sexta-feira, 27 de abril de 2007

Pêssegos

O faraó Akenat II despertou para mais um dia para cuidar de suas reformas em varias cidades do Egito, erigindo estatuas, monumentos e templos para Athon, ao mesmo tempo que apagava ou diminuía as estatuas, monumentos e templos dos outros Deuses egípcios. A sua agenda continha os nomes de vários sacerdotes dos cultos antigos e ele contava com a ajuda de seus prepostos locais para impedir ou prender esses sacerdotes. Em sua residência real em Kheops, ele tinha um projeto especial para cuidar antes de retornar a Heliópolis que envolvia sua bela porem distante rainha Nefter: ele queria ter um herdeiro para continuar com sua obra de construir o reino de Athon neste mundo antes do conflito final com Set. Mas Nefter tinha um passado que custou muito ao faraó apagar, um passado com o culto inominável das rameiras, um passado com sacerdotisa das feiticeiras. Hoje seria o dia, o ultimo em que ele tentaria converter sua rainha, sua mulher, para então poder ter um herdeiro completamente limpo e puro aos olhos de Athon. Ele teve uma visão profética numa ocasião quando viu um mercador fenício vendendo pêssego e com essa visão foi ter com Nefter que ainda deliciava-se com o desjejum matutino.
- Minha rainha, eu gostaria que experimentasse os pêssegos, estão maduros e doces.
- Meu faraó tem tempo de escolher pêssegos e vir me acompanhar no desjejum? Ora, digo eu, se isto não é um milagre dos Deuses?
O faraó se faz de mudo para a irreverência da rainha, sorri forçado enquanto ordena com as mãos a entrada de um servo com um prato repleto de pêssegos fatiados.
- Minha rainha, Athon é como um pêssego e este prato é o Egito.
- Athon é uma fruta vinda pelos hititas e vendida pelos fenícios? O Egito é esta baixela feita de prata da Macedônia e trabalhada por um artesão heleno? Meu faraó, sua analogia para me converter é divertida, continue!
O faraó ignora a pergunta agressiva da rainha, toma um pêssego na mão e o morde.
- Um pêssego que vem da arvore e é vendido não perde suas qualidades, nenhuma outra fruta terá tais qualidades.
- Ainda assim continua sendo uma fruta como as demais. Então Athon não é o Deus único, mas um como outros?
A face da rainha demonstra desprezo e provocação, mas o faraó não se irrita, continua com a exposição.
- Dentro de todo pêssego tem uma semente, como todas as outras frutas, então para todas as coisas há uma semente e esta está em Athon.
O faraó ergue o pêssego mordido, triunfante, como se erguesse o troféu de sua vitoria e conversão iminente de sua rainha. Mas ao olhar para o rosto de sua amada, tudo o que viu foi ela com as mãos em frente à boca, como que para tentar conter um riso desenfreado, que explodiu em seguida.
- Meu faraó, Athon como pêssego faz parte de uma longa linhagem e dinastia de Deuses. Como um Deus tardio poderia ter sido as semente de todas as coisas se o que vejo é tu dizer do quanto este mundo desagrada a Athon! Ora, se de Athon tudo veio, cabe a ele a responsabilidade da natureza e tendência da arvore que cresceu de sua semente! Então sua luta e esforço para purificar o Egito é em vão, pois o pecado, o Amenti e Set são criações de Athon!
Quando Nefter encerrava um assunto em sua pose real e com olhos faiscantes, ela parecia bem maior do que era. Nefter sabia que sua devoção aos Deuses Antigos haveria de surtir, algum dia, ou em sua liberdade ou em sua execução. O som surdo e seco do pêssego mordido no chão foi a resposta do faraó, que balbuciou consigo seu desejo simples, humano e mundano.
- Athon! Tudo que eu peço é ter um filho com minha rainha.
- Toda essa cena apenas para deitar em meu leito e fazer com que sua semente continue? Eu também quero um filho, mas que seja feito conforme os Ritos Ancestrais!
Evidentemente, pensava o faraó, que a rainha percebera seu desejo. Não era isso que todas elas faziam? Com a ajuda dos espíritos malignos que as obedecia com as Artes Negras, entrava no espirito do homem, o tentava e o fazia se perder com os desejos carnais. Por muito menos que isso vilas inteiras foram passadas na espada e reduzidas às cinzas. Se o povo souber da condição de sua própria rainha, todo o projeto do faraó Akenat II estaria arruinado. E seu desejo de ter um herdeiro para continuar sua obra era maior que seu amor próprio.
- Muito bem, que seja, faça os arranjos, mas que este acordo fique entre nós. Athon age por meios misteriosos.
Nefter desabou sobre seu rico espaldar, surpreendida com a decisão de Akenat II. Ela vivia, poderia ter seu filho conforme os Ritos Ancestrais, onde ela seria, mais uma vez, sacerdotisa de Ísis. Então ela chorou, pois sabia que o amor do faraó por ela foi maior que o amor por Athon. Enquanto o faraó chorava copiosamente em seu templo particular a Athon, a rainha alegremente organizava a festividade. Por uma semana ela teve toda a liberdade de consultar os astrólogos caldeus, os augures romanos e algumas sacerdotisas reminescentes. A residência real em Kheops recebeu mais mercadores filisteus, cheios de incensos, tecidos, metais preciosos, jóias e estatuas do que havia recebido em toda sua historia. Verdadeiras caravanas chegavam com o gado e as ervas que seriam usadas na cerimonia, em um local improvisado. A rainha mandou vir de Heliópolis, de seu tesouro pessoal, as vestes sacerdotais, braceletes, colares, brincos, anéis e maquiagens que ela usara em seu saudoso templo, contratou vários servos e servas dos templos de Nice para auxilia-la durante a cerimonia. Ela conseguiu reservar vários quartos em estalagens e hospedarias para receber seus nobres convidados de varias cidades. Por uma semana, o Egito reviveu seus momentos de gloria dourada das velhas dinastias de faraós. Com toda pompa, ela conduziu a celebração dos Mistérios de Ísis a uma platéia seleta de mil nobres. Ao toque das trombetas e dos tambores, o faraó subiu ao patíbulo onde ela o esperava deitada toda nua, enquanto ele estava vestido com uma simples túnica branca, cobrindo-a e fertilizando-a sem qualquer sentimento ou emoção. Contava-se, a partir daquela noite, os últimos dias de vida que restavam para a bela e poderosa Nefter.

Nenhum comentário: