sexta-feira, 27 de abril de 2007

Espera silenciosa

Passaram-se três dias que Eleaser está sem comer, beber e dormir, aguardando estático no meio do salão sombrio daquele edifício cuja entrada era no fim de um beco bem atrás da sinagoga de Jerico. Mas Eleaser estava acostumado a passar privações, foi graças ao treinamento que ele recebeu na Ordem de Melquisedeck que ele pode escapar de uma vida cheia de vícios, pecados e impurezas. O pior era a espera silenciosa, o eco de um salão vazio e a expectativa do castigo certo que lhe custaria a vida.
Acima dele, a temível bancada de pedra por onde os anciãos recebiam os penitentes para dois destinos: um é a redenção, o outro é a condenação. Eleaser havia passado pela redenção e havia falhado em sua missão para acabar com o culto das rameiras em Elom. A torre onde o salão se encontrava, apesar de menor que a sinagoga, é mais antiga, dizem que foi construída com as pedras da muralha de Jerico. Passos anunciam a aproximação de alguém, um vulto se aproxima da bancada, a face enrugada iluminada por um castiçal revela olhos profundos a observar Eleaser.
- O que faz aqui, irmão? Não há ninguém aqui.
- Nobre irmão, eu sou Eleaser. Eu estou aqui para relatar a minha missão e acatar o castigo que me aguarda.
- Eu sou apenas o zelador, vá para casa, os anciãos estão em alguma festa, em algum palácio real.
Por alguns instantes, Eleaser fica imóvel, de boca aberta, com um olhar assustado. Mas em seguida balança a vigorosamente sua cabeça para os lados, para expulsar as palavras e pensamentos impuros. Devia ser um teste, só pode ser um teste, não haviam pessoas mais puras e virtuosas que os anciãos da Ordem de Melquisedeck, eles não estariam numa confraternização monstruosa com os reis deste mundo pecaminoso.
- Confesso que eu não estava preparado para tal teste, nobre irmão, eu vacilei em minha fé por uns instantes. Eu devo me penitenciar agora por minhas falhas!
O velho zelador ensaia um sorriso em sua boca desdentada. Ele conhece a devoção dos membros e associados da Ordem, quando ele foi jovem, ele tinha este fogo na alma.
- Irmão, assim como tu eu passei pelo treinamento. Eu fiz coisas inomináveis, eu conquistei um cargo nesta Ordem com o sangue de muitos inocentes. Por dez anos eu andei na companhia dos homens santos. Aqui mesmo, bem neste salão, eu os vi celebrando os rituais que eles nos mandaram perseguir e erradicar. Eles não estão se importando contigo, eles não querem adorar o Deus Vivo, eles não querem redimir os hebreus do pecado original. Desde o começo, tudo o que eles queriam é poder e riqueza. Mas eu estou velho, nada posso fazer. Entretanto tu ainda tens chance, renegue, fuja, procure aprender os Mistério Antigos, tente preservar o pouco da humanidade que ainda existe em ti.
- Pare! Cale-se! Mentira! Eu prefiro o silencio a continuar a ouvir tamanha heresia e blasfêmia!
O velho zelador se conforma. Na idade dele, no lugar dele, teria feito o mesmo. Eleaser teria que completar por si mesmo a jornada dura e sofrida da desilusão que o velho zelador passou. Eleaser esperava por punição de seus superiores e mesmo a morte, como o velho zelador tantas vezes sofreu, mas a morte é um privilegio negado aos membros, a morte seria boa demais agora para o velho zelador. Ele deixa Eleaser novamente sozinho no salão vazio e sombrio para fazer o ultimo ato que lhe cabe nessa vida. Ele já tinha visto a apresentação do filho da casa de Hilel, aquele que seria educado nos Mistérios Antigos e treinado para ser o Messias.
Eleaser permaneceu naquela torturante espera silenciosa até o término do sabat, quando um magistrado ocasionalmente passou por lá.
- O que faz aqui? O salão está fechado!
- Nobre irmão, eu venho para falar com os anciãos. Eu falhei terrivelmente em minha missão e desejo me penitenciar.
- Não é tu quem deve vir aqui e nos pedir para atendê-lo e castigá-lo conforme sua vontade. Nós é quem chamamos quando assim deliberarmos.
- Eu estou confuso!
- Claro! Por isso que eu sou o magistrado e tu és um simples inspetor.
- Mas e a minha missão? Como poderei pagar por minha falha?
- Acaso está querendo ensinar a mim como, quando e a quem julgar?
- Oh, evidente que não, senhor magistrado!
- A sua missão não é importante! Nós temos uma ordem superior, um plano divino que não tem falhas! Então, dizer que sua pequena missão não foi bem sucedida é o mesmo que dizer que o Deus Vivo, o Senhor dos Exércitos teve uma derrota!
- Perdão! Eu nunca pensei nisso!
- Claro que não! Por isso que ainda tem muito que aprender! Vá embora para sua casa que nós te faremos saber o que deve fazer.
- Imediatamente, ilustríssimo senhor magistrado.
- Ao sair, leve o corpo desse velho. Está atrapalhando a passagem.
O pobre Eleaser sentia-se enormemente maculado, não bastou ter se manchado com o sangue da rameira, agora iria carregar o corpo de um suicida.

Nenhum comentário: