sexta-feira, 27 de abril de 2007

No fim do desejo

Andros estava em constante estado de graça com as coisas que estava aprendendo nas últimas duas semanas, mas o velho Scire deu-lhe a má notícia que só poderiam ficar até o próximo esbath. Andros resolveu então passear sozinho pelos templos para reavaliar tudo o que aprendeu e tentar resolver o enigma do chifre amalteano. Ele ainda não tinha certeza do que era, como era, se existia, para que servia e porque isto ainda o obcecava.
Ele parou no santuário de Ardat no lago Sival e mais uma vez comparou o que via com o que conhecia. O santuário de Ardat no lago o faz lembrar do templo de Ártemis em Creta. Este era um habito que o estava irritando, Andros teve a impressão de que isto o impedia de ler e ver as pistas que o ajudariam a encontrar as chaves dos Mistérios Antigos ou a compreender o enigma do chifre amalteano. Seus pensamentos dançam entre a sofisticação acadêmica e o niilismo meditativo. Andros ria de si mesmo, pois lembrou dos monges budistas que ele encontrara e tentavam chegar ao Nirvana pela negação de vida e do pensamento. Ele asseverou consigo mesmo que é impossível atingir um objetivo idealizado negando a existência do instrumento que facultava tal realização.
- Pois tua falha é que tu resistes ao efeito do que te leva a solucionar tuas dúvidas.
Andros se vira assustado na direção da voz e vê um vulto que se aproxima. Quem lhe falava era Shakti, a sacerdotisa que havia conduzido a cerimônia para o equinócio de Outono com o sacerdote Indra. A mente de Andros voltou a se encher de perguntas que Shakti viu a todas na mente de Andros.
- Tu perguntas demais. Tudo que mostramos e ensinamos, a nada questionastes, apenas assimilastes sequioso e se deslumbrava ao ver o resultado evidente.
- Então razão e crenças são antagônicos?
- Sim e não. São opostos, mas não em conflito, são extremos de um mesmo atributo humano.
- O principio da dualidade, da polaridade! Eu esqueci!
- Não esqueceu. Como muitos que vivem tempo demais com discussões acadêmicas, acabam valorizando a razão e se esquecendo de aproveitar a simplicidade da vida. Razão e crença são formas de se explicar o mundo e se perceber as verdades, mas não são esses fatos em si mesmos.
- Então eu devo procurar um ponto de equilíbrio?
- De forma alguma! Isso o levaria à inércia e à indiferença. Tu conheceu os monges budistas e viu que essa estática não os conduz a lugar algum, apenas os enclausura em uma gaiola dourada, dentro de suas mentes.
- Então qual a resposta?
- Não perguntar. Permitir que a vida te arrebate e tirar proveito das experiências, pois o caminho é a maestria.
- Então tudo que aprendi foi desnecessário?
- Depois que tu aprendeste, te perdeste em mais perguntas, mas enquanto aprendias não tinhas satisfação? O que aprendeste serve para que tires maiores proveitos da vida, aprimorando os sentidos, desenvolvendo as percepções, removendo tuas amarras, derrubando teus muros. Quando tu tornares teu corpo todo hábil em sentir a vida dentro e fora de ti, verá o teu espírito divino interior se espelhar neste mundo. Este é o segredo dos Mistérios Antigos! Não há segredo! Nós é que velamos a realidade e apagamos nossa chama.
- O que eu faço para ter essa percepção vívida, acender minha chama e afastar de vez os véus?
- Tu o fizeste, jovem mestre, em cada cerimônia, ao deitar-se com a sacerdotisa. Isto é algo que profanos não entenderão. O Grande Rito não é orgia ou sexo casula, mas é o rito necessário para manter a vida em nosso mundo e para remover as amarras que nos impedem de viver plenamente.
- Grato por tua orientação. Em breve será lua cheia e eu poderei, com sorte, participar da cerimônia e tentar, com a ajuda da sacerdotisa, livrar-me de vez das amarras.
- Se tu estás preparado, não espere até o fim da semana. Eis-me aqui e lá em cima a lua. Vem, façamos os rituais antigos.
- Podemos faze-los com a lua ainda crescente?
- Os antigos não nos ensinaram que os ritos antigos devam ser feitos apenas nas luas cheias. Os Mistérios Antigos que nos foram ensinados nos contam que a Deusa recomenda que os ritos sejam feitos na lua plena, mas Ela está igualmente presente nas outras faces da lua. Crescente, Ela é a Dama; cheia, Ela é a Mãe; minguante Ela é a Anciã. Quando a lua está oculta, a Deusa mostra sua face de Morte e Renascimento, mas poucos ousam olhar esta face.
- Não estamos com incensos, velas, pratos, sinos, adagas, espadas ou pergaminhos.
- O bruxo é mais importante que o instrumento que ele maneja com maestria. O bruxo deve ser mestre do seu corpo, o resto é acessório. Antigamente os ritos antigos eram simples, como a vida. Tudo que tu precisas é de um membro ereto.
- Cara sacerdotisa Shakti, basta um homem olhar em teus olhos para ficar excitado.
Shakti beija Andros, põe a mão entre as pernas dele e fica satisfeita em encontra-lo preparado. Ambos tiram as roupas, lançam o circulo, evocam os Guardiões dos Quadrantes e evocam o Deus e a Deusa. No momento do Grande Rito, Shakti deita-se na relva, Andros fica sobre ela e ambos iniciam o rito da fertilidade. O toque macio e cheiroso da pele de Shakti embriaga Andros. Por fim ele entende, na tração das coxas de Shakti o chamando para dentro dela, como funciona o dinamismo da polaridade sagrada.
Andros vê claramente o cone de poder subindo e envolvendo a lua que retribuía enviando um facho de luz que envolveu o casal. No momento do êxtase, a lua ficou cheia quando Andros preencheu o ventre de Shakti. O raio de luar que desce no ápice da cerimônia sobre todos os casais sacerdotais é o chifre amalteano. Andros sente claramente a presença do Deus e da Deusa.

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