quinta-feira, 3 de maio de 2007

O segredo do Sinédrio

Eleaser segue cambaleante seus companheiros pelas ruas de Jerusalém vendo que seu projeto de encontrar a cabeça da Serpente e cortá-la estava cada vez mais difícil. Até onde o Deus Vivo o acompanharia neste meio pérfido? Ele havia sentido o abandono e a solidão em Petra, mas não ousa murmurar contra o Senhor. Ele mal nota que seus colegas estavam parados conversando com um servo menor da Ordem de Melquisedeck.
- Venha, meu velho amigo Eleaser. Eu creio que tu estás preparado para o passo seguinte.
- Mais? Por Deus, o que mais terei que agüentar?
- O Mestre Anás deseja ver-nos. Eu sinto que ele te dirá todo o resto que precisas saber.
O quarteto seguem pelas ruas de Jerusalém até a casa de Anás e encontram a porta aberta, como se os esperassem. Refestelado em sua cadeira de junco, Anás os recebeu com um largo sorriso.
- Entrem, entrem, meus jovens emissários. Digam-me como se portou Eleaser?
Zacharias, o maior responsável e envolvido na graduação de Eleaser responde efusivamente.
- Excelente! Não precisamos mais ter segredos ao mais novo e nobre Irmão dos Círculos Internos.
- Percebo. Eu vou ao Egito para falar com o faraó Akenat II e eu gostaria que tu, Zadoque e Eleaser venham comigo. Johannes tem que ficar para dar continuidade aos planos de Deus.
- Algo que envolve nossa aliança com o faraó?
- Sim, ele deve se unir a nós e nossos Irmãos Persas nessa grande empresa.
Isso é demais para Eleaser. Faraó? Persas? O que o Deus Vivo pode querer com essa nações que antes dominaram os Judeus? O sangue fala mais alto e ele comenta audivelmente suas dúvidas.
- Loucura! Insanidade! Será que o Sinédrio quer ressuscitar Moisés para nos levar de volta ao Egito?
- Nós nunca saímos totalmente do Egito, jovem Eleaser. Nem da Pérsia. Zacharias, traga os pergaminhos secretos.
Zacharias, pomposamente se ergue e pega cerimonialmente um pergaminho de um nicho bem escondido da estante de Anás. Anás entrega a Eleaser, aberto, como se o convidasse a lê-lo.
- O que está escrito neste pergaminho? Não conheço estes sinais.
- Aqui, meu jovem Inspetor, está o Zend Avesta. Este pergaminho é mais antigo que todos os pergaminhos escritos da Torah e foram os Persas que o escreveram. Nestas linhas, meu jovem, está a inspiração que os rabinos tiveram para começar a escrever a Torah. Todo o Sinédrio e a Ordem de Melquisedeck só puderam ser possíveis graças a estes pergaminhos.
- Eu não entendo. E Abraão? Moisés? Melquisedeck?
- Eles foram reais, sem dúvida, mas não como está escrito. Abraão sempre foi Acadiano, Moisés sempre foi Egípcio e Melquisedeck sempre foi Persa!
- Mas a Tábua das Leis...
- Tomamos emprestado do Zend Avesta! Os Persas nos mostraram o caminho! Se queremos ser uma nação poderosa, precisamos ter um povo que crê em um Deus Vivo! Pela união religiosa, ganhamos o sentido de sermos um povo escolhido por Deus e descobrimos o valor de ser uma nação. Nossa força e nossa resistência vem dessa identidade única e indelével que nos faz sermos Judeus!
- Estou mais confuso. O que havia antes da Torah?
- Antes, meu jovem, apenas a tradição oral. A tradição oral de nosso povo está cheia de superstição e lendas antigas, que recebemos dos outros povos.
- O senhor está firmando que, antes de sairmos da Pérsia, nós éramos...
- Não muito diferente dos Caldeus, Assírios, Babilônicos...e antes destes, Hititas, Acadianos, Sumérios...nós éramos bem parecidos com estes que hoje chamamos de gentios, com seus deuses do campo e seus cultos de rameiras.
- Qual foi o sentido, então, de eu ter perseguido tantas destas gentes? Se nada foi feito para acabar com os cultos abomináveis, porque me resgataram da miséria?
- Meu jovem, não é possível fazer uma revolução sem vítimas. Nós aprendemos com os Romanos. Aquelas que tu, eficientemente, perseguiste, prendeste e até mataste estavam assinaladas por Deus. Pequenos devotos, aprendizes. Sacerdotisas e Altas Sacerdotisas estavam muito bem protegidas por nós, para nossos objetivos.
- Para treinar os messias nestes cultos diabólicos? Faremos um pacto com Satan, por fim?
- Meu jovem e confuso Inspetor, Satan nunca foi adversário de Deus nem pretendeu dominar o mundo, nós usamos essa mensagem escatológica apenas para instigar as massas ao fanatismo cego. De nenhuma outra forma tu serias tão bem sucedido em teus linchamentos públicos.
- Então toda minha preocupação com minhas falhas e as máculas que carreguei com vergonha...
- Tudo é plano de Deus. Este foi um teste para que tu pudestes subir de grau. Venham, vamos mostrar a Eleaser o que ele acha que está combatendo, dentro da sala mais secreta do Sinédrio.
Zadoque olha para Zacharias com receio de abrir demais os segredos do Círculo Interno, mas Zacharias balança a cabeça em sinal de aprovação, além do que Anás não é de repetir o convite. O quarteto se levanta e segue rapidamente atrás de Anás, até o Palácio do Sinédrio, através de longos salões e corredores, até um ponto bem no centro de suas entranhas. Anás se aproxima de uma pedra lisa e retangular enquanto Zadoque olha maravilhado para um local cheio de instrumentos e Zacharias observa os símbolos pintados nas paredes. Eleaser olha a cena da porta de entrada, chegando depois dos demais e vê ali aquilo que ele havia testemunhado em Petra. Ele sabia como detectar e perseguir as feiticeiras, mas nunca havia conhecido os cultos delas, até aquele dia em Petra. Afinal, era tudo verdade, uma triste verdade. Por que Deus estava permitindo tal abominação em uma ordem tão sagrada? Como Deus pode permitir tais festins diabólicos em seus templos? Seria ele o escolhido para limpar a Casa de Deus desses atos impuros?
- Acho que tu viste e compreendeste o alcance majestoso de nossas obras. Tu podes continuar a ser um mero Inspetor ou, se seguir conosco, se tornar um príncipe do Sinédrio, quando restaurarmos o Reino de Judá. Virás conosco ao Egito?
- Eu coloquei o pé, que me afunde até o pescoço. Que Deus revele o que tem para mim nesta viagem.
- Excelente. Partimos amanhã.

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