sexta-feira, 27 de abril de 2007

Esbath

O dia seguinte foi bastante agitado, os serviçais do templo iam e vinham pelas portas, subiam e desciam as escadas, trazendo vasos com flores, ânforas com óleo, tachos com brasas, incensos, velas, estátuas votivas. As estatuas dos Deuses e Deusas a serem veneradas vinham em blocos para serem montados, mesmo em tamanho natural era mais prático e mais fácil de transportar até o local onde seriam postos. Ketar ficou impressionada com a vontade e disposição dos comerciantes locais, todos também contribuíram para a montagem do salão, com faixas, ornamentos e diversos animais para as libações. Até o fim do dia, naquela velocidade, o templo estaria pronto para a inauguração, para a primeira cerimônia de lua cheia. No fim da tarde, Lapidatus apareceu, solicitando permissão para entrar. Ketar achou isso engraçado, pois romanos raramente pedem permissão para algo, muito menos um centurião romano.
- Santa Senhora, peço-vos permissão para profanar vosso santo templo.
- O que esconde de nós, soldado? Não cremos que tua espada solicita permissão para abrir teus caminhos ou conquistar tuas riquezas.
- Minha espada é útil em assuntos mundanos, aqui ela é inútil e inconveniente. Entretanto trago para vosso templo as estátuas de Diana e Janus, para que nossos legionários possam freqüentar vosso santo templo.
- Se os Deuses e Deusas romanos não se importam em dividir nosso santo espaço com outros Deuses e Deusas, sejam bem vindos todos, bem como os legionários romanos. Lapidatus fez uma breve reverência em direção a Ketar, olhou para trás e com um sinal foi seguido por oito legionários, carregando as estátuas de Diana e Janus. Ketar olha as extravagantes artes sagradas dos romanos, muito parecida com a dos gregos, com Deuses e Deusas excessivamente vestidos e paramentados, como se tivessem algum pudor ou receio de mostrar seus corpos. Ainda é melhor do que as loucas idéias dos seguidores de Deuses únicos, Deuses sem corpos, sem emoções, sem sentimentos, assexuados, distantes. Ela não conseguia vislumbrar de que forma tais cultos poderiam produzir o êxtase necessário para levar seu celebrante ao vislumbre da Existência, da Eternidade e dos Mistérios Antigos que se encerra nos Deuses e Deusas. Ela ouvira histórias de que apenas homens entram nos templos, que viviam em celibato e nas mais absurdas privações. Qualquer coisa que nos ponha separado do que foi gerado pelos Deuses e Deusas, não é saudável, pensava ela. Lapidatus e Roe perceberam o rosto anuviado da Sacerdotisa de Ishtar, no que seus olhos se cruzaram, fazendo com que Lapidatus fizesse um sinal secreto de soldado usado em campo de batalha, na esperança que Roe reconhecesse o sinal sem ser percebido pela Sacerdotisa. Roe aproximou-se como que se fosse vistoriar a posição das estátuas em linha com os demais Deuses e Deusas, próximos das colunas laterais do salão, fazendo o sinal com as mãos de que entendera o chamado.
- Meu irmão de armas, se me permite chamá-lo assim, sua Senhora está pensativa e preocupada com algo. Houve algo durante a viagem que a contrariou?
- Centurião, eu tive a honra de servir ao exército de Titus Livius, durante a guerra contra Aníbal. Eu fui dispensado com honras após a morte de meu centurião, Demetrius, da CXI legião. Minha Santa Senhora não é de se deixar contrariar, poucas pobres almas ousaram fazê-lo, mas ela muitas vezes queixa-se dessa nova moda de adorar apenas um único Deus. - Pois é a mais triste verdade. Eu mesmo estive em Lacedemônia, pude ver gregos e troianos, celebrando em meio a espartanos, ao Deus Mithra, trazido para a cidade de Delfos por persas e fenícios. Ouvi dizer de locais que foram dominados pelos seguidores de Zoroaster que se tornaram violentos contra as demais religiões, perseguindo seus seguidores, destruindo suas obras, profanando os templos.
- Por que será que isso aconteceu? Como alguém pode entronizar apenas um Deus na Eternidade, negando os demais ou os atirando no Tártaro, como se fossem malignos? Como se pode esperar amor e compaixão de um Deus que não conhece outro Deus nem possui uma Deusa consorte? O que se pode esperar de um Deus tão distante e estranho ao mundo que Ele gerou?
- Isto aconteceu pela ganância. Homens e Deuses que apreciam a guerra somente conseguem vitórias quando relegam outros homens e Deuses e Deusas a meros adversários, inimigos da verdade, da bondade e da fé. Os Deuses por intermédio dessas tribos acabam recebendo culto exclusivo, sem ter que dividir as honras e glórias em troca de uma falsa promessa de uma vida eterna cheia de privilégios e prazeres que seus seguidores se negam desfrutar nesta vida. Assim, por meio do medo e da espada, a nova religião se espalha e conquista almas ignorantes e territórios, dando ao novo culto a confirmação que necessita para exatamente justificar a reivindicação de que aquela é a verdadeira fé. Lapidatus e Roe olham espantados para Ketar que mansamente observa a luz do dia que finda atravessando a janela Oeste do templo, iluminando seu leve traje de cerimônia, rosto e corpo com um tom alaranjado. Olhar a Sacerdotisa no altar principal em um templo iluminado somente pelo lusco-fusco do crepúsculo é suficiente para dar a qualquer criatura uma profunda reverência pelos Mistérios Antigos. Os velhos soldados sentem que ela estivera sempre os ouvindo, apesar de estarem a uma distância de cinco pés e estarem cochichando, eles sentem que é impossível ocultar algo de uma Sacerdotisa tão habilidosa quanto Ketar. Os legionários que acompanhavam Lapidatus caem de joelhos e prostram seus rostos ao chão diante da manifestação da Sacerdotisa. Lapidatus apressa-se em se desculpar, mas Ketar dá uma risada de garota sapeca e sai correndo, sumindo por entre as sombras do templo, cada vez mais proeminentes. O centurião olha desorientado para Roe, que acena a cabeça, a Sacerdotisa só voltará a ser vista durante a cerimônia. Horas depois, vai-se o sol, surge a lua e as estrelas, a multidão vai se aproximando do templo, amontoando na entrada, esperando os portões abrirem, enquanto mais gente chegava com seus cavalos e camelos, dando um bom lucro aos estábulos próximos para guardar e alimentar as montarias, lucro dividido com o comércio abundante que se instala nas cercanias do templo. Dentro dele, no salão principal, os serviçais vão se postando, arrumando os últimos detalhes, dando uma última ajeitada nos trajes e ornamentos, acendendo as velas e incensos. No momento certo, Roe vai buscar a Sacerdotisa em seu quarto particular, que aparece em uma belíssima veste sacerdotal, cerimoniosamente segue a Roe e entra no salão principal, ordenando a abertura dos portões ao púbico. Quatro serviçais abrem os portões e ordena uma entrada controlada do público, afinal ali é um templo sagrado, não o circo. As pessoas vão se espalhando pelo espaço do salão, observando extasiados à visão da Sacerdotisa em sua poltrona no altar principal, bem abaixo dos Deuses principais do templo: Ishtar e Tamis. Os demais serviçais orientam aos que buscam fazer oferendas aos seus Deuses e Deusas favoritos, dispostos nas laterais do salão principal, para evitar exageros e permitir um espaço a todos fazerem suas oferendas. Os muitos vasos reservados para oferendas em óleo ou moedas ficam repletos rapidamente, vários camponeses são orientados a deixar suas oferendas em gado no estábulo do templo. Algumas autoridades locais e aristocratas reverenciam a Sacerdotisa que os trata com a mesma simpatia que mostra a pessoas comuns, em um templo sagrado nenhum sinal de status, riqueza ou influência tem lugar. Ao sinal da Sacerdotisa, fecham-se os portões, todos fazem silêncio olhando maravilhados para a beleza da Sacerdotisa.
- Saudações a todos os presentes. Eu sou Ketar, Alta Sacerdotisa de Ishtar, herdeira de uma longa linhagem de Altas Sacerdotisas, descendente direta da família de Utur. Em nome de Ishtar eu dou boas vindas a todos para nossa inauguração, oferecendo ao povo um local onde adorar seus Deuses e Deusas favoritos, honrar seus ancestrais e celebrar os Mistérios Antigos. Nesta noite celebraremos a alegria da festa dedicada à Deusa de tantos nomes adorada desde tempos imemoriais em noites de lua cheia, porque esta é a ocasião e a imagem que Deusa se manifesta em nosso mundo.
- Ouçam todos e reverenciem a Mirian, a primeira Alta Sacerdotisa de Ishtar, que viveu na cidade de Sekmet, no Império de Akkad, nasceu e viveu entre os Deuses e Deusas ancestrais e nos legou a árdua tarefa de preservar os Mistérios Antigos.
- O princípio de tudo veio dos Deuses e Deusas, apenas estes vislumbraram o Enigma da Bruma da Eternidade, além dos tempos. Todos são a Eternidade, a Eternidade é pluralidade, diversidade, mudança, Vida. Então os Deuses e Deusas geraram as estrelas e os corpos celestes, dentre os quais tomaram afeição por este mundo, no qual deixaram sua semente e espírito para frutificar, esta semente foi chamada de humanidade. Nossa raça é herdeira dos Deuses e Deusas, nossa origem está entre as estrelas e corpos celestes. Assim fomos gerados, divinos e puros em essência e natureza, assim deve ser. Dentre tantos povos, cada Deus e Deusa afeiçoou-se e os tomou nas graças, os ensinando os Mistérios Antigos que são a essência da Eternidade. Assim desceu Ishtar, na cidade de Sekmet, no Império de Akkad, para escolher dentre o povo aquela que seria ensinada.
- Ouçam e reverenciem à primeira manifestação dos Mistérios Antigos, quando Ishtar explica como vê os apetites humanos e onde existe a riqueza real.
- Diante de minha sagrada presença vêm os reis do mundo, mas saibam que assim como Eu abri mão de meu poder para conhecer os homens, não conhecerei rei algum que não abra mão de sua realeza e conheça seu povo. Diante de minha sagrada presença vêm os magos do mundo, mas saibam que assim como Eu abri mão de minha autoridade para sentir os homens, não conhecerei mago algum que não esteja preparado para estar aberto para a surpresa da Vida. Diante de minha sagrada presença vêm os conquistadores do mundo, mas saibam que assim como Eu abri mão da minha força para entregar a beleza, não conhecerei conquistador algum que não esteja pronto para se entregar para a compaixão do Amor.
- Demos salvas para Mirian, a órfã que despossuída, desinibida e desalojada é adotada por Ishtar para ser treinada nos Mistérios Antigos.
- Eu sou Filha de Ishtar, falo aos filhos e filhas dos Deuses e Deusas, que estejam reunidos na lua cheia, como era feito desde tempos imemoriais, seja no campo ou em templos, para adorar a Deusa de tantos nomes, que observam os ciclos dos tempos e as estações da natureza, que reverenciam seus ancestrais e este mundo como uma família. Tudo foi gerado pelos Deuses e Deusas, tudo em nossa volta é sagrado, tudo deve ser usado com sabedoria e reverência, pois este é o corpo dos Deuses e Deusas, nosso próprio corpo. Este mundo é parte da Eternidade, é parte da Realidade Divina, não coloquemos separação entre os Deuses, Deusas e homens. Plantemos nossos grãos, criemos nossos gados, bebamos e comamos, não conheça privação, mas moderação. Dito isso, entram no salão principal os serviçais trazendo cestas de pães e ânforas de vinho, trazem para próximo do altar, para que a Sacerdotisa os consagre, passando então a oferecer pães e vinho para todos os presentes.
- Demos salvas a Ishtar e Miriam, pois através da Arte Sagrada transmitida por gerações nós podemos conhecer o rito ancestral antigo vindo diretamente dos Deuses e Deusas como sendo a celebração mais sagrada e profunda que se deve oferecer aos Deuses e Deusas.
- Eu sou Amor, não há amor sem Prazer, não há prazer sem o contato entre os Corpos. Eu me dispo diante de todos para que vejam como Eu sou, sem diadema, sem vestes, sem distinção, Eu sou igual a todos vós, meus filhos e filhas. Dispam-se em Meus rituais, para mostrar que são verdadeiramente livres e sinceros. Dito isso, Ketar em um gesto teatral despe-se totalmente diante do público, seguido imediatamente por seus serviçais e camponeses. Diante dos aristocratas e governantes, os camponeses entram em êxtase, alguns caem de joelhos, outros se prostram, ou dançam, cantam, choram e rolam pelo chão. Ketar esperava essa reação dos aristocratas, que seguravam nervosamente seus colares, diademas, jóias e não se despiam. Ela sabia que posses materiais fornecem uma falsa sensação de segurança e valor social. Ela sabia que muitos dos que estavam ali presentes não voltariam ao templo, mas assim mesmo ela continuou a declamação que aprendeu de sua mãe. - Eu dou a riqueza deste mundo, para que seja utilizada, não para ser guardada, saibam pobres almas que ouro e prata não sentem, não falam, não ouvem, não alimentam, não dão frutos, não saciam a sede. Afasta-te do peso ou afasta-te de Mim. Como era esperado, muito dos aristocratas presentes preferiram sair pela saída lateral, tentando disfarçar sua enorme ganância e predileção por posses materiais ou posição social. Dando seqüência, Ketar procede com a purificação simbólica através do açoite. Roe se aproxima e desfere nas costas de Ketar as nove chibatadas simbólicas para purificar o espírito dela e evocar em Ketar a Deusa e ela igualmente bate nas costas de Roe oito vezes para purificar o espírito dele e evocar nele o Deus antes de realizar o rito final. Os serviçais, os camponeses e outros celebrantes imitam ao ato da Sacerdotisa, em devoção aos Deuses e Deusas antigas, em reverência aos ancestrais.
- Eu sofri as dores do Amor para poder ter Amor incondicional, Eu me despi e mostrei como se deve preparar o corpo e o espírito para o rito final de entrega voluntária e votiva aos Mistérios Antigos, para celebrar e comungar com os Deuses e Deusas.
- Observem e celebrem os Ritos Ancestrais, assim como a Deusa encontra o Deus, a mulher deve encontrar o homem. Assim como o Sol se ergue no Este e se põe no Oeste, mas antes deve passar pelo Firmamento que é o Ventre da Deusa, assim deve o homem erguer-se e se pôr na mulher, passando pelo ventre dela. Ketar então se deita no altar e se põe na posição de Ishtar, deitando sua cabeça para o lado Oeste e suas pernas para o lado Leste. Roe sobe ao altar principal, aproxima-se de Ketar e a penetra, montando em cima dela. Ketar se lembra da primeira vez que realizou o rito final, quando recebeu de sua mãe a elevação como Alta Sacerdotisa de Ishtar, ela sentiu como é a sensação de receber um homem em suas carnes pela primeira vez, sentiu prazer, vergonha, medo, dor, submissão, revolta. O privilegiado para tal tarefa foi seu último padrasto, no ano passado, na estação da Primavera, pouco depois que ela havia completado onze anos. Roe ainda estava em treinamento, mas da sua comitiva, ele era o único capaz da tarefa, os outros não tinham o controle ou paciência suficiente para realizar o ato de forma correta, sem falar que há algo mais no sabor de receber Roe entre suas pernas que ela não sabe descrever, é bom, é firme, todos aqueles músculos e cheiro delicioso de macho. Ketar sente uma satisfação enorme e não se contém, mergulha em êxtase e sente Roe lhe preencher o ventre. Trêmula, satisfeita, consagrada, sentindo a comunhão com os Deuses e Deusas, Ketar descansa observando alegre que todo os celebrantes que ficaram igualmente se entregam aos ritos ancestrais, em pares, pelos cantos, escondidos pelas sombras, elevam em sussurros e gemidos o mais perfeito hino de louvor aos Deuses e Deusas.

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