quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A enfermidade da alma

A cidade de Aquiléia tem fama por seus lagos terapêuticos e os Romanos souberam usar bem das águas termais para fazer da cidade um refugio dos patrícios romanos abastados e um centro de tratamento médico. Por causa disso, Aquiléia também se tornou a última esperança de muitos moribundos e um santuário de mendigos.
Andros viajara por muitos lugares e convivia com a existência de servos e escravos, mas mesmo o menor destes ainda resguarda algo de dignidade que falta aos moribundos e mendigos. Ao entrar em Aquiléia, Andros teve a impressão de estar entrando na enseada do próprio Estige, diante da concentração de tantos males.
- Saudações, nobres peregrinos. Permita-me que seja vosso guia nessa terra abandonada pelos Deuses.
- Decerto os homens abandonam os Deuses na fortuna, mas sabem acusa-los na fatalidade. Pois não é da terra de Aquiléia que os Deuses fazem brotar o bálsamo para tantas enfermidades?
- Decerto os homens por seus atos encontram a fatalidade, mas há aqueles que receberam por herança e estes tem o que se queixar dos Deuses.
- Estes são vitimas da vaidade humana que, em desafio aos tabus, une sangue debilitado, gerando uma prole enferma.
- Meninos, sem briga! Pouco sabemos do destino e menos ainda do mundo dado pelos Deuses. Nós somos uma parte da natureza, não seu ponto central.
- Eu vejo que tua senhora é mais sensata. Então eu refaço meu convite e vos peço que me digam a que viestes a Aquiléia.
- Nós estamos em busca dos seguidores da Antiga Religião, tal como nós mesmos somos iniciados.
- Andros? Jovem mestre Andros, tenha piedade deste teu velho colega da Arte!
Andros se volta para o local onde a frágil e velha voz o chamava, vindo de um corpo retorcido e lacerado por alguma enfermidade.
- Sorano? O que aconteceu contigo?
- Ah, jovem mestre! Eu saí de Ephesus como tu em busca das escolas de mistérios pelo mundo conhecido. Na Etrúria, eu conheci os cultos de Diana, de Juno e de Deméter. Ali eu ouvi falar dos cultos na Gália e nas partes bárbaras desse continente. Em Belarum eu encontrei o legitimo culto da Religião da Deusa, tal como era no tempo dos ancestrais!
- Certamente tu não falas sério. Nossos ancestrais tinham costumes e credos diferentes dos nossos, mas nunca existiu tal Religião da Deusa.
- Ah, jovem mestre! Tu ainda pensas com a mesma teimosia daqueles tradicionalistas radicais de Ephesus! Evidentemente não leste a Apolônio de Tiana.
- Eu li e vi a velha mania de ver no passado uma lenda dourada que não condiz com a realidade. Nossos ancestrais tinham muitas culturas e credos, falar em um culto primordial de uma Deusa e querer tornar este o único e verdadeiro culto original é um absurdo.
- Ah, jovem mestre! Tu demonstras que fostes bem doutrinado pelo sacerdócio patriarcal. Tu deverias ler a Dioscoros.
- Quem é essa criatura?
- Um respeitável Alto sacerdote da Religião da Deusa, que conhece muitos Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas, de várias escolas de mistérios. Ele tem tornado a Religião Antiga mais acessível e atualizada, possibilitando que todos possam ser iniciados sem aquelas formalidades antiquadas.
Andros não conhecia tal pessoa nem ouviu antes tais absurdas alegações e a simples hipótese dessa simplificação fazia seu sangue ferver, pois lembrou-o do farsante Magus Augustus. Em locais onde não existem escolas de mistérios confiáveis ou a presença de Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas ligados às tradições é muito fácil aparecer farsantes se fazendo passar por sacerdotes que, com um habilidoso discurso agradável, consegue convencer e converter o público para suas doutrinas espúrias.
- Eu não estranho teu estado, Sorano. Tua traição ao que há de mais sagrado e divino é a única enfermidade que tens. Eu muito me espanto que justo tu, um iniciado mais velho que eu, pôde sucumbir a um discurso sedutor mas vazio de sentido.
- Ah! Tu dás muita importância a essas velhas cerimônias de iniciação! Tu não leste Apuleio que mostra como a Deusa se manifesta mesmo a um não iniciado?
Andros não agüenta tanta loucura. Evidente que seu velho amigo foi induzido ao engano pela interpretação do farsante, usando o texto de Apuleio para sustentar tal delírio. Andros estava com uma resposta firme e cortante na ponta da língua, mas Ketar deu uma resposta mais sensata.
- Tolo! Tu crês realmente que um ser humano, por mais habilidoso que seja na escrita, pode pôr a termo todos os Mistérios Antigos?
- Quem és tu para contestar as palavras de Dioscoros?
- Eu sou uma Alta Sacerdotisa. Se tu não discernes entre sacerdotes e pessoas comuns, como espera atestar a santidade de alguém?
- Ele merece respeito e reverência pelos anos de seu ministério.
- E por acaso tu verificastes tal experiência? Não, meu caro, nem a idade nem o tempo nos tornam respeitáveis. Senão deveria ser tu a ensinar a este Dioscoros. Nenhum sacerdote que se preza exige respeito pelo cargo que ocupa. A eficiência de nossos serviços é o que nos torna especiais. Tu achas mesmo que se eu fizesse questão de minha posição ainda estaria ao lado de Andros? Ele é ousado e atrevido, entretanto ele me agrada por ser inteligente e corajoso em manter suas opiniões.
O velho Sorano mostrava que se sentia afrontado, mas não conseguia pronunciar palavra alguma, como se sua língua tivesse um nó. Ketar seguiu adiante, enquanto Andros e o guia tentavam acompanhá-la.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O comércio da Arte

Ao se aproximarem de Ligúria, Andros e Ketar percebem um clima de alegria e regozijo. A cidade se prepara para o Festival da Colheita, onde camponeses e provincianos podem agradecer aos Deuses pela abundância que estes garantem todos os anos na primavera e, ao mesmo tempo, rogar para que o inverno não seja rigoroso demais.
Diversas tendas se espalham pela praça central da cidade para acolher e proteger, não somente os viajantes, mas também os muitos sacerdotes vindos de muitas partes da Gália. Não faltavam adivinhos, oráculos e profetas competindo por clientela e espaço nas poucas tendas que ainda restavam.
Inevitavelmente, muitas tendas e bancas eram armadas precariamente ao redor da praça e pelas ruas da cidade com um frenético comércio pronto a atender as necessidades de visitantes e sacerdotes, com suprimentos de velas, incensos, ervas e estátuas.
Em tal reboliço, tudo que Andros pensava era em encontrar alguma estalagem onde eles possam comer, beber, banhar-se e dormir. Ketar, por seu lado, procurava com quem se divertir. Uma jovem mulher em trajes curiosos pôde atender aos anseios de ambos.
- Nobres peregrinos, vós pareceis cansados e perdidos. Se me perdoam a ousadia, eu gostaria de ajudá-los. Em que vos posso servir?
- Gentil senhorita, nós procuramos por uma hospedaria para nos alimentar, limpar e dormir.
- Eu pressinto que vós sois confiáveis. Por favor, me sigam até o nosso Centro Espiritual, onde vós podereis alimentar o corpo e o espírito.
Andros e Ketar desmontam e seguem ao lado de seus cavalos a enigmática figura por entre as vielas da cidade até uma hospedaria com a entrada toda decorada com símbolos de magia cerimonial. Ketar solta uma risada discreta, levando a mão aos lábios para se segurar, enquanto Andros tenta entender aquela disposição tão confusa de símbolos.
Dentro da hospedagem, um velho magro e desconfiado foi recebê-los com uma insensível frieza.
- Cada quarto custa quarenta moedas de bronze por dia.
Ketar mexe em seu alforje e entrega na mão do velho três moedas de ouro.
- Eis tua paga. Queremos um bom quarto, banho quente, vinho e comida.
O velho arregalou os olhos e ficou de queixo caído enquanto os olhos da moça brilharam com ganância.
- Calista, acompanhe o casal até a suíte real.
A caminho do luxuoso quarto, a mulher revela suas verdadeiras intenções para Andros.
- Meu bom senhor, por trinta moedas de bronze eu posso me deitar com tu e tua esposa e vos proporcionar as delícias desfrutadas pelos Deuses nos Ritos Ancestrais.
Ketar se enrosca no braço de Andros e encosta a boca no ombro dele para segurar o riso. Verdade que as sacerdotisas recebiam em seus hieródulos as ofertas dos penitentes, para que estas realizassem os Ritos Ancestrais com os ofertantes, mas nenhuma vinha se oferecer de forma tão despudorada.
- O que me diz, querido? Ela é jovem o suficiente para satisfazer os Deuses em nosso leito?
- Eh...eu creio...eu acho que para isso precisamos estar devidamente preparados.
- Muito justo! Felizmente os Deuses nos fizeram nos encontramos. Eis que o proprietário desta hospedagem é um mago sacerdote e certamente concordará em prepará-los.
- Oh! Não é excitante, querido? Enfim nós encontramos um mago sacerdote!
- Sim, sim! Verdadeiramente, a Fortuna vos sorriu. Por quinze moedas de bronze eu posso agendar um encontro com Magus Augustus para amanhã de manhã.
- Pague a garota, querido!
Andros contorce o rosto e entrega com reservas as últimas moedas que tinha em seu alforje. A mulher parte correndo enquanto Andros fecha a porta para então se queixar com Ketar, que confortavelmente se ajeitava na cama.
- Eu não sei o que pretende, Ketar, mas não me envolva em seus jogos.
- Não se preocupe, querido, nada irá acontecer amanhã, mas não garanto nada hoje a noite.
Ketar lança um olhar lânguido a Andros que atinge seus instintos, provocando uma reação instantânea. Por alguns segundos, Andros imagina que esta não é uma situação real, nem se trata de um teste. Ketar, apesar de ser uma poderosa sacerdotisa, também é mulher que dispensa cerimônias para simplesmente desejar e ter um homem. Com cuidado para não acordar Bran, ambos se entregam ao prazer.
No dia seguinte, a esfuziante Calista foi até o quarto deles, juntamente com uma boa refeição matinal, para lhes dar as boas noticias.
- Eu consegui uma entrevista para vós com Magus Augustus. Ele os aguarda em seu escritório particular.
Andros e Ketar seguem Calista pelos corredores da hospedagem até uma austera sala feita de madeira de ébano entalhada com vários símbolos místicos. Assim que Andros entrou na sala, teve a clara impressão de que conhecia o homem que se apresentava como Magus Augustus e os olhos deste demonstraram que reconheciam a Andros igualmente.
- Saudações...saudações. minha discípula Calista disse que vós estais interessados em se preparar para poder adorar os Deuses pelos Ritos Ancestrais.
- Oh sim! Mas eu e meu esposo não dispomos de muito tempo e ouvimos dizer que isto pode levar anos!
- Minha senhora, tu certamente deves ter ouvido algum radical tradicionalista saudoso dos velhos tempos. Hoje em dia a Religião Antiga está acessível a todos e a maioria a pratica conforme a necessidade atual.
- E o que o senhor pode nos oferecer?
- Por uma módica oferta de trinta moedas de bronze, eu posso vos dar um pergaminho com a autentica cerimônia de iniciação na Religião Antiga, sem necessitar de sacerdotes.
- Oh! Mas isto é uma pechincha! Mas como seremos treinados para comemorar os Ritos Ancestrais?
- Isto dependerá de vossa disposição. Eu possuo uma farta biblioteca com vários pergaminhos contendo todos os segredos da Antiga Religião.
- Oh! Meu querido, não é uma boa notícia? Meu bom senhor, nós estamos dispostos a ofertar um baú com trezentas peças de ouro.
- Oh! Minha senhora! Por esta oferta generosa eu vos posso nomear Altos Sacerdotes, tendo apenas que se reportar a mim.
- Isso seria maravilhoso! Eu e meu esposo iremos até Roma e logo acertaremos as contas.
Ketar se enroscou no braço de Andros novamente e, da mesma forma que entrou na hospedagem, saiu sem delongas. Ambos montaram nos cavalos e partiram em direção de Aquiléia. Da mesma forma que fez ao sair de Lutécia, Ketar explode em uma franca gargalhada.
Andros então se recorda de onde conhecia o homem que se apresentava como Magus Augustus. Aquele era o mesmo jovem que ele havia desmascarado nas cercanias de Lutécia, antes que este tivesse cometido um crime. A vontade de Andros era voltar a galope a Ligúria e cortar a cabeça desse presunçoso, mas foi demovido por um simples toque da mão de Ketar em seu rosto.

A fera mostra as garras

Após alguns dias de viagem, Andros percebe que se aproxima mais uma vez de Lutécia, a Roma Gaulesa, um centro urbano que reúne em si o contraste constante que existe entre dominados e dominantes, demonstrando o surgimento de uma terceira cultura resultante dessa mescla.
Ali, gauleses conviviam com romanos, helênicos, descendentes de romanos, gauleses romanizados, gauleses helenizados e pessoas vindas de povos que ainda desfrutavam de sua condição de bárbaros.
Andros esperava ter algumas surpresas depois de ter passado um ano de sua última visita, mas foi Ketar que lhe chamou a atenção para uma surpresa inusitada.
- Andros, tu sabes de qual credo pertence aquele templo naquele monte próximo? Eu não conheço aquele símbolo.
Apesar da distancia considerável para olhos normais, Andros tem uma excelente acuidade visual e não reconheceu que credo seria daquele templo enfeitado com uma cruz de pedra encravada com efeitos que recordavam a arte dos Celtas. Andros pôde apenas dar de ombros e seguir persignado na direção do estranho templo, certo de que Ketar quer investigar que tipo de culto ele representava. Esta o segue silenciosamente, mas consciente de que se divertirá muito com esse encontro.
Não muito longe do templo, um homem vestido com uma túnica semelhante às usadas pelos sacerdotes mithraicos saúda efusivamente o casal de viajantes.
- A paz do Senhor, irmão e irmã.
- Meu bom senhor, nós somos viajantes que seguem através da Gália os Caminhos Antigos, mas nós não reconhecemos teu sinal de fé. Pode nos dizer a quais Deuses pertencem este templo?
- Nobres peregrinos, graças à misericórdia do Senhor vós viestes até nós em bom tempo. Nós somos uma missão que veio em nome do Senhor Yeshu Crestos exatamente para libertar as pessoas da influência maligna do Paganismo. Tu, tua esposa e filho gostaríeis de receber a Boa Nova?
- Meu bom senhor, isto tudo nos é novidade. Nada sabemos do que é Paganismo ou esta Boa Nova.
- Eu espero que tu não te ofendas, mas vós sois pagãos, uma vez que estais ainda presos a antigas superstições que os faz adorar imagens de falsos deuses.
- Eu devo entender então que tu conheces um Deus verdadeiro.
- Oh não, cara senhora, não um Deus, mas o Senhor, o Criador de todas as coisas.
- E quem é o Senhor e a Boa Nova que tu trazes?
- A Boa Nova é que Yeshu Crestos, o Filho de Deus, teve compaixão de nós, se humilhou na forma de homem e se sacrificou para nos salvar do pecado e termos a Vida Eterna.
- E como foi que nos tornamos vítimas do pecado?
- Todos nós nascemos com o pecado, desde a transgressão de Adão, o pai de todos os homens, por causa da tentação de Satanás.
- Todos? Até mesmo meu filho de três anos?
- Certamente! Muito embora, pela tenra idade de teu filho ele ainda tenha o privilégio da inocência carnal.
- Eu estou certa de que não tenha sido submetida pelo pecado. Como posso querer ser salva se nada conheço do pecado?
- Minha senhora, o pecado consiste em viver neste mundo conforme as inclinações da carne e se rebelar contra as Leis do Senhor.
- O que há de ocorrer conosco se não recebermos a salvação?
- Após a morte física, a segunda morte, a espiritual e a senhora irá passar a Eternidade no Inferno.
- Isso é muito diferente do credo oficial. Como o Imperador reage ao saber que adoras outro Senhor?
- O Senhor tocou de forma tão poderosa ao Imperador que nos foi dada a graça de sair da clandestinidade e construir este templo de Deus, em reconhecimento à unção dada pelo Senhor que tornou César Imperador.
- Tu és gaulês, não é?
- Eu nasci carnalmente na Gália, mas sou filho carnal de um romano com uma grega. Entretanto, nada disso importa mais, pois eu renasci pelo batismo no Senhor. Tu, teu filho e esposo são igualmente bem vindos, independente de quem sois ou de onde viestes.
- Tu dizes que estás em missão. Quem te enviou?
- O Senhor nos enviou ao dizer ide e pregai o evangelho a toda criatura. Mas o Senhor certamente instruiu a Suma Sacerdotisa Magdala de Roma que nos tem ajudado pela imensa bondade e santidade dela.
- Que coincidência meu querido! Nós estamos justamente indo a Roma visitar Vossa Santidade!
- Eh...sim...estamos.
- Graças ao Senhor! Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe!
Mais para frente, em uma distância segura, Ketar desanda a dar fartas gargalhadas. Andros não via graça alguma no evento, mas via com preocupação a presença desse novo credo.

A força de Bran

Após as devidas despedidas e ultimas recomendações, Ketar vê todo o séqüito que a havia servido e seguido por tantos anos partir de volta a Esmirna. Ela respira fundo e embarca em um navio menor com Andros, pronta para descobrir todo um novo continente que certamente abrigava muitos credos que se originaram da Religião Antiga.
Ela espera, nos anos que ainda lhe restam, não só preservar e coletar o máximo que puder dos credos locais, mas também de criar Bran, seu filho, como um rei sacerdote sagrado que terá a difícil tarefa de passar às próximas gerações a tradição preservada.
Desembarcando na Gália, não muito longe da costa da Armórica, Ketar foi levada por Andros até um círculo de pedras erigidos por mãos de ancestrais desconhecidos, mas que eram usados por druidas.
- Saudações, nobres druidas. Nós somos peregrinos que seguem os Caminhos Antigos e gostaríamos de compartilhar convosco vossa sagrada cerimônia.
Os druidas olharam-se entre si desconfiados. Felizmente Andros era razoavelmente conhecido pela Gália e certamente tinha fama por sua ação na Lutécia.
- Seja bem vindo em nosso meio, jovem peregrino. Mas é nosso costume deixar as mulheres cuidarem de outros afazeres fora do círculo.
Andros avança com receio da reação de Ketar, mas surpreendentemente ela se junta às mulheres e crianças que ficam acampadas às margens do círculo de pedras, preparando o banquete que será servido após a cerimônia. Andros pode se concentrar com outras preocupações, como o Rito Ancestral.
Mesmo de longe, Ketar acompanha a cerimônia dos druidas com curiosidade. Os druidas colhem as ervas, cortando-as meticulosamente com suas pequenas foices de bronze, mas com completo descuido e desrespeito à natureza. As ervas eram esquartejadas, maceradas e juntadas nos caldeirões, em combinações perigosas. Boa coisa não sairá desse trabalho.
No momento da invocação, os druidas chamam por Lugh, mas não invocam Deusa alguma, não evocam os quadrantes, não lançam o círculo, não inscrevem os símbolos antigos no chão. No momento em que é esperado o Rito Ancestral, os druidas se contentam em simular simbolicamente a união do Deus e da Deusa com a inserção de uma adaga em um cálice, mas para o espanto de Ketar alguns dos druidas realizam entre si o Rito Ancestral.
Nesse breve instante de distração, um garoto enciumado com a atenção que Bran recebia das mulheres do acampamento esbarra em um suporte, fazendo cair sobre ele o braseiro. As mulheres correm apavoradas para salvar o bebê e dar uma surra no valentão, mas para o espanto geral, Bran segura o braseiro, sem que este o tivesse machucado pelo calor ou peso.
Isso deu o que conversar no banquete após a cerimônia, mas Andros achou por bem explicar a Ketar o que ela estava para testemunhar mais à frente.
- Ketar, a Religião Antiga se manifesta de formas muito diferentes neste mundo.
- Eu percebi. Talvez em algum lugar os caminhos se dividiram, novos caminhos foram formados ou a insatisfação inventou atalhos. Mas o Rito Ancestral entre homens ou mesmo entre mulheres perde todo seu sentido que é a sagração da fertilidade. Talvez esse método funcione para esses druidas, talvez consigam um estado alterado de consciência. Mas também pode ser uma forma de reforçar a hierarquia, ou simplesmente uma desculpa para sexo gratuito.
- Não deve demorar para que nos deparemos com bruxas matriarcais, vigaristas se fazendo passar por sacerdotes ou mesmo círculos que adoram estranhas egrégoras.
- Não tente explicar a experiência. Tu, como iniciado, deverias saber que a experiência deve ser vivida, não teorizada.
- Eu me preocupo com o efeito que isso possa ter em Bran.
- Ah, meu bebê sabe se defender, não é, querido?
Bran dá fartas risadas no colo de Ketar e Andros vê um quadro tão humano de mãe e filho que fica difícil lembrar que, diante dele, está uma poderosa sacerdotisa e um futuro rei sacerdote.

A Suma Sacerdotisa

Magdala consegue reunir em Bizâncio a primeira assembléia com os lideres das muitas facções de Crestanos. Estes líderes eram sacerdotes que se autodenominavam de bispos por serem responsáveis por vários grupos de comunidades de Crestanos, cada qual formada por diversos fragmentos vindos de diversas doutrinas.
O clima é tenso e as discussões acaloradas, uma vez que cada bispo defendia fervorosamente a fé de sua facção.
- Senhores! Senhores! Como vós podeis perceber, é necessário buscar uma conciliação entre as igrejas.
- Bispa Magdala, vós representais os interesses de Roma, da igreja, ou de Crestos?
- Bispo Teodósio, nós representamos tanto os interesses da igreja de Roma como vós representais os interesses da igreja da Macedônia. Para que nós possamos atingir nossos interesses, precisamos procurar por um consenso. Do contrário, seremos sempre considerados e tratados como uma seita.
- Bispa Magdala, como poderemos saber quais são os pontos em comum entre nós, se temos tantas diferenças?
- Bispo Siriaco, cada um de nós tem uma profissão de fé, tem os pergaminhos com o Testamento dos Apóstolos e tem a estrutura da igreja. Assim como em Tessália, em Roma, Deus é Yeshu Crestos.
- Bispa Magdala, nisso nós concordamos, mas na Galícia dizemos que existem duas naturezas em Deus. Uma é Yeshu como Profeta e outra é Crestos como Filho.
- Bispo Corimano, nós concordamos que Yeshu, embora seja homem como Profeta, é Crestos porque é Deus encarnado.
- Bispa Magdala, nisso nós concordamos, mas em Corinto, Yeshu é o Filho que se fez carne nascendo como homem.
- Bispo Hesiarco, nós concordamos que Yeshu cumpre com as profecias antigas de que Crestos deveria nascer de uma mulher sagrada para que, embora homem, nascesse puro para nos redimir do pecado.
- Bispa Magdala, nisso nós concordamos, mas alguns dizem que a salvação é para todos enquanto outros dizem que é para poucos.
- Bispa Magdala, muitos de nós discordam até da constituição do pecado. Afinal, nascemos pecadores, herdamos os pecados ou nos tornamos pecadores?
- Bispo Teodósio, Deus escolheu uma nação para se manifestar para o mundo. Bispo Hesiarco, a Deus pertence a justiça para discernir os santos dos pecadores. Yeshu nos alertou de que não há inocentes exatamente para nos orientar para a humildade. Então é nossa obrigação avisar a todos que estamos sujeitos ao pecado, mas que podemos nos salvar ela graça de Yeshu.
- Bispa Magdala, nós estamos convencidos de vossa sabedoria sobre a doutrina e vemos que é possível haver uma conciliação.
- Bispo Corimano, a conciliação é necessária para que Roma seja mais flexível com as nossas atividades. O que eu proponho é que cada um de vós eleja um representante para ser o emissário de vossas comunidades diante de Roma e, dentre vós, há de ser eleito um Sumo Sacerdote para promover a concórdia entre todos os Crestanos.
- Bispa Magdala, eu creio que meus irmãos hão de concordar comigo de que vós demonstrastes um grande conhecimento e santidade. Em nome da igreja de Corinto eu vos peço que seja a Suma Sacerdotisa.
- Bispa Magdala, eu reluto em confiar em Roma, mas pelo bem das almas que ainda estão perdidas, em nome da igreja da Macedônia eu vos peço que seja a Suma Sacerdotisa.
- Bispa Magdala, vós mais que muitos sabeis das necessidades que passamos em Tessália por estas almas, eu vos peço que seja a Suma Sacerdotisa.
- Bispa Magdala, se Tessália sofre com a falta de recursos materiais, a Galícia sofre com a pobreza espiritual. Por estas almas, eu vos peço que seja a Suma Sacerdotisa.
Apesar do grande risco, Magdala aceitou de bom grado o resultado esperado. Como bispa de Roma ela tinha acesso a muitos recursos e saberia usar isto em seu beneficio. Muitos dos bispos que a conclamavam eram iniciados seus e outros tantos lhe deviam a vida. Os poucos que preferiram continuar autônomos não demorariam a se tornar um estorvo, uma resistência que viria a sentir a força da Igreja.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A calma antes da tempestade

Andros voltava da floresta com o suprimento de ervas, quando deparou com Ceres. Ela estava cuidando de seus afazeres diários de uma forma quase mecânica.
- Evoe, sacerdotisa Ceres.
- Evoe, Andros. Tu sentes algo? Está tudo tão quieto!
- Parece que os Romanos nos deram um descanso.
- Não falo dos Romanos. Os espíritos! Eu não tenho mais visões!
Andros se intriga com o que Ceres quer dizer. Mais à frente, passou em frente de Ketar que fitava de forma enigmática o horizonte. Quando Andros se aproximou dela, a cidade repentinamente ficou agitada com a aproximação de um centurião. Andros sem demora saca da espada.
- Aquieta-te! Se fosse uma batalha tu não conseguiria dar três passos. Não é o momento de bravura e sacrifício.
Andros olha na direção de Ketar meio frustrado, mas o barulho da armadura do centurião chama sua atenção novamente para frente, o fazendo encarar ninguém menos que Lapidatus.
- Evoe, meu centurião. Tu deves ter gostado da idéia de constituir família conosco.
- Evoe, Santa Senhora. Eu não sou de cultivar ilusões, como vosso servo Roe deve saber. Eu vim até vós para trazer a anistia de César.
- Mesmo? E o que fez César mudar de opinião a nosso respeito tão rapidamente?
- Vosso humor é notável. Vós sabeis que Tibério César morreu e lhe sucedeu Calígula César.
- Se sabeis que nós sabemos, por que o incomodo de vir nos avisar? Tu deves ter algo mais a acrescentar.
- Realmente, Santa Senhora. Há mais coisas em mudança em Roma. Não há mais restrição de culto e os templos estão sendo restaurados.
- Esta paz aparente é esperada. A semente eclodiu e começa a espalhar suas raízes.
- Com o devido respeito, Santa Senhora, mas eu creio que vossas suspeitas são infundadas. Meu comandante me contou sigilosamente que há em Roma uma Alta Sacerdotisa da Antiga Religião responsável por essa mudança.
- Qual a surpresa? O resumo da história da humanidade é este de que novas árvores só podem crescer sobre os troncos caídos das árvores antigas.
- Vós não quereis voltar a Esmirna?
- Nós enviaremos Miriam e Magdala de volta a Esmirna para conduzir o templo. Nós também enviaremos Ceres de volta a Tamar. Nós iremos aproveitar a calmaria para visitar as bruxas na Gália e por mais onde o jovem mestre Andros nos conduzir.
- Há algo que eu possa fazer por vós?
- Cumpra com teu destino. Teu filho não será o primeiro nem o último rei sacerdote que carregará no sangue nossa herança sem ter conhecido o pai.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A sucessão

Uma das maiores lições que toda autoridade pública deve conhecer é a de que a estrutura de um Estado tem vida própria. Tibério César estava moribundo e via de seu leito de morte que Roma continuava a caminhar sozinha. Ao mesmo tempo em que seus cônsules buscavam curandeiros para amenizar seu sofrimento, corria solta uma disputa entre as damas da alta nobreza pela Coroa de Roma.
Dentro das cidades romanas, os moradores continuavam com suas rotinas domésticas sem notar que não é mais Tibério César seu Imperador, mas um consórcio formado por cônsules e senadores. Nas partes mais periféricas e fronteiriças do império Romano, os comandantes das fortificações sentem o vácuo do poder, de forma que as atividades das coortes romanas se restringem em fazer patrulhas, enquanto aguardam as ordens do novo César.
Magdala soube aproveitar dos privilegio dados a ela pelo César moribundo para aumentar sua influencia nesse momento de instabilidade e permeabilidade do Estado Romano, não somente para dar conselhos aos cônsules, mas também para orientar as damas.
Em uma dessas ocasiões, Agripina veio consulta-la a respeito das chances que seu filho teria para se tornar César. Como os reis antigos, os Césares tinham várias esposas, cortesãs e mulheres, cada qual tendo um ou mais filhos de César e todas queriam seu direito de herança.
Com Calígula não era diferente. Sua mãe era ora esposa, ora cortesã de Tibério César, conforme o humor dele. Agripina estava disposta a tudo para tornar seu filho o novo Imperador de Roma.
Magdala sabia, pelos seus contatos com o consórcio de cônsules e senadores, que Calígula seria proclamado César em breve ao Povo Romano, mas ela não teve escrúpulos em tripudiar da ansiedade e agonia de Agripina.
- Vosso filho será César, se tu e teu filho concordarem em serem meus iniciados. Após a proclamação, vós concedereis um indulto a todos os cultos existentes no Império Romano.
Esse recurso visava mais obter influencia sobre Agripina do que sobre Calígula, um jovem inseguro e dominado pela mãe. Ele seria facilmente manipulado por Magdala sem que sua mãe ou a corte de Roma percebessem.
Como o combinado, Agripina e Calígula foram iniciados por Magdala e este foi proclamado César no dia seguinte. O primeiro ato de Calígula foi o de decretar anistia e perdão. Os templos voltaram a funcionar sem interferência, sacerdotes proscritos puderam voltar a Roma.
Magdala iniciou sua peregrinação entre as comunidades dos Crestanos, para reivindicar sua posição como Alta Sacerdotisa. Em cada visita, oferecia aos líderes riquezas e posições dentro da estrutura do Estado Romano.
A oferta é sedutora. Magdala conheceu, formou e iniciou muitos dos sacerdotes dos Crestanos, muitos devem a ela a vida. Magdala oferecia mais do que a saída da clandestinidade das catacumbas, mas o inicio da construção de templos Crestanos e um caminho mais largo, não somente para a conquista de mais riquezas, mas também a conquista de mais almas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O julgamento de Saulo

A velhice é o menor dos problemas de Tibério César. Mesmo tendo sucesso em debelar a guerra civil na Judéia, a cada dia chegavam boatos vindos das vilas romanas sobre o aparecimento de novas comunidades de Crestanos e ele não duvida de que hajam comunidades desta seita em plena Roma.
A presença do renomado líder dos Crestanos, Saulo, no cárcere, aguardando julgamento, tinha um efeito oposto ao de intimidar e refrear as atividades desta seita ou de evitar mais conversões. Os senadores postergavam a audiência por que não se sentiam em condições de julgarem Saulo, uma vez que ele pessoalmente não havia se envolvido na luta armada e nem havia testemunhas de que ele tivesse cometido alguma infração da lei romana. Não havia como o Senado Romano julgá-lo e condená-lo unicamente pelo crime de pregar abertamente a conversão aos Romanos.
A situação é uma afronta ao poder de César, pois Saulo usa de suas prerrogativas como cidadão romano para receber visitas e o prefeito do cárcere pede constantemente por mantimentos e reforços por causa da grande quantidade de pessoas que vão ao cárcere para ouvir suas pregações. A chegada de Magdala, cheia de segredos e poderes, se a apresentasse às pessoas certas talvez fosse o suficiente para forjar um julgamento, para dar uma certa legitimidade à execução de Saulo.
- Excelso César, vós mandastes chamar-me?
- Vinde, vamos ao Senado. Vejamos se teus poderes podem convencer os senadores a trabalharem.
Magdala seguiu a César até o Fórum do Senado, sabendo bem que a intenção de César era calar a Saulo, o que era vantajoso para ela. Sua apresentação ao Senado seria um prêmio extra que ela saberia usar no momento certo.
- Senadores do Povo Romano. Ainda temeis trazer a este fórum o rebelde que zomba de Roma, desviando nossa juventude com suas pregações? Eis diante de vós aquela que tem poder de vencer o profeta de Crestos.
- Pois que se nos apresente esta mulher. Que ela diga e mostre o que pode fazer contra o rebelde.
Magdala impressiona os senadores com a história não apenas de Saulo, mas de Crestos, Yeshu e Yheshua, desde suas origens envolvendo os mesmos grupos messiânicos que César havia debelado na Judéia.
Sem demora, os senadores mandam buscar Saulo para responder às acusações que pendiam contra ele. Para trazer Saulo amarrado de seu cárcere até o Fórum do Senado foram necessárias duas coortes para controlar a manifestação dos populares. Também foram trazidos um representante de Pilatos e o governante da cidade de Roma, para que o processo não ficasse nulo.
O julgamento teve inicio e as questões que resvalavam em questões referentes ao conteúdo das pregações de Saulo geralmente causavam um impasse e Saulo sabia conduzir suas respostas nesse sentido, pois sabia que nenhum senador romano conseguiria vence-lo nesse terreno. Mas a altivez de Saulo cessou quando o Acusador Público do Senado chamou Magdala para depor a respeito das alegações de Saulo, exatamente com o intento de oficializar as falhas da doutrina.
O Acusador Público com isso pode caracterizar a má-fé de Saulo em suas pregações e que, pelo fato de a fazê-la publicamente, ensinando um credo que afronta a religião oficial de Roma, é o mesmo que afrontar as leis de Roma, que é o que caracteriza os rebeldes e, portanto, uma ameaça ao Povo Romano punível com a pena máxima.
Saulo não tinha mais argumentos. Ele sabia que não tinha defesa contra o testemunho de Magdala, sobretudo pelo vínculo que tinham, mas seus seguidores guardarão o nome com o qual ele se dirigiu a Magdala como a Mulher Escarlate.
- Cumpriste com tua parte e satisfez nossas expectativas. Tu terás riqueza e poder.
- Excelso César, Saulo é apenas um homem, mas ficou o exemplo. Se quiseres controlar essa seita, é necessário não perseguir seus membros, mas assimilar seus líderes como parte de Roma.
Tibério César ficou intrigado com esse plano de Magdala e passou aos seus cônsules o assunto, que ficou guardado para o próximo César. Escondido de Tibério César acontecia a corrida pela sucessão.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Os caminhos antigos

Em Anglia, na Bretanha, Ketar aprecia um bom desjejum enquanto se diverte em ouvir o discurso de Andros que, entusiasticamente, explicava as crenças e práticas das bruxas.
Ciente de que a reação de Andros é normal, mas que a explanação dele causa desconforto nas bruxas por terem suas crenças e práticas serem expostas a uma pessoa desconhecida, segundo a interpretação de terceiros, Ketar resolve provocar e testar Andros.
- Diga-me Andros, qual a finalidade em lançar o círculo?
- Para criar um espaço sagrado.
- Mas por que é necessário consagrar a terra se esta é sagrada por ser o corpo da Deusa?
- Isso é feito para nos preparar para estar em comunhão com os Deuses Antigos.
- Por que, para fazer isso, se evoca os Guardiões das Torres se não há torre alguma aqui?
- Os Guardiões das Torres representam as quatro colunas que sustentam o mundo.
- Este é o significado mais simples. Mas todo o universo conhecido provém não de um, mas de quatro pontos de origem. Estas origens tem ligação com os Pilares Gêmeos. Por que estes enfeitam as entradas dos templos?
- Os Pilares Gêmeos são a Luz e a Sombra, o Deus e a Deusa, o Verão e o Inverno.
- Tu deves conhecer os Gêmeos como Castor e Pólux e, de onde venho, são chamados de Jacim e Boaz. Mas isso oculta a Era de Gêmeos, a época em que os Deuses Antigos se aproximaram deste mundo, trazendo consigo as sementes das almas. Antes, os Deuses Antigos eram adorados com sacrifícios de touros sagrados. Tu podes dizer por que?
- Os touros sagrados representam o poder, a força e a vitalidade que os Deuses Antigos trouxeram para este mundo.
- Também marca a Era de Touro, momento em que os Deuses Antigos e a humanidade começaram a se relacionarem. Entretanto no Egito, antes de Osíris, era adorado o Deus Carneiro Athon. Tu podes dizer por que?
- O Deus Carneiro Athon foi adorado porque a humanidade percebeu o poder do sol para o cultivo.
- Também a Era de Áries foi o momento em que surgiram os reis sagrados, as cidades urbanizadas e a mudança da humanidade de caçadores-coletores para cultivadores-criadores. Tu podes dizer por que a humanidade passará por uma era de sombras?
- Por causa do desejo da humanidade em ter um só Deus.
- Será que tu ainda não percebeste que isto também está marcado por uma constelação? Nós estamos na Era de Peixes, uma era de contendas e conflitos que durará dois mil anos até a Era de Aquário, quando a humanidade terá que escolher entre seguir em frente ou ser exterminada por causa das crenças estabelecidas.
Andros fica confuso pensando no por que as eras, que são marcadas por constelações, influem tanto na origem das coisas e na história da humanidade. Ketar ri do esforço racional de Andros, enquanto as bruxas ficam mais aliviadas em ver que Ketar é uma delas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A ascensão de Magdala

Quando Magdala chegou em Roma, ela ficou encantada com a beleza da Cidade Eterna e a incrível diferença de urbanização. Acostumada às ruas e construções precárias que se sobrepunham-se umas às outras em Jerusalém, ver alamedas amplas e construções totalmente planejadas mostrava a ela porque Roma ficou tão grande e poderosa. Em todo lugar, palácios, monumentos e estátuas de Deuses romanos em mármore competindo com as vestes, maquiagens e penteados das mulheres romanas. Roma era, sem dúvida, um outro mundo.
A coorte que levava Magdala parou diante de um belo e imponente pórtico, onde ela pensava ser o palácio de César. Mas como em toda civilização organizada, há um protocolo a ser seguido, de forma que ela primeiro teria que falar com o Comandante Geral da Guarda Pretoriana, um Ministro da Guerra da época, que também comandava a elite da elite do Exército.
Ao entrar, ela foi conduzida até um santuário dedicado ao Touro Sagrado Attis, onde o Comandante Geral fazia suas libações a Mithra.
- Então tu és uma sacerdotisa e súdita de César?
- Sim, eu sou e minha religião é mais antiga que Roma.
- Se tu és uma mulher sagrada e de intenções puras, para ver César deve postar tua mão na fronte do Touro Sagrado, sem deixar mácula.
Os legionários que haviam conduzido Magdala ficaram na expectativa, pois aquilo era um pedido impossível, sobre-humano. Acabaram de chegar de uma longa viagem, expostos ao sol, poeira e umidade. Todos davam como certo de que Magdala deixaria a marca de sua mão no alvo mármore do Touro Sagrado.
Magdala ri e descansa a mão na testa da estátua do Touro Sagrado. A estátua move-se e a para dianteira direita se dobra em reverência. Sem demora, o Comandante Geral ordena aos legionários que a levem a César.
- Chamai o escultor. Digam a ele para incluir uma estátua de Mithra ao lado de Attis.
A estátua, que era apenas de Attis, virou a cena da imolação deste por Mithra, um padrão que se repetiria nas esculturas sacras dos templos mithraicos.
Diante de César, Magdala é recebida com indiferença. Tibério César está constantemente sendo visitado por inúmeras sacerdotisas, de forma que ele ficou enfadado com pessoas comuns e os cargos religiosos que estas julgam possuir. Ele pede com as mãos para Magdala se aproximar, sem interromper a conversa que tinha com uma vestal.
- Diga-me, vestal, o que vês desta mulher?
A vestal não ousa olhar para Magdala, apenas abaixa a cabeça e estremece.
- Excelso César, a nós apenas é dada a habilidade de ver o futuro, nós não controlamos os espíritos que nos apossam. Mas eis que diante de vós está aquela que controla os espíritos.
César dispensa a vestal e pede a aproximação de uma sacerdotisa de Diana, que também não ousa olhar para Magdala.
- Diga-me, serva de Diana, quais os espíritos que trabalham para esta mulher?
- Excelso César, embora nós dominemos e evoquemos os espíritos, nós o fazemos em nome de Diana. Mas eis que diante de vós está aquela que invoca os Deuses Antigos.
Sem se abalar, César dispensa a sacerdotisa de Diana e pede a aproximação de uma sacerdotisa de Ísis, que também não ousa olhar para Magdala.
- Diga-me, serva de Ísis, quais os deuses Antigos que ouvem as invocações desta mulher?
- Excelso César, embora nós invoquemos os Deuses Antigos do Egito, mesmo estes prestam reverência aos Deuses Primordiais. Eis que diante de vós está aquela que conhece os segredos dos Deuses Antigos.
César não se perturbou, dispensou a sacerdotisa de Ísis para só então dirigir-se à Magdala.
- Diga-me, sacerdotisa, quem são teus Deuses e o que estes reservam para César?
- Meus Deuses só podem ser chamados dentro de uma cerimônia presenciada por iniciados. Mas posso vos dizer, César, que a Coroa de Roma terá mais dois herdeiros para depois ser disputada por mãos ambiciosas.
Tibério César ouvira antes este vaticínio das vestais e outras sacerdotisas. Mas vendo que Magdala talvez tenha segredos e poderes desconhecidos, ele resolve mantê-la ao seu lado até achar uma forma de usá-la para seus propósitos.

sábado, 4 de agosto de 2007

O exílio das sacerdotisas

Lapidatus marcha lentamente em direção a Esmirna com sua coorte para cumprir as ordens de Tibério César, que estendeu suas ordens para a Judéia a todo o território do Império Romano.
Como cada província é governada por pessoas nomeadas por César e administradas com a ajuda de reis locais que cumprem suas funções de forma parcial, Lapidatus sabe que podia ir sem pressa até Esmirna, até que o governante da província da Assíria fizesse o referendo, dando permissão para a ação de Lapidatus na cidade.
Eleaser, em seu caminho de Siloe de volta a Esmirna viu o acampamento dos romanos e pressentindo as intenções deles, alertou a todos. Roe também pressentiu a presença de seu irmão de armas e logo mobilizou a todos do templo para a fuga.
As sacerdotisas Ketar e Ceres foram encontradas prontas e arrumadas. Andros ajudou nos preparos, pegando os melhores camelos e encaminhou todos para Ephesus, onde ele sabia que encontraria ajuda.
Quando Lapidatus entrou no templo de Ishtar em Esmirna, nada pôde fazer senão observar seus legionários destruírem as estátuas sagradas e queimassem documentos preciosos.
quilômetros de distância, Andros olhou e viu as colunas de fumaça que se erguiam de Esmirna, em um horrível testemunho dos templos que forma invadidos, destruídos e queimados pela fúria dos Romanos.
Ao chegar em Ephesus, as pessoas estavam em pânico com a chegada iminente dos Romanos, por todo lado pessoas e sacerdotes buscavam qualquer meio de fuga, tentando levar o máximo de riquezas. Sentindo que seria muito difícil conseguir fugir com tanta gente apavorada, Andros levou todos até a escola de mistérios onde ele teve suas primeiras aulas sobre a Religião Antiga. Ali, ele encontrou colegas e professores esperando a cegada dele com as sacerdotisas.
Seguindo caminhos conhecidos apenas por iniciados, o grupo chegou até um porto oculto, onde uma grande nau os aguardava. A bordo da nau, o capitão dela era também um iniciado e conhecido de Andros.
- Meu irmão na Arte, eu preferiria que nosso reencontro se desse em situação melhor, mas para onde vamos?
- Vamos para a Bretanha.
Enquanto isso, no outro extremo, na periferia da Judéia, nas colinas de Kuran, a sacerdotisa Magdala acompanha o cerco dos Romanos aos acampamentos, as prisões, destruições e execuções de qualquer um que se negasse a renunciar o culto a Yeshu e não prestasse reverência a César. Ela tenta sentir a presença de Yheshua entre tantos que tentam fugir em direção a outros acampamentos ou sair das colinas sem sucesso.
Esperta, a sacerdotisa Magdala permite apenas que fiquem em seu grupo gentios, Gregos e Romanos, que a ajudavam a manter os Judeus longe. Quando os Romanos se aproximaram dela, ela fez questão de se apresentar como a sacerdotisa responsável por aquelas almas.
- Vós sois Judeus?
- Não, apenas gentios, Gregos e Romanos como vós.
- Vós sois Nazirenos?
- Não, nem Crestanos, nem Zelotes. Nós somos humildes servos de César e evocamos a proteção de César aos súditos dele.
- Sendo assim, devemos levá-los sob custódia até Pôncio Pilatos, onde vós podereis demonstrar a devida reverência a César.
Diante de Pilatos, a sacerdotisa o encantou com seus olhos e, em troca de proteção a seus aprendizes, deitou-se com ele, tornando-o um de seus iniciados.
Com as graças de Pilatos, deslumbrando-o com promessas de grande poder e riqueza, a sacerdotisa Magdala é enviada para Roma, para falar com César em pessoa. Tibério César estava muito disposto a ouvir qualquer um que o ajudasse a acabar com a seita dos Crestanos.
Durante a viagem, a sacerdotisa Magdala calcula que terá de lidar com as comunidades de Crestanos em Roma orientadas por Saulo, com as sacerdotisas dos cultos oficiais do Império Romano e com as intrigas da corte romana.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Disputas pelo poder

O plano da sacerdotisa Magdala ao induzir o ingênuo Yheshua a encaminhar Saulo até Ananias escondia o desejo intimo dela de fazer a Antiga Religião sobreviver dentro do novo culto de forma velada e com isso garantir sua autoridade como sacerdotisa, dentro da estrutura sacerdotal.
Ananias era um dos poucos sobreviventes dos Nazirenos que fizera parte dos círculos internos da então extinta Ordem de Melquisedeck e certamente foi iniciado nos Mistérios Antigos por alguma sacerdotisa, de forma que ele, mais que qualquer outro, a ajudaria a ensinar e treinar Saulo dentro do culto dos Crestanos que mistura o messianismo judaico com o gnosticismo grego e com os Ritos Ancestrais.
A sacerdotisa Magdala sabia que teria dificuldades com Yheshua, pois ele se considerava seu esposo, apenas por terem compartilhado o leito juntos. Logo o rabino descobriria que muitos o precederiam, tantos quantos fossem preciso, até que a sacerdotisa Magdala deitar-se com César e dar a ele um herdeiro.
Assim como outrora, reis sagrados foram feitos dentro dos Ritos Ancestrais, Yheshua viria a descobrir o destino final deles e a sacerdotisa Magdala não hesitará em cumprir seu oficio sagrado.
Para que ela pudesse treinar Saulo pessoalmente, ela mandou Yheshua continuar suas pregações públicas. Ananias a conhecia e a temia, o pobre Saulo foi exposto à doutrinação da sacerdotisa Magdala do que seria o culto a Yeshu Cresto. A doutrina foi tão bem recebida que ela não demorou muito a inicia-lo, mas a reação de Saulo não a agradou mesmo assim, mesmo vendo os sinais de que Saulo era misógino, ele seria sua ponte até Roma, então mandou-o peregrinar por toda a Judéia e cidades gentias para pregar a Boa Nova.
Conforme Saulo passava pelas cidades onde haviam comunidades de Crestanos, sua mensagem provocava reações, pois cada comunidade cresceu sendo formada apenas com partes da doutrina ou com rituais fragmentados.
Essas reações chamaram a atenção dos reminescentes dos grupos messiânicos. As mensagens de Saulo ajudou a despertar o desejo dos Judeus de reconstruir o Reino de Judá, fez com que esses grupos descobrisse a existência dos demais e do novo culto.
Cada líder das comunidades Crestanas, bem como dos grupos messiânicos, iniciaram uma disputa pelo poder, através de discursos, trocas de correspondências, cada uma defendendo seu próprio ponto de vista sobre temas doutrinários, opiniões muitas vezes contraditórias e irreconciliáveis.
A sacerdotisa Magdala contava com essa reação. Homens quando tomam o poder tendem a querer manipular este para seus próprios interesses, a fim de aumentar seu próprio poder e influência. Não demorou para os poucos apóstolos que seguiam a Yheshua, Yoachim ou Yeshu aparecessem para arrogarem a si o conhecimento verdadeiro da mensagem e missão do Messias. A disputa entre os grupos provocaram conflitos armados, ocasionando a interferência dos Romanos, o que ajudou a reascender a vontade de independência entre os Judeus, que estavam muito irritados com a exigência de Roma para que fossem feitos cultos a Tibério César.
Focos de rebeldes que se chamavam Zelotes apareceram, a eles juntaram-se os grupos messiânicos para iniciar uma guerra civil total contra Roma. Tibério César mandou então que suas coortes invadissem e devastassem toda a Judéia, incluindo todo e qualquer grupo ou templo que não aceitasse sua submissão a Roma e não cultuasse a César.
O Segundo Templo de Salomão foi destruído, os Judeus foram dispersos por várias regiões e nessas terras desconhecidas eles conhecerão a exclusão, a perseguição e a segregação. Tudo por que um dia o povo Judeu sonhou em reerguer o Reino de Judá até que se tornassem maiores do que o Império Romano.