quarta-feira, 20 de junho de 2007

Deuses e egrégoras

Andros e Scire estavam nas cercanias de Lutécia quando a atenção deles foi despertada por um cântico estranho, selvagem e frenético. Seguindo o som, encontraram um grupo de jovens e crianças em uma clareira, visivelmente imitando ou brincando de fazer rituais. Todos se vestiam de preto, balbuciavam palavras sem nexo, rolavam pelo chão, perfuravam-se com espinhos ou se cortavam com uma faca, na tentativa de evocar sabe-se lá que tipo de entidade.
Apenas um, evidentemente o líder, acompanhava a tudo, estático em seu trono, oculto em uma capa com capuz, ambos em cor vermelho escuro. Estava evidente que aquilo se tratava de mais uma de muitas seitas organizadas e planejadas apenas para a satisfação do líder.
Ao ver esse pomposo líder se dirigir ao centro do círculo e erguer uma adaga afiada sobre o corpo de uma menina, que estava atada e nua dentro de um altar com inscrições mágicas inventadas, Andros se lançou sobre aquele patético sacerdote, antes que o brinquedo se tornasse um crime e um desperdício. O líder fica surpreso e seu séquito assustado com a interferência. O líder, com arrogância e prepotência, se dispõe a enfrentar Andros.
- Quem é tu, que ousa interromper nossa sagrada cerimônia?
- Eu sou Andros, de Ephesus, que vem trilhando pelos Bosques Sagrados por muitos anos, a serviço dos Deuses Antigos. E tu, pobre criança, quem pensa que é?
- Eu não penso, Eu Sou! A encarnação de Latan! O Rei desse Mundo e Senhor dos Magos!
- Então é um senhor pequeno, pois eu não conheço tal Rei do Mundo, nem este Deus que julgas ser a encarnação. Tu podes impressionar seus amigos, mas tu és na verdade um vigarista.
- Como ousa? Latan é o Vingador dos Anjos Caídos e irá derrubar Ormuz e Yahveh!
- Se Latan contracena nessa Batalha de Deuses, então tu deverias estar nessas regiões, não aqui. Vá para sua luta, mas liberte essas crianças.
- Eu concedi a meus seguidores o privilégio de entregarem suas vidas carnais a mim, para que renasçam como Guerreiros das Sombras.
- Um sacrifício não pode ser realizado sem que a pessoa esteja consciente e preparada. Está bem claro que esta menina não sabe o que está acontecendo e o que a espera. Nenhum Deus aceitaria tal sacrifício, o que tu estás fazendo é um crime para satisfazer teu apetite.
- Aquele que ousa contestar a encarnação de Latan deve morrer! Sentirás a força de meu poder!
O jovem começou a se contorcer, fazer caretas, gritar palavras sem nexo diante de Andros, enquanto seus seguidores se encolhiam, se espremiam, como se fossem ver as portas do Inferno se abrindo e aparecendo o Deus do Submundo. Scire tenta segurar o riso, pois ele havia visto diversas vezes esse tipo de pantomima.
O grupo começou a se inquietar e desconfiar, ao ver que nada acontecia após vinte minutos de intenso esforço do vigarista, que tratou de correr o mais rápido que podia. Ao verem que estavam sendo enganados e quase dando a vida por um sujeito desqualificado, as crianças e os jovens voltaram para suas casas.
Andros e Scire seguiram seu caminho para Lutécia, quando Scire resolve testar Andros.
- Por que tu achas que aquele jovem fugiu?
- Evidentemente porque ele apenas fingia ser um sacerdote e inventou essa fantasia de ser a encarnação de um Deus.
- Mas os seguidores acreditavam nele. Por que não houve uma manifestação?
- Porque o Deus Latan não existe.
- Por um curto tempo existiu, mas não como Deus, mas sim como egrégora. Por que a egrégora não tinha força então?
- Acho que é porque não tinha um mito estabelecido, uma base nesse mundo.
- Exatamente. A egrégora pode ser desenvolvida por um grupo, mas precisa ter uma base nesse mundo e um mito consistente para atrair os Deuses. Nós fomos capazes de enfrentar o vigarista não por ele ser um falso sacerdote, mas porque nossa egrégora tem uma tradição bem estabelecida e se conecta com os Deuses Antigos.

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