sexta-feira, 11 de maio de 2007

Diante do faraó

Eleaser conhecia bem a província da Galiléia, mas pouco havia saído para mais longe do que o subúrbio de Elom, onde ele se prestou a ir para caçar a sacerdotisa Sulamita. Ele considerava sua viagem até Antioquia uma saga digna de ser escrita e certamente inventaria como lenda sua viagem até Petra. Desta vez ele sai da Judéia, saía dos braços do Império Romano e, como Moisés, cruzou o Mar Vermelho, do porto de Haifa até o porto de Heliópolis, a cidade - estado do grande Império Egípcio. Apesar de ser a primeira viagem através do mar, não sentiu os enjôos dos demais passageiros principiantes, mas não deixou de a tudo olhar com o mesmo deslumbre das crianças.
Eleaser só ouvira falar do Egito como sendo o país da origem da idolatria e da feitiçaria, mas as linhas sóbrias e funcionais do porto de Heliópolis lhe mostra que os tempos dos falsos deuses tinha se tornado uma vaga lembrança dos velhos. O grupo seguiu por entre a multidão de viajantes e turistas, evitando os guias nativos, até encontrar em uma pequena sinagoga um irmão da Ordem de Melquisedeck para os guiar até o faraó. No caminho, Eleaser admirava as obras e o refino da arquitetura egípcia, uma ordem urbana que ele gostaria de ver na Galiléia.
A liteira egípcia os deixou em frente ao Palácio Real, onde Anás teve o cuidado e a diplomacia de identificar a todos do grupo aos guardas do primeiro portão como sendo emissário da Ordem de Melquisedeck e eram esperados pelo faraó. O guarda passou por um mensageiro os papéis do grupo até o Chefe da Guarda, este ao assistente de pátio, este ao adido do palácio, este ao secretário dos ministros até, por fim, chegar ao faraó que os foi receber no segundo portão.
- Sejam bem vindos. Poderemos conversar em segurança em minha biblioteca particular.
O grupo segue o faraó a uma distância respeitosa, enquanto acompanhavam embevecidos a apresentação que o faraó fazia de sua humilde morada. A biblioteca do faraó possuía uma única entrada, cujo portão somente o faraó tinha a chave. Os pergaminhos estavam ordenados em nichos numerados, escavados em uma grossa parede, impossibilitando que curiosos ouvissem a conversa.
- Agora vós podeis, sem medo algum, dizerem tudo quanto julgardes conveniente.
- Vossa Celestial Majestade, estes três senhores que trago comigo são testemunhas de que há uma sociedade secreta mantendo os cultos aos falsos deuses e agindo pelos meandros do governo da Judéia, Egito e Roma.
- Dizei então, senhores, vossas graças e vossos relatos.
- Eu sou Zadoque, Vossa Celestial Majestade e creio poder dizer, sem falsa modéstia, o primeiro da Ordem de Melquisedeck a detectar, denunciar e se infiltrar no meio destas hostes. Na Judéia, são sacerdotes de Baal e sacerdotisas de Ishtar.
- Eu sou Zacharias, Vossa Celestial Majestade e com os contatos de Zadoque, eu descobri a Ordem de Hórus, a sociedade secreta em ação em Vosso reino. Nós três testemunhamos em Petra os cultos abomináveis, onde uma pessoa próxima de Vossa Celestial Majestade estava presente. Nosso irmão Eleaser a viu frente a frente e poderá identificá-la.
- Eu sou Eleaser, Vossa Celestial Majestade e nunca esquecerei o que vi, ouvi e testemunhei naquela sinagoga proscrita em Petra. Mas não estou certo de poder Vos identificar a sacerdotisa que lá oficiou com mais de cem homens.
- Vossa Celestial Majestade, eu, como Mestre destes senhores, coletei e reuni todas as informações referentes à Ordem de Hórus nestes pergaminhos que confio a Vossas mãos.
- Nós temos impressão de que isto envolve Vossa Magnifica Majestade e o exílio da sacerdotisa filha dela. Nós também nos sentimos sensíveis ao assunto, mas se é inevitável, nós convocaremos a rainha para que se pronuncie.
O faraó se levanta, abre a porta e ordena ao primeiro servo do palácio que encontrou para ir direta e imediatamente, sem se deter, chamar a rainha, entregando ao mesmo um papiro com a ordem expressa, a fim de evitar o longo caminho burocrático. A rainha chegou vinte minutos depois e o faraó recompensou o servo com duas moedas de ouro.
Nefter olha para os convidados de seu esposo e reconheceu três deles da cerimônia que ela conduziu em Petra, para o Equinócio de Outono. Ela pressentiu que o rabino mais velho tinha más intenções e estava mentindo para seu esposo para enredá-lo em seus planos escusos. Ousada e provocante, senta-se ao lado de seu faraó em uma posição que a deixou bem de frente a Eleaser.
Eleaser evita olhar para a rainha, se encolhe, emudece. Não precisava olhar para ela e sua exuberante beleza de mulher grávida no sexto mês. Ele se sente constrangido, ele a havia conhecido carnalmente na cerimônia, estando ela no terceiro mês de gestação e agora a vê bem diante do faraó, seu esposo.
- Vossa Magnifica Majestade, estes senhores aqui presentes dizem ter indícios que nosso reino está ameaçado pela ação de uma sociedade secreta.
- Mesmo? Que pitoresco. Como simples homens conseguem ter uma percepção maior que meu divino esposo?
- Eles dizem representar uma organização que é especialista em investigar e descobrir. Segundo eles, a fuga de Vossa filha, sacerdotisa de Ishtar e inclusive a participação de alguém próximo a nós em um culto proibido foram obra desta sociedade secreta.
- Estes senhores são humoristas! Nossa amada filha teve seu salvo conduto pago com ouro. Quanto a cerimônias proibidas, eu não vejo como eles participariam, uma vez que são Judeus.
- Vossa Magnifica Majestade, nossa ordem sagrada, com a proteção e a benção do Deus Vivo, pôde infiltrar estes três jovens nesta sociedade secreta e eles testemunharam em Petra estes cultos proibidos.
- Então vós sois traidores de vossa fé ou vosso Deus os abandonou. Uma autêntica cerimônia dos Ritos Ancestrais vos atingiria a alma e vós se tornariam aqueles que são perseguidos.
- Nós estamos curiosos quanto a isso. Como vós podeis celebrar tais cerimônias e manter a pureza necessária para servir ao vosso Deus Vivo?
Nefter se alegra. Pela primeira vez Akenat fica ao lado dela. Certamente estes rabinos deviam estar tramando algo contra ela, tentando impressionar seu esposo com fantasmas da criação deles. Com um sorriso de satisfação, Nefter encerra com ironia.
- Nós estamos aqui por um motivo, que certamente envolve as fantasias dos senhores conosco e essa suposta cerimônia em Petra. Deixai vossas hipocrisias e digam, sem demora, o que nós temos com isso.
Anás se sente acuado e ameaçado. Seu projeto de conseguir a aliança a apoio do faraó pode lhe custar a cabeça. Dissimulada e covardemente, empurra para Eleaser o foco da atenção.
- Nosso irmão Eleaser foi quem mais esteve próximo da sacerdotisa e poderá indicar às Vossas Majestades quem ela é.
Eleaser não fala. Não pode. Não consegue. Sua cabeça está paralisada e seus pensamentos divididos. Ele não sabe se é um resto de escrúpulo, um efeito da cerimônia ou o poder da rainha. Nefter olha com indiferença a Eleaser, antes, mais um homem anônimo que consagrou seu ventre aos Deuses Antigos, como antes se fazia. Ela sente o dilema e a luta interna de Eleaser e com uma ponta de misericórdia, resolve acabar com a reunião.
- Não há nada o que falar, porque não há nada a dizer. Voltem para seus filhos.
- Nós agradecemos vossa visita, preocupação e denúncia. Nós cuidaremos do povo do Egito, como sempre temos cuidado.
- Eu espero que Vossa Celestial Majestade não se arrependa por recusar nossa ajuda, como Vosso honrável ancestral uma vez recusou de Moisés.
- Velho rabino, tu o sabes tanto quanto eu que isso nunca aconteceu. Vão, nós sabemos bem mais que vós com governar.
Anás se retira, furioso, sendo seguido pelo seu séquito. Ele daria um jeito para descobrir e envergonhar diante do faraó a sacerdotisa que esteve em Petra, custe o que custar.

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