sexta-feira, 27 de abril de 2007

A Ordem de Hórus

A rainha Nefter está com a beleza deslumbrante que cabe a toda mulher em seu terceiro mês de gravidez. Mas como toda mulher ativa e independente, ela fica enjoada com o cuidado excessivo de suas aias e cansada de ficar parada no Palácio Real de Kefrem. Ela lembra que deu a luz em um estábulo ao seu primeiro filho que se tornou comandante do exército do Egito e quando Ketar veio ao mundo, as condições estavam bem longe de serem ideais. Ela se levanta, toma um banho, veste uma de suas roupas de viagem, chega no estábulo e pega uma das charretes reais.
- Levem-nos até onde o faraó se encontra.
O capitão da guarda nem pisca, abre os portões do palácio e o charreteiro estala o chicote para os cavalos trotarem. O charreteiro, visivelmente nervoso, segue pela alameda em direção ao obelisco para então seguir pela alameda principal da cidade de Kefrem, sem ter a menor idéia de para onde deve ir.
- Como é teu nome, charreteiro?
- Harup, Vossa Magnifica Majestade.
- Querido, por favor me leve até Tebas. Eu sei que Akenat está lá.
- Imediatamente, Vossa Magnifica Majestade.
- Querido, vamos passar oito horas juntos, não acha ridículo ficar com tanto formalismo? Me chame de Nefter.
- Ahn...sim...ahn...senhora Nefter.
Nefter ri, ela sempre se diverte com a reação dos serviçais quando ela quebra estas paredes sociais invisíveis que separam as pessoas comuns dos nobres. Ela conversa com Harup como se fossem íntimos, familiares, ela provoca Harup como toda mulher gosta de provocar um homem, ela divide seu cesto com tâmaras e o odre com água fresca, equipamento obrigatório em toda charrete real. Enfim Harup cede e deixa o protocolo de lado e conta algumas piadas sobre homens, mulheres, sexo e o faraó. Ele ganha confiança com as risadas de Nefter e ousa lhe fazer a pergunta proibida, mas que todo povo quer saber.
- Senhora Nefter, é verdade que a senhora é uma sacerdotisa dos cultos proibidos pelo faraó?
Nefter olha para a paisagem enquanto passa a mão nos cabelos, fingindo que não ouviu a pergunta. Ao longe, mostrando a tênue linha do Nilo, as preciosas plantações, nuvens anunciando mas chuvas e algumas estrelas enfeitando a noite que chega. Nefter gira lentamente seu rosto na direção de Harup, deixando que a luz da lua faça um belo efeito.
- Harup, ama sua esposa?
- Sim, como a própria vida.
- Então nunca perguntou a ela de seus segredos mais íntimos.
Harup olha por uma ultima vez a rainha em seus profundos e belos olhos negros. Mais alguns minutos e toda a magia daquelas oito horas acabariam. Harup faz questão de aproveitar bem estes minutos.
- A senhora seria muito mais amada pelos egípcios como sacerdotisa do que como rainha. A senhora não é a única a ter que guardar segredo.
Nefter sorri e se ajeita. Está na hora dela reassumir o papel de rainha. Mas isso não irá tirar a satisfação dela de ver que ainda é possível ser surpreendida pelo povo comum.
- Nós agradecemos por teu serviço, companhia e considerações. Nós saberemos recompensa-lo. Boa noite.
- Boa noite, Vossa Magnifica Majestade.
Para a sorte do charreteiro estas ultimas palavras forma ouvidas pelo pajem, não pelo capitão da guarda do Palácio Real de Tebas, que apareceu a seguir para pavonear a rainha. Nefter detesta este tipo de gente que faz carreira dentro da corte puxando o saco. Nefter não dá atenção a ele nem aos ministros inúteis que cercam o faraó. Ela entra sem cerimônias na Sala de Reunião, com o faraó discutindo com os engenheiros e pedreiros alguns problemas com suas obras.
- Então, meu divino esposo, qual é a dificuldade agora?
- Minha divina esposa, não devia ter vindo aqui nestas suas condições.
- Minhas condições? Por Athon, esta não é a primeira vez que fico grávida ou que vou dar a luz. O que os meninos tanto discutem?
- Com o devido respeito, Vossa Magnifica Majestade, nós estamos com um problema de cálculo...
- Um problema muito complicado...
- Estes pedreiros teimosos dizem que não é possível cortar a pedra assim...
- Estes engenheiros bufões querem saber mais de corte de pedras do que nós...
- Por favor, meninos, controlem-se. Pelo que eu vejo na planta, tudo se resume a cortar um ângulo na calcita. Se a serra for constantemente banhada com água misturada com areia, vós podereis cortar como bem quiserem.
- Mas... isso..
- Sim...isso...é possível.
- O que estão esperando? Movam-se!
Os engenheiros e pedreiros recolhem as plantas e saem às pressas, imaginando como a rainha pôde resolver tão rapidamente um problema que só poderia ser resolvido por um profundo conhecedor dos Mistérios do Grande Arquiteto. Atarantado, as aliviado com a solução e continuação de suas obras, o faraó enfim pode ficar à vontade com sua rainha.
- Por Athon, mulher, o que fazes aqui?
- Eu também tive saudades suas querido, obrigada por dizer.
- Pare de dissimular, tu sabes que é muito perigoso andar pelo local das obras.
- Querido, antes que me conhecesse, eu lidava com chacais e leões. O que pode ter em um canteiro de obras que eu não possa lidar?
- Isso foi antes, quando tu eras uma guerreira das tribos nômades que desafiavam os faraós e quando tu eras uma sacerdotisa de Ísis que desafiava Athon. Agora és rainha do Egito e mãe do herdeiro do trono. Tu vais desafiar a vida, a sorte e o destino?
- Nossa, tu ainda levas a sério demais nossas conversas! Olha, eu prometo ser boazinha e não dar trabalho. Eu só quero ficar ao lado de meu marido.
- Ahn...bem...certo. Eu vou pedir para prepararem um quarto decente para ti.
O faraó deixa a rainha na Sala de Reuniões imaginando porque ela estava tão flexível e doce. O faraó ficava dividido entre ser um efeito da gravidez ou ser uma intercessão de Athon. Assim que o faraó saiu, a rainha percebeu que mais alguém havia observado e ouvido sua conversa. Ela encara o vulto ao longe, friamente.
- O que desejas?
- Continuar com nossa agradável conversa, senhora Nefter.
- Harup? Não lembro de ter te autorizado a tal ousadia fora da charrete. O que significa isso?
- Simples, minha senhora. Providência dos Deuses. Eu estava justamente designado a falar contigo em nome da Ordem de Hórus.
- Ordem de Hórus?
- Sim, minha senhora. Os responsáveis por sua salvaguarda. Os responsáveis pela fuga segura de sua filha Ketar e de sua chegada em Esmirna.
- Minha filha! O que sabe dela?
- Que ela tem seu templo, é bem sucedida e está grávida, como a senhora.
Nefter chora. Fica espantada em sentir mais uma vez lágrimas percorrerem seu rosto que ficou duro pelas amarguras da vida. Saber de sua filha, que ela está bem e está para dar a luz a um herdeiro que pode dar continuidade a sua linhagem sacerdotal a emociona profundamente.
- Harup, querido, eu estou em duplo débito contigo e não sei como recompensá-lo.
- Eu ficaria satisfeito se me ajudasse a cumprir com minha missão.
- E isto envolve a Ordem de Hórus.
- Sim. E uma cerimônia da Antiga Religião no Solstício de Verão, na sinagoga de Petras.
- Petras? Sinagoga? Rabinos? Isso está ficando estranho demais, até para mim.
- Eu posso te explicar tudo durante a viajem, se sairmos amanhã em direção a Petras.
- O faraó, meu esposo, irá desconfiar da minha mudança de planos.
- Deixe ele conosco, nós cuidaremos dele, como sempre temos cuidado.

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