quarta-feira, 16 de maio de 2007

O coração do faraó

Akenat olha pela ameia de seu Palácio Real o curioso grupo de rabinos, enquanto Nefter olha o pergaminho deixado por eles. Evidentemente, o documento exagera no tamanho e na suposta influência da Ordem de Hórus. Ela recorda de seus dias de juventude, quando era bastante comum a presença de tais grupos nos templos antigos, em busca de iluminação e conhecimento. Eventualmente assimilavam os símbolos e os rituais, mas não cresciam, davam mais importância ao cerimonial do que ao que estava sendo celebrado. Ela olha para seu esposo e percebe a angústia, tristeza e melancolia na face dele.
- Meu querido, tu não estás levando em consideração a fantasia destes rabinos, estás?
- Minha querida, muitas coisas aconteceram depois que recebi a coroa de faraó de meu avô. Eu te contei como encontrei Athon e meus motivos para reformar o Egito. Então surgiu o seu passado e o problema com Ketar, tua filha sacerdotisa de Ishtar.
- Eu nunca escondi o que éramos. Os arranjos de nossa união, devido o falecimento de Natan, foi longo e complicado. Isso incluiu o exílio de minha filha mediante uma oferenda em ouro a Athon.
- Eu lembro. Eu tinha dezessete anos, não conhecia nem amava Natan, mas a tradição nos uniu no berço. Não é bom que o faraó fique sem rainha. Tua posição e poder como sacerdotisa de Ísis me favorecia. Para reformar o Egito eu aceitei as condições de sua família e de meus ministros, que certamente engendraram a oferenda expiatória em ouro achando que iam lucrar algo com isso. Eu vejo agora que eu fui manipulado, mas o envolvimento de meus ministros com uma sociedade secreta a deixaria muito evidente.
- Quer mesmo investigar a fundo se existe essa sociedade e o envolvimento desta com pessoas do governo?
- Não me interessa o que estes fazem em seus momentos particulares. Eu tracei meus planos, que me ocupam totalmente, mas eu não sou ingênuo. Que pensem estar no comando, no momento certo, eu tomarei as rédeas. Apenas tu me interessas.
- O que queres insinuar?
- Eu sei que tu viajaste e ficaste ausente por duas semanas, exatamente quando ocorreu a cerimônia. Tu não perderias uma oportunidade de voltar a ser uma sacerdotisa. Eu sei como eram tuas cerimônias e, em ambos os casos, estarias condenada.
- Se tu me conheces e conheces minha crença, deveríeis ser mais permissivo e ter tolerância com os meus.
- Eu havia te conhecido pelos títulos, mas quando a vi, eu senti aquilo que aqueles rabinos sentiram na cerimônia. Eu tive medo e desejo. Ainda que seja rude comigo, quanto mais tenta me afastar, mais fico atraído por ti. Por mais difícil que seja, eu aprendi a te amar.
- Eu também, seu tonto! Poderíamos ser um casal feliz, fazermos juntos um bom governo e dar ao Egito uma nova era dourada.
- Eu até poderia conceder uma maior flexibilidade, mas eu tenho um compromisso com Athon. Seria mais fácil se tua crença não fosse tão cheia de segredos.
- Ora, se me pedisse, se me fosse permitido, eu deixaria aberta e clara a qualquer um. Eu te proponho um teste. Chame os sacerdotes de Athon, os melhores, para invocá-lo em culto, enquanto eu invocaria Hórus. Aquele que for bem sucedido terá um templo construído às custas do perdedor.
- Tua confiança é admirável. Mas até hoje eu não vi um único sacerdote de Athon competente e aceitar essa competição iria contra meus éditos.
- Não acha estranho Athon não se manifestar? Tu não sentiste a presença de meus Deuses quando os invoquei?
- Sim e seria bom para nós como casal e reis que tu fostes sacerdotisa de Athon.
- Eu concordo. Peço apenas que haja um tempo para Ísis. Não percebe que, assim como nós, um Deus solitário torna-se frio, cruel e insensível?
- Eu não vejo porque não. Eu abro meu coração a ti, Athon deve abrir o coração a Nuit.
O faraó e a rainha se abraçam e se amam como todo homem e mulher. Ali, ambos viram satisfeitos a Athon se manifestar, abraçado a Nuit, com um sorriso de agradecimento.

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