quarta-feira, 16 de maio de 2007

Dias de Jó

Anás murmurava sozinho em sua cadeira, dentro do navio que os levava de volta a Haifa para então seguirem, na primeira caravana, em direção à Jerusalém. Seu séquito, sentado no chão, ficava em silêncio para evitar uma dura reprimenda. Dos três, Eleaser era o que estava mais acabrunhado e cabisbaixo, ainda tentando entender o que lhe havia acontecido na biblioteca do faraó. Ao perceber que estavam próximos de Haifa, Anás enfim solta a língua.
- Então, Zacharias, este é aquele que tu me fizeste confiar?
- Sim, Mestre. Evidentemente eu me enganei a respeito dele.
- Eu vi que ele não estava pronto. Ele teria que passar um ano comigo para que ficasse preparado para a iniciação.
- No entanto, Zadoque, foste tu que o incluiu para ir até Petra. O que eu faço com vós, agora?
- Eu espero que nossos anos de serviço falem mais alto. Eu me sinto igualmente enganado, mais que tu, Mestre, pois este homem eu conhecia.
- Então o que fazemos nós com Eleaser? Ele sabe demais e não nos serve mais para ser Inspetor.
- O senhor, como Mestre, pode cortá-lo de nossa Ordem, o tornando ordinário e sob o nosso julgamento.
- Eleaser, pelos poderes a mim conferidos pelo Deus Vivo, eu o considero anátema e o destituo de todos os teus privilégios como Inspetor.
Zacharias avança em direção a Eleaser e remove a tatuagem dele com uma navalha afiada, enquanto Zadoque o segurava. Em seguida o surraram, enquanto o acusavam de feitiçaria e idolatria. Depois de o deixarem bastante machucado, eles o jogaram ao mar. Somente ao ver o corpo boiando além do navio, ao sabor das correntes, é que Anás ficou com o rosto plácido e voltou a sorrir.
- Excelente. Ninguém deste navio irá denunciar o caso, será mais uma briga entre passageiros e ninguém dará falta deste imprestável. Eu estou satisfeito, mas vós ainda tereis de cumprir uma penitência por vossos erros.
- Estamos à tua ordem, Mestre.
Eleaser acorda duas horas depois de quase se afogar, cuspindo e tossindo, em algum lugar da costa, com suas feridas prejudicadas pela água do mar. Ele estava sujo, com as roupas rasgadas e o rosto deformado pelos edemas. Trôpego, começou a andar sem destino algum, seguindo o instinto de seguir em direção Leste. Com muita sorte chegou próximo de uma estrada, onde desfaleceu. Acordou uma hora depois, notando haver alguns siclos próximos dele. Uma caravana que passava, jogou também alguns siclos, no que ele aproveitou para lhes pedir carona.
- Piedosos viajantes, qual a cidade mais próxima?
- Tamar.
- Poderiam me levar até lá?
- Infelizmente vamos a Siquém. Tamar fica na outra direção.
Eleaser agradece. Com grande esforço, vai para o outro lado da estrada para esperar por uma caravana. Enquanto esperava, tentava lembrar de onde havia ouvido falar destas cidades, mas estava difícil até para ficar consciente. Uma hora depois, uma caravana se aproximou e a estes ele apelou.
- Piedosos viajantes, poderiam me levar a Tamar?
- Tu és leproso?
- Não, eu estou machucado após um naufrágio e a água do mar deixou minhas feridas abertas.
- Vinde, então, desafortunado estranho.
- Grato. A cidade de Tamar fica em qual região?
- Filistéia.
Filistéia! A região que tem fama de ser o maior centro de bruxas e demônios de todo o Oriente Médio! Eleaser pensa se teria conseguido sobreviver para perder de vez a alma. Ele sente tão desgraçado que não ousa orar para o Deus Vivo. Apenas lembra do exemplo de Jó e entrega-se ao destino.
- Nós te deixaremos aqui, onde tu podes ser curado pela profetisa de Asherat.
Eleaser entra na casa da profetisa, lotada de gente com problemas, esperando ser atendido por alguma velha louca, que iria fumegá-lo e balbuciar palavras sem nexo.
Ao chegar sua vez, ele se surpreendeu ao ver uma jovem mulher, muito parecida com a sacerdotisa Sulamita. Ela simplesmente limpou as feridas com água e as cobriu com um emplastro de ervas que surtiu efeito imediato.
Em uma semana ele estava curado, mas pobre e abandonado. Ali ele não encontraria um Judeu e não poderia procurar por uma sinagoga, pois naquele momento seu nome constava entre os banidos e malditos. Por ironia, a profetisa o ajeitou em um dos muitos templos iguais aos que ele cansou de perseguir e fechar.
- Seu serviço é simples. Mantenha limpo o templo, junto com os outros servos.

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