sexta-feira, 22 de junho de 2007

Beijando os pés

Após uma longa viagem, Andros e Scire chegam a Londinum, depois de atravessarem o Mar da Gália, sendo recebidos com festa por druidas, bruxos e bruxas. Os druidas usavam suas túnicas com capuzes, com tecidos coloridos que indicavam a província de onde vinham. Os bruxos e bruxas usavam túnicas gregas, romanas e etruscas, feitos com tecido grosso ou fino, de acordo com a temperatura de seu local de origem.
- Nós estivemos tão longe, mas eles nos esperavam na chegada!
- E tu te espantas, jovem mestre? Cada vez que participávamos em círculos tradicionais, os bruxos e bruxas de cá sentiam a nossa aproximação.
- Então todos os que estão aqui são verdadeiros iniciados?
- Podes ter certeza que sim. Nós receberemos muitos convites, mas antes visitaremos meu círculo, para que conheça os de minha Família.
Entretanto, Andros fez questão de cumprimentar cada sacerdote e sacerdotisa dos Deuses Antigos, recebeu os presentes e os convites, bebeu, comeu, dormiu e amou. Só na semana seguinte é que ele procurou a Scire, que então o guiou pelas trilhas, entre as florestas e bosques sagrados e mágicos da Bretanha, até chegar em um vilarejo.
- Este é o Shire de Anglia. Existem muitos Shires, que é o nome local para vilarejo. Toda essa cidade foi construída e feita pelos e para os bruxos e bruxas. Como uma boa escola de mistérios, nós temos orgulho em manter a tradição.
Andros não estranhou a presença de dois pilares na entrada do vilarejo, representados por duas árvores enfeitadas com fitas de várias cores e diversas oferendas em volta. Assim que entrou, Andros sentiu uma paz e serenidade intensas e indiscritíveis. As casas do vilarejo estavam divididas entre quatro blocos principais, feitas com madeiras de árvore resinosa e ricamente entalhadas. O vilarejo tinha uma horta comunitária, onde todos podiam se servir das ervas para seus trabalhos e, na falta de algum material ou outra necessidade, havia uma vasta e rica floresta em volta do vilarejo. Bem no centro do vilarejo, um largo círculo de 9 metros de raio tinha as marcas indicando os quadrantes, um grande altar de pedra, incensários, velas e um aterro para fogueiras.
- Este círculo nós usamos para receber bruxos e bruxas de outros lugares e fazemos celebrações públicas nele. O verdadeiro círculo onde tu serás levado fica mais ao norte. Passaremos primeiro em minha casa para nos banhar e então te levarei lá.
Após um banho e colocar uma túnica branca, Andros e Scire vão até a parte mais ao norte do vilarejo, seguindo uma trilha apertada na densa floresta, até chegarem próximo do círculo entre os carvalhos. Havia uma área comum, onde bruxos e bruxas chegavam para tirar suas vestes, para então entrarem no círculo. Sem hesitar, os dois tiram as túnicas, mas Scire caminha com Andros até um ponto mais a noroeste do círculo, pedindo para que ele espere. Scire entrou no círculo depois de trocar alguns sinais e foi falar diretamente com a Alta Sacerdotisa, contando a ela a situação peculiar de Andros.
A cerimônia iniciou como de costume e, apesar da distancia, Andros reconhecia os mesmos ritos que ele conhecera em Ephesus, Etrúria e Esmirna. Andros percebeu que Scire conversou longamente com a Alta Sacerdotisa, para então se aproximar dele, para poder prepará-lo para entrar no círculo.
- Jovem mestre, eu terei que vendá-lo e amarrá-lo, para conduzi-lo até a Alta Sacerdotisa e, diante do altar, tu receberás e serás reconhecido com bruxo. Apenas formalidades.
Mas antes que algo fosse feito, uma algazarra se aproximou do círculo. Carregada em procissão, em cima de uma vistosa cadeira, uma menina que parecia ser conhecida de uma das sacerdotisas, visivelmente ansiosa para que a Alta Sacerdotisa permitisse a entrada dela. Assim que a menina entrou, ambas correram uma em direção a outra, enquanto Scire foi ver do que se tratava. Ao contar a Andros, tudo que ele fez foi sorrir.
- Sabe a menina que salvaste, próximo de Lutécia? É a filha daquela sacerdotisa e afilhada da Alta Sacerdotisa. Ela havia ido até Lutécia para aprender, mas nós vimos que ela era uma prisioneira.
A Alta Sacerdotisa dispensou as formalidades, chamou Andros e o reconheceu como bruxo e da Família, cingindo sua fronte com uma coroa feita de ramos de carvalho. Em mútuo agradecimento, Andros beijou os pés da Alta Sacerdotisa, da sacerdotisa e da menina que ele salvou.

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