sexta-feira, 15 de junho de 2007

Ritos de amor e prazer

Andros e Scire estavam a meio caminho de Ligúria, quando se depararam com outro grupo, desta vez composto apenas de homens, visivelmente liderados por um mais velho que usava uma tiara feita com penas de pavão e roupas de características femininas.
Andros se deteve em um local discreto e afastado do grupo, curioso para saber como eram as práticas destes homens. Sem querer assustar Andros, Scire achou melhor avisá-lo do que se tratava.
- Assim como encontramos aquele grupo de bruxas, exclusivamente feito de mulheres e avessas a homens, este é um grupo de bruxos exclusivamente feito de homens avessos a mulheres.
- As bruxas adoravam a uma Deusa, mas não me falaram qual. Eu imagino que estes também adoram a um Deus.
- As bruxas adoravam Diana e estes bruxos adoram Dian Glass.
- Eu nunca ouvi falar nesse Deus.
- Nem irá ouvir. Existe um grupo que diz seguir a tradição das fadas, masculinizaram Diana, a tornando um Deus andrógino. Muitos bruxos e bruxas, ao invés de tentar entender os Mistérios Antigos e seguir os Ritos Ancestrais, preferem inventar uma religião para justificar e sacralizar a orientação sexual deles.
- Como assim?
- Aquelas bruxas e estes bruxos são homossexuais e sectários, não admitem membros de algum gênero e são refratários às tradições.
- Estes grupos servem aos Deuses Antigos realizando os Ritos Ancestrais entre membros de sexos iguais? Isso é impossível!
- Mas é o que fazem. Assim como aquelas bruxas tomam ao pé da letra a parte do mito que diz que todas as coisas vem da Deusa, estes bruxos tomam ao pé da letra a parte do mito que diz que todos os atos de amor e prazer são os rituais dos Deuses Antigos.
- Isso é loucura! Os Deuses Antigos nos deram os Mistérios Antigos como orientação, não como revelação! Nós não somos como os Persas e Judeus que acreditam piamente em escrituras sagradas!
- Existe algo em comum com estes grupos. Eles usam, sempre em beneficio próprio, o ensinamento de que cada grupo é autônomo e que outros grupos não podem interferir.
- Mas um grupo só se torna autônomo depois de ter passado pelos três graus, em uma das escolas de mistérios. Como eles podem ser autônomos se resistem à tradição?
- Começam como um grupo de curiosos, lendo aqui e acolá, participando dos círculos públicos, ouvindo palestras, colecionando diversas técnicas. Essa gente então se reúne para discutir e debater, como se fossem grandes sábios, atraindo por sua vez outros curiosos que gostam dessa idéia utópica de autonomia e independência. Como esses grupos se expõem mais ao público, é relativamente fácil passar a impressão de que são sacerdotes, passam a abrir cursos e angariar seguidores.
- Isso explica o sectarismo e a agressividade. Mas será que ninguém percebe que eles não são sacerdotes?
- Eles são eloqüentes e conquistam a simpatia popular com suas mensagens cheias de esoterismo dúbio. Também não é difícil forjar ou comprar um falso certificado, inventar uma tradição onde nunca houve uma e fabricar iniciadores saídos da brisa da imaginação.
- Mas como é possível comprar um certificado? Ninguém que seja um sincero iniciado cobraria pelo ensinamento!
- Infelizmente isso aconteceu e acontecerá. Muitos estão mais interessados no poder e na riqueza que o sacerdócio pode trazer do que em servir aos Deuses Antigos. Em um futuro não muito distante, estes grupos ecléticos serão a maioria e imporão suas falsas verdades sobre as tradições, sorvendo a este abismo de vaidade os futuros buscadores da Arte.
- Eu não sei mais qual o maior perigo para a Religião Antiga. Se os seguidores do Deus Vivo ou os falsos bruxos e bruxas.
- Nem eu saberia dizer, jovem mestre. Devemos confiar nos Deuses Antigos e permitir que a humanidade encontre por si só o caminho para a maturidade.

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