quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A enfermidade da alma

A cidade de Aquiléia tem fama por seus lagos terapêuticos e os Romanos souberam usar bem das águas termais para fazer da cidade um refugio dos patrícios romanos abastados e um centro de tratamento médico. Por causa disso, Aquiléia também se tornou a última esperança de muitos moribundos e um santuário de mendigos.
Andros viajara por muitos lugares e convivia com a existência de servos e escravos, mas mesmo o menor destes ainda resguarda algo de dignidade que falta aos moribundos e mendigos. Ao entrar em Aquiléia, Andros teve a impressão de estar entrando na enseada do próprio Estige, diante da concentração de tantos males.
- Saudações, nobres peregrinos. Permita-me que seja vosso guia nessa terra abandonada pelos Deuses.
- Decerto os homens abandonam os Deuses na fortuna, mas sabem acusa-los na fatalidade. Pois não é da terra de Aquiléia que os Deuses fazem brotar o bálsamo para tantas enfermidades?
- Decerto os homens por seus atos encontram a fatalidade, mas há aqueles que receberam por herança e estes tem o que se queixar dos Deuses.
- Estes são vitimas da vaidade humana que, em desafio aos tabus, une sangue debilitado, gerando uma prole enferma.
- Meninos, sem briga! Pouco sabemos do destino e menos ainda do mundo dado pelos Deuses. Nós somos uma parte da natureza, não seu ponto central.
- Eu vejo que tua senhora é mais sensata. Então eu refaço meu convite e vos peço que me digam a que viestes a Aquiléia.
- Nós estamos em busca dos seguidores da Antiga Religião, tal como nós mesmos somos iniciados.
- Andros? Jovem mestre Andros, tenha piedade deste teu velho colega da Arte!
Andros se volta para o local onde a frágil e velha voz o chamava, vindo de um corpo retorcido e lacerado por alguma enfermidade.
- Sorano? O que aconteceu contigo?
- Ah, jovem mestre! Eu saí de Ephesus como tu em busca das escolas de mistérios pelo mundo conhecido. Na Etrúria, eu conheci os cultos de Diana, de Juno e de Deméter. Ali eu ouvi falar dos cultos na Gália e nas partes bárbaras desse continente. Em Belarum eu encontrei o legitimo culto da Religião da Deusa, tal como era no tempo dos ancestrais!
- Certamente tu não falas sério. Nossos ancestrais tinham costumes e credos diferentes dos nossos, mas nunca existiu tal Religião da Deusa.
- Ah, jovem mestre! Tu ainda pensas com a mesma teimosia daqueles tradicionalistas radicais de Ephesus! Evidentemente não leste a Apolônio de Tiana.
- Eu li e vi a velha mania de ver no passado uma lenda dourada que não condiz com a realidade. Nossos ancestrais tinham muitas culturas e credos, falar em um culto primordial de uma Deusa e querer tornar este o único e verdadeiro culto original é um absurdo.
- Ah, jovem mestre! Tu demonstras que fostes bem doutrinado pelo sacerdócio patriarcal. Tu deverias ler a Dioscoros.
- Quem é essa criatura?
- Um respeitável Alto sacerdote da Religião da Deusa, que conhece muitos Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas, de várias escolas de mistérios. Ele tem tornado a Religião Antiga mais acessível e atualizada, possibilitando que todos possam ser iniciados sem aquelas formalidades antiquadas.
Andros não conhecia tal pessoa nem ouviu antes tais absurdas alegações e a simples hipótese dessa simplificação fazia seu sangue ferver, pois lembrou-o do farsante Magus Augustus. Em locais onde não existem escolas de mistérios confiáveis ou a presença de Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas ligados às tradições é muito fácil aparecer farsantes se fazendo passar por sacerdotes que, com um habilidoso discurso agradável, consegue convencer e converter o público para suas doutrinas espúrias.
- Eu não estranho teu estado, Sorano. Tua traição ao que há de mais sagrado e divino é a única enfermidade que tens. Eu muito me espanto que justo tu, um iniciado mais velho que eu, pôde sucumbir a um discurso sedutor mas vazio de sentido.
- Ah! Tu dás muita importância a essas velhas cerimônias de iniciação! Tu não leste Apuleio que mostra como a Deusa se manifesta mesmo a um não iniciado?
Andros não agüenta tanta loucura. Evidente que seu velho amigo foi induzido ao engano pela interpretação do farsante, usando o texto de Apuleio para sustentar tal delírio. Andros estava com uma resposta firme e cortante na ponta da língua, mas Ketar deu uma resposta mais sensata.
- Tolo! Tu crês realmente que um ser humano, por mais habilidoso que seja na escrita, pode pôr a termo todos os Mistérios Antigos?
- Quem és tu para contestar as palavras de Dioscoros?
- Eu sou uma Alta Sacerdotisa. Se tu não discernes entre sacerdotes e pessoas comuns, como espera atestar a santidade de alguém?
- Ele merece respeito e reverência pelos anos de seu ministério.
- E por acaso tu verificastes tal experiência? Não, meu caro, nem a idade nem o tempo nos tornam respeitáveis. Senão deveria ser tu a ensinar a este Dioscoros. Nenhum sacerdote que se preza exige respeito pelo cargo que ocupa. A eficiência de nossos serviços é o que nos torna especiais. Tu achas mesmo que se eu fizesse questão de minha posição ainda estaria ao lado de Andros? Ele é ousado e atrevido, entretanto ele me agrada por ser inteligente e corajoso em manter suas opiniões.
O velho Sorano mostrava que se sentia afrontado, mas não conseguia pronunciar palavra alguma, como se sua língua tivesse um nó. Ketar seguiu adiante, enquanto Andros e o guia tentavam acompanhá-la.

Nenhum comentário: