sexta-feira, 27 de abril de 2007

Um novo templo

Ketar acerta a despesa da comilança de seus serviçais, sobe em seu camelo, sendo imitada por toda a comitiva. Por meio de indicação dos espíritos guias, ela segue pelas ruas de Esmirna como se estivesse em Tebas, até chegar na Praça Tallas. Uma praça grande e arborizada, em forma circular, bem no cruzamento de três ruas grandes, bastante comércio e fluxo de pessoas. O antigo templo de Baal está em excelentes condições, alguém o tem mantido limpo e livre de ervas daninhas. A entrada ampla em mármore é um pouco ostentosa demais, mas o restante do edifício é feito de granítico, uma forma de granito mais barato e igualmente durável. Sua comitiva animada se adianta, abre os pesados e grandes portões feitos de cedro, querendo conhecer onde será seu futuro Templo. O barulho que seus serviçais fazem dentro do templo confirma a impressão dela de que foi uma boa escolha e alerta o senhorio que tomava conta do mesmo, na casa vizinha.
- Quem ousa entrar na casa de Baal?
- Meu senhor, Baal não mora mais aqui. Não convém deixar um Lugar Santo vazio e sem serventia. Nós queremos comprá-lo.
Ketar observa pelo canto do olho o espanto do velho macedônio, num estranho hábito persa, a pele enrugada e queimada mostrando que ele havia trabalhado muito tempo de sua vida em alguma plantação, certamente pagando seus tributos a algum dos Deuses Antigos.
- Duzentas peças de ouro.
Ketar não barganha, chega em Roe que lhe entrega um baú pesado. Pelas artes que bem conhece, Ketar carrega o baú sem dificuldade alguma e o abre ao senhorio, que arregala os olhos diante das peças de ouro. O pobre velho sentiu o peso das peças de ouro assim que Ketar soltou o baú em suas ávidas mãos. Roe ri, pois ele sabe o quanto de força física ele teve que dispender para segurar aquele baú, ri porque é incrível como Ketar, em seus 12 anos, tem uma força além da física que impressionaria qualquer pessoa.
- Hei, como espera que eu carregue isso?
- A partir de agora, isso é responsabilidade tua. Pagamos por sua ganância, seus serviços não são mais necessários a este Lugar Santo. Tens até o fim do dia para tirar tuas coisas pessoais daqui.
Ketar então se dirigiu ao seu novo templo, onde ela e seus serviçais iriam atender ao público, estudar, praticar e ensinar aos futuros sacerdotes e sacerdotisas de Ishtar. O piso era feito de lajotas etruscas, com painéis pintados em cada parede, com alguns vasos ofertórios restantes, janelas com cristais laminados coloridos de azul, uma estátua de Astarte e outra de Baal. O salão principal tinha 9 pés, perfeito para as cerimônias, a porta para os quartos particulares dos celebrantes estava estrategicamente bem disposto atrás da coluna à noroeste, como era de se esperar. A porta era bem simples, uma única peça de madeira de palmeira pintada de ocre claro. O piso na área dos quartos era de aroeira resinosa, isso deixava um cheiro agradável 24 horas por dia por todos os recintos. Cada um dos seus serviçais já estava desfazendo as bagagens nos quartos que escolheram, não teve muitas brigas e os meninos deixaram que as meninas ficassem com os quartos mais próximos dos banheiros. Roe lhe chamava mais ao fundo do corredor, alegre e apressado em mostrar a Ketar o quarto dela, que ele havia reservado. O quarto em altura em pé duplo, tinha banheiro próprio, ricamente decorado com cortinas e tapetes, uma cama enorme com dossel e lençóis de cetim, várias almofadas bordadas e uma enorme penteadeira com 13 gavetas. Certamente, aquele era o quarto da sacerdotisa de Astarte, antes da mudança dos sacerdotes de Baal. Três garotas logo a seguir trouxeram sua bagagem e se divertiram, arrumando para Ketar todo seu vestuário e ferramentas particulares usadas nas celebrações. Sem demora, Ketar despiu-se e foi ao seu banheiro para tomar um bom banho, que, como ela intuía, seria em uma lindíssima banheira de ágata decorada. Prestativo, Roe trouxe seus sais de banho, sua esponja, perfumes, roupa fresca e saiu para começar os preparativos para o funcionamento do templo.
Permitindo-se relaxar na água tépida e se embriagar com os aromas que os sais misturados à água exudavam, Ketar mergulhou em transe místico. Por ela, todos os rituais seriam feitos dentro de uma banheira com sais de banho. Ela começou a lembrar de todos os sacerdotes que ela conheceu como pai, de acordo com a vontade e preferência de sua mãe. Sacerdotisas dos Mistérios Antigos não desenvolvem qualquer ligação paternal, nem sentem falta de uma figura masculina dominante, cada um cumpria sua função e permanecia atendendo ao público junto de sua mãe e desfrutando de sua curta mas proveitosa posição junto da poderosa Nefter. Ali Ketar permaneceu até ser despertada por Roe para jantar e depois conferir os artefatos que viriam a ser usados no novo templo. Assim ela fez, juntando-se aos seus serviçais, alguns remexendo nos pacotes enquanto outros traziam os itens comprados no comércio local. Vários vasos, para plantas e óleos, tambores, flores, ervas, incenso, velas, sinos, espelhos, acoites, cordas, vinhos, pães, bolos. Na porta de entrada do templo, um dos comerciantes apareceu para informar que logo de manhã viriam as estátuas em tamanho natural dos Deuses Antigos encomendados por Roe. Ketar sorriu, estava tudo satisfatoriamente arrumado e estabelecido. Ela pegou um pergaminho, pena e tinta, escrevendo seu primeiro convite para a próxima celebração de lua cheia, para Lapidatus, que ela fez questão de encerrar com seu sinal pessoal, pressionando seu anel sacerdotal em cera de lacre.

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