sexta-feira, 27 de abril de 2007

A Voz que Clama no Deserto

Eleaser e Zacharias seguiram alegremente a estrada de volta a Haifa até chegar na estrada secundária a Esmirna para então desviar para a rota até Enki para chegar a Galiléia. Anás forneceu-lhes os melhores camelos e providenciou servos, víveres e moedas para a longa viajem. Voltar pela mesma estrada não era ruim para Eleaser, pois agora ele seguia com a pompa e o trato que seu cargo pede, mas Zacharias não conhecia a estrada e as condições de tempo, fazendo com que constantemente reclamasse do calor, bebesse muita água e se manteve debaixo da sombra da proteção sustentada pelos servos. De noite, Zacharias reclamava do frio e freqüentemente se assustava com os sons noturnos. Eleaser, com mais experiência nos assuntos das artimanhas a Noite, apreciava a lua e as estrelas, apreciava o uivo dos chacais, apreciava a melodia do vento.
- Meu caro amigo, tu é bem mais forte que eu. Toda minha atividade se restringia a Antioquia e mesmo a viajem que empreendi para chegar nela foi sofrível e cansativa. Mas ao te ver tão tranqüilo com tantas manifestações do maligno em nossa volta, eu invejo sua experiência.
- Meu caro irmão, a experiência me ensinou que há manifestações e manifestações. A natureza e os animais manifestam espontaneamente o espírito que possuem. Estes espíritos são menores e fáceis de dominar. O espírito mais terrível é o que se aloja na rameira e a orienta nas Artes Negras. Como ele age por permissão de um demônio local, por intermédio da conjuração e consórcio dos espíritos menores, capacita a rameira na execução de suas Artes diabólicas. Assim como o Deus Vivo manifesta sua bondade e benignidade sobre os homens por anjos e auxiliares menores, da mesma forma o Diabo tem os demônios e os espíritos da natureza.
- Deus seja louvado! Somente Deus em sua infinita sabedoria e bondade teria a paciência de agüentar a rebeldia do Diabo e dos homens! Graças a Deus existe homens santos como Anás para nos orientar como proceder com nossas vidas num mundo tão condenado!
- Por isso que é nossa missão sagrada combater ao culto das rameiras e garantir que os homens santos possam falar ao povo para convertê-los desse terrível engano! Nosso Senhor fez o mundo em um tempo determinado e irá consumi-lo em outro tempo determinado. Quem persistir em viver segundo as obras do mundo irá ser consumido com ele. Este é o destino dos infiéis, do culto das rameiras, dos espíritos da natureza, dos demônios e do Diabo.
- Deus seja louvado! Ele criou tudo conforme sua imagem, perfeito. Mas a inveja do Diabo o levou a perder a humanidade e transformar o mundo em seu domínio. Nós estamos levando a todos o conhecimento de sua condição de impureza e a chance de se converter aos caminhos do Deus Vivo. Ainda assim, somos perseguidos, caluniados e difamados!
- Não podemos esperar outra coisa de pessoas em um mundo dominado pelo Diabo e pelas sensações prazerosas efêmeras que a carne traz através do pecado. Por isso que é importante fechar todos os templos das rameiras. Atrás da licenciosidade vendida como sagrada, existe um complô secreto para devorar as almas de seus freqüentadores. Sem o domínio de seu apetite carnal, o infiel se perde em coisas cada vez mais graves e pecaminosas, sem perceber, porque seu espírito está dormente.
- Sim, eu ouvi falar de glutonia, embriaguês e sacrifícios sendo feitos em meio a orgias desenfreadas em culto a estátuas sem vida!
- Antigamente não se tinha compreensão, o culto das rameiras esculpiram para satisfazer os medos das pessoas comuns tantos deuses quanto a imaginação popular os via na natureza. Assim, os espíritos da natureza e os demônios podiam se apresentar aos infiéis em roupagens mais agradáveis, orientá-los nessa estrada da perdição disfarçado em culto. Entretanto, não nos enganemos com suas filosofias vãs ou estratégias sutis, o que cultua a natureza e deuses esculpidos, dando vazão a apetites e emoções carnais, é um culto ao Senhor deste mundo, que é o Diabo.
- Sem dúvida. De mais a mais, nossas vitórias e constantes conversões apenas demonstram que nós trazemos o culto ao Deus Vivo.
- Sem essa certeza, nossa missão seria inútil. Deus seja louvado por nos ter permitido ser agentes de sua justiça, impedindo a ação do Diabo e de seus agentes.
- Deus seja louvado!
Os inspetores seguem a viagem, falando dos tempos de aprendizado, do quanto suas vidas antes da conversão era terrível e tenebrosa, dos milagres e libertações que testemunharam, sempre louvando ao Deus que foram ensinados a adorar e servir. Ao fim do dia, conforme se aproximavam da Galiléia, junto com a noite de lua cheia vem uma chuva que, para estes viajantes, é apenas um incomodo molhado. Na mesma noite, Ketar chega de volta a Esmirna e recebe a chuva com alegria pois é um sinal claro da chegada da nova estação. Mais detalhes no capítulo seguinte.
Chegando em Galiléia, Eleaser e Zacharias se abrigam da chuva em uma estalagem e passar a noite. No dia seguinte, ambos seguem até o salão local da Ordem, curiosamente mais visível e mais acessível ao público. A entrada, magnificamente decorada com arte e vasos com flores era certamente destoante dos demais salões. Mais adiante, havia uma mesa grande onde um rapaz e uma moça estavam incumbidos de receber todos os visitantes.
- Bom dia, senhores. O que podemos fazer pelos senhores?
- Bom dia. Meu caro jovem, eu sou Eleaser, Inspetor de Jerusalém e este é Zacharias, Inspetor da Antioquia. Nós viemos para falar com Zadoque.
- Por gentileza, aguardem na sala de estar enquanto Sara vai anunciá-los ao Mestre Zadoque.
Enquanto Eleaser e Zacharias se dirigem à sala de estar, Eleaser estranha a presença de uma mulher a serviço da Ordem. A jovem era muito nova e certamente não se vestia de forma apropriada a uma mulher dedicada aos serviços de Deus. Puxa Zacharias pela borda da túnica de perto do bule de chá gelado para comentar a estranha presença.
- Eu acho que Zadoque deve ser algum liberal. Espero que Anás saiba em quem está confiando esta missão tão delicada.
- Eu não me importaria em ter algumas jovens belas como Sara em Antioquia. O distinto irmão não pode ser radical quando o assunto é mulher.
- Ora veja! Depois de ter conversado tanto sobre o perigo que há em ceder aos apetites carnais, logo tu me decepciona!
- Não se engane! Ver e apreciar não é o mesmo que consumir! Não podemos esquecer que quando estivermos no Reino do Senhor, teremos mulheres e a missão de povoar o reino!
- Volte de onde vieste, Satanás! Não me tenteis com suas vãs filosofias. Ver e apreciar é dar espaço à concupiscência, luxúria e lascívia.
- Eu vejo que o distinto irmão é da escola radical dos ascetas. Graças dou a Deus por Anás ter me escolhido para preparar os messias para a região de Jerusalém. Muito prazer, eu sou Zadoque.
Pouco atrás de Eleaser e Zacharias, próximo da entrada da sala de estar, um jovem com trajes romanos e cabelos em estilo grego, aproximava-se da dupla, junto com a jovem Sara.
- Embora não me conheça, eu vi uma vez o senhor Eleaser em ação, o que me indica ao outro senhor como Zacharias. Veja bem de perto, Eleaser, acha mesmo que uma criatura tão doce, meiga e suave possa ser agente do Diabo?
Antes que Eleaser responda algo, Zacharias se adianta e aperta a mão de Zadoque, pois ambos compartilhavam uma igual apreciação pelo sexo oposto.
- Perdoe os maus modos de meu irmão. Não convém criticar os hábitos de quem nos recebe. Nós viemos por orientação de Anás exatamente para saber do projeto que o senhor está coordenando para a escolha e treinamento dos messias.
- Será uma satisfação, quem sabe o irmão Eleaser não aprende algo? Venham e conheçam a Johannes. Nós o chamamos de a Voz que Clama no Deserto.

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