segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A fera mostra as garras

Após alguns dias de viagem, Andros percebe que se aproxima mais uma vez de Lutécia, a Roma Gaulesa, um centro urbano que reúne em si o contraste constante que existe entre dominados e dominantes, demonstrando o surgimento de uma terceira cultura resultante dessa mescla.
Ali, gauleses conviviam com romanos, helênicos, descendentes de romanos, gauleses romanizados, gauleses helenizados e pessoas vindas de povos que ainda desfrutavam de sua condição de bárbaros.
Andros esperava ter algumas surpresas depois de ter passado um ano de sua última visita, mas foi Ketar que lhe chamou a atenção para uma surpresa inusitada.
- Andros, tu sabes de qual credo pertence aquele templo naquele monte próximo? Eu não conheço aquele símbolo.
Apesar da distancia considerável para olhos normais, Andros tem uma excelente acuidade visual e não reconheceu que credo seria daquele templo enfeitado com uma cruz de pedra encravada com efeitos que recordavam a arte dos Celtas. Andros pôde apenas dar de ombros e seguir persignado na direção do estranho templo, certo de que Ketar quer investigar que tipo de culto ele representava. Esta o segue silenciosamente, mas consciente de que se divertirá muito com esse encontro.
Não muito longe do templo, um homem vestido com uma túnica semelhante às usadas pelos sacerdotes mithraicos saúda efusivamente o casal de viajantes.
- A paz do Senhor, irmão e irmã.
- Meu bom senhor, nós somos viajantes que seguem através da Gália os Caminhos Antigos, mas nós não reconhecemos teu sinal de fé. Pode nos dizer a quais Deuses pertencem este templo?
- Nobres peregrinos, graças à misericórdia do Senhor vós viestes até nós em bom tempo. Nós somos uma missão que veio em nome do Senhor Yeshu Crestos exatamente para libertar as pessoas da influência maligna do Paganismo. Tu, tua esposa e filho gostaríeis de receber a Boa Nova?
- Meu bom senhor, isto tudo nos é novidade. Nada sabemos do que é Paganismo ou esta Boa Nova.
- Eu espero que tu não te ofendas, mas vós sois pagãos, uma vez que estais ainda presos a antigas superstições que os faz adorar imagens de falsos deuses.
- Eu devo entender então que tu conheces um Deus verdadeiro.
- Oh não, cara senhora, não um Deus, mas o Senhor, o Criador de todas as coisas.
- E quem é o Senhor e a Boa Nova que tu trazes?
- A Boa Nova é que Yeshu Crestos, o Filho de Deus, teve compaixão de nós, se humilhou na forma de homem e se sacrificou para nos salvar do pecado e termos a Vida Eterna.
- E como foi que nos tornamos vítimas do pecado?
- Todos nós nascemos com o pecado, desde a transgressão de Adão, o pai de todos os homens, por causa da tentação de Satanás.
- Todos? Até mesmo meu filho de três anos?
- Certamente! Muito embora, pela tenra idade de teu filho ele ainda tenha o privilégio da inocência carnal.
- Eu estou certa de que não tenha sido submetida pelo pecado. Como posso querer ser salva se nada conheço do pecado?
- Minha senhora, o pecado consiste em viver neste mundo conforme as inclinações da carne e se rebelar contra as Leis do Senhor.
- O que há de ocorrer conosco se não recebermos a salvação?
- Após a morte física, a segunda morte, a espiritual e a senhora irá passar a Eternidade no Inferno.
- Isso é muito diferente do credo oficial. Como o Imperador reage ao saber que adoras outro Senhor?
- O Senhor tocou de forma tão poderosa ao Imperador que nos foi dada a graça de sair da clandestinidade e construir este templo de Deus, em reconhecimento à unção dada pelo Senhor que tornou César Imperador.
- Tu és gaulês, não é?
- Eu nasci carnalmente na Gália, mas sou filho carnal de um romano com uma grega. Entretanto, nada disso importa mais, pois eu renasci pelo batismo no Senhor. Tu, teu filho e esposo são igualmente bem vindos, independente de quem sois ou de onde viestes.
- Tu dizes que estás em missão. Quem te enviou?
- O Senhor nos enviou ao dizer ide e pregai o evangelho a toda criatura. Mas o Senhor certamente instruiu a Suma Sacerdotisa Magdala de Roma que nos tem ajudado pela imensa bondade e santidade dela.
- Que coincidência meu querido! Nós estamos justamente indo a Roma visitar Vossa Santidade!
- Eh...sim...estamos.
- Graças ao Senhor! Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe!
Mais para frente, em uma distância segura, Ketar desanda a dar fartas gargalhadas. Andros não via graça alguma no evento, mas via com preocupação a presença desse novo credo.

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