quinta-feira, 14 de junho de 2007

Do ramo ao botão

Andros e Scire se aproximavam de Aquiléia, quando cruzaram com algumas mulheres discutindo por causa de ervas. De longe, elas pareciam saber bem qual erva elas estavam procurando, mas estavam brigando porque tinham opiniões diferentes quanto à influência das estrelas nestas ervas. A dupla apeou respeitosamente e sentou a uma distância segura. A mais velha, certamente a líder, estava furioso com as mais jovens por causa da posição de Mercúrio no céu.
_ vós sois teimosas! Teremos que esperar três dias para colher verbena! Agora só podemos colher papoula!
- Como pode alguém que diz conhecer ervas a tanto tempo dizer que um botão de papoula substitui uma raiz de verbena?
- E todo mundo sabe que a verbena é regulada por Saturno, não por Mercúrio!
Scire coça suas barbas, imaginando uma forma de entrar no debate, sem magoar as praticantes de wortcunning. Ele então pergunta a Andros em um tom que as mulheres pudessem ouvir a provocação. - O que me diz, jovem mestre, da influência das estrelas na composição das ervas?
- Quando os antigos sábios estabeleceram essas correlações, a fizeram conforme a simbologia, não de acordo com a astrologia.
- O que dizes, estranho? Todo mundo sabe que os astros influenciam todas as coisas.
- Não são os astros, mas os princípios ativos que estão presentes no universo e na terra. Assim como cada planeta é formado por diferentes partes desses princípios básicos, assim são as ervas e, por semelhança, se diz que tal erva é regulada por tal astro.
- Isso é absurdo! Uma erva só é bem aproveitada se for colhida na época certa!
- E como tu poderá calcular isso se não sabe quando a semente caiu na terra ou quando surgiram as primeiras folhas?
- Eu sei falando com a planta.
- Então não seria mais prático perguntar à planta se é o momento mais adequado para colhê-la?
- Nenhum ser abre mão de sua vida de bom grado.
- Por que estamos discutindo com esse homem? Nós somos as sacerdotisas da Deusa, o que homens podem saber da religião da Deusa?
- Tens razão! Ele e o velho devem ser daqueles esquisitos da cidade, que lêem sobre ervas em algum lugar e acham que sabem mais do que nós, que mexemos com ervas desde nossas avós.
- Veja só, jovem mestre! Encontramos bruxas seguidoras da religião da Deusa!
- Curioso, pois somos nós, humanos, que têm religião. Da mesma forma que o Deus dos Persas e dos Judeus, essa Deusa deve sofrer de muita solidão, o que deve torná-la uma tirana, como suas contrapartes masculinas.
- Todas as coisas nascem da Deusa!
- Sim e para isso necessita da virilidade do Deus.
- A Deusa pode gerar da mesma forma que algumas flores produzem frutos pela auto-polinização.
- Mas existem muito mais formas de flores e plantas que produzem frutos por polinização cruzada. Existem muito mais animais superiores que se reproduzem por gêneros diferenciados. Se fosse apenas uma Deusa, todas as espécies se autoreproduziriam, sem existência ou distinção de gêneros. Portanto, se criaturas superiores são sexualmente distintas e necessitam de um parceiro para se reproduzir, o mais evidente é que haja uma Deusa e um Deus, como Senhora e Senhor deste mundo.
- Vós sois homens, nada sabem dos mistérios da Deusa! Ela permitiu, pelo seu infinito amor, que as criaturas se desenvolvessem por conta própria.
- Esquece que a Vida é a mesma, não há nada na Vida que não seja reflexo dos Deuses Antigos? Assim como no mundo, é no Alto. Negar parte da manifestação da Vida é enxergar pela metade a Realidade Divina e ignorar a verdade dos Deuses Antigos.
- Verdade? O que é a verdade? Eu sei a verdade, não vós. Sigam vosso caminho, porque em nossa senda vós não sois bem vindos.
Andros e Scire seguem para Aquiléia, preparando-se para encontrar mais grupos pitorescos, exóticos e fechados em si mesmos. A verdade pode ser explicada e demonstrada, mas infelizmente muitos se recusarão a aceitar os fatos, preferindo viver em seus mundos fantasiosos.

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