sexta-feira, 27 de abril de 2007

Panis et Vinis

A exuberante floresta cheia de bichos que Andros só havia ouvido falar de relatos dos legionários romanos cercava os viajantes. A trilha era bem rala e escassa, qualquer passo ou virada na direção errada e os dois viajantes poderiam se perder para sempre nesta mata selvagem. Mas o velho Scire tinha uma aparência tranqüila e serena, parecia estar passeando nos campos da Bretanha, seu lugar de origem. A densa mata só abriu conforme eles chegavam a Lívia, a cidade mais extrema do Império Ariano, cuja técnica de construir cidades em meio a selva as manteve intactas mesmo depois de tantos séculos. Os impressionantes pisos de pedras entalhados ostentam orgulhosamente a poeira, mas ervas rasteiras cresce nas ranhuras entre os pisos. Andros reconheceu que havia visto símbolos semelhantes aos entalhados nos pisos, tanto em Ephesus quanto em Cairo, o fazendo lembrar das discussões acadêmicas na Grécia de como tantos povos, em distancias tão longas, em tempos tão distintos, puderam produzir símbolos místicos tão semelhantes. Como que adivinhando os pensamentos de Andros, o velho Scire enfim quebra o silêncio.
- Não se engane com teorias acadêmicas, jovem mestre. Não estamos vendo uma cultura descendente dos Atlanteanos ou Lemurianos. Alguns poetas sonhadores querem crer que os britânicos são os sobreviventes de Tróia, mas existiam povos ali muito antes que a civilização Minóica atingisse seu auge. O que vemos aqui é a mistura do que os Arianos trouxeram de sua terra pátria, com a cultura Pelasga que eles assimilaram ao conquistar o que agora é Bizâncio, mais a cultura local dos Dravidianos, o povo nativo da região do Indus. Na história da humanidade, vencidos se misturam aos vencedores e ambos se tornam uma outra cultura. Por mais terrível e tirânico que seja o Estado, o povo sempre manterá seus segredos e tradições. Finda a tirania ou morto o tirano, as pessoas tendem naturalmente a manifestar a Antiga Religião, a adorar os Deuses Antigos e honrar seus ancestrais.
- Eu gostaria de crer nisso, mas na Pérsia o culto a Ormuz cresce cada vez mais, no Egito o faraó também está se esforçando para instaurar à força o culto a Athon e em Judá é crescente a pressão dos rabinos pelo culto a Yahveh.
- O que você vê aqui são as ruínas do Império Ariano. Eles também trouxeram um culto parecido com o que domina a Pérsia. Ele reinaram absolutos e por todo o Império só existia o culto a Ahruda Mazda. Mesmo assim, os servos eram todos Dravidianos e com engenhosidade e malícia eles conseguiram esconder como temas decorativos esses símbolos que nos são tão preciosos e conhecidos. O Império sumiu, a Arte ficou. Por mais que dure essas revoluções monoteístas, elas não durarão para sempre, existem divisões dentro delas mesmas que a farão ruir em vários cismas, cultos ou seitas ou simplesmente perderão os poderes, as pessoas terão mais liberdade, os Ritos Ancestrais reaparecerão e lentamente todos estes Impérios religiosos desaparecerão.
O velho Scire falava com tal segurança que parecia adivinhar o futuro. Andros começou a acreditar ao ver na entrada de Lívia os mesmos inconfundíveis dois pilares que ele conheceu em Ephesus e viu em Delphos. Conforme se aproximavam dos pilares e entravam na cidade, um grupo de quatro pessoas se aproximavam deles, acenando com boas vindas. Quando chegaram bem perto, Andros pode perceber que se vestiam de uma forma incomumente familiar, pareciam ser dois sacerdotes e duas sacerdotisas dos Mistérios de Eleusis. Sinais misteriosos com as mãos foram trocados de cada lado, identificando todos como Iniciados nos Mistérios Antigos. O sacerdote que parecia ser mais velho e experiente deu as boas vindas aos peregrinos.
- Feliz encontro, mestre Scire. Nós aguardávamos ansiosamente tua chegada. Entretanto, não sabíamos que viria acompanhado. Quem é o jovem mestre que tão habilmente mostrou os sinais dos Iniciados?
- Feliz encontro, mestre Indra. Para mim é uma grande satisfação encontrar irmãos e irmãs da Arte em terras tão longínquas. Quanto ao jovem mestre, creio que é bom que ele se apresente.
- Eu sou Andros. Nascido, criado e crescido em Ephesus. Em minha busca por compreender melhor a Antiga Religião eu estive em muitas escolas de mistérios, perambulei de Bizâncio a Cairo, celebrei os Ritos Ancestrais em Minos, Etrúria e Galiléia. Eu me juntei a Scire em algum ponto da velha estrada que sai de Enki em direção a Bizâncio, desviando em direção a Lívia, onde espero compreender mais dos Mistérios Antigos e talvez encontrar o chifre amalteano.
O casal de sacerdotes mais novos taparam a boca com as mãos para tentar segurar a risada, no que forma repreendidos pela sacerdotisa mais velha no dialeto local.
- Perdoe nossos jovens aprendizes, jovem mestre Andros, eles se esqueceram de como é a vida de um buscador, de um peregrino, uma falta de humildade indesculpável.
- Eles agiram certo, tolo fui eu em minha ingenuidade. Eu espero poder ouvir de vós o conhecimento que falta.
- Muito justo e muito pertinente teu pedido. Nós te contaremos durante a refeição cerimonial que faremos em vossa homenagem.
Os dois casais de sacerdotes entram com os peregrinos em Lívia, se dirigindo a uma ruína de um antigo templo a Agni, uma forma posterior desenvolvida do Deus Ahruda misturado ao Deus do Fogo e ao Deus do Sol local. Quando os Arianos debandaram, voltando à sua terra natal, seus filhos e descendentes mestiços com Dravidianos ficaram e retomaram o culto dos ancestrais, removeram cuidadosamente o telhado e substituíram no altar central a estátua de Agni pelos Deuses Antigos, mas ainda mantendo a estátua ariana respeitosamente intacta em um ponto do tempo. O arranjo diplomático mostra um bom efeito no cenário, cuja beleza escaparia a um observador mundano. No centro do templo havia uma mesa onde sete pessoas aguardavam a chegada do grupo.
- Feliz encontro, irmãos e irmãs. Celebremos e festejemos a chegada de nossos irmãos Scire e Andros.
Mais troca de saudações, sinais, cumprimentos e apresentações de ambos os lados. Todos sentados e acomodados, Indra toca uma sineta, fazendo entrar dois rapazes com cestos de pães e três moças com odres e vinho. O velho Scire cutuca Andros e cochicha algo em seu ouvido.
- Os Dravidianos ensinaram aos Arianos sobre o pão e o vinho, os Arianos deram a tecnologia para melhorar a plantação de trigo e uvas e melhorar a produção de pão e vinho.
- O mais incrível é ver que culturas civilizadas tão antigas e tão distantes desenvolveram a produção de pão e vinho e igualmente transformaram estes em alimento sagrado nas cerimônias aos Deuses Antigos.
- Não posso confirmar nem negar, mas é bem possível que muitos de nós copiamos e assimilamos estas receitas. A verdade, meu jovem mestre, é que não pertence a povo ou cultura algum os tesouros da humanidade e dos Deuses Antigos.
Indra se levanta e junta-se a ele a sacerdotisa que deve ser a companheira dele na celebração dos mistérios. Indra tira de seu habito monástico uma longa adaga enquanto a sacerdotisa pega um belo cálice do altar aos Deuses Antigos. Os cestos de pães são expostos a Indra e a sacerdotisa enche o cálice com vinho. Indra traça com a ponta da adaga um pentagrama logo acima dos pães, enquanto a sacerdotisa beija cinco vezes a borda do cálice com vinho.
- Bendito sejam estes pães por Shiva, Senhor da Semeadura, Senhor da Chuva, Senhor da Ceifeira. Dele é o grão, a farinha, a massa e o fogo. Recebamos em nosso corpo o corpo de Shiva.
- Bendito seja este vinho por Kali, Senhora da Plantação, Senhora dos Frutos, Senhora da Colheita. Dela é o bago, a maceração, o fermento e a ânfora. Recebamos em nosso sangue o sangue de Kali.
Conforme os presentes recebiam o pão, fazem uma prece silenciosa, colocando as mãos em forma de um triângulo sobre o pão e o come. Conforme recebem um copo com vinho, fazem mais uma prece silenciosa, colocando as mãos em forma de triângulo invertido sobre o copo e o bebe.
Andros recebe o pão e medita. O pão é o símbolo de que os Deuses nos dão alimento através da Natureza, mas que é preciso cultivar, cuidar, coletar e transformar. Andros recebe o vinho e medita. O vinho é símbolo de que os Deuses nos dão a vida para tirar proveito, para que haja alegria, prazer, festa e amor.

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