sexta-feira, 27 de abril de 2007

A Ordem de Melquisedeck

Uma mulher e duas crianças correm pelas ruas de Elom, cidade do condado de Judá, sendo seguidos por uma turba furiosa carregando tochas, paus e pedras, aos gritos de ‘adúltera’, sendo encabeçada por Eleaser, um dos rabinos da secretíssima Ordem de Melquisedeck. Melquisedeck foi um rei de uma terra chamada Salém e era este sacerdote do Deus Altíssimo, como a tradição dentro do Sinédrio diz que ele foi o primeiro Sacerdote Sagrado ordenado por Abraão, o grande patriarca. A firmeza de sua fé no Senhor dos Exércitos foi inigualável, seus alunos e seguidores fundaram a Ordem de Melquisedeck, uma escola de rabinos que acabou se transformando em uma instituição secreta, oculta e poderosa, além da Sinagoga de Jerusalém, além do Supremo Sacerdote, além do próprio Sinédrio. Eleaser era um tipo comum, para não dizer medíocre, ele lembra do quanto de sacrifício ele teve de passar para ser aceito entre os anciãos da Ordem, fora do ofício de investigador para denunciar, perseguir, prender ou mesmo matar os adversários do Deus Altíssimo, sua estultícia lhe garantiria apenas um futuro como mendigo. Seu alvo, uma remanescente do Templo de Asherah que estava escondida nas cercanias de Goreb, estava tentando restaurar o culto abominável e reabrir o templo das rameiras em Elom, pois ali ela havia considerado fora de risco, uma periferia bem longe de Jerusalém, capital do condado. Eleaser contava com uma boa rede de informantes, mais o medo da população de desafiar o poder do Sinédrio. Aquela feiticeira não teria ajuda, nenhuma porta seria aberta, ela podia correr a vontade, pois daquela cidade ela não sairia viva.
Sulamita corre para tentar se manter viva, tenta encontrar alguma saída ao menos para sua pequena Magdalena e a jovem Miriam. Ela é a última seguidora de Asherah da sua família, ela havia terminado as treze luas iniciais do treinamento quando seu grupo foi dizimado em pleno culto. As imagens horríveis de sua Alta Sacerdotisa, Kalika, sendo surrada até a morte por um grupo de hebreus, que clamavam representar o Deus Verdadeiro, é mais que uma lembrança, pois ela sabe que as pessoas que a perseguem não têm problemas com ela, muitos até a consultaram, é sempre por medo ou compulsão que estão se deixando levar pela influência de um líder, seu verdadeiro inimigo, pelo gosto da caça e de sangue que seu Deus o induz. Instintivamente, ela procura por lugares altos ou sinais do culto antigo pelas ruas e casas, ela não pensa em sua vida, mas na das crianças. Ela entra por vielas e corredores que poucos conhecem, ela sente uma direção precisa vindo de um poder superior e o milagre de uma porta abrindo para abrigar as crianças acontece. Ela empurra as crianças na direção do vão aberto e continua a correr sem olhar para trás, não há tempo de agradecer, é preciso correr um pouco mais para despistar seu carrasco.
Noite alta, tendo a lua cheia por testemunha, Sulamita cessa sua fuga bem no meio de uma praça ampla. Eleaser estanca diante do olhar desafiador da feiticeira, ele não esperava que a fuga fosse terminar tão rápida e num lugar tão público. A turba, apesar da fúria atiçada por ele, vai se espalhando em volta, como uma platéia insana ou júri informal. Ele dá um passo adiante, assume uma postura de autoridade, de juiz e começa a inquirir e acusar a feiticeira pelos crimes que ele previamente a condenara.
- Criatura vil, eis que a mão da justiça de Deus te alcançou e agora deve prestar contas por seus pecados.
Em uma situação comum, em um lugar casual, em um palco mais neutro, Sulamita adoraria fazer a cena que tantas vezes presenciou da desmoralização que seguia a estes auto-promulgados representantes de Deus diante da sabedoria dos que seguiam os cultos antigos. Não era essa a intenção dela, mesmo se seu carrasco satisfizesse a fúria da turba com um discurso, ao matá-la ele mostraria o quão fraco era, isto também não era agradável aos propósitos dos Deuses. Ela tira sua faca cerimonial, a direciona ao seu belo pescoço e com um corte preciso, se oferece em um último sacrifício aos Deuses Antigos. A audiência está em pânico, muitos gritam, outros correm, alguns caem de joelhos. Eleaser está paralisado, o conforto de ter visto a confirmação de suas denúncias não diminui o impacto do ato silencioso e desafiador da feiticeira, pelas leis de Deus ela tinha uma natureza impura que a conduzia a cultos abomináveis. Naquele momento, ela se tornou mais perigosa do que viva, os suicidas são particularmente daninhos para a pureza dos adoradores do Deus Vivo, aquele sangue todo, de uma mulher, feiticeira, incrédula e resistente aos desígnios do Senhor era veneno puro, Eleaser sabia que teria que passar por uma complicada e demorada cerimônia de purificação, segundo os ritos dos Levitas. Debaixo da lua, ele e o corpo lívido e sem vida da feiticeira são as únicas presenças no meio de uma praça de Elom ao soar a nona hora, Eleaser tinha apenas seis horas para voltar ao Templo Carmim antes de começar o Sabath, que se fosse quebrado o deixaria definitivamente perdido diante do Senhor. Para isso, ele não podia voltar sobre os próprios passos, ele teria de passar exatamente onde o corpo estava prostrado, sobre uma enorme poça de sangue impuro. Ele não poderia permanecer também, pois quando soar a décima hora haverá uma ronda e se fosse achado junto ao corpo isso iria complicar sua situação diante dos romanos e do Sinédrio. Ele sempre conseguia cumprir suas missões com discrição, nunca deixou rastros ou vestígios que mostrasse sua presença ou sua ligação com o Sinédrio, muito menos com a Ordem. Entre um mal feito e uma falha maior, Eleaser segue seu rumo, torcendo para que o Senhor segure o tempo e um bom irmão o permita lavar-se antes de se apresentar diante do Templo.
Observando, oculto pelas sombras, o velho Timeu observa a que ponto vai a coragem de Eleaser, segurando contra si as duas crianças que a pobre Sulamita lhe confiou nos poucos segundos que pode abrir sua porta a mais estes refugiados. Aproxima-se do corpo com as crianças, mergulha a ponta de seu dedo no sangue e unta a testa dos pequenos, para passar o conhecimento e a sabedoria dos antigos.
- Lembrem sempre do que viram para que vocês nunca fraquejem, o nosso compromisso é com os Deuses Antigos. Pelo sangue, esta mulher recebeu os Mistérios Antigos; pelo sangue, vocês agora são herdeiras dessa tradição.
As meninas deram um último beijo em Sulamita e sumiram entre as sombras da cidade de Elom, juntamente com o velho Timeu, que as guiaria até uma sacerdotisa confiável.

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