domingo, 27 de maio de 2007

A cura da alma

Eleaser executava minuciosa e eficientemente suas tarefas no templo e, com a convivência, acabou se habituando e familiarizando com as rotinas e as pessoas do templo. Sem perceber, assimilou os nomes dos objetos, suas serventias, como mantê-los limpos e purificados, suas posições e colocações no altar. Diversas vezes lhe era confiado fazer as compras do templo e com a prática, sabia onde encontrar o melhor animal para os sacrifícios, as melhores ervas, velas e incensos. Habitou-se aos diversos nomes, atributos e usos dos Deuses e como distinguir as estátuas. Como ele nunca procurou fazer carreira no templo, nem perturbou a sacerdotisa com pedidos, tornou-se um confidente de seus colegas, aprendizes e visitantes. A sacerdotisa também acabou por conversar com ele, como se ele fosse um irmão mais velho, sobre assuntos comuns e íntimos.
- Querido irmão, eu sinto que guardas um segredo. Conte para mim, para que tu possas curar tua alma.
- Sacerdotisa Ceres, o que eu carrego comigo não posso falar, meu passado é terrível demais.
- Ora, vamos, Eleaser. Eu ouvi a soldados e criminosos, duvido que tenhas feito algo pior.
- Minha vida foi sofrida e dolorosa. Por necessidade de vingança ou reparação, eu me tornei um caçador de sacerdotisas como tu e um destruidor de templos como este.
- Eu ouvi alguns boatos sobre a Judéia e a perseguição feita pelos Inspetores, agindo ocultamente por ordens do Sinédrio.
- Não são meros boatos. Eu fui um Inspetor, até entrar em atrito com um dos Mestres. Eu tenho as minhas mãos cobertas com sangue de muitos inocentes.
- Meu caro, tu não precisas carregar a culpa. O que está feito, está feito, coisa alguma irá reparar estas vidas.
- Mas eu pequei contra Deus. Deus está me castigando pelos meus erros e continuarei a sofrer, até que me penitencie.
- Eleaser, eu sei que tu foste conduzido a acreditar em um Deus tirano, ciumento e vingativo, mas um Deus eterno se preocuparia com o que fazemos em nossa curta vida?
- Como explicas meu infortúnio? Nasci pobre, sem pais, fui acolhido por um grupo que me manteve enquanto lhes era útil.
- Percebe que isto é efeito de tuas ações? Nosso destino é guiado por forças, os efeitos daquilo que passamos é resultado de causas naturais ou humanas. Os Dravidianos chamam a isto de Karma, tu estás pagando neste instante por teus erros.
- As minhas ações que prejudicaram aos outros agora me afeta? Como isso ocorre?
- Nós humanos interagimos com a natureza, entre nós e os Deuses. Tudo está conectado. Assim, como a onda em um lago, a energia de suas ações vão retornar a ti.
- Onde os Deuses entram nisso? Por que os Deuses não interferem nem pune os humanos?
- Os Deuses são a Vida e a nossa Natureza, eles não nos impõe um modelo, um padrão. Eles esperam que aprendamos com os erros e que ensinemos aos nossos por exemplos. Interferir ou punir iria acabar com a liberdade e o aprendizado e os iria atingir.
- Mas se os Deuses não castigarem as pessoas, ninguém se arrependerá de seus erros e haverá muita maldade!
- E não foi por causa destas Leis de Deus que tu cometestes mais erros dos quais agora lamentas?
- Mas eu matei várias sacerdotisas e os filhos delas. Agora que eu estou aqui, que conheci tua gente melhor e me afeiçoei ao templo, eu me sinto como um traidor.
- Tu não tens culpa de teus atos, agiste pelo que acreditavas e pelo que fostes treinado. O que quer que tenhas feito, tu o pagaste com o bem que fazes aqui a teus colegas e visitantes do templo. Agora, tu é quem deves te perdoar.
- Ainda assim eu gostaria de fazer uma cerimônia ou uma oferta aos Deuses.
- Para tanto, eu gostaria que tu iniciaste um treinamento formal, para ser um serviçal do templo.
- Tu terás muito trabalho para curar minha alma.
- Com a benção dos Deuses e o teu empenho, verás que tudo é possível.
- Assim seja.

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