segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A força de Bran

Após as devidas despedidas e ultimas recomendações, Ketar vê todo o séqüito que a havia servido e seguido por tantos anos partir de volta a Esmirna. Ela respira fundo e embarca em um navio menor com Andros, pronta para descobrir todo um novo continente que certamente abrigava muitos credos que se originaram da Religião Antiga.
Ela espera, nos anos que ainda lhe restam, não só preservar e coletar o máximo que puder dos credos locais, mas também de criar Bran, seu filho, como um rei sacerdote sagrado que terá a difícil tarefa de passar às próximas gerações a tradição preservada.
Desembarcando na Gália, não muito longe da costa da Armórica, Ketar foi levada por Andros até um círculo de pedras erigidos por mãos de ancestrais desconhecidos, mas que eram usados por druidas.
- Saudações, nobres druidas. Nós somos peregrinos que seguem os Caminhos Antigos e gostaríamos de compartilhar convosco vossa sagrada cerimônia.
Os druidas olharam-se entre si desconfiados. Felizmente Andros era razoavelmente conhecido pela Gália e certamente tinha fama por sua ação na Lutécia.
- Seja bem vindo em nosso meio, jovem peregrino. Mas é nosso costume deixar as mulheres cuidarem de outros afazeres fora do círculo.
Andros avança com receio da reação de Ketar, mas surpreendentemente ela se junta às mulheres e crianças que ficam acampadas às margens do círculo de pedras, preparando o banquete que será servido após a cerimônia. Andros pode se concentrar com outras preocupações, como o Rito Ancestral.
Mesmo de longe, Ketar acompanha a cerimônia dos druidas com curiosidade. Os druidas colhem as ervas, cortando-as meticulosamente com suas pequenas foices de bronze, mas com completo descuido e desrespeito à natureza. As ervas eram esquartejadas, maceradas e juntadas nos caldeirões, em combinações perigosas. Boa coisa não sairá desse trabalho.
No momento da invocação, os druidas chamam por Lugh, mas não invocam Deusa alguma, não evocam os quadrantes, não lançam o círculo, não inscrevem os símbolos antigos no chão. No momento em que é esperado o Rito Ancestral, os druidas se contentam em simular simbolicamente a união do Deus e da Deusa com a inserção de uma adaga em um cálice, mas para o espanto de Ketar alguns dos druidas realizam entre si o Rito Ancestral.
Nesse breve instante de distração, um garoto enciumado com a atenção que Bran recebia das mulheres do acampamento esbarra em um suporte, fazendo cair sobre ele o braseiro. As mulheres correm apavoradas para salvar o bebê e dar uma surra no valentão, mas para o espanto geral, Bran segura o braseiro, sem que este o tivesse machucado pelo calor ou peso.
Isso deu o que conversar no banquete após a cerimônia, mas Andros achou por bem explicar a Ketar o que ela estava para testemunhar mais à frente.
- Ketar, a Religião Antiga se manifesta de formas muito diferentes neste mundo.
- Eu percebi. Talvez em algum lugar os caminhos se dividiram, novos caminhos foram formados ou a insatisfação inventou atalhos. Mas o Rito Ancestral entre homens ou mesmo entre mulheres perde todo seu sentido que é a sagração da fertilidade. Talvez esse método funcione para esses druidas, talvez consigam um estado alterado de consciência. Mas também pode ser uma forma de reforçar a hierarquia, ou simplesmente uma desculpa para sexo gratuito.
- Não deve demorar para que nos deparemos com bruxas matriarcais, vigaristas se fazendo passar por sacerdotes ou mesmo círculos que adoram estranhas egrégoras.
- Não tente explicar a experiência. Tu, como iniciado, deverias saber que a experiência deve ser vivida, não teorizada.
- Eu me preocupo com o efeito que isso possa ter em Bran.
- Ah, meu bebê sabe se defender, não é, querido?
Bran dá fartas risadas no colo de Ketar e Andros vê um quadro tão humano de mãe e filho que fica difícil lembrar que, diante dele, está uma poderosa sacerdotisa e um futuro rei sacerdote.

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