terça-feira, 26 de junho de 2007

O canto da sereia

Eleaser segue até Siloe para encontrar os materiais necessários para sua iniciação. O trabalho que ele havia realizado como simples faxineiro do templo em Tamar facilitou muito o treinamento formal. Em poucas semanas a Alta Sacerdotisa confirmou com satisfação a cerimônia de iniciação dele para o próximo sabath.
No mercado ele busca pelos materiais, sabendo que teria de trabalhar com eles, para prepara-los para a cerimônia de iniciação. Apesar do costume que tinha em fazer compras para o templo, cada incenso, erva e vela comprados no mercado recebem um significado maior do que o costume.
A praça do mercado estava cheia, como o usual, cheio de bancas, produtos e pessoas. Cores musicas e cheiros se misturavam aos dialetos de pessoas e profetas de vários povos. Eleaser estranhou a concentração de uma grande platéia em volta de um homem, ouvindo e reagindo de forma efusiva ao discurso dele. Curioso, Eleaser se aproxima e vê que é um rabino pregando trechos da Torah, em assírio fluente. A mensagem era vibrante e contagiante, Eleaser ficou para ouvir.
- Vós me ouvis porque eu sou o Filho do Homem, aquele que veio para Judeus e gentios, para os levar até o Senhor Deus. Aquele que crer em mim e guardar minhas palavras terá a Vida Eterna.
A platéia aplaude, vibra, acompanha extasiada o profeta curando enfermidades e exorcizando demônios. Eleaser sente um velho calor no peito, aquele conforto e compensação, que a confiança em livros sagrados traz. Toda a raiva e revolta é direcionada a um inimigo certo, uma solução e uma vitória são garantidas contra todos os males da vida.
Eleaser conhece bem essa sensação e lembra quando foi adotado pela Ordem de Melquisedeck. Ele estava em uma situação igual ou pior que algumas pessoas daquela platéia. Será que a Ordem de Melquisedeck o havia adotado, tirado das ruas, como parte de um plano, estratégia?
Um enorme conflito se apossa de Eleaser. O passado ainda dói, muitas mágoas continuam sendo carregadas. Todo o tempo que ele foi treinado, doutrinado, os anos de dedicação, terminando com uma traição. O apelo da leitura da Torah e seus anos como Inspetor surgem como sombras acusadoras, agora que ele trabalha para o culto das rameiras. A vergonha de se sentir excluído, o peso da culpa dos crimes, os fantasmas daqueles que ele matou. A sensação de mácula, impureza, pecado. A experiência em Petra. A sensação de abandono de Deus. A sensação de solidão, de miséria, de doença.
Nesse torvelinho psicológico, uma pessoa pode sucumbir e se tornar um fanático, um fundamentalista, disposto a matar. Felizmente, Eleaser conhece esse canto de sereia. Ele recorda a acolhida que teve no templo, recorda de cada conversa com a sacerdotisa, dos seus amigos, das realizações que ele fez. Em três meses como simples faxineiro ele tinha mais realizações do que teve em seus muitos anos de Inspetor. Ele viu a existência de outros Deuses, sentiu a força dos rituais e de como a Eternidade é mais extensa do que os cabrestos impostos pelos livros sagrados. Lentamente, Eleaser recobrou o controle e a paz. Não sentia mais raiva ou rancor, não queria mais vingança ou reparação.
A ameaça da ordem de Melquisedeck se torna igual a de um arroubo de um jovem inseguro. Eleaser olha para a platéia e sente piedade destas almas, mas cada pessoa tem que encontrar o caminho por conta própria.
Então ele repara no rabino que profetiza para tão sortida audiência. De longe parece o jovem messias Yheshua, mas está muito confiante e a voz é mais madura. Ele havia ouvido antes uma mensagem parecida com esta, sendo dita por Johannes, na Galiléia. Seria este mais um dos messias preparados e treinados pela Ordem de Melquisedeck?

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