sexta-feira, 27 de abril de 2007

Revelando os Mistérios

A nau Klepsidra seguia seu curso do porto de Minos ao porto de Haifa, uma viagem de uma semana em que os marinheiros podiam relembrar antigas estórias e contar algumas novas. Entre a tripulação, mercadores e peregrinos também conversavam para passar o tempo, os assuntos oscilavam entre feitos heróicos até conquistas amorosas, mas a conversa ficava séria e acalorada quando o assunto resvalava no credo de cada um. Os mais exaltados eram os convertidos ao Zoroaster, clamando Ormuz como o único Deus e agitando seus papiros contendo o Zend Avesta como sendo a única verdade.
O velho Parsis, para testar o jovem Andros, aproveitando tamanha discussão, perguntou irreverente:
- O que acha de tudo isso, jovem mestre?
- De papiros sendo considerados mais verdadeiros que a verdade descrita neles?
- Não, de um só Deus que criou tudo.
- Estranho, porque não há razão para criar e esquisito, porque renega sua criação.
- Mas deve existir um principio, uma origem a todas as coisas.
- Eu sei a minha origem e vejo que as coisas tem um principio, meio e fim. Mas das coisas que acabam surgem outras, então há um reinicio, portanto tudo se renova, em um ciclo eterno.
- Certamente tudo foi gerado pela Deusa e a ela há de retornar.
- Isso é oculto, sem o Deus a Deusa não geraria. A Existência seria estática e a Eternidade seria imóvel. Isso é o mistério, a Deusa é a Mãe, mas também Irmã e Filha dos Deuses Antigos. Assim ela escolheu, para que nenhum fosse o maior ou o primeiro. O Deus é igual e constante como a Deusa, mas escolheu nascer como filho, Irmão e depois Consorte da Deusa para que saiba o mistério que consiste a Eternidade e a Existência.
- Isso não seriam superstições, lendas contadas por velhos? Os filósofos acham que uma pessoa normal, inteligente e racional saberia como tudo começou pelas evidências.
- Saberia, mas não perceberia que apenas alterou o nome de Deus para Razão, da verdade revelada dos profetas para evidências e do ideal de vida espiritual para um ideal de adequação social.
- Ouve os zoroastristas? Eles acham que somente eles conhecem a verdade revelada e apenas Zoroaster é o profeta de Deus e que as outras estórias são mentiras espalhadas por Ahriman.
- Antes que toda palavra fosse escrita, haviam apenas lendas, contadas de geração em geração, tal como hoje os marinheiros se juntam para alegremente recordar as tradições de seus ancestrais. Um texto que não possui o espirito dos mitos é uma palavra morta, um fantasma, um vampiro cuja existência consiste em parasitar as vidas de seus seguidores.
- Então onde podemos conhecer a verdade e a palavra dos Deuses, jovem mestre?
- Neste mundo, em nossa volta e dentro de nós.
- Como fica então tanto sofrimento e maldade que vemos neste mundo?
- A vida é difícil, senão não haveria estimulo nem teria graça alguma em existir. O que acontece entre nós e sempre haverá é que alguns tiram de muitos para satisfazer uma ganância pessoal. A maldade somente impera onde falta vontade.
- Mas a vontade boa do espírito deve vir de um Deus bom, criador de tudo e é má quando segue a vontade do Deus ruim.
- Isto seria contrário ao conceito de unicidade do Deus bom criador de tudo. A vontade dos homens julgada como ruim é a mesma vontade julgada como boa e isso vem de nossa natureza, não dos Deuses. Sem escolha não há aprendizado, sem aprendizado não há consciência da diferença entre o que é bom e o que é ruim, sem consciência não se reconhece o que é divino.
- Mas se seguirmos nossa natureza iremos infringir as leis dos Deuses e isso pode nos condenar a viver no Tártaro.
- O que quer que o homem faça, estará sujeito aos reflexos de suas ações, aqui e agora. Um deus que se sinta ameaçado com o que fazemos em nossa curta vida deve ser muito fraco e pequeno.
- Eu passei parte de minha vida tentando corrigir meus erros e dos meus pais. Sem a justiça divina o que eu posso esperar?
- Não é possível saldar dividas que não sejam suas, nem há sentido em ficar preso a arrependimentos. Os mesmos que dizem que dessa vida nada se leva são os primeiros a condenar a humanidade por um erro de um ancestral. Os mesmos que apontam o dedo para acusar são os que mais erros tem para esconder.
- Entretanto, jovem mestre, precisamos aprender de algum lugar o que é certo e errado, ter em alguém um conselheiro para resolver os dilemas.
- De onde todos aprenderam. Ouça seus pais, ouça seus mestres, ouça os mais velhos, aprenda com suas experiências e na duvida consulte seu coração.
O velho Parsis aquietou-se, satisfeito. O jovem Andros foi bem treinado em Ephesus e ainda assim estava em uma jornada vazia, o chifre amalteano não seria encontrado, o cone de luz estava dentro de Andros, tanto quanto a presença dos Deuses e a solução dos Mistérios Antigos. O jovem Andros conhecia a noção principal contida na Tradição Oral: não ajudaria buscar ou ansiar sem que se soubesse que a chave das respostas não é encontrada fora se não estivesse dentro dele. Teria o velho Parsis se enganado a se oferecer como guia nesta jornada? Teria o jovem Andros outro objetivo secreto que não encontrar o chifre amalteano? O velho Parsis se conforma e lembra do provérbio, confiante que o jovem Andros também conhecia: ao fim da jornada eles encontrariam aquilo que a começou, que sempre esteve com eles e os está aguardando no fim do desejo.

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