sexta-feira, 27 de abril de 2007

Sacerdócio

Chega a tarde na cidade de Heliópolis, Egito, o crepúsculo tinge com mais vermelho e laranja as areias ao largo do rio Nilo, no horizonte causticante. Da sacada de seu palácio, a Sacerdotisa de Ísis, Nefter, observa o treino dos soldados, um dos poucos prazeres que sobrou, como prisioneira em seu reino. Ela teve que ceder a várias exigências do faraó Akenat II para que sua filha Ketar pudesse fugir em segurança. Frustrada, aperta a taça de vinho, o último resquício de sua posição como sacerdotisa, todos os seus templos foram fechados ou reconsagrados para um Deus estranho, o Deus dos Deuses entronizado pelo faraó. Todos as suas sacerdotisas e seus serviçais tiveram que escolher entre continuar a servir em um templo profanado, fugirem ou serem mortos. Toda mobília, todo ornamento, toda arte, quebrada, fundida ou vendida, os pergaminhos contendo um conhecimento milenar foram queimados para a satisfação reformista do faraó.
As mudanças começaram a vir da Pérsia, um reino em que ela conheceu quando jovem e lembrava até a pouco com alegria e prazer, da beleza e êxtase que tinham nos cultos em meio aos cedros ou em montes consagrados à Deusa Lunar, a quem ela foi consagrada para servir nos cultos de Mistérios de Ísis. Naquele tempo, vinham sacerdotes de Ishtar e Ártemis, todos festejavam e celebravam, sem discutir, sem brigar, todos eram bem vindos, independente de onde vinham ou no que acreditavam. Foi ali que ela conheceu os sacerdotes de Diana, gregos e romanos, trazendo de terras longínquas os mesmos Mistérios Antigos celebrados desde o reino de Hamurabi. Suas sacerdotisas carregavam em suas coxas a mesma cinta que ela carregava desde que ela recebeu de sua mãe o sinal reverendíssimo de sua linhagem e posição e foi sagrada como sacerdotisa pelo sacerdote de Ísis. Dos romanos soube que ainda era mantido em muitas tribos celtas o antigo hábito de coroar reis sagrados, de acordo com a vontade da sacerdotisa e, após um casamento com a Deusa, os reis podiam ser soberanos por um período de 9 anos, após o qual geralmente eram ritualmente sacrificados. Os gregos e romanos não entendiam a razão desse hábito porque há muito tempo abandonaram os Ritos Ancestrais, mantendo uma pálida sombra deles em seus cultos que se tornaram uma permissividade disfarçada, adotando uma organização social patriarcal e um pensamento mais urbanizado.
Talvez, pensava ela consigo mesma, talvez seja este o verdadeiro motivo para que sacerdotes, governadores e reis acabam preferindo e se convertendo a uma das formas de religião de culto a um Deus. Um rei deve se sentir muito mais confortável em seu trono se sua autoridade for uma graça natural vinda de Deus, confirmada por uma Assembléia e ungida por um sacerdote, tomando da Soberania o cetro e fazendo a transmissão da coroa um mero ato de herança de pai para filho. Com isso, o rei e o sacerdote fazem um pacto, os Deuses Antigos são demonizados, a Deusa esquecida e o Deus Consorte, o deus tribal, torna-se um deus ciumento, vingativo, furioso, uma patética imagem belicosa, por cujo nome a ganância por mais riquezas e poder dá a tais reis e sacerdotes a justificação necessária para suas guerras.
- Por Athon, criatura, ponha alguma veste que não é bom te deixar ser vista assim pelos soldados!
- Por acaso teus soldados não viram uma mulher despida? Certamente ainda existem tabernas e armazéns por onde teus exércitos passam onde existam mulheres sem esse excesso de pudor e roupa que aprecias tanto.
- Rameiras existem desde que Athon criou este mundo, por causa do pecado espalhado por Set, mas tu és a rainha, teu corpo é sagrado aos olhos dos comuns.
- Agora que interessa a teu ciúme, meu corpo é sagrado! Então devolva meus templos, minhas coisas e minhas crianças!
- Eu jamais faria isso, atrairia a ira de Athon e todo meu reino estaria em pecado!
Nefter levanta irada e atira a taça com vinho na direção do faraó.
- Pecado? Pelos Deuses, onde há pecado? Tudo foi criado pelos Deuses, como pode haver algo que os desagrade? Que Deus nos criaria somente para nos torturar com necessidades e vontades que não podemos saciar?
O faraó Akenat II sacode a cabeça para os lados, ele sabe que é inútil tentar conduzir uma criatura que vive nas sombras para a luz de Athon, a alma daquela mulher estava dominada pelas mentiras de Set. Akenat II lembra de sua infância, quando seu pai o faraó Akenat I o levou até Mertar, na Pérsia, onde eles assistiram um culto a Ormuz, em que pessoas possessas por espíritos malignos eram libertadas. Embora seu pai não tenha entendido e visto que, assim como na Pérsia, era necessário fazer uma reforma no Egito, naquele dia o jovem faraó Akenat II fez um compromisso em buscar o Deus verdadeiro do povo egípcio e fazer de tudo para banir os ritos abomináveis inspirados pelo maligno. Assim fez, durante toda sua juventude procurou todos os templos, estudou todos os pergaminhos sagrados, conversou com diversos profetas divinos até conseguir ter uma revelação de Deus. Foi quando estava perdendo as esperanças, enquanto visitava a tumba de Ramsés I, que ele teve a revelação diante de uma gravação do Olho de Athon nesta antiga tumba, uma gravação que seus sacerdotes não sabiam explicar e de cujo Deus tinham enorme temor em proferir o nome. Custaram algumas peças de ouro para achar os antigos sacerdotes de Athon, produzir pergaminhos para registrar os cultos e mitos, elaborar e reformar essa antiga fé da influência maligna de Set. Isso se mostrou imutável, o nome do maligno desde a época de Osíris era denunciado, desde a época das primeiras dinastias. A engenhosidade do Adversário do Bem passou despercebida por séculos, primeiro se fez confundir como uma sombra, passou a ser visto como irmão de Osíris, depois passou a ser cultuado oficialmente em muitas cidades como sendo o próprio Deus. Foi pela ardilosa estratégia de Set que seu reino, o Egito, havia caído no culto a estátuas sem vida, ao uso abominável dos serviços das feiticeiras e da suprema perdição do contato carnal nos templos das rameiras.
Havia muito trabalho a ser feito, muita superstição dominava a mente das pessoas simples que ignorava o perigo atrás dessas práticas e como faraó era seu dever sagrado e de Estado purificar o Egito e conduzir seu povo ao culto perfeito e puro de Athon. Em sua coroação, ao receber o cetro de Sumo Sacerdote, regalia que os faraós recebiam desde a primeira dinastia, de imediato revogou todos os poderes e regalias dos demais sacerdotes, todos os templos e cultos deveriam passar por uma permissão pessoal dele para continuar a funcionar. A resistência que segui foi terrível e sangrenta, para evitar uma guerra civil ele lembra que acabou aceitando o conselho de seus ministros para anunciar Nefter como sua nova rainha, após o devido tempo de luto, assim que seus agentes cuidaram de sua rainha anterior. Diferente de Natan, que foi um casamento arranjado quando ele ainda era criança, Nefter foi uma mulher que ele aprendeu a amar a cultura, o conhecimento, o estilo, a pele, o corpo, a atitude, tudo em Nefter mexia em sua alma como nenhuma outra mulher mexera.
Ele dá as costas a Nefter e sai cabisbaixo, ele sabe que no fundo ela o detesta e que um dia ele terá de decidir se ama mais Nefter ou Athon. Mesmo as imagens de delícias eternas e indescritíveis que Athon dará aos seus devotos fiéis no Oásis, vencendo e superando o Amenti terrível de Set, onde os desviados serão aprisionados pela eternidade, não são muito atraentes para sua fraqueza carnal por Nefter. A mesma fraqueza que o fez ceder aos pedidos dela para deixar o fruto de seu adultério e a herdeira de seu passado como cortesã de Set fugir incólume ao reino da condenação da Babilônia, dominado por Baal, um servo menor de Set. Ah sim, Set tem seus ajudantes, colaboradores e agentes, neste mundo e no além, ele pesquisara a fundo o culto de Ormuz, o culto dos Elamitas e o culto antigo dos Sumérios. Todo esse conflito teve origem em um tempo em que Athon criara as coisas e, apesar de sua imensa benignidade, algumas de suas criaturas se revoltaram, rejeitaram a benignidade eterna de Athon e elegeram a Set como seu Deus, por causa de suas paixões carnais. Assim, muitos reinos acabaram caindo nas mãos dos espíritos liderados por Set, enquanto outros seguiram fiéis a Athon e seus espíritos obedientes. Como faraó, entrou em contato com as autoridades dos reinos que seguiam ao Deus do Bem e estabeleceu laços de amizade e mútua ajuda para combater o Adversário, deixando de lado as diferenças de culto e nome, em prol de um ideal maior.

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