sexta-feira, 27 de abril de 2007

Três homens, um destino

Saindo da Galiléia, seguem Andros, Parsis e Platão pela estrada que vai a Bizâncio, o caminho mais curto para voltar à Grécia, Egéia e Ephesus. A celebração da noite anterior foi uma experiência que poucos tem o privilégio de assistir, mas a presença deles não seria mais tolerada pela sacerdotisa Ketar. Voltar pelo caminho que segue até Antioquia os colocaria em curso de encontro aos seguidores do Deus Vivo, seja pelo nome de Ormuz, Athon ou Yahveh. Seguindo por esta estrada até Bizâncio os faria passar pelo sul da Pérsia onde, segundo dizem, ainda existem os antigos cultos e os sacerdotes de Ormuz não tem muito poder. Curiosamente vieram desta região os hititas que causaram tantos estragos ao reino de Israel e por um tempo permitiu ao povo hebreu celebrar os cultos antigos que aprenderam com os caldeus.
Conforme deixam as planícies da Judéia, aparecem pequenos arbustos e plantas rasteiras, eles estão se aproximando do rio Tigre, local onde outrora havia o impressionante império da Babilônia e onde ainda se pode ver as ruínas do Império Acadiano, ainda mais antigo. Este é o resumo da história humana, povos crescem, reinos aparecem, impérios degeneram. Mudam as bandeiras, os motivos, mas a humanidade está sempre em busca de algo, de mais uma conquista, de mais uma realização. Aqui e ali, estátuas de um passado silencioso, Deuses que não são mais lembrados, reis e heróis que não são mais reverenciados. Quando fechou o último templo, quando morreu seu último sacerdote, quando seu povo desapareceu, onde estavam e o que faziam esses Deuses? Estaria mesmo a humanidade enfrentando uma guerra entre os Deuses por um domínio absoluto, um único Rei dos Reis, Senhor dos Senhores? O que seria da humanidade quando se alcançar o perfeito monoteísmo?
A estrada para Bizâncio corta outras estradas, uma era uma antiga via que ligava Enki até Biblos; outra, ligava Galiléia a Lívia. Os três homens, olham-se mutuamente. Naquela encruzilhada, cada um segue um rumo diferente. Platão segue a estrada para Biblos, Parsis segue a estrada para Bizâncio e Andros segue na estrada para Lívia. Platão voltaria por esta estrada para sua Grécia, a fim de reunir os ensinamentos de Sócrates e tentar conservá-los para as gerações futuras, com a esperança de fundar a Escola Filosófica que tanto seu mentor queria. Parsis voltaria para Egéia ou talvez a Minos para passar o resto de seus dias, pois seu coração morrera naquele lago na Galiléia. Andros seguiria sozinho até Lívia, uma cidade que foi destruída e reconstruída inúmeras vezes, na esperança de ter alguma pista para encontrar o chifre amalteano, ainda que tenha que ir até os confins do reino Ariano.
Dos três, Andros é que mantêm sua devoção, apesar da mágoa. O caminho espiritual pelos Mistérios Antigos nunca foi fácil para quem quer que seja, não poderia ser diferente para eles. Esta é a razão pela qual os Mistérios Antigos e os Ritos Ancestrais se mantém além do tempo, local e língua dos povos que os conheceram. Faz parte do ensinamento que tudo nasce, cresce e morre. Reinos e impérios não são diferentes. Deuses Antigos e seus cultos não são diferentes. Ketar manifestara diante deles porque os cultos antigos estão sendo perseguidos e erradicados pelos seguidores do Deus Vivo, em seus muitos nomes. Tudo tem um propósito, uma razão de ser e isto está visceralmente envolvido com os desejos da humanidade. Assim como é no Alto, é no Mundo; assim como é no Mundo, é no Alto. O homem é pequeno enquanto indivíduo, mas imenso em termos de espécie. Nem todos estão preparados para perceber e aceitar tamanha responsabilidade.
Então por que ainda o jovem Andros persevera em sua busca é algo que ele se pergunta, porque se segue numa missão sabendo que não tem sentido, não há ganho, não há recompensa. Ouvir as sagas dos heróis quando se é criança é uma coisa, estar disposto a ter tal romantismo fatalista não parece ser um bom exemplo. Ele continua em sua busca não porque espera encontrar um chifre físico com propriedades mágicas e místicas, a busca deve seguir até seu destino para uma solução deste enigma, para que a alma encontre seu caminho de volta ao espírito. Conforme conduz seu camelo por uma planície cada vez mais verdejante, o jovem mago recorda os ensinamentos que ele aprendeu dentro dos círculos secretos em Eleusis. A voz de seu tutor, Hagiarco, soava limpa e cristalina em seus ouvidos.
- Jovem Andros, esta aparente solidez do mundo visível pode ser alterada. Existem quatro princípios que fazem este mundo visível ser tangível, palpável. Estes princípios podem ser divididos em duas duplas de características: quente e frio; seco e úmido. O mago, entretanto, sabe moldar o quinto elemento que é o éter.
- Como estes princípios podem ser quentes ou frios ou secos ou úmidos sem serem sólidos?
- Não tome a conseqüência como causa, jovem aprendiz. Quando nós dizemos que em tal quadrante está a Torre do Vigia do elemento Fogo, não é efetivamente o fogo que lá está, mas o elemento cuja característica é quente e seca. A vibração de todo elemento nesta condição revela para nós uma cor entre o laranja e o vermelho, a sensação de calor e a reação de queimadura.
- E os demais elementos? Quais são as relações?
- Ao elemento Água os princípios frio e úmido; ao elemento Terra os princípios quente e úmido; ao elemento Ar os princípios frio e seco.
- E quanto ao elemento éter?
- Nisto consiste todo o aprendizado e compreensão do mago. Isto deve ser apreendido pelo trabalho e combinação com os outros elementos, nisto consiste o Mistério que encerra a capacidade dos Deuses e dos homens.

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