segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O comércio da Arte

Ao se aproximarem de Ligúria, Andros e Ketar percebem um clima de alegria e regozijo. A cidade se prepara para o Festival da Colheita, onde camponeses e provincianos podem agradecer aos Deuses pela abundância que estes garantem todos os anos na primavera e, ao mesmo tempo, rogar para que o inverno não seja rigoroso demais.
Diversas tendas se espalham pela praça central da cidade para acolher e proteger, não somente os viajantes, mas também os muitos sacerdotes vindos de muitas partes da Gália. Não faltavam adivinhos, oráculos e profetas competindo por clientela e espaço nas poucas tendas que ainda restavam.
Inevitavelmente, muitas tendas e bancas eram armadas precariamente ao redor da praça e pelas ruas da cidade com um frenético comércio pronto a atender as necessidades de visitantes e sacerdotes, com suprimentos de velas, incensos, ervas e estátuas.
Em tal reboliço, tudo que Andros pensava era em encontrar alguma estalagem onde eles possam comer, beber, banhar-se e dormir. Ketar, por seu lado, procurava com quem se divertir. Uma jovem mulher em trajes curiosos pôde atender aos anseios de ambos.
- Nobres peregrinos, vós pareceis cansados e perdidos. Se me perdoam a ousadia, eu gostaria de ajudá-los. Em que vos posso servir?
- Gentil senhorita, nós procuramos por uma hospedaria para nos alimentar, limpar e dormir.
- Eu pressinto que vós sois confiáveis. Por favor, me sigam até o nosso Centro Espiritual, onde vós podereis alimentar o corpo e o espírito.
Andros e Ketar desmontam e seguem ao lado de seus cavalos a enigmática figura por entre as vielas da cidade até uma hospedaria com a entrada toda decorada com símbolos de magia cerimonial. Ketar solta uma risada discreta, levando a mão aos lábios para se segurar, enquanto Andros tenta entender aquela disposição tão confusa de símbolos.
Dentro da hospedagem, um velho magro e desconfiado foi recebê-los com uma insensível frieza.
- Cada quarto custa quarenta moedas de bronze por dia.
Ketar mexe em seu alforje e entrega na mão do velho três moedas de ouro.
- Eis tua paga. Queremos um bom quarto, banho quente, vinho e comida.
O velho arregalou os olhos e ficou de queixo caído enquanto os olhos da moça brilharam com ganância.
- Calista, acompanhe o casal até a suíte real.
A caminho do luxuoso quarto, a mulher revela suas verdadeiras intenções para Andros.
- Meu bom senhor, por trinta moedas de bronze eu posso me deitar com tu e tua esposa e vos proporcionar as delícias desfrutadas pelos Deuses nos Ritos Ancestrais.
Ketar se enrosca no braço de Andros e encosta a boca no ombro dele para segurar o riso. Verdade que as sacerdotisas recebiam em seus hieródulos as ofertas dos penitentes, para que estas realizassem os Ritos Ancestrais com os ofertantes, mas nenhuma vinha se oferecer de forma tão despudorada.
- O que me diz, querido? Ela é jovem o suficiente para satisfazer os Deuses em nosso leito?
- Eh...eu creio...eu acho que para isso precisamos estar devidamente preparados.
- Muito justo! Felizmente os Deuses nos fizeram nos encontramos. Eis que o proprietário desta hospedagem é um mago sacerdote e certamente concordará em prepará-los.
- Oh! Não é excitante, querido? Enfim nós encontramos um mago sacerdote!
- Sim, sim! Verdadeiramente, a Fortuna vos sorriu. Por quinze moedas de bronze eu posso agendar um encontro com Magus Augustus para amanhã de manhã.
- Pague a garota, querido!
Andros contorce o rosto e entrega com reservas as últimas moedas que tinha em seu alforje. A mulher parte correndo enquanto Andros fecha a porta para então se queixar com Ketar, que confortavelmente se ajeitava na cama.
- Eu não sei o que pretende, Ketar, mas não me envolva em seus jogos.
- Não se preocupe, querido, nada irá acontecer amanhã, mas não garanto nada hoje a noite.
Ketar lança um olhar lânguido a Andros que atinge seus instintos, provocando uma reação instantânea. Por alguns segundos, Andros imagina que esta não é uma situação real, nem se trata de um teste. Ketar, apesar de ser uma poderosa sacerdotisa, também é mulher que dispensa cerimônias para simplesmente desejar e ter um homem. Com cuidado para não acordar Bran, ambos se entregam ao prazer.
No dia seguinte, a esfuziante Calista foi até o quarto deles, juntamente com uma boa refeição matinal, para lhes dar as boas noticias.
- Eu consegui uma entrevista para vós com Magus Augustus. Ele os aguarda em seu escritório particular.
Andros e Ketar seguem Calista pelos corredores da hospedagem até uma austera sala feita de madeira de ébano entalhada com vários símbolos místicos. Assim que Andros entrou na sala, teve a clara impressão de que conhecia o homem que se apresentava como Magus Augustus e os olhos deste demonstraram que reconheciam a Andros igualmente.
- Saudações...saudações. minha discípula Calista disse que vós estais interessados em se preparar para poder adorar os Deuses pelos Ritos Ancestrais.
- Oh sim! Mas eu e meu esposo não dispomos de muito tempo e ouvimos dizer que isto pode levar anos!
- Minha senhora, tu certamente deves ter ouvido algum radical tradicionalista saudoso dos velhos tempos. Hoje em dia a Religião Antiga está acessível a todos e a maioria a pratica conforme a necessidade atual.
- E o que o senhor pode nos oferecer?
- Por uma módica oferta de trinta moedas de bronze, eu posso vos dar um pergaminho com a autentica cerimônia de iniciação na Religião Antiga, sem necessitar de sacerdotes.
- Oh! Mas isto é uma pechincha! Mas como seremos treinados para comemorar os Ritos Ancestrais?
- Isto dependerá de vossa disposição. Eu possuo uma farta biblioteca com vários pergaminhos contendo todos os segredos da Antiga Religião.
- Oh! Meu querido, não é uma boa notícia? Meu bom senhor, nós estamos dispostos a ofertar um baú com trezentas peças de ouro.
- Oh! Minha senhora! Por esta oferta generosa eu vos posso nomear Altos Sacerdotes, tendo apenas que se reportar a mim.
- Isso seria maravilhoso! Eu e meu esposo iremos até Roma e logo acertaremos as contas.
Ketar se enroscou no braço de Andros novamente e, da mesma forma que entrou na hospedagem, saiu sem delongas. Ambos montaram nos cavalos e partiram em direção de Aquiléia. Da mesma forma que fez ao sair de Lutécia, Ketar explode em uma franca gargalhada.
Andros então se recorda de onde conhecia o homem que se apresentava como Magus Augustus. Aquele era o mesmo jovem que ele havia desmascarado nas cercanias de Lutécia, antes que este tivesse cometido um crime. A vontade de Andros era voltar a galope a Ligúria e cortar a cabeça desse presunçoso, mas foi demovido por um simples toque da mão de Ketar em seu rosto.

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