sábado, 28 de julho de 2007

A ponte para Roma

Saulo estabeleceu-se na Antioquia e montou ali uma base para sua caça aos Crestanos.
Mas era difícil achar algum, pois se misturavam entre populares e nunca tinham um local fixo de reunião.
Os Crestanos tinham a simpatia dois servos e dos párias da sociedade, pois a mensagem trazia conforto, esperança de justiça e de vida melhor. Indiretamente, os servos ajudavam os Crestanos a fugirem e se esconder em catacumbas.
Nem todos os servos eram conversos, mas a maioria acabava expondo seus senhores ao pensamento e credo dos Crestanos de forma que, aos poucos, Yeshu Cresto passou a ser procurado e reverenciado por cidadãos romanos.
Saulo tinha grandes aspirações, grandes pretensões de carreira e sua dupla origem como Romano e Judeu lhe permitia galgar os degraus do poder, mas essa infiltração dos Crestanos entre os Romanos iria prejudicar seus planos, sua ambição incluía a coroa da Judéia, ou em seus sonhos mais altos, um alto cargo próximo de César.
Em sua ganância, Saulo observa, mas não percebe que é observado. A cada investida fracassada contra os Crestanos, fica mais difícil surpreendê-los ou cercá-los, a fama de Saulo o precede.
Através de um intrincado sistema de informantes, Yheshua acompanha confortavelmente, sem risco e sem exposição, as ações dos Romanos, dos soldados de Herodes e dos soldados do Sinédrio. Ele fica entusiasmado com a organização de seu grupo e a forma como frustram os planos de Saulo. Ele começa a rir, mas a sacerdotisa não achou graça.
- Nós temos planos para este Saulo. O empenho e a dedicação dele serão úteis para nós, se o convertermos.
- Mas como? Ele nos odeia e nos persegue!
- E sem perceber nos ajuda, pois desperta a curiosidade das pessoas sobre nós. Que melhor propaganda do que convertê-lo? Ele será a nossa ponte para Roma.
- E qual são teus planos para Saulo que o faça ficar do nosso lado?
- Vamos deixar que chegue até ele a informação de uma futura reunião nossa na Damácia. Ele certamente virá pelo caminho que vai de Antioquia a Siquém, onde há altas colinas, onde eu posso me esconder para surpreendê-lo com meus poderes. Tu irás falar com uma pessoa confusa e semiconsciente, tu irás convencê-lo de qualquer coisa.
Não é difícil passar uma informação falsa como verdadeira a uma pessoa obcecada. Logo que Saulo recebeu a informação, ele ficou feliz e orgulhoso de si mesmo. Ele resolveu marchar pomposamente para Damácia, bem à frente da coorte de legionários, certo de que finalmente ele foi recompensado pelo seu esforço, inteligência e esperteza.
Ao longo da estrada, populares aplaudiam e elogiavam a Saulo, por medo ou admiração, o que contribuiu para inflar mais o grande ego de Saulo. Nas províncias onde passava, Saulo recebia presentes das autoridades, que o recebia com festas, bandeiras, jantares e músicas.
Assim que chegou a cem metros de Damácia, Saulo se certificou de que a cidadela estava totalmente cercada, sem possibilidades de ninguém fugir ou se esconder.
Recebido o sinal do centurião, Saulo cavalgou cheio de arrogância e prepotência na direção da cidade, pronto para revirá-la do avesso e queimá-la até o chão, se fosse preciso, para pegar os Crestanos. Mas um clarão imenso, vindo de alguma colina próxima, atinge e derruba Saulo de seu cavalo e espanta a coorte que o escoltava. Saulo atordoado, desarmado e sozinho no meio da estrada, percebe apenas a aproximação de um vulto, trazendo nele o medo da execução iminente.
- Saulo, Saulo, por que me persegues?
Como a sacerdotisa Magdala prometera, Saulo está atordoado, confuso e propício a ouvir qualquer coisa, o que torna fácil influenciar Saulo a pensar que ele estava falando com Deus em pessoa, do que Deus queria dele e de que ele ficaria como cego até que fosse doutrinado e curado por Ananias, um profeta de Deus Encarnado em Yeshu Cresto. Abandonando Saulo para que seguisse essa nova missão, Yheshua retorna triunfante para sua sacerdotisa, certo de que ela irá recompensá-lo com os carinhos que ele tanto gosta.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O fim de Anás

Com a ajuda involuntária dos Romanos e dos secretários do rei Herodes, Anás não tem mais que se preocupar com os Nazirenos. O único problema é que a ação romana acabou desarticulando seus núcleos messiânicos e Herodes capturou alguns lideres, aumentando o cerco em torno dele. O Sinédrio voltou suas costas para ele e a cada dia uma sede da Ordem de Melquisedeck é encontrada, desmascarada, desmontada e fechada.
Anás desconfia, mas não tem mais inspetores para investigar, de que membros da própria Ordem de Melquisedeck tem fornecido informações, seja por tortura ou por suborno. A velhice e a falta de finanças pesam muito, o que faz Anás planejar bem suas ações. Os planos de Anás são interrompidos por um barulho na rua, como se pessoas estivessem conversando ruidosamente na frente de sua casa. Anás se aproxima do portão para saber o que falam.
- Tu ouviste as boas novas? O Senhor ressuscitou!
- Todos dizem que ele voltou dos mortos após o terceiro dia, como ele prometera.
- Os apóstolos estão chamando a todos que seguem ao Senhor a comparecerem na Galiléia para ouvirem ao Senhor antes que ele vá para junto de Deus Pai.
- Meus irmãos, eu vos peço, dizei-me quem é este Senhor?
- Yeshu Cresto, Filho de Deus, o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo e nos dar a Vida Eterna.
Anás queria saber mais, mas o grupo dissipou-se rapidamente pelas ruas de Jerusalém, sumindo dentro da noite, devido à aproximação de outro grupo desconhecido, cujas alparcatas soavam longe. Anás sentiu que estava em perigo, mas não conseguia se mexer.
Pelo seu pensamento, passaram os últimos acontecimentos. Como de ele Ter sido o responsável pelo plano de apresentar dois rabinos como se fosse um, do dissabor da traição deles e o aparecimento dos Nazirenos, da sucessão de falhas que fez os Romanos e Herodes iniciarem as perseguições, que acabaram atingindo a Ordem de Melquisedeck e ele mesmo. Maior era a raiva disso tudo ter resultado no aparecimento de mais uma seita.
A poucos metro dali, Saulo segue apressadamente com uma coorte de legionários, para cercar e prender Anás, graças aos testemunhos de Zacharias, outros inspetores da quase extinta ordem de Melquisedeck e dos documentos encontrados nas sedes do grupo. Anás está sozinho e é velho, mas Saulo acha prudente ter toda uma coorte para esta prisão, pois Anás ainda tem um certo prestigio no Sinédrio e muitos inspetores ainda vagam por aí, prontos a dar a vida por Anás.
- Anás Elijah, em nome de Tibério César e do rei Herodes, o senhor está preso por conspiração, sedição e rebeldia.
Anás nada responde. Saulo o toma pelo braço e sente a pele fria. Nota que a boca de Anás está roxa. Anás, o poderoso e influente rabino, morre engasgado com a própria língua.
Saulo ordena aos legionários para que levem o corpo de Anás, para as devidas providencias. Com outros legionários, entra e vasculha a residência de Anás e confisca vários documentos e retorna para o quartel.
No caminho, Saulo encontra os documentos que comprovam o envolvimento de Anás e da Ordem de Melquisedeck na formação dos grupos messiânicos, o dos Nazirenos incluído. Saulo fica particularmente intrigado com os documentos sobre o projeto dos Nazirenos, sobre Yeshu, Yoachim e Yheshua. Saulo fica inquieto com o fato que Yeshu não era um, mas dois rabinos e lembra que, após a Pessach, um rabino que dizia ser Yeshu, o Messias, foi crucificado e boatos surgiram dizendo que ele havia ressuscitado dos mortos, dando início a uma nova seita.
Saulo resolve verificar quem efetivamente foi crucificado, se foi Yoachim ou Yheshua, para então ter por onde começar a investigar e perseguir a seita dos Crestanos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A última cena

O Império Romano foi um Estado onde vigorava a Lei Marcial em todo seu território, onde qualquer sinal de rebeldia era suprimida severamente. César Tibério havia nomeado Pôncio Pilatos como Governador da Judéia unicamente para debelar todos os movimentos de resistência. Nesse cenário, o rei Herodes é meramente uma figura representativa, uma vez que não tem poder político e o Sinédrio detinha o poder religioso.
Assim, nos últimos meses, muitos lideres de movimentos messiânicos e seus seguidores foram sumariamente crucificados como rebeldes sediciosos, sem as atuais praxes conhecidas da justiça. Os sobreviventes viviam clandestinamente, tentando manter e divulgar seu credo a todas as pessoas. Mas os grupos estavam fragmentados e sem lideres, o que levava muitas vezes a haver pequenos cismas e o aparecimento de várias seitas.
Com os Nazirenos não foi diferente. Pouco depois da Pessach, Yoachim estava entre os executados e seus seguidores dispersaram pelas colinas próximas a Kuran. Em uma das cavernas, Yheshua ficou escondido com a sacerdotisa Magdala, juntamente com alguns apóstolos, avaliando a situação em que estavam.
Aos poucos, foi sendo feito contato com os sobreviventes dos Nazirenos e outros grupos messiânicos, no que Yheshua viu uma ótima oportunidade de reunir forças com tantos grupos e, enfim, ser o líder deles para derrotar Roma e restaurar o Reino de Judá. Mas para isso ele precisaria montar um evento que atingisse tantas pessoas diferentes. Ele recorreu ao seu único trunfo que era consultar a sacerdotisa Magdala.
- Por favor, sacerdotisa Magdala, use teus poderes para que eu saiba o que fazer.
- Muitos destes que vem a ti, vindo de outros lugares, muitos sendo gentios, nada sabem de messias, pois não são Judeus. Mas entre eles há aquele que é o Ungido de Deus que eles chamam de Crestos. Apresente-se a eles como Yeshu Crestos, o Ungido de Deus que ressuscitou dos mortos.
- Excelente idéia! Entre os nossos muitos acreditam que Yeshu morreu e como eu me apresentava como sendo Yeshu diante do público, as pessoas vão acreditar que eu ressuscitei dos mortos, sem perceber que quem morreu foi Yoachim!
- Perfeito, querido, mas não basta. Tu precisarás de um novo nome para o culto que serás líder e terá que conquistar a simpatia dos Romanos.
- Se eu sou Crestos, os que me seguem são Crestanos. Mas eu não imagino como conquistarei a simpatia dos Romanos.
- Um passo de cada vez, querido. Tu deves fazer uma ultima encenação publica para agregar tantos grupos debaixo de tua bandeira, terá que fazer concessões e assimilar credos. Depois nós cuidaremos dos Romanos.
- Muito bem. Reuna os apóstolos e pessoas de confiança para preparar o palco. Distribua estrategicamente os nossos entusiastas no meio da platéia para conseguir o efeito desejado. A necessidade, a angustia e a expectativa do publico farão o resto.
- Muito bem pensado, querido. Tu me deixas muito orgulhosa com tal coragem e autoconfiança.
- Eu devo tudo isso a ti, minha sacerdotisa.
- Eu sempre estarei a teu lado, te apoiarei e protegerei, mesmo contra tua própria gente.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Resolvendo pendências

Graças à eficiência da sacerdotisa e a benção dos Deuses Antigos, Andros se recupera em uma semana e consegue convencer tanto a sacerdotisa quanto a Eleaser para acompanhá-lo até o templo de Ishtar, para falar com a sacerdotisa Ketar sobre as profecias a respeito da Religião Antiga.
Roe ficou surpreso ao rever Andros, depois que ele foi praticamente expulso por Ketar naquele esbath no lago da Galiléia, mas Andros estava diferente e trazia um visitante e uma sacerdotisa, fato que merecia a atenção de Ketar. Roe levou os três até o quarto de Ketar, onde ela se divertia com os bebês e conversava com sua mãe.
- Está ficando um costume tuas intromissões, Roe.
- Lamento, Santa Senhora, mas a sacerdotisa Ceres, de Tamar, juntamente com dois acompanhantes, deseja Vos consultar.
- Pois que entre minha irmã no sacerdócio. Certamente teremos muito a conversar.
Roe foi inteligente em não citar a presença de Andros, usando a sacerdotisa Ceres como justificativa, assim o livrava de possíveis retaliações por parte de Ketar.
- Saudações, sacerdotisa Ketar.
- Saudações, sacerdotisa Ceres. Nós vemos que trouxeste dois acompanhantes. Um nós conhecemos, mas não o outro.
- Saudações, sacerdotisa Ketar. Passou um bom tempo da última vez que nos vimos, na Galiléia. Eu espero poder vos demonstrar que eu amadureci bastante dentro da Arte.
- A tua preocupação concernente ao que ocorreu entre nós na Galiléia mostra que ainda tem um tanto a amadurecer. Tu achas mesmo que o receberia, estando ou não acompanhado de uma sacerdotisa, se nós mesmas não o tivesse perdoado? Mas nos interessa ouvir este outro.
- Saudações, Santa Senhora. Eu sou Eleaser, vosso humilde servo.
- Saudações, Eleaser e parabéns. Nós sabemos bem os obstáculos e dificuldades que teve de superar para libertar tua alma para seguir os Caminhos dos Bosques Sagrados.
- Eu devo dizer que não tenho orgulho algum de meu passado e sinto que ainda tenho débitos pendentes.
- Permaneçam conosco, tu e tua sacerdotisa, até o próximo esbath e nós garantimos satisfazer tuas pendências.
- Será uma honra e um prazer.
- Agora podemos tratar do motivo que o trouxe até nós, Andros.
- Sacerdotisa Ketar, eu estou preocupado com os vaticínios que tu e meu bom amigo Scire fizeram quanto ao futuro da Religião Antiga.
- A vinda de minha querida irmã Ceres de Tamar apenas confirma o oráculo. Nós sentimos que, no próximo Equinócio de Outono, a sombra de um homem martirizado virá assombrar a humanidade.
- Mas como isso irá acontecer?
- Para que uma coroa seja mantida, os homens tomarão uma bandeira que, pela força das espadas e da crença dos homens em nome de um Deus forjado, irá devastar toda a terra.
Ketar falou com segurança e seriedade. Andros pensou e aproveitar o esbath para pedir misericórdia aos Deuses Antigos e isso foi possível no fim daquela semana.
O esbath no templo de Ishtar em Esmirna teve três sacerdotisas, que puderam manifestar nelas o mistério da face tripla da Deusa aos celebrantes.
Eleaser teve a grata surpresa de encontrar com Miriam e Magdalena, agora sacerdotisas, mas que outrora eram as meninas aprendizes da sacerdotisa Sulamita em Elom que ele havia perseguido. Surpreendentemente, não havia mais mágoas, raiva ou sentimento de vingança, eram todos agora irmãos na Arte.
A sacerdotisa Nefter conheceu enfim a Andros de quem Ketar tanto falava e ficou feliz com sua filha sacerdotisa, pela forma como ela conduziu a cerimônia com incrível capacidade e poder, com a forma como ela solucionou os problemas e pendências entre os celebrantes.
Em breve, a união de todos os que seguiam a Religião Antiga deixará de ser uma questão de conveniência para se tornar uma questão de sobrevivência.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A semente da tirania

Andros estava tranqüilamente andando pelas florestas da Bretanha escolhendo ervas, flores e frutos para a celebração de Beltane quando deparou com o velho Scire, pensativo e soturno, na beira de um poço natural.
- Evoe, meu bom amigo! Parece que tuas profecias não irão se cumprir! A sombra do medo desapareceu!
- Evoe, jovem mestre. Eu te esperava aqui apenas para te alertar que isto apenas começou.
- De que estás falando? Eu vi como se estivesse em Jerusalém, vendo um homem vestido em pele de carneiro sendo preso por homens vestidos em pele de lobo.
- Morreu um homem, mas no coração dos homens está a semente da tirania. Por este homem virá o símbolo e uma idéia que custarão muito alto à humanidade!
- Tu estás sendo rabugento. Veja, depois de Beltane eu retornarei a Esmirna para rever a jovem sacerdotisa Ketar, apenas para confirmar que a ascensão do monoteísmo não passou de um breve pesadelo.
- Concordo que vás a Esmirna, todos os esforços serão necessários para proteger a Religião Antiga.
- Tu estás exagerando. A Religião Antiga nunca irá desaparecer.
- Tu verás logo, em Esmirna.
Andros balançou a cabeça, olhou para a estátua do poço, o gênio protetor local, como que buscando palavras, mas ao voltar para onde estava o velho Scire ele havia sumido. Ao voltar a Anglia, percebeu que tinha acontecido alguma coisa. Deparou com os bruxos e bruxas ao redor de uma pira funerária, declamando runas aos que partiram. Ao perguntar de quem era a pira, soube que era de Scire, que havia falecido na última hora.
Chocado, sentindo-se órfão, Andros se aprontou para a longa viagem até Esmirna. Antes de partir, parou diante da pira para o último adeus ao seu velho amigo, quando começou a chover torrencialmente. Andros seguiu seu caminho, sem estranhar que a pira não se apagou, mesmo debaixo desse temporal.
A chuva continuou, mesmo na travessia do Mar da Gália, acrescentando perigo na travessia e seguiu Andros por toda a Gália. Pelas estradas romanas que o levariam de Bizâncio a Esmirna, o tempo permaneceu nublado com trovoadas.
Andros chegou esgotado e doente em Esmirna, onde foi internado e atendido por uma sacerdotisa que veio de Tamar, trazendo consigo seu ajudante Eleaser, que teve a impressão de ter conhecido ou cruzado com Andros em algum momento de sua vida.
- Onde estou? Quem és tu?
- Descanse, mestre. Tu estás aos cuidados da sacerdotisa Ceres.
- Tu és um iniciado?
- Sim, mestre. Meu nome é Eleaser.
- O meu é Andros. Mas tu não é daqui.
- Nós viemos de Tamar, pois a Alta Sacerdotisa sentiu que nossa presença seria necessária nos próximos meses. Algo terrível, grande e sombrio está para acontecer.
- Pois então assim que eu ficar curado, eu gostaria de que tu e tua sacerdotisa viesse comigo até o templo de Ishtar, para falar com a sacerdotisa Ketar.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Trinta moedas

Zacharias voltou na semana seguinte até os locais onde os Nazirenos se reuniam, mas sem a companhia de Saulo, para tentar fazer uma reconciliação entre eles e a Ordem de Melquisedeck. Faltavam poucas semanas para a Pessach e para que Anás cumprisse com suas ameaças, mas nas atuais circunstancias, Zacharias não tinha muito a perder, sentindo que sua cabeça estava no alvo de Herodes e Pilatos.
Zacharias conseguiu encontrar Yheshua, fazendo sua costumeira pregação escatológica a uma platéia, estando ele convenientemente postado sobre uma colina, para dar a impressão de que ele era o personagem Yeshu, não Yheshua nem Yoachim. Com muita dificuldade, depois de driblar os apóstolos, Zacharias falou com Yheshua.
- Jovem mestre, eu gostaria de pedir um dia para falar com todos os vossos seguidores, junto com Yoachim.
- Os fariseus não conhecerão o Reino de Deus.
- Eu falo sério. O Sinédrio, Herodes e Pilatos estão à caça, tu e Yoachim são o alvo.
- O Filho do Homem deve se sacrificar para salvar a todos do pecado e da morte.
- O apetite de Roma não cessará até que todos os teus pereçam.
- O mundo nos odeia porque jaz no maligno. Nós não pertencemos ao mundo, mas a Deus. Quem quer a salvação, que pegue tua cruz e me siga.
Os apóstolos perceberam as reais intenções de Zacharias e o afastaram de Yheshua. Entre eles, havia um em particular que encarou furiosamente a Zacharias, que parecia ser conhecido de outro lugar. Certamente, era outro informante, ou da Ordem de Melquisedeck, ou de Herodes, ou de Pilatos, infiltrado no grupo, apenas esperando a ordem para entregar os líderes.
As semanas passaram sem que Zacharias conseguisse falar com Yoachim, certamente ele o ouviria, teria mais bom senso e faria um acordo. Na véspera do Pessach, Zacharias sabia que os Nazirenos fariam uma grande celebração, onde ele poderia tentar entrar disfarçado para falar com Yoachim. Mesmo sabendo que seu pescoço estava sendo procurado por Anás, Herodes e Pilatos, ele foi até o monte das oliveiras, onde o grupo certamente passaria. Ao se aproximar, foi igualmente cercado por uma coorte de legionários, que o levou preso junto com o grupo.
- Nosso mestre foi traído por um de nós, como ele havia profetizado.
- Nosso senhor disse que teria de ser sacrificado para o perdão de nossos pecados.
Zacharias foi levado até a sala de interrogatórios, onde Saulo o aguardava.
- Tu acreditaste mesmo que conseguiria nos enganar? Eu percebi logo que, para saber tanto dos Nazirenos é que tu era um deles, ou que tu era da ordem de Melquisedeck.
- Então, sabes de tudo.
- Sim e teu couro está valendo menos que as trinta moedas de prata pagas aos Inspetores por cada templo das rameiras fechado.
- O que fará comigo?
- Tu vale mais vivo, para acabar com a Ordem de Melquisedeck. Com Yoachim preso, os Nazirenos se dispersarão ou terão o mesmo destino dele amanhã, que é a cruz.
- Agora tu estás sendo ingênuo. Achas mesmo que uma organização tão grande e poderosa como a Ordem de Melquisedeck não tem meios para me libertar ou me silenciar?
- Depois que acabar contigo, não terás mais segredos, nem serás reconhecido por tua mãe.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

O princípio das dores

Com os informes que recebia da Ordem de Melquisedeck, Zacharias seguia com Saulo para tentar intimidar a ação dos Nazirenos, mas mantinha encobertas a todo custo quaisquer pistas que comprometesse a Ordem de Melquisedeck, deixando Saulo desconfiado e deixando Herodes e Pilatos suspeitando dele.
Herodes tinha mais urgência para acabar com a Ordem de Melquisedeck e as seitas messiânicas por causa de sua esposa, a rainha Erade. Ela, como muitos nobres e aristocratas, tinha um grande fascínio pelas Artes Ocultas e Ritos Ancestrais, o que fazia com que ela realizasse pequenos encontros no palácio para encenar as cerimonias e evocações. Isto e o fato dela ser sua meia-irmã a tornavam um alvo certo nas mensagens escatológicas dos muitos profetas messiânicos.
Certamente o mais irritante era um tal de Johannes, que não aceitava suborno nem se intimidava. Boatos diziam que ele era um dos muitos messias que agiam na Judéia sob o comando da Ordem de Melquisedeck. Herodes sabia que não podia confiar totalmente em Zacharias e os informes de Saulo a Pilatos lhe dava margem para nomear mais secretários para investigar as seitas, com a ajuda dos Romanos. Com esse auxilio extra, Johannes foi preso e torturado, mas nada falou, apenas repetia sua retórica enfadonha. Herodes deixou Johannes aos cuidados de seus verdugos e foi se preparar para uma festa que a rainha Erade ia dar para ele, para poder incluí-lo em seu grupo de praticantes de Artes Ocultas.
A festa, como é de se esperar, é uma imitação grotesca das cerimônias sagradas, executada por pessoas sem preparação, cheia de curiosos e praticantes de diversas artes de magia, misturando tudo em um frenesi carnavalesco, evocando e ofertando a diversos Deuses e Deusas ali representados por estátuas, sem qualquer respeito à cultura, aos mitos, aos povos e a estes Deuses. Como Herodes nunca havia conhecido os Ritos Ancestrais, só tinha um conhecimento muito superficial através de textos e de ouvir falar, aquilo para ele parecia normal e correto.
O grande problema e perigo em grupos formados sem qualquer iniciação, treinamento, tradição e linhagem é que acabam seguindo as correntes da moda ou as orientações de um vigarista, trazendo graves conseqüências a estas pessoas.
Em um dado momento, a rainha Erade fez sua filha Almina dançar para o rei Herodes, que aceitou a dança achando que era parte do culto. O que Herodes não esperava é que Almina terminou a dança com ele no chão, onde tiveram um contato íntimo na frente de convidados. Depois, a rainha Erade disse o preço de ter esse privilégio de ser iniciado por Almina dentro do grupo dos nobres, esquecendo de que nenhum dos presentes era sacerdote ou iniciado. O preço era a cabeça de Johannes, cortada e trazida em uma bandeja de prata.
Zacharias, juntamente com Saulo, observavam que os Nazirenos estavam nervosos e inquietos, quando então veio o anúncio pelo mensageiro do próprio rei Herodes confirmando a execução de Johannes. Os próximos poderiam ser qualquer um naquele cômodo. Saulo comemorou efusivamente, mas Zacharias ficou chocado, pois ele sente a proximidade do fio da espada no seu pescoço.

sábado, 7 de julho de 2007

Encontro de gerações

Lapidatus pede uma dispensa ao seu comandante, depois que recebeu de um legionário que voltou de Esmirna a noticia de que seu filho com Ketar havia nascido. Apesar de que todas as coortes estivessem em constante estado de atenção por causa dos conflitos na Judéia, o comandante concedeu a licença a Lapidatus para ir visitar Ketar e seu filho.
Lapidatus pega um cavalo rápido, sai do acampamento e chega ao templo de Ishtar em Esmirna depois de algumas horas. Os servos do templo, percebendo sua ansiedade e nervosismo, chamam Roe para atendê-lo.
- Saudações, irmão de armas. Aguarde um pouco que eu irei ver se Ketar está acordada.
Evidentemente, Roe percebe o motivo que fez Lapidatus vir, depois de tanto tempo. Visitar a Ketar. No quarto dela, a jovem sacerdotisa amamenta tranqüilamente seu filho.
- O que quer agora, Roe?
- Lapidatus deseja vê-la e conhecer teu filho.
- Que tolo! Será que ele quer assumir a paternidade ou constituir uma família?
- Não creio. Ele é um soldado como eu, deseja apenas ver seu filho uma única vez.
- Traga-o aqui, então.
Depois de alguns instantes, Lapidatus aparece no quarto de Ketar, que o estranhou ao vê-lo em roupas civis. Ketar ri de si mesma ao perceber que o uniforme de Lapidatus o deixava mais atraente.
- Santa Senhora, posso ver vosso filho?
- Sim, meu centurião, se aproxime.
Lapidatus se aproxima de Ketar, que deixa de amamentar seu filho por alguns instantes para que o soldado pudesse dar uma boa olhada em se filho. A criança tem as feições do romano, mas os cabelos e olhos puxaram a mãe. O bebê é forte e saudável, nasceu carregado de sinais que o indicava como bruxo hereditário e seu semblante firme e sereno indicava que ele era uma alma reencarnada.
- Ele é belo e forte. Qual o nome dele?
- Eu dei a ele o nome de Bran.
- Santa Senhora, vós estais disposta?
- Sim, por que pergunta?
- Eu gostaria de levá-la a Heliópolis, para visitar vossa mãe e irmão novo.
- Mas o faraó...
- Ele mudou. Vosso culto não é mais perseguido, o Egito voltou a ser politeísta.
- Oh! Pelos Deuses Antigos, que noticia maravilhosa! Sim, vamos, imediatamente!
Ketar agarra seu filho por um braço e pelo outro abraça o pescoço de Lapidatus e o beija na boca, levantando-se com grande animo. Roe se apressa, pois sabe que Ketar não aguarda, ele prepara dois bons camelos para que eles possam ir rapidamente até Haifa e de lá seguissem até Heliópolis. Em um curto tempo de duas semanas, ambos chegam em Heliópolis e são recebidos festivamente no Palácio Real.
- Vossa Magnifica Majestade, temos o prazer de anunciar que vossa sagrada filha chegou, trazendo vosso neto.
- Oh! Ketar! Entre, minha filha, venha conhecer teu irmão mais novo!
- Mamãe! Veja, este é Bran!
- Oh, meus bebês! Ketar, este é Urab.
- Meu irmãozinho! Tão pequeno e é titio!
Enquanto as mães conversam, se abraçam, se beijam, os bebês também parecem se entender bem. Lapidatus é o único que sobra nessa cena idílica. Lapidatus percebe a aproximação de uma pessoa, um homem que corre em direção ao quarto da rainha, em roupas simples, que entra sem muita cerimonia e sem notar a presença do soldado romano.
- Ketar, minha filha, há quanto tempo!
- Faraó Akenat?
- Está tudo bem, meu anjo, Akenat mudou.
- Eu sei, mamãe, Lapidatus me contou tudo.
- Lapidatus?
As mulheres voltam seus olhares para o soldado romano e só então o faraó percebe a presença dele. Meio sem jeito, foi cumprimentá-lo como se fossem conhecidos.
- Desculpe, eu não te vi. Eu estava muito feliz em poder rever e falar com Ketar. Eu sou Akenat.
- Ahn...Lapidatus, centurião romano.
- Deixe de ser bobo, Lapidatus, estamos todos em família, não é, mamãe?
- Claro, eu amor. Venha cá, Lapidatus. Venha conhecer teu enteado e herdeiro do Egito.
Lapidatus não está acostumado a esse tipo de vida. A dureza da caserna cria a necessidade de laços de sangue entre os combatentes, forjado em batalhas e pela honra das armas. Viver por laços de afetividade e aguardar uma morte serena é algo difícil para um soldado.
A tarde termina, a noite chega. O faraó consegue acertar suas dividas com Ketar, que sacia a saudade de sua mãe, que se esbalda com os dois bebês, que brincam como se fossem velhos irmãos.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Diante do leão

Zacharias aguarda nervoso próximo aos portões do palácio real de Herodes, enquanto seu parente tenta ajustar um passe para ele entrar e tentar falar com Pôncio Pilatos. Após algumas horas, finalmente seu contato dentro do palácio real retorna.
- Eu consegui a permissão com o chefe da guarda, que vai deixar que tu entres por vinte peças de prata.
- Isso significa que são dez peças para o chefe, cinco peças para tu e cinco peças para quem ajudou na negociação. Pago apenas dez e na mão do chefe.
- Muito bem, que seja, mas sendo ou não parente, não te ajudo mais.
Seguiram até o chefe da guarda que, após receber e ocultar o suborno, leva Zacharias até o secretário de ofício de Herodes.
- Para tu falares com Pôncio Pilatos, deverás antes falar com o nosso rei. Daqui para frente, tu estás por conta própria.
- Boa tarde. Eu sou Elias, o secretário de oficio de Vossa Majestade, o rei Herodes. Eu ouvi do chefe da guarda que tu tens informações da seita dos Nazirenos. Diga-me o que sabe, que eu decido se merece a atenção do rei.
Zacharias conta apenas alguns detalhes superficiais, pois sabe que se contasse tudo, Elias o mandaria embora para então, com as informações, ficar com todos os créditos diante do rei.
- Isso é interessante, mas não é o suficiente.
- Mais do que isto, apenas diante do rei.
- Muito bem, que seja, mas irá te custar vinte peças de prata.
Zacharias não tem muita escolha e paga o suborno. O secretário leva-o até o escritório pessoal do rei Herodes, entra e pede para que espere. Uma hora depois, ele é admitido diante da presença do rei Herodes.
- Saudações, bom súdito. O que tu sabes desta seita dos Nazirenos?
Zacharias conta detalhes que, somente alguém envolvido com a seita ou conhecedor de suas origens poderia saber, impressionando o rei e o secretário, que ainda estava lá por motivo de segurança.
- Excelente! Nós te designamos secretário especial, para que tu investigues todas as seitas que existem na Judéia, especialmente uma conhecida por Ordem de Melquisedeck. Tu deverás descobrir os nomes dos líderes, onde agem e quais seus planos.
O rei Herodes entrega um medalhão real a Zacharias, que o identifica como secretário real, o que lhe garantia acesso total a qualquer lugar dentro da Judéia e os recursos do tesouro real para suas missões. Zacharias, confuso e ingênuo, aceita o cargo sem perceber que se dirige a um beco sem saída.
- Se Vossa Majestade me permitir, eu agora gostaria de ir falar com Pôncio Pilatos. Eu acho importante ter o apoio de Roma para essa missão.
- Nós concordamos. Não é prudente nos indispormos com Roma. Parta com as nossas bênçãos.
Saindo do escritório do rei Herodes, Zacharias atravessa corredores, salas, pátios e passarelas para então chegar até o setor onde a administração romana está sediada. Aqui a situação muda, mesmo portanto o medalhão indicando-o como secretário a serviço do rei Herodes, Zacharias terá de subornar os oficiais romanos, se quiser ter passe livre até Pôncio Pilatos. Com promessas e acordos que custarão ao tesouro real algumas moedas de ouro, Zacharias é finalmente levado até a sala particular de Pôncio Pilatos, que o recebe desconfiado.
- O que tu desejas de mim?
- Nobre governador da Judéia, que nos guia para a glória do Império Romano e a grandeza de Tibério César! Eu gostaria de lhe falar sobre a seita dos Nazirenos.
- Tua adulação é desnecessária, mas me interessa o que tens a dizer desta seita.
Zacharias conta o que sabe dos Nazirenos, como havia contado a Herodes, insinuando a existência de uma conspiração desta seita contra o Império Romano e explicando a Pôncio Pilatos os planos que ele tinha, como se tivessem vindo do próprio Herodes.
- Eu concordo. Desde que fui nomeado por César para governar a Judéia, minha principal preocupação é a existência dessas seitas entre os Judeus. São fariseus, saduceus, essênios, zelotes e messiânicos. Eu te concederei um acessor de minha confiança e uma coorte de legionários, para cessar as atividades de todas essas seitas, inclusive uma tal de Ordem de Melquisedeck.
Zacharias sente sua espinha gelar, mas não há mais retorno. Se ele recusasse, todo o trabalho estaria perdido e ele ficaria como suspeito diante dos Romanos. Ele aceita, sabendo que seria vigiado, seguido e investigado por esse acessor de Pôncio Pilatos.
- Este é Saulo, ele é cidadão romano, mas também é Judeu, de forma que vós trabalhareis com mais eficiência.
Assim são os caminhos do destino. Forjado pela ação dos eventos, alguns de nossa responsabilidade, outros são efeitos da ação de terceiros, demonstrando que a vida de todas as pessoas estão ligadas por uma linha tênue.