domingo, 29 de abril de 2007

Voltando para casa

Saindo de Lívia, o velho Scire olha e sorri discretamente para seu companheiro de viagem, Andros. Ele havia crescido, sem dúvida, algo enfim aconteceu para que o jovem mestre alcançasse o grau de Mago. Sem querer entrar em detalhes pessoais, Scire quebra o silêncio.
- Então, jovem mestre, para onde irá agora?
- Eu não sei. Eu não tenho para onde ir ou a quem contar minhas aventuras.
- Vejo que encontrastes teu equilíbrio, mas algo ainda o perturba. Será a jovem sacerdotisa que disse ter conhecido em Esmirna?
- Sem dúvida, ela impressiona. Eu levei dez anos de minha vida para conseguir compreender os Mistérios Antigos e como os Deuses agem, mas ela parece ter nascido com esta sabedoria.
- Hohoho! Desculpe meu riso, meu jovem. Seja bem-vindo ao grupo dos Magos. Eu passei trinta anos de minha vida, como oficial do Império Romano, viajando até os confins da terra, mas foi na Bretanha onde eu encontrei o que procurava!
- Conte-me mais sobre sua terra e o que encontrou por lá.
- Não há muito o que contar, a maior parte das coisas tu conheces. Infelizmente, não posso te contar sobre o grupo de antigos sacerdotes e sacerdotisas que ainda celebram os Ritos Ancestrais na Bretanha, devido aos meus votos.
- Eu entendo. Mas e tu, o que pretendes fazer?
- Meu jovem, não me faltam muitas primaveras, isto é certo. Devo me preparar para seguir até a Terra da Juventude, onde aguardarei meu retorno entre os meus. Eu sei que encontrarei um tempo muito difícil e tenebroso aos que seguem a Antiga Religião.
- Tiveste algum augúrio?
- Oh sim, jovem mestre. Tu te lembras do que me contaste das palavras da sacerdotisa, quando celebraste o Equinócio de Outono na Galiléia?
- Impossível esquecer tal manifestação e talento.
- Este é o vaticínio que está no brilho de cada estrela e em cada folha de árvore. As estações mudam não só na terra, mas no Cosmo todo. Ninguém sabe porque começou, ninguém viu ou conheceu Zoroaster, nem porque os Deuses Antigos estão se calando. O fato é que a humanidade será amordaçada pelos cultos a um Deus.
- Nesse caso, eu acho que devo voltar a Ephesus e alertar ao meu povo e tentaremos preservar a memória dos Mistérios Antigos.
- Não quero tirar sua esperança, mas tenha sorte! Eu ouvi falar que mesmo na Grécia os pensadores e filósofos fazem pouco dos Mistérios Antigos, os relatos são fragmentários e confusos. A norma culta não consegue registrar a riqueza dos mitos e lendas.
- Eu percebi isto em Ephesus. Eu sempre preferi ouvir as lendas pelas vozes dos mais velhos do que as ler por pergaminhos. Felizmente, existe a pintura e a poesia. Devias ir a Ephesus para ver nossos afrescos.
- Talvez o deva! Em breve, toda Arte será proibida e os templos serão pedras vazias e nuas, para louvar um Deus estranho e cruel. A simplicidade e alegria de servir aos Deuses será esmagada por cultos repetitivos e burocráticos, dominados por sacerdotes mais interessados em sua fortuna do que em orientar espiritualmente seu povo! Um novo tipo de sacerdócio, arrogante, intolerante, prepotente, sanguinolento substituirá aqueles que representam os Deuses. Ao invés do êxtase, pregação e interpretação da vontade deste Deus estranho por estes lobos vestidos de sacerdotes, pela leitura de algum texto ou livro forjado por um templo homicida!
Andros fica assustado com as palavras de Scire. Qual será o destino da humanidade? Qual será o sentido desta loucura? Por que os Deuses Antigos estão se calando? Quem será este Deus que diz ser o único Senhor? Quem serão tais futuros sacerdotes que se servirão do hábito para trazer tanta desgraça à humanidade? Por que a humanidade irá permitir tal domínio tirânico? Andros fica ansioso. Tinha resolvido muitas de suas dúvidas, mas outras surgiam. Esta mania de questionar nunca acabaria? Algum dia ele conseguirá entender o motivo desta era de trevas?
- Se não há nada que possamos fazer, todos os nossos esforços de nada valeram.
- Oh, não, meu jovem mestre! Não é o fim de tudo! Eu também estou aturdido quanto à decisão dos Deuses Antigos em conceder à humanidade uma era onde só haverá terror, morte e sangue. Muitos inocentes darão sua vida e a terra será banhada em sangue, este Deus será louvado e adorado por muitos, mas por maior e mais poderosa que seja sua influência, Ele igualmente está sujeito ao ciclo das existências. Sua coroa enferrujará e aqueles que dividem o trono deste mundo com Ele serão quebrados!
- Mas por que tanto sacrifício?
- Em breve, em algum lugar da Judéia, um profeta ensinado pelos Livros Esquecidos e pelos Livros Sagrados dos Judeus será sacrificado como sinal do que irá vir. Ele não dará sua vida aos Deuses, mas pelo que ele crê. Os que o segue darão início a um credo que reunirá Judeus e gentios debaixo de uma crença, para depois se tornar uma religião universal pelas mãos dos Romanos. Este credo se tornará religião oficial do Estado e com a força política, econômica e militar varrerá toda a terra conhecida, até esta religião tornar-se ela própria um Estado. Este tipo de Teocracia virá a ter outras versões, outro Deus como Senhor, mas terão em comum esse ódio pela diversidade e liberdade de culto.
- Mas por que as pessoas permitirão tal julgo?
- As pessoas estão acostumadas a serem comandadas. Elas deverão aprender sozinhas a reencontrar seu centro, como nós o encontramos.
- Eu espero então que eu possa ver estes dias em que as pessoas serão libertas da escravidão e voltem a celebrar os Ritos Ancestrais.
- Este é um bom objetivo, eu digo. Vamos até Bizâncio e lá bebamos pelo futuro e pelas gerações que nos seguirão. Que estejamos todos de volta ao mundo, em harmonia com nossos irmãos, com a Natureza e com os Deuses Antigos!
- Assim seja!

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