sábado, 19 de maio de 2007

Rebelião

O faraó Akenat faz então um édito que percorreu todas as regiões e províncias do Egito em uma velocidade espantosa, sendo seguido por festas e comemorações daqueles que outrora tinham que se esconder ou eram forçados a freqüentar o culto oficial. O édito, simples e objetivo, deu nova esperança aos perseguidos.

Ano 10 do Excelso Reinado de Vossa Celestial Majestade Akenat II

Vossa Celestial Majestade torna público a todos os seus súditos que Athon, mil vezes louvado seja, ouviu as lamúrias e clamores de seus filhos.
Por intermédio do Vosso Humilde Sumo Sacerdote e Vossa Celestial Majestade Akenat II, manifestou o Excelso Desejo do Altíssimo de que seja permitido, a partir desta data, igual louvor e adoração a Nuit, a Deusa Consorte, a quem poderá ser dedicada as cerimônias e rituais apropriados.
Vossa Celestial Majestade manda cessar, interromper e revogar quaisquer ações e leis anteriormente vigentes que proibiram, baniram e cessaram as atividades dos templos antigos.
Vossa Celestial Majestade ordena, com isso, que haja uma conciliação entre aqueles que professam os Ritos Ancestrais e aqueles que seguem os Ritos de Athon.
Fica instituído o foro em primeira instância às Secretarias de Províncias, em segunda instância aos Ministérios de Regiões e em última instância ao Palácio Real.
Questões pendentes serão regidas pelo presente édito.
Vossa Celestial Majestade ordena que seja transmitido o presente edital por todo o Egito.

Houve um enorme fluxo de populares aos templos de Athon, que ficaram lotados. As pessoas que não conseguiam entrar neles, ficavam alegremente cantando, dançando e louvando a Athon e Nuit no entorno dos templos e ruas próximas. Milhares de flores, lamparinas com óleos aromáticos e estátuas voltavam a decorar os templos, as ruas e as casas.
Em Heliópolis, os guardas reais trabalhavam febrilmente para organizar e conter a manifestação popular, que cercou o Palácio Real com músicas em dedicação ao faraó e à rainha. Milhares de presentes e oferendas são recebidos nos portões.
Akenat, da mesma ameia que antes havia observado a partida dos rabinos em meio a um povo indiferente, agora colhia a satisfação que todo governante anseia em seu mandato. Ele sentia, pela primeira vez, o aplauso de seu povo, que justificou sua coroa.
- Que loucura é esta, Akenat?
Akenat se vira para ver quem ousava se dirigir a ele com tanta intimidade. Ele deparou com um grupo de Altos Sacerdotes de Athon, nomeados por ele, evidentemente os únicos insatisfeitos com a mudança.
- Como ousam me questionar? Eu sou o faraó e o Sumo Sacerdote de Athon.
- Engana-se Akenat. Nós somos a razão e o sustento de teu poder. Nós te demos a coroa, nós podemos acabar com ela.
Os Altos Sacerdotes mostram suas espadas e as apontam para Akenat.
- Ousam ameaçar a vida do Ungido por Athon? Isso é o mesmo que ameaçar Athon!
- Ora, vamos, Akenat! Tu sabes tanto quanto nós que Athon é apenas uma figura útil para nosso poder e riqueza!
- Quanta blasfêmia! A mão de Athon está sobre vós!
- Athon nunca existiu e tu se juntará a ele!
Os Altos Sacerdotes, armados de espadas, se lançam em um ataque contra o faraó, totalmente desarmado e desprotegido. Akenat não tem tempo para reagir ou chamar a guarda, apenas pensa em Nefter.
Mas os Altos Sacerdotes não conseguem ferir o faraó. Uma força invisível os repeliu para trás, os esmagando na parede. O faraó corre em busca de sua rainha e a encontra descansando sossegadamente no quarto dela, cercada dos corpos esquartejados dos demais Altos Sacerdotes de Athon. Acariciando os cabelos de sua rainha, Akenat pondera sobre a vida dos muitos homens que vivem sem perceber a presença de Deus, enquanto tão poucos percebem um sinal mais que suficiente na existência da vida.

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