sexta-feira, 27 de abril de 2007

Em busca do chifre amalteano

No porto de Laodicea, o jovem Andros participa com a tripulação da nau Triton de um ritual apaziguador para uma boa viagem onde uma bela jovem sacrificou um novilho em nome de Poseidon. Apesar de ser uma viagem curta até Minos, convém nunca esquecer as libações aos Deuses Antigos. Andros lembra de sua infância em Ephesus, onde ele ouvia deslumbrado os velhos contarem as sagas de Jasão e Ulisses. Embora pergaminhos fossem vendidos com essas lendas escritas, era muito melhor ouvir dos velhos, uma lenda escrita é uma lenda morta, mesmo Hesíodo em seu talento não conseguiria mostrar toda a maravilha das lendas antigas por palavras escritas. Papel não tem expressão facial, não tem nuances de voz, não tem sons improvisados, não cantam. Papel somente tem utilidade para a burocracia burra que concede mais valor ao registro do que ao fato registrado. O pensamento de Andros é interrompido pela jovem sacerdotisa que se aproxima e unta a testa de Andros com o sangue fresco do novilho, a proximidade faz com que ele a reconheça, era ninguém mais do que Driad, uma amiga de infância que uma vez Andros se apaixonou. A bela jovem escondia algo entre os dedos que foi deixado às pressas no seu cinto, seria uma prece de proteção ou um recado sigiloso para ele? Com o embarque da tripulação, víveres e mercadorias, Andros só poderia olhar o conteúdo do pequeno pergaminho em alto mar.
Tendo o sol por testemunha, o pequeno pergaminho continha uma jura de amor, mas havia algo de estranho na ordem das palavras que o levou a tentar decodificar, contando as letras ou calculando seus valores numéricos. Driad quis deixar sim, que o amava, mas enviou uma mensagem cifrada dando a ele uma pista daquilo que ele estava procurando: o chifre amalteano. Haveria um local em Minos, um templo dedicado aos Ritos Ancestrais, uma pessoa que iria indicar com os cinco sinais sagrados que sua rota estaria nessas mãos. Andros não lembra de ter dito os motivos de sua jornada, nem a seus amigos mais próximos, nem para a sacerdotisa do templo sagrado de Ártemis em Ephesus. O chifre amalteano é o mito que os velhos contavam em ocasiões muito especiais, em pequenas assembléias de anciãos, sempre de noite, durante enterros, após beberem bastante. Andros foi designado para servir naquela noite, apenas os jovens escolhidos pelos anciãos que são permitidos permanecerem nessas ocasiões. Naquela noite, os velhos se reuniram para encomendar a alma de Sócrates aos Deuses da Morte, uma tragédia, um suicídio de honra em plena Athenas, uma perda inestimável. Como sempre, Esopo foi quem lembrou do chifre amalteano, o chifre do primeiro unicórnio gerado pelos Deuses, um chifre de onde flui abundância a quem o possuir, mas que para isso seu portador deveria conhecer a chave e estar com o coração puro. Andros naquela noite decidira com sua alma que buscaria o chifre amalteano, na esperança de que isto fosse afastar os estranhos persas de sua cidade e Ormuz, o Deus invasor e violento trazido pelos zoroastristas. Naquele tempo, um velho filósofo havia dito que os Mistérios Antigos sempre se mantiveram fortes nas cidades onde havia alegria, felicidade e prosperidade; mas que na miséria, tristeza e ignorância, o culto ao Deus Único prevalecia.
Diante da entrada do porto de Minos, os pensamentos tristes de Andros sumiram feito nuvem, rever o farol tão alto quanto o de Alexandria, com relevos nos quatro lados direcionados aos quatro cantos da Terra, mais as duas efígies dos touros gêmeos, bem na entrada do cais, são imagens que, toda vez que um viajante passa por eles, trazem a memória dos Mistérios Antigos. A nau Triton ancora junto com outras naus, no cais, a multidão se mistura, cada qual seguindo seu destino. Andros procura algum restaurante ou pousada grega, ficar no meio da manada seria correr o risco de ser assaltado ou seqüestrado. Em uma mesa com uma ânfora, um Dório acenava insistentemente em sua direção. Ao chegar perto, recebeu a saudação sigilosa dos seguidores dos Mistérios de Eleusis.
- Seja bem vindo. Quando Driad escreveu para mim a seu respeito, eu tinha acabado de vender um antigo templo de Baal a uma jovem sacerdotisa de Ishtar, vinda do Egito a pedido de sua mãe, uma sacerdotisa de Ísis. Eu sou velho demais então, para mim, o porto de Minos oferece mais oportunidades. Por ti, eu poderei mais uma vez participar dos desígnios dos Deuses. Coma esse prato de lentilha com pão de centeio, beba o vinho e me siga, nós não ficaremos muito tempo aqui, zarparemos pela sexta hora para o porto de Haifa. Levará uma semana para chegarmos lá, mas chegaremos no tempo exato para nos misturarmos às caravanas para Esmirna. Lá encontraremos o nosso guia.

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