quarta-feira, 30 de maio de 2007

Entardecer em Bizâncio

Andros e Scire bebem vagarosamente uma das dezessete variedades de cerveja, observando o frenesi do fluxo das pessoas, das mais variadas etnias, línguas e credos, convivendo tão tranqüilamente, que a ameaça de uma Teocracia se torna um mero sonho ruim passageiro.
Bizâncio era, desde antes da chegada dos Romanos, uma cidade que tira sua força e poder desse fluxo livre de pessoas, a tornando um importante ponto de comércio e riqueza. Os Romanos souberam aproveitar bem desta Princesa do Oriente, a tornando como uma Segunda Roma, tanto política quanto militarmente, de forma que ali poucos exércitos ousariam invadir. Quando os Persas foram expulsos de lá, não houve batalhas, mas somente acordos diplomáticos. O equilíbrio do Oriente Médio dependia da manutenção de Bizâncio.
- Eu imagino como seria o mundo conhecido se as cidades tivessem um pouco desta paz.
- Seria muito tedioso. Nosso mundo precisa de contrastes, diversidade, conflitos, para que nós possamos crescer, jovem mestre.
- Mas eu temo que em breve haja uma comoção no mundo e esta parte mais baixa da humanidade acabe por dominar.
- Aproveitemos bem esta cerveja, neste entardecer em Bizâncio, jovem mestre, pois isto irá ocorrer muito em breve.
- Sim, eu lembro como doeram nos meus ouvidos o som grave e fúnebre do vaticínio dos Deuses. Mas por que, em nome dos Deuses, a humanidade trocaria a paz pela guerra?
- Isto faz parte do crescimento de nossa raça, jovem mestre. Antes nós mal compúnhamos de pequenos clãs, tentando sobreviver. Com forme nos espalhamos, os clãs se expandiram e surgiram cidades Estados, Reinos. Quando os povos se encontraram, o choque do diferente produz medo e violência, surge uma necessidade de distinção. A paz que vemos é frágil, sustentada mais por interesses políticos e comerciais do que pela vontade humana.
- Ainda me custa aceitar os rumos do destino humano.
- Eu sei que é terrível, mas infelizmente a humanidade escolheu aprender pelo sofrimento. No momento, nós precisamos decidir o que vamos fazer. Daqui tu podes ir a Ephesus ou ir comigo a Bretanha. No caminho, passaremos pela Etrúria e Gália. Tu poderás ver como se estendeu pelo mundo a Velha Religião.
- Excelente idéia. Quando eu andei de Esmirna a Lívia, notei tantas formas diferentes de celebrar os Ritos Ancestrais, eu imagino como serão as cerimônias Gaulesas e Bretãs. Eu gostaria de ir ao Egito, mas tem a reforma do faraó. Ou ir às ruínas da Suméria, se não fosse pela presença dos Persas.
- Tu verás muitos santuários nas encruzilhadas das estradas, com oferendas aos pés de Hecate, a Rainha das Bruxas. Com sorte, veremos algumas trabalhando.
- Por quais cidades passaremos?
- Algumas poucas urbanizadas como Nicius, Aquiléia, Ligúria, Lutécia e Londinum. Mas veremos muitas vilas e povoados, onde a atividade dos costumes antigos ainda estão fervilhando.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Anás acelera os planos

Ao chegar em Jerusalém, Anás depara com oficiais romanos movimentando os legionários para fixar estatuas de Tibério César nas ruas e praças principais, para introduzir o culto ao César, obrigatório a todas as colônias do Império Romano. Irritado, Anás puxa seus inspetores pelos braços, praticamente os jogando para dentro de sua casa.
- Vós vistes os sinais de que o Julgamento está próximo. A presença de Roma é cada vez maior e não demora muito tempo até falarmos latim, vestirmos togas e adorarmos a César. O jovem mestre Yheshua está preparado?
- A sacerdotisa Magdalena disse que está tendo dificuldades no treinamento, por causa da interferência de Miriam.
- Não podemos deixar Johannes agir sozinho sem o apoio de Yheshua. Iremos ter que reforçar com um terceiro messias.
- Terceiro messias? Em que podemos confiar? Quem teria o treinamento necessário?
- Tu o conheces, Zadoque. Ele é o aluno mais brilhante da Escola Rabínica. Tu e Zacharias terão de procurá-lo e inteirá-lo de nosso panos. Vão a Siloe e procurem por Yoachim.
- Yoachim! Ele é mais velho do que eu! Como faremos as pessoas ouvirem a três messias?
- Yoachim se passará por Yheshua. No que um é bom em citar a Tanach, o outro é bom em escatologia.
- Dois rabinos falando ao povo como se fossem um? Yoachim e Yheshua são muito diferentes, um é ousado e outro acanhado.
- Esta será vossas penitências. Deverão dar um jeito para que pareçam iguais, vistam-se iguais, andem iguais e soem iguais. Yoachim pode lidar direto com o público e Yheshua apenas fazendo cena de longe.
- Precisaremos conversar com os dois para que aquilo que disserem ao público não fique contraditório.
- Sem falar que teremos problemas com Miriam e Magdalena.
- Considerem isto como parte da penitência. Vós tendes até o próximo sabath para apresentarem resultados satisfatórios.
Zadoque e Zacharias se deslocam rapidamente até Siloe e, com a ajuda dos Inspetores da cidade, facilmente encontram Yoachim, pregando aos gentios em uma praça pública. Esperam que ele acabe o discurso, para então se apresentarem e o interpelarem.
- Saudações, Mestre Yoachim. Eu sou Zadoque e este é Zacharias. Nós viemos da parte de Anás para te fazer uma súplica.
- Zadoque? O jovem Zadoque que eu conheci na Escola Rabínica? Tu estás com vestes e barbas mais bem tratadas que as que tinha em teu tempo de estudante. Deus tem te dado muitas bênçãos!
- Sim e é por causa da Obra de Deus que venho te suplicar para que nos ajude em um projeto.
- Do que se trata este projeto?
- Nós estamos preparando os messias que irão purificar o povo Judeu e conduzir os gentios ao culto do Deus Vivo, para que o Reino de Judá renasça.
- Vós fazeis parte da Ordem de Melquisedeck? Por anos eu tenho pregado em praças, na esperança de um dia poder fazer parte desta santa ordem! Digam o que eu tenho que fazer!
Zadoque dá uma cotovelada leve e discreta em Zacharias, a ocasião não podia lhes ser mais propícia. Zadoque conta a Yoachim apenas o necessário.
- Tu deves vir conosco para combinar com um jovem rabino como vós ireis vos apresentar ao público, como se fossem um só rabino.
- Vamos ter então com este jovem rabino.
- Mas temos complicações. Ele é muito jovem , inseguro e dependente da mãe.
- Disto eu tomo conta. Mais alguma coisa?
- Bom, o sucesso do projeto depende que os messias falem aos gentios, de forma que tu terá que passar pelo mesmo treinamento que o jovem mestre está tendo com uma sacerdotisa.
- Treinamento...sacerdotisa?
- Daquilo que conhecemos na Escola Rabínica de culto das rameiras.
- Eu estou confuso. Qual Mestre do Sinédrio está coordenando este projeto?
- Tu lhe falarás se nós formos bem sucedidos. Nós temos apenas uma semana.
- Por Deus...é um desafio e tanto...
- E nós só contamos contigo.
- Eia! Vamos! Se este é o caminho indicado por Deus, temos que cumpri-lo!
O trio segue rapidamente até o subúrbio de Nazaré, na Galiléia, sendo recebidos pelas mesma mulher que outrora os havia aberto a porta. Mas desta vez, com a presença de Yoachim, a recepção foi diferente.
- Isabel? Minha pequena Isabel?
- Yoachim? Bendito o que vem em nome do Senhor! Miriam! Yoachim veio nos visitar!

domingo, 27 de maio de 2007

A cura da alma

Eleaser executava minuciosa e eficientemente suas tarefas no templo e, com a convivência, acabou se habituando e familiarizando com as rotinas e as pessoas do templo. Sem perceber, assimilou os nomes dos objetos, suas serventias, como mantê-los limpos e purificados, suas posições e colocações no altar. Diversas vezes lhe era confiado fazer as compras do templo e com a prática, sabia onde encontrar o melhor animal para os sacrifícios, as melhores ervas, velas e incensos. Habitou-se aos diversos nomes, atributos e usos dos Deuses e como distinguir as estátuas. Como ele nunca procurou fazer carreira no templo, nem perturbou a sacerdotisa com pedidos, tornou-se um confidente de seus colegas, aprendizes e visitantes. A sacerdotisa também acabou por conversar com ele, como se ele fosse um irmão mais velho, sobre assuntos comuns e íntimos.
- Querido irmão, eu sinto que guardas um segredo. Conte para mim, para que tu possas curar tua alma.
- Sacerdotisa Ceres, o que eu carrego comigo não posso falar, meu passado é terrível demais.
- Ora, vamos, Eleaser. Eu ouvi a soldados e criminosos, duvido que tenhas feito algo pior.
- Minha vida foi sofrida e dolorosa. Por necessidade de vingança ou reparação, eu me tornei um caçador de sacerdotisas como tu e um destruidor de templos como este.
- Eu ouvi alguns boatos sobre a Judéia e a perseguição feita pelos Inspetores, agindo ocultamente por ordens do Sinédrio.
- Não são meros boatos. Eu fui um Inspetor, até entrar em atrito com um dos Mestres. Eu tenho as minhas mãos cobertas com sangue de muitos inocentes.
- Meu caro, tu não precisas carregar a culpa. O que está feito, está feito, coisa alguma irá reparar estas vidas.
- Mas eu pequei contra Deus. Deus está me castigando pelos meus erros e continuarei a sofrer, até que me penitencie.
- Eleaser, eu sei que tu foste conduzido a acreditar em um Deus tirano, ciumento e vingativo, mas um Deus eterno se preocuparia com o que fazemos em nossa curta vida?
- Como explicas meu infortúnio? Nasci pobre, sem pais, fui acolhido por um grupo que me manteve enquanto lhes era útil.
- Percebe que isto é efeito de tuas ações? Nosso destino é guiado por forças, os efeitos daquilo que passamos é resultado de causas naturais ou humanas. Os Dravidianos chamam a isto de Karma, tu estás pagando neste instante por teus erros.
- As minhas ações que prejudicaram aos outros agora me afeta? Como isso ocorre?
- Nós humanos interagimos com a natureza, entre nós e os Deuses. Tudo está conectado. Assim, como a onda em um lago, a energia de suas ações vão retornar a ti.
- Onde os Deuses entram nisso? Por que os Deuses não interferem nem pune os humanos?
- Os Deuses são a Vida e a nossa Natureza, eles não nos impõe um modelo, um padrão. Eles esperam que aprendamos com os erros e que ensinemos aos nossos por exemplos. Interferir ou punir iria acabar com a liberdade e o aprendizado e os iria atingir.
- Mas se os Deuses não castigarem as pessoas, ninguém se arrependerá de seus erros e haverá muita maldade!
- E não foi por causa destas Leis de Deus que tu cometestes mais erros dos quais agora lamentas?
- Mas eu matei várias sacerdotisas e os filhos delas. Agora que eu estou aqui, que conheci tua gente melhor e me afeiçoei ao templo, eu me sinto como um traidor.
- Tu não tens culpa de teus atos, agiste pelo que acreditavas e pelo que fostes treinado. O que quer que tenhas feito, tu o pagaste com o bem que fazes aqui a teus colegas e visitantes do templo. Agora, tu é quem deves te perdoar.
- Ainda assim eu gostaria de fazer uma cerimônia ou uma oferta aos Deuses.
- Para tanto, eu gostaria que tu iniciaste um treinamento formal, para ser um serviçal do templo.
- Tu terás muito trabalho para curar minha alma.
- Com a benção dos Deuses e o teu empenho, verás que tudo é possível.
- Assim seja.

sábado, 19 de maio de 2007

Rebelião

O faraó Akenat faz então um édito que percorreu todas as regiões e províncias do Egito em uma velocidade espantosa, sendo seguido por festas e comemorações daqueles que outrora tinham que se esconder ou eram forçados a freqüentar o culto oficial. O édito, simples e objetivo, deu nova esperança aos perseguidos.

Ano 10 do Excelso Reinado de Vossa Celestial Majestade Akenat II

Vossa Celestial Majestade torna público a todos os seus súditos que Athon, mil vezes louvado seja, ouviu as lamúrias e clamores de seus filhos.
Por intermédio do Vosso Humilde Sumo Sacerdote e Vossa Celestial Majestade Akenat II, manifestou o Excelso Desejo do Altíssimo de que seja permitido, a partir desta data, igual louvor e adoração a Nuit, a Deusa Consorte, a quem poderá ser dedicada as cerimônias e rituais apropriados.
Vossa Celestial Majestade manda cessar, interromper e revogar quaisquer ações e leis anteriormente vigentes que proibiram, baniram e cessaram as atividades dos templos antigos.
Vossa Celestial Majestade ordena, com isso, que haja uma conciliação entre aqueles que professam os Ritos Ancestrais e aqueles que seguem os Ritos de Athon.
Fica instituído o foro em primeira instância às Secretarias de Províncias, em segunda instância aos Ministérios de Regiões e em última instância ao Palácio Real.
Questões pendentes serão regidas pelo presente édito.
Vossa Celestial Majestade ordena que seja transmitido o presente edital por todo o Egito.

Houve um enorme fluxo de populares aos templos de Athon, que ficaram lotados. As pessoas que não conseguiam entrar neles, ficavam alegremente cantando, dançando e louvando a Athon e Nuit no entorno dos templos e ruas próximas. Milhares de flores, lamparinas com óleos aromáticos e estátuas voltavam a decorar os templos, as ruas e as casas.
Em Heliópolis, os guardas reais trabalhavam febrilmente para organizar e conter a manifestação popular, que cercou o Palácio Real com músicas em dedicação ao faraó e à rainha. Milhares de presentes e oferendas são recebidos nos portões.
Akenat, da mesma ameia que antes havia observado a partida dos rabinos em meio a um povo indiferente, agora colhia a satisfação que todo governante anseia em seu mandato. Ele sentia, pela primeira vez, o aplauso de seu povo, que justificou sua coroa.
- Que loucura é esta, Akenat?
Akenat se vira para ver quem ousava se dirigir a ele com tanta intimidade. Ele deparou com um grupo de Altos Sacerdotes de Athon, nomeados por ele, evidentemente os únicos insatisfeitos com a mudança.
- Como ousam me questionar? Eu sou o faraó e o Sumo Sacerdote de Athon.
- Engana-se Akenat. Nós somos a razão e o sustento de teu poder. Nós te demos a coroa, nós podemos acabar com ela.
Os Altos Sacerdotes mostram suas espadas e as apontam para Akenat.
- Ousam ameaçar a vida do Ungido por Athon? Isso é o mesmo que ameaçar Athon!
- Ora, vamos, Akenat! Tu sabes tanto quanto nós que Athon é apenas uma figura útil para nosso poder e riqueza!
- Quanta blasfêmia! A mão de Athon está sobre vós!
- Athon nunca existiu e tu se juntará a ele!
Os Altos Sacerdotes, armados de espadas, se lançam em um ataque contra o faraó, totalmente desarmado e desprotegido. Akenat não tem tempo para reagir ou chamar a guarda, apenas pensa em Nefter.
Mas os Altos Sacerdotes não conseguem ferir o faraó. Uma força invisível os repeliu para trás, os esmagando na parede. O faraó corre em busca de sua rainha e a encontra descansando sossegadamente no quarto dela, cercada dos corpos esquartejados dos demais Altos Sacerdotes de Athon. Acariciando os cabelos de sua rainha, Akenat pondera sobre a vida dos muitos homens que vivem sem perceber a presença de Deus, enquanto tão poucos percebem um sinal mais que suficiente na existência da vida.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Dias de Jó

Anás murmurava sozinho em sua cadeira, dentro do navio que os levava de volta a Haifa para então seguirem, na primeira caravana, em direção à Jerusalém. Seu séquito, sentado no chão, ficava em silêncio para evitar uma dura reprimenda. Dos três, Eleaser era o que estava mais acabrunhado e cabisbaixo, ainda tentando entender o que lhe havia acontecido na biblioteca do faraó. Ao perceber que estavam próximos de Haifa, Anás enfim solta a língua.
- Então, Zacharias, este é aquele que tu me fizeste confiar?
- Sim, Mestre. Evidentemente eu me enganei a respeito dele.
- Eu vi que ele não estava pronto. Ele teria que passar um ano comigo para que ficasse preparado para a iniciação.
- No entanto, Zadoque, foste tu que o incluiu para ir até Petra. O que eu faço com vós, agora?
- Eu espero que nossos anos de serviço falem mais alto. Eu me sinto igualmente enganado, mais que tu, Mestre, pois este homem eu conhecia.
- Então o que fazemos nós com Eleaser? Ele sabe demais e não nos serve mais para ser Inspetor.
- O senhor, como Mestre, pode cortá-lo de nossa Ordem, o tornando ordinário e sob o nosso julgamento.
- Eleaser, pelos poderes a mim conferidos pelo Deus Vivo, eu o considero anátema e o destituo de todos os teus privilégios como Inspetor.
Zacharias avança em direção a Eleaser e remove a tatuagem dele com uma navalha afiada, enquanto Zadoque o segurava. Em seguida o surraram, enquanto o acusavam de feitiçaria e idolatria. Depois de o deixarem bastante machucado, eles o jogaram ao mar. Somente ao ver o corpo boiando além do navio, ao sabor das correntes, é que Anás ficou com o rosto plácido e voltou a sorrir.
- Excelente. Ninguém deste navio irá denunciar o caso, será mais uma briga entre passageiros e ninguém dará falta deste imprestável. Eu estou satisfeito, mas vós ainda tereis de cumprir uma penitência por vossos erros.
- Estamos à tua ordem, Mestre.
Eleaser acorda duas horas depois de quase se afogar, cuspindo e tossindo, em algum lugar da costa, com suas feridas prejudicadas pela água do mar. Ele estava sujo, com as roupas rasgadas e o rosto deformado pelos edemas. Trôpego, começou a andar sem destino algum, seguindo o instinto de seguir em direção Leste. Com muita sorte chegou próximo de uma estrada, onde desfaleceu. Acordou uma hora depois, notando haver alguns siclos próximos dele. Uma caravana que passava, jogou também alguns siclos, no que ele aproveitou para lhes pedir carona.
- Piedosos viajantes, qual a cidade mais próxima?
- Tamar.
- Poderiam me levar até lá?
- Infelizmente vamos a Siquém. Tamar fica na outra direção.
Eleaser agradece. Com grande esforço, vai para o outro lado da estrada para esperar por uma caravana. Enquanto esperava, tentava lembrar de onde havia ouvido falar destas cidades, mas estava difícil até para ficar consciente. Uma hora depois, uma caravana se aproximou e a estes ele apelou.
- Piedosos viajantes, poderiam me levar a Tamar?
- Tu és leproso?
- Não, eu estou machucado após um naufrágio e a água do mar deixou minhas feridas abertas.
- Vinde, então, desafortunado estranho.
- Grato. A cidade de Tamar fica em qual região?
- Filistéia.
Filistéia! A região que tem fama de ser o maior centro de bruxas e demônios de todo o Oriente Médio! Eleaser pensa se teria conseguido sobreviver para perder de vez a alma. Ele sente tão desgraçado que não ousa orar para o Deus Vivo. Apenas lembra do exemplo de Jó e entrega-se ao destino.
- Nós te deixaremos aqui, onde tu podes ser curado pela profetisa de Asherat.
Eleaser entra na casa da profetisa, lotada de gente com problemas, esperando ser atendido por alguma velha louca, que iria fumegá-lo e balbuciar palavras sem nexo.
Ao chegar sua vez, ele se surpreendeu ao ver uma jovem mulher, muito parecida com a sacerdotisa Sulamita. Ela simplesmente limpou as feridas com água e as cobriu com um emplastro de ervas que surtiu efeito imediato.
Em uma semana ele estava curado, mas pobre e abandonado. Ali ele não encontraria um Judeu e não poderia procurar por uma sinagoga, pois naquele momento seu nome constava entre os banidos e malditos. Por ironia, a profetisa o ajeitou em um dos muitos templos iguais aos que ele cansou de perseguir e fechar.
- Seu serviço é simples. Mantenha limpo o templo, junto com os outros servos.

O coração do faraó

Akenat olha pela ameia de seu Palácio Real o curioso grupo de rabinos, enquanto Nefter olha o pergaminho deixado por eles. Evidentemente, o documento exagera no tamanho e na suposta influência da Ordem de Hórus. Ela recorda de seus dias de juventude, quando era bastante comum a presença de tais grupos nos templos antigos, em busca de iluminação e conhecimento. Eventualmente assimilavam os símbolos e os rituais, mas não cresciam, davam mais importância ao cerimonial do que ao que estava sendo celebrado. Ela olha para seu esposo e percebe a angústia, tristeza e melancolia na face dele.
- Meu querido, tu não estás levando em consideração a fantasia destes rabinos, estás?
- Minha querida, muitas coisas aconteceram depois que recebi a coroa de faraó de meu avô. Eu te contei como encontrei Athon e meus motivos para reformar o Egito. Então surgiu o seu passado e o problema com Ketar, tua filha sacerdotisa de Ishtar.
- Eu nunca escondi o que éramos. Os arranjos de nossa união, devido o falecimento de Natan, foi longo e complicado. Isso incluiu o exílio de minha filha mediante uma oferenda em ouro a Athon.
- Eu lembro. Eu tinha dezessete anos, não conhecia nem amava Natan, mas a tradição nos uniu no berço. Não é bom que o faraó fique sem rainha. Tua posição e poder como sacerdotisa de Ísis me favorecia. Para reformar o Egito eu aceitei as condições de sua família e de meus ministros, que certamente engendraram a oferenda expiatória em ouro achando que iam lucrar algo com isso. Eu vejo agora que eu fui manipulado, mas o envolvimento de meus ministros com uma sociedade secreta a deixaria muito evidente.
- Quer mesmo investigar a fundo se existe essa sociedade e o envolvimento desta com pessoas do governo?
- Não me interessa o que estes fazem em seus momentos particulares. Eu tracei meus planos, que me ocupam totalmente, mas eu não sou ingênuo. Que pensem estar no comando, no momento certo, eu tomarei as rédeas. Apenas tu me interessas.
- O que queres insinuar?
- Eu sei que tu viajaste e ficaste ausente por duas semanas, exatamente quando ocorreu a cerimônia. Tu não perderias uma oportunidade de voltar a ser uma sacerdotisa. Eu sei como eram tuas cerimônias e, em ambos os casos, estarias condenada.
- Se tu me conheces e conheces minha crença, deveríeis ser mais permissivo e ter tolerância com os meus.
- Eu havia te conhecido pelos títulos, mas quando a vi, eu senti aquilo que aqueles rabinos sentiram na cerimônia. Eu tive medo e desejo. Ainda que seja rude comigo, quanto mais tenta me afastar, mais fico atraído por ti. Por mais difícil que seja, eu aprendi a te amar.
- Eu também, seu tonto! Poderíamos ser um casal feliz, fazermos juntos um bom governo e dar ao Egito uma nova era dourada.
- Eu até poderia conceder uma maior flexibilidade, mas eu tenho um compromisso com Athon. Seria mais fácil se tua crença não fosse tão cheia de segredos.
- Ora, se me pedisse, se me fosse permitido, eu deixaria aberta e clara a qualquer um. Eu te proponho um teste. Chame os sacerdotes de Athon, os melhores, para invocá-lo em culto, enquanto eu invocaria Hórus. Aquele que for bem sucedido terá um templo construído às custas do perdedor.
- Tua confiança é admirável. Mas até hoje eu não vi um único sacerdote de Athon competente e aceitar essa competição iria contra meus éditos.
- Não acha estranho Athon não se manifestar? Tu não sentiste a presença de meus Deuses quando os invoquei?
- Sim e seria bom para nós como casal e reis que tu fostes sacerdotisa de Athon.
- Eu concordo. Peço apenas que haja um tempo para Ísis. Não percebe que, assim como nós, um Deus solitário torna-se frio, cruel e insensível?
- Eu não vejo porque não. Eu abro meu coração a ti, Athon deve abrir o coração a Nuit.
O faraó e a rainha se abraçam e se amam como todo homem e mulher. Ali, ambos viram satisfeitos a Athon se manifestar, abraçado a Nuit, com um sorriso de agradecimento.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Diante do faraó

Eleaser conhecia bem a província da Galiléia, mas pouco havia saído para mais longe do que o subúrbio de Elom, onde ele se prestou a ir para caçar a sacerdotisa Sulamita. Ele considerava sua viagem até Antioquia uma saga digna de ser escrita e certamente inventaria como lenda sua viagem até Petra. Desta vez ele sai da Judéia, saía dos braços do Império Romano e, como Moisés, cruzou o Mar Vermelho, do porto de Haifa até o porto de Heliópolis, a cidade - estado do grande Império Egípcio. Apesar de ser a primeira viagem através do mar, não sentiu os enjôos dos demais passageiros principiantes, mas não deixou de a tudo olhar com o mesmo deslumbre das crianças.
Eleaser só ouvira falar do Egito como sendo o país da origem da idolatria e da feitiçaria, mas as linhas sóbrias e funcionais do porto de Heliópolis lhe mostra que os tempos dos falsos deuses tinha se tornado uma vaga lembrança dos velhos. O grupo seguiu por entre a multidão de viajantes e turistas, evitando os guias nativos, até encontrar em uma pequena sinagoga um irmão da Ordem de Melquisedeck para os guiar até o faraó. No caminho, Eleaser admirava as obras e o refino da arquitetura egípcia, uma ordem urbana que ele gostaria de ver na Galiléia.
A liteira egípcia os deixou em frente ao Palácio Real, onde Anás teve o cuidado e a diplomacia de identificar a todos do grupo aos guardas do primeiro portão como sendo emissário da Ordem de Melquisedeck e eram esperados pelo faraó. O guarda passou por um mensageiro os papéis do grupo até o Chefe da Guarda, este ao assistente de pátio, este ao adido do palácio, este ao secretário dos ministros até, por fim, chegar ao faraó que os foi receber no segundo portão.
- Sejam bem vindos. Poderemos conversar em segurança em minha biblioteca particular.
O grupo segue o faraó a uma distância respeitosa, enquanto acompanhavam embevecidos a apresentação que o faraó fazia de sua humilde morada. A biblioteca do faraó possuía uma única entrada, cujo portão somente o faraó tinha a chave. Os pergaminhos estavam ordenados em nichos numerados, escavados em uma grossa parede, impossibilitando que curiosos ouvissem a conversa.
- Agora vós podeis, sem medo algum, dizerem tudo quanto julgardes conveniente.
- Vossa Celestial Majestade, estes três senhores que trago comigo são testemunhas de que há uma sociedade secreta mantendo os cultos aos falsos deuses e agindo pelos meandros do governo da Judéia, Egito e Roma.
- Dizei então, senhores, vossas graças e vossos relatos.
- Eu sou Zadoque, Vossa Celestial Majestade e creio poder dizer, sem falsa modéstia, o primeiro da Ordem de Melquisedeck a detectar, denunciar e se infiltrar no meio destas hostes. Na Judéia, são sacerdotes de Baal e sacerdotisas de Ishtar.
- Eu sou Zacharias, Vossa Celestial Majestade e com os contatos de Zadoque, eu descobri a Ordem de Hórus, a sociedade secreta em ação em Vosso reino. Nós três testemunhamos em Petra os cultos abomináveis, onde uma pessoa próxima de Vossa Celestial Majestade estava presente. Nosso irmão Eleaser a viu frente a frente e poderá identificá-la.
- Eu sou Eleaser, Vossa Celestial Majestade e nunca esquecerei o que vi, ouvi e testemunhei naquela sinagoga proscrita em Petra. Mas não estou certo de poder Vos identificar a sacerdotisa que lá oficiou com mais de cem homens.
- Vossa Celestial Majestade, eu, como Mestre destes senhores, coletei e reuni todas as informações referentes à Ordem de Hórus nestes pergaminhos que confio a Vossas mãos.
- Nós temos impressão de que isto envolve Vossa Magnifica Majestade e o exílio da sacerdotisa filha dela. Nós também nos sentimos sensíveis ao assunto, mas se é inevitável, nós convocaremos a rainha para que se pronuncie.
O faraó se levanta, abre a porta e ordena ao primeiro servo do palácio que encontrou para ir direta e imediatamente, sem se deter, chamar a rainha, entregando ao mesmo um papiro com a ordem expressa, a fim de evitar o longo caminho burocrático. A rainha chegou vinte minutos depois e o faraó recompensou o servo com duas moedas de ouro.
Nefter olha para os convidados de seu esposo e reconheceu três deles da cerimônia que ela conduziu em Petra, para o Equinócio de Outono. Ela pressentiu que o rabino mais velho tinha más intenções e estava mentindo para seu esposo para enredá-lo em seus planos escusos. Ousada e provocante, senta-se ao lado de seu faraó em uma posição que a deixou bem de frente a Eleaser.
Eleaser evita olhar para a rainha, se encolhe, emudece. Não precisava olhar para ela e sua exuberante beleza de mulher grávida no sexto mês. Ele se sente constrangido, ele a havia conhecido carnalmente na cerimônia, estando ela no terceiro mês de gestação e agora a vê bem diante do faraó, seu esposo.
- Vossa Magnifica Majestade, estes senhores aqui presentes dizem ter indícios que nosso reino está ameaçado pela ação de uma sociedade secreta.
- Mesmo? Que pitoresco. Como simples homens conseguem ter uma percepção maior que meu divino esposo?
- Eles dizem representar uma organização que é especialista em investigar e descobrir. Segundo eles, a fuga de Vossa filha, sacerdotisa de Ishtar e inclusive a participação de alguém próximo a nós em um culto proibido foram obra desta sociedade secreta.
- Estes senhores são humoristas! Nossa amada filha teve seu salvo conduto pago com ouro. Quanto a cerimônias proibidas, eu não vejo como eles participariam, uma vez que são Judeus.
- Vossa Magnifica Majestade, nossa ordem sagrada, com a proteção e a benção do Deus Vivo, pôde infiltrar estes três jovens nesta sociedade secreta e eles testemunharam em Petra estes cultos proibidos.
- Então vós sois traidores de vossa fé ou vosso Deus os abandonou. Uma autêntica cerimônia dos Ritos Ancestrais vos atingiria a alma e vós se tornariam aqueles que são perseguidos.
- Nós estamos curiosos quanto a isso. Como vós podeis celebrar tais cerimônias e manter a pureza necessária para servir ao vosso Deus Vivo?
Nefter se alegra. Pela primeira vez Akenat fica ao lado dela. Certamente estes rabinos deviam estar tramando algo contra ela, tentando impressionar seu esposo com fantasmas da criação deles. Com um sorriso de satisfação, Nefter encerra com ironia.
- Nós estamos aqui por um motivo, que certamente envolve as fantasias dos senhores conosco e essa suposta cerimônia em Petra. Deixai vossas hipocrisias e digam, sem demora, o que nós temos com isso.
Anás se sente acuado e ameaçado. Seu projeto de conseguir a aliança a apoio do faraó pode lhe custar a cabeça. Dissimulada e covardemente, empurra para Eleaser o foco da atenção.
- Nosso irmão Eleaser foi quem mais esteve próximo da sacerdotisa e poderá indicar às Vossas Majestades quem ela é.
Eleaser não fala. Não pode. Não consegue. Sua cabeça está paralisada e seus pensamentos divididos. Ele não sabe se é um resto de escrúpulo, um efeito da cerimônia ou o poder da rainha. Nefter olha com indiferença a Eleaser, antes, mais um homem anônimo que consagrou seu ventre aos Deuses Antigos, como antes se fazia. Ela sente o dilema e a luta interna de Eleaser e com uma ponta de misericórdia, resolve acabar com a reunião.
- Não há nada o que falar, porque não há nada a dizer. Voltem para seus filhos.
- Nós agradecemos vossa visita, preocupação e denúncia. Nós cuidaremos do povo do Egito, como sempre temos cuidado.
- Eu espero que Vossa Celestial Majestade não se arrependa por recusar nossa ajuda, como Vosso honrável ancestral uma vez recusou de Moisés.
- Velho rabino, tu o sabes tanto quanto eu que isso nunca aconteceu. Vão, nós sabemos bem mais que vós com governar.
Anás se retira, furioso, sendo seguido pelo seu séquito. Ele daria um jeito para descobrir e envergonhar diante do faraó a sacerdotisa que esteve em Petra, custe o que custar.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O segredo do Sinédrio

Eleaser segue cambaleante seus companheiros pelas ruas de Jerusalém vendo que seu projeto de encontrar a cabeça da Serpente e cortá-la estava cada vez mais difícil. Até onde o Deus Vivo o acompanharia neste meio pérfido? Ele havia sentido o abandono e a solidão em Petra, mas não ousa murmurar contra o Senhor. Ele mal nota que seus colegas estavam parados conversando com um servo menor da Ordem de Melquisedeck.
- Venha, meu velho amigo Eleaser. Eu creio que tu estás preparado para o passo seguinte.
- Mais? Por Deus, o que mais terei que agüentar?
- O Mestre Anás deseja ver-nos. Eu sinto que ele te dirá todo o resto que precisas saber.
O quarteto seguem pelas ruas de Jerusalém até a casa de Anás e encontram a porta aberta, como se os esperassem. Refestelado em sua cadeira de junco, Anás os recebeu com um largo sorriso.
- Entrem, entrem, meus jovens emissários. Digam-me como se portou Eleaser?
Zacharias, o maior responsável e envolvido na graduação de Eleaser responde efusivamente.
- Excelente! Não precisamos mais ter segredos ao mais novo e nobre Irmão dos Círculos Internos.
- Percebo. Eu vou ao Egito para falar com o faraó Akenat II e eu gostaria que tu, Zadoque e Eleaser venham comigo. Johannes tem que ficar para dar continuidade aos planos de Deus.
- Algo que envolve nossa aliança com o faraó?
- Sim, ele deve se unir a nós e nossos Irmãos Persas nessa grande empresa.
Isso é demais para Eleaser. Faraó? Persas? O que o Deus Vivo pode querer com essa nações que antes dominaram os Judeus? O sangue fala mais alto e ele comenta audivelmente suas dúvidas.
- Loucura! Insanidade! Será que o Sinédrio quer ressuscitar Moisés para nos levar de volta ao Egito?
- Nós nunca saímos totalmente do Egito, jovem Eleaser. Nem da Pérsia. Zacharias, traga os pergaminhos secretos.
Zacharias, pomposamente se ergue e pega cerimonialmente um pergaminho de um nicho bem escondido da estante de Anás. Anás entrega a Eleaser, aberto, como se o convidasse a lê-lo.
- O que está escrito neste pergaminho? Não conheço estes sinais.
- Aqui, meu jovem Inspetor, está o Zend Avesta. Este pergaminho é mais antigo que todos os pergaminhos escritos da Torah e foram os Persas que o escreveram. Nestas linhas, meu jovem, está a inspiração que os rabinos tiveram para começar a escrever a Torah. Todo o Sinédrio e a Ordem de Melquisedeck só puderam ser possíveis graças a estes pergaminhos.
- Eu não entendo. E Abraão? Moisés? Melquisedeck?
- Eles foram reais, sem dúvida, mas não como está escrito. Abraão sempre foi Acadiano, Moisés sempre foi Egípcio e Melquisedeck sempre foi Persa!
- Mas a Tábua das Leis...
- Tomamos emprestado do Zend Avesta! Os Persas nos mostraram o caminho! Se queremos ser uma nação poderosa, precisamos ter um povo que crê em um Deus Vivo! Pela união religiosa, ganhamos o sentido de sermos um povo escolhido por Deus e descobrimos o valor de ser uma nação. Nossa força e nossa resistência vem dessa identidade única e indelével que nos faz sermos Judeus!
- Estou mais confuso. O que havia antes da Torah?
- Antes, meu jovem, apenas a tradição oral. A tradição oral de nosso povo está cheia de superstição e lendas antigas, que recebemos dos outros povos.
- O senhor está firmando que, antes de sairmos da Pérsia, nós éramos...
- Não muito diferente dos Caldeus, Assírios, Babilônicos...e antes destes, Hititas, Acadianos, Sumérios...nós éramos bem parecidos com estes que hoje chamamos de gentios, com seus deuses do campo e seus cultos de rameiras.
- Qual foi o sentido, então, de eu ter perseguido tantas destas gentes? Se nada foi feito para acabar com os cultos abomináveis, porque me resgataram da miséria?
- Meu jovem, não é possível fazer uma revolução sem vítimas. Nós aprendemos com os Romanos. Aquelas que tu, eficientemente, perseguiste, prendeste e até mataste estavam assinaladas por Deus. Pequenos devotos, aprendizes. Sacerdotisas e Altas Sacerdotisas estavam muito bem protegidas por nós, para nossos objetivos.
- Para treinar os messias nestes cultos diabólicos? Faremos um pacto com Satan, por fim?
- Meu jovem e confuso Inspetor, Satan nunca foi adversário de Deus nem pretendeu dominar o mundo, nós usamos essa mensagem escatológica apenas para instigar as massas ao fanatismo cego. De nenhuma outra forma tu serias tão bem sucedido em teus linchamentos públicos.
- Então toda minha preocupação com minhas falhas e as máculas que carreguei com vergonha...
- Tudo é plano de Deus. Este foi um teste para que tu pudestes subir de grau. Venham, vamos mostrar a Eleaser o que ele acha que está combatendo, dentro da sala mais secreta do Sinédrio.
Zadoque olha para Zacharias com receio de abrir demais os segredos do Círculo Interno, mas Zacharias balança a cabeça em sinal de aprovação, além do que Anás não é de repetir o convite. O quarteto se levanta e segue rapidamente atrás de Anás, até o Palácio do Sinédrio, através de longos salões e corredores, até um ponto bem no centro de suas entranhas. Anás se aproxima de uma pedra lisa e retangular enquanto Zadoque olha maravilhado para um local cheio de instrumentos e Zacharias observa os símbolos pintados nas paredes. Eleaser olha a cena da porta de entrada, chegando depois dos demais e vê ali aquilo que ele havia testemunhado em Petra. Ele sabia como detectar e perseguir as feiticeiras, mas nunca havia conhecido os cultos delas, até aquele dia em Petra. Afinal, era tudo verdade, uma triste verdade. Por que Deus estava permitindo tal abominação em uma ordem tão sagrada? Como Deus pode permitir tais festins diabólicos em seus templos? Seria ele o escolhido para limpar a Casa de Deus desses atos impuros?
- Acho que tu viste e compreendeste o alcance majestoso de nossas obras. Tu podes continuar a ser um mero Inspetor ou, se seguir conosco, se tornar um príncipe do Sinédrio, quando restaurarmos o Reino de Judá. Virás conosco ao Egito?
- Eu coloquei o pé, que me afunde até o pescoço. Que Deus revele o que tem para mim nesta viagem.
- Excelente. Partimos amanhã.