quarta-feira, 4 de julho de 2007

Diante do leão

Zacharias aguarda nervoso próximo aos portões do palácio real de Herodes, enquanto seu parente tenta ajustar um passe para ele entrar e tentar falar com Pôncio Pilatos. Após algumas horas, finalmente seu contato dentro do palácio real retorna.
- Eu consegui a permissão com o chefe da guarda, que vai deixar que tu entres por vinte peças de prata.
- Isso significa que são dez peças para o chefe, cinco peças para tu e cinco peças para quem ajudou na negociação. Pago apenas dez e na mão do chefe.
- Muito bem, que seja, mas sendo ou não parente, não te ajudo mais.
Seguiram até o chefe da guarda que, após receber e ocultar o suborno, leva Zacharias até o secretário de ofício de Herodes.
- Para tu falares com Pôncio Pilatos, deverás antes falar com o nosso rei. Daqui para frente, tu estás por conta própria.
- Boa tarde. Eu sou Elias, o secretário de oficio de Vossa Majestade, o rei Herodes. Eu ouvi do chefe da guarda que tu tens informações da seita dos Nazirenos. Diga-me o que sabe, que eu decido se merece a atenção do rei.
Zacharias conta apenas alguns detalhes superficiais, pois sabe que se contasse tudo, Elias o mandaria embora para então, com as informações, ficar com todos os créditos diante do rei.
- Isso é interessante, mas não é o suficiente.
- Mais do que isto, apenas diante do rei.
- Muito bem, que seja, mas irá te custar vinte peças de prata.
Zacharias não tem muita escolha e paga o suborno. O secretário leva-o até o escritório pessoal do rei Herodes, entra e pede para que espere. Uma hora depois, ele é admitido diante da presença do rei Herodes.
- Saudações, bom súdito. O que tu sabes desta seita dos Nazirenos?
Zacharias conta detalhes que, somente alguém envolvido com a seita ou conhecedor de suas origens poderia saber, impressionando o rei e o secretário, que ainda estava lá por motivo de segurança.
- Excelente! Nós te designamos secretário especial, para que tu investigues todas as seitas que existem na Judéia, especialmente uma conhecida por Ordem de Melquisedeck. Tu deverás descobrir os nomes dos líderes, onde agem e quais seus planos.
O rei Herodes entrega um medalhão real a Zacharias, que o identifica como secretário real, o que lhe garantia acesso total a qualquer lugar dentro da Judéia e os recursos do tesouro real para suas missões. Zacharias, confuso e ingênuo, aceita o cargo sem perceber que se dirige a um beco sem saída.
- Se Vossa Majestade me permitir, eu agora gostaria de ir falar com Pôncio Pilatos. Eu acho importante ter o apoio de Roma para essa missão.
- Nós concordamos. Não é prudente nos indispormos com Roma. Parta com as nossas bênçãos.
Saindo do escritório do rei Herodes, Zacharias atravessa corredores, salas, pátios e passarelas para então chegar até o setor onde a administração romana está sediada. Aqui a situação muda, mesmo portanto o medalhão indicando-o como secretário a serviço do rei Herodes, Zacharias terá de subornar os oficiais romanos, se quiser ter passe livre até Pôncio Pilatos. Com promessas e acordos que custarão ao tesouro real algumas moedas de ouro, Zacharias é finalmente levado até a sala particular de Pôncio Pilatos, que o recebe desconfiado.
- O que tu desejas de mim?
- Nobre governador da Judéia, que nos guia para a glória do Império Romano e a grandeza de Tibério César! Eu gostaria de lhe falar sobre a seita dos Nazirenos.
- Tua adulação é desnecessária, mas me interessa o que tens a dizer desta seita.
Zacharias conta o que sabe dos Nazirenos, como havia contado a Herodes, insinuando a existência de uma conspiração desta seita contra o Império Romano e explicando a Pôncio Pilatos os planos que ele tinha, como se tivessem vindo do próprio Herodes.
- Eu concordo. Desde que fui nomeado por César para governar a Judéia, minha principal preocupação é a existência dessas seitas entre os Judeus. São fariseus, saduceus, essênios, zelotes e messiânicos. Eu te concederei um acessor de minha confiança e uma coorte de legionários, para cessar as atividades de todas essas seitas, inclusive uma tal de Ordem de Melquisedeck.
Zacharias sente sua espinha gelar, mas não há mais retorno. Se ele recusasse, todo o trabalho estaria perdido e ele ficaria como suspeito diante dos Romanos. Ele aceita, sabendo que seria vigiado, seguido e investigado por esse acessor de Pôncio Pilatos.
- Este é Saulo, ele é cidadão romano, mas também é Judeu, de forma que vós trabalhareis com mais eficiência.
Assim são os caminhos do destino. Forjado pela ação dos eventos, alguns de nossa responsabilidade, outros são efeitos da ação de terceiros, demonstrando que a vida de todas as pessoas estão ligadas por uma linha tênue.

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