as mesmas verdades por meio dos sacerdotes. Houve tempo em que os espíritos e os encarnados andavam como um só povo, agora permitimos que vos afasteis para formarem vossas cidades. Houve tempo em que éramos muitos como vós mesmos, agora que vós crescêsseis, credes em Um para que sejais apenas Um povo santo. Vós sofrereis sim e muito, por vossos desejos e atos, não por nossa mão. Por causa de vosso desejo por União, há de surgir vestido como ovelha, da Casa de Israel, o nome do Lobo que varrerá vosso Mundo para cumprir com vossos desejos. Este é o descendente do Chacal que veio de Ur e é o ascendente do Leão que há de vir dentre as tribos nômades desta mesma região. Vós conhecerei a loucura da palavra escrita e serão subjugados pelos reinos monstruosos erguidos por estes predadores de almas. Debaixo do símbolo desses reinos cruéis haverá rios de sangue sem fim, irmãos matando irmãos, nações destruindo nações, tudo por causa do que credes neste Um. Havereis de ver os limites da humanidade se perder sem conseguir parar esta demência porque este é vosso desejo, o desejo de conhecer a apenas Um Deus Vivo, de ter apenas Uma Religião Verdadeira, de ser apenas Um Povo Santo! Quando vós tornares o mar em sangue e vossa existência estiver por um fio, Nós vos chamaremos novamente, dentre vós Nosso culto renascerá e vós tereis uma oportunidade de escolher entre viver e morrer. O vosso Destino está onde sempre esteve, em vossas mãos.

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