quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Conspiração na Igreja

Galba, em poucas semanas, havia conseguido unificar a Religião Romana na península itálica. Ele teria que esperar mais um tempo até acertar os acordos necessários, para então dar início ao seu projeto nas províncias do império Romano.
A aliança entre as Igrejas e sua união com Magdala juntava em suas mãos a força da Guarda Pretoriana e o clamor da população. Para que seu plano fosse bem sucedido, ele teria que atrair a nobreza e seduzi-la com o poder e a riqueza que a Igreja podia oferecer.
A Religião Antiga resistia em Roma, em salões privados, em cerimônias escondidas, preservada por poucos dos velhos nobres. A helenização ajudou a criar um clima crescente de inadequação dos velhos ritos, mas a jogada de mestre foi o de utilizar o pensamento clássico para dar aos dogmas da Igreja uma fachada de lógica racional.
O plano se desenhava com clareza e precisão na mente de Galba, o que o tornava prudente e prático em cada passo tomado. A concessão do terreno no monte Palatino e a construção da Santa Sede foram calculadas para deixar a Igreja mais próxima do Palácio Imperial, para facilitar o comando de Galba dentro da Igreja, ao mesmo tempo em que diminuía a força de Magdala.
Apesar de Galba ser o Imperador de Roma e Sumo Sacerdote de Mithra, entre os Crestanos ele era considerado como mais um bispo subordinado à Suma Sacerdotisa, Magdala. Para remover Magdala desse trono, Galba teria que apoiar os bispos certos e comprar o apoio de outros, se não substituir ou matar os resistentes ao seu projeto de reestruturação da Igreja.
Tendo Magdala viajado para Bizâncio para transmitir aos bispos dos Crestanos a constituição da Igreja, Galba se aproxima do secretário pessoal de Magdala, o cardeal Lino, considerado o mais provável sucessor de Magdala.
- Saudações, Santo Lino.
- A paz do Senhor Yeshu Crestos, Excelso Augusto Galba César.
- Graças ao Senhor Yeshu e ao Senhor Mithra, Roma está em paz. Mas para que esta paz perdure, nós temos que ser fortes.
- O Senhor Yeshu não abandonaria seu povo, ele é a nossa força.
- Certamente. Mas o Senhor Mithra nos ensina que, muitas vezes, é preciso que nós tenhamos uma atitude. Deus, muitas vezes, espera que nós tenhamos a iniciativa.
- Eu não entendi. O que vós quereis dizer com atitude e iniciativa?
- Simples, meu caro. Roma está firme em seu curso por nossos esforços, coma benção de Deus. Antes, Roma esteve à deriva, porque os Césares se deixaram levar por seus apetites e fraquezas carnais, muitas vezes manipulados por suas mulheres, cortesãs e amantes.
- Então não temos mais com o que nos preocuparmos.
- Oh, não, engana-se meu caro Lino! A união de Roma depende da união da Igreja. Assim como Roma é conduzida por um Imperador, a Igreja deve ser conduzida por um Sumo Sacerdote. Assim como Roma não se sujeita mais aos caprichos das mulheres, a Igreja não pode mais se submeter a elas.
- Mas que absurdo! Todos nós somos irmãs e irmãos em Crestos que contribuem com a obra de Deus.
- E nós não discordamos do valor das mulheres consagradas a Crestos e Mithra. Mas as mulheres são mais frágeis, sensíveis, volúveis, portanto inferiores ao homem. As irmãs continuarão seu serviço, mas se submetendo à hierarquia da Igreja.
- Eu estou começando a vos entender. Realmente, algumas comunidades têm se direcionado perigosamente à heresia e à apostasia por causa da falta de disciplina. Infelizmente não podemos fazer nada, pois a Igreja deve obedecer a Suma Sacerdotisa.
- Sim, meu caro. Mas quando for o desejo de Deus de levar a Suma Sacerdotisa de nós, teremos que estar preparados para a sucessão dela. Se tu me apoiares na moralização da Igreja, tu podes contar com meu apoio para sua aclamação a Sumo Sacerdote.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A coroa e a cruz

Lapidatus e Portius chegam em Roma quase no fim do outono e admiram a cidade reerguida, mas ainda é possível ver pelos escombros o tamanho dos danos causados pelo incêndio. Sem demora, seguem até o Quartel General da Guarda Pretoriana, cuja entrada estava bastante movimentada.
Conforme se aproximavam do portão para se identificar, notaram que haviam três filas sendo organizadas. A mais curta estava destinada aos centuriões, devidamente trajados com seus uniformes e insígnias. As duas outras estavam mais tumultuadas, pois estavam cheias de pessoas em trajes civis alegando serem centuriões que brigavam com indivíduos que mal pareciam romanos.
- Ave César. Nome, posto e ordens.
- Ave César. Lapidatus Marco Nuno, XIII coorte, atendendo a convocação do Imperador.
- Ave César. Portius Laico Sexto, XI coorte, atendendo a convocação do Imperador.
O guarda confere as ordens, os uniformes e as insígnias. O portão se abre e os dois centuriões são guiados por um oficial de pátio até o edifício central, onde fica o Ministro do Exército. Dentro do prédio, cerca de cem centuriões aguardam o Imperador.
Passadas algumas horas, a comissão de senadores e cônsules entram no salão de audiência para se pronunciarem aos centuriões ali reunidos.
- Nobres defensores de Roma, nós pedimos vossa atenção. Roma passou por muitas dificuldades nos últimos oito anos, dificuldades que causaram perdas de patrimônio e vidas preciosas. Para combater e evitar tais dificuldades, vós fostes convocados para receber vossas novas missões do Imperador em pessoa. Saudemos César! Ave, Galba César!
Lapidatus ouvira falar de Galba por seu comandante, nas curtas folgas que eles passavam em Damasco. Entre os generais da Guarda Pretoriana, Galba mostrava ser o mais ambicioso. Ele certamente conhecia os meios e as pessoas certas para galgar os degraus do poder e isto certamente o levou até o topo.
- Nobres centuriões, companheiros em armas! Muitos de vós nos conhece e esteve conosco em batalha! Nós vos convocamos por que o Império deve reconhecer vosso esforço e dedicação! Vós sereis promovidos a comandantes, com direito a administrar as vilas da circunscrição. Procederemos agora com a chamada e a entrega das missões.
Um adido passa a fazer a chamada, os centuriões vão até o Imperador, recebem o edital e o cumprimento de César. Portius recebe o comando da IX coorte, na província da Germânia e Lapidatus recebe o comando da VIII coorte, na província de Belarum. A promoção é comemorada e a administração das vilas é um prêmio extra que os podem tornar rico e abrir as portas da corte romana.
- Nós contamos com vossos serviços para que a paz e a união de Roma continue. Para isso, nós determinamos que haja no Império um só credo em Deus e em seus divinos filhos Mithra, Yeshu e César. Assim como há um Império, um César, devemos ter uma só Igreja. Vós nos aclamastes César para conduzir o Império. Que seja aclamada a Suma Sacerdotisa para conduzir a Igreja!
Magdala entra e imediatamente é saudada e reverenciada. Muitos dos centuriões presentes a conheciam ou ouviram falar dela e de sua manifestação no templo de Mithra. Galba contava com esse clamor e a influência de Magdala para iniciar seu plano ambicioso de tornar o Império Romano em um Império Sagrado e eterno, o que daria a ele a memória perpétua como sendo o Santo Restaurador do Império.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A consumação da aliança

Magdala olha estarrecida para os restos fumegantes do que fora sua igreja enquanto seu filho brinca com os tições carbonizados, desenhando no calçamento. Em sua volta, Roma vai se reconstruindo aos poucos, ao mesmo tempo em que enterra seus mortos.
A tragédia foi tão extensa que falta tudo em Roma. A prioridade é atender aos feridos, estocar comida, guardar água, restaurar as estradas. Os mortos são empilhados, falta espaço nos cemitérios e os crematórios não dão conta. As famílias não podem contar com o consolo dos sacerdotes, muitos fugiram assustados e outros morreram.
No meio desse cenário desolado, dois legionários se aproximam de Magdala.
- Vossa Santidade, o Excelso Augusto César solicita vossa presença.
- Eu não tenho mais minha igreja, só me restou meu filho.
- Isso não nos diz respeito, Vossa Santidade. Tome teu filho e nos acompanhe.
Fingindo ter um resto de dignidade, Magdala sacode a fuligem de cima do que restou de sua túnica sacerdotal, pega seu filho e segue altivamente os legionários até o palácio do Imperador. Na entrada do palácio, um grupo de pretorianos davam salvas e elogios a César. Estes, ao verem Magdala se aproximando, fizeram reverência e louvores a Suma Sacerdotisa.
Magdala entrou no palácio do Imperador, cujas paredes mantinham presas as almas das vítimas inocentes mortas pelos Césares que ali reinaram. Magdala foi conduzida até uma parte onde ficava o templo imperial de Júpiter, ali encontrando com o general Galba, outros generais da Guarda Pretoriana, senadores e cônsules.
- Seja bem vinda, Vossa Santidade.
- Nobres senhores, eu não mereço este título. Minha igreja foi arrasada e a sentença de César contra nós se espalhou tão rápido quanto as chamas que destruíram Roma.
- Nós vos garantimos, Vossa Santidade, que vosso cargo é vitalício e que vossa igreja será reconstruída em um local mais digno de vossa posição.
- Mas e quanto ao decreto de Nero César?
- Por isso que Vossa Santidade foi convidada a comparecer a esta distinta assembléia. Nós esperamos de vós que se junte na aclamação de Galba César e nos conceda a benção de Deus.
- Eu não entendo. O Império primeiro nos ignorou, depois nos tolerou, nos usou, nos descartou e de repente nos pede ajuda?
- Nós vos dissemos, Vossa Santidade, que nossa aproximação vos renderia alguma vantagem. O Império reconhece vossa contribuição para a união e a paz no reino.
- Oh bem...sendo assim, o que eu ganho por te aclamar César, Galba?
Galba ri ruidosamente enquanto a confraria espantada cochichava pela falta de formalidade e decoro de Magdala. Galba sabe que Magdala está ciente de que o apoio que ele tem dos generais, senadores e cônsules custou muito ouro e trocas de favores. Toda circunstancia e protocolo soa apenas atos de fachada para dar um ar de austeridade, mas a despeito das togas refinadas e dos altos cargos, todos ali eram salteadores.
- No devido tempo, Magdala! Eu quero primeiro consumar a aliança entre o Império e a Igreja. Tu ainda celebras os Ritos Ancestrais?
- Então é assim? Para compartilhar a coroa eu devo compartilhar meu leito? Assim seja.
Aqueles distintos e empertigados senhores enrubesceram com a vulgaridade de Magdala. Galba se diverte com seus aliados e admite para si mesmo que, em certas circunstâncias, o eufemismo é uma afetação inconveniente e é melhor deixar de lado o verniz da cultura. Por seu lado, Magdala sabe que nem isso garante seu futuro, pois assim como os verdadeiros senhores de Roma se cansam de seu César e o substitui por outro, ela é substituível. Magdala acompanha Galba até seu leito, sentindo apertar a corda no pescoço.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A ascensão de Lapidatus

Na fortaleza da legião romana sediada em Jerusalém, a notícia do incêndio em Roma chegou junto com o oficial do Império que portava um edital importante. O vigia do portão leu a ordem e acompanhou o oficial até o setor dos dormitórios, anunciando-o ao praefectus. A ordem era para chamar o centurião Lapidatus para receber o edital do Imperador.
Lapidatus abriu e leu o edital, onde ele era convocado a comparecer imediatamente no Quartel General da Guarda Pretoriana. Não havia mais detalhes, mas o centurião recorda sua careira iniciada há vinte anos atrás ao se inscrever na Legião Romana, como todo jovem macedônio fazia.
Lapidatus só podia imaginar que alguma coisa ocorrera ao comandante Tertius, que fora seu centurião nas campanhas nas províncias tuteladas da Pérsia e do Egito, com quem adquiriu mais do que experiência, ele ganhou uma sólida reputação. Com Tertius, ele seguiu uma boa carreira militar e pela linha de comando, ele é o sucessor de seu comandante.
Sem demora, Lapidatus segue até Tamar, onde pegará o primeiro navio mercante que vá em direção a Roma. Como bom conhecedor da rotina militar, ele não hesita de sair da Judéia, local onde exerceu o posto de centurião por sete anos, enfrentando salteadores e rebeldes. Foram árduos anos, resolvendo batalhas e escaramuças, mas seus braços acostumados à guerra não irão esquecer da grata lembrança daquela noite de luar na Galiléia quando, enfim, pôde desfrutar do êxtase dos Ritos Ancestrais que ele tanto ouvira falar na infância.
A viagem para Roma não será ocupada com angustia e agonia sobre o que lhe espera ao se apresentar diante do Ministro do Exército. A mente de Lapidatus está repleta com a lembrança da sacerdotisa Ketar e sua beleza indescritível. Uma lembrança tão vivida que ele sente a maciez daqueles cabelos, o perfume e a maciez daquele corpo tão perfeito que copiava a própria Deusa Afrodite.
Em Tamar, antes de embarcar, Lapidatus faz uma rápida visita ao templo de Ishtar, oferecendo um bezerro aos Deuses Antigos. Eleaser, que o conhecia, não pergunta qual a intenção do sacrifício, mas a sacerdotisa Ceres faz questão de o beijar.
O navio parte, seguindo em direção a Ostia e dali Lapidatus seguirá a Roma. O centurião olha na direção da proa, para um ponto indefinível onde o extenso horizonte se mistura com o imenso mar, imaginando como estará Ketar e Bran nesse momento.
- Lapidatus, meu velho, és tu esmo?
- Portius? O que tu fazes tão longe da Pérsia?
- Eu fui convocado. Ao te ver aqui, eu imagino que tenham outros centuriões neste navio. Alguns devem estar em roupas civis, pois nunca se sabe como está o humor de César.
- Meu caro, Roma pode estar à mercê dos ventos soprados pela nobreza, mas não a Guarda Pretoriana.
- Então tu também foste chamado. Qual será nossa promoção?
- Caso seja desejo dos Deuses Antigos me colocar como comandante de coortes, mesmo assim eu terei de cumprir com meu destino.
- Ah, meu velho, tu ainda falas dessas velhas crenças e superstições? Tu deves viver mais conforme tua época!
- Pobre da geração que, para viver conforme a época, deixar de sonhar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Batismo de fogo

Andros e Ketar chegam em Roma na véspera do equinócio de outono e se maravilham com a capital do Império. Roma não é apenas fria e cruel, como toda metrópole, ela também oferece cordialidade e oportunidade a todos que chegam.
O ar está mais quente e úmido do que o normal. Conforme Andros e Ketar se aproximam do centro pelas largas avenidas, aumenta o burburinho dos populares e faces assustadas. O céu que apresenta a umbra do fim da tarde se torna laranja enquanto colunas de fumaça saem dos edifícios.
Chegando ao lado da estátua de Júlio César, Andros e Ketar vêem um incêndio, cujas labaredas devoram vorazmente a grande cidade.
Esse é o paradoxo comum em todas as metrópoles. Por mais bem sucedida e planejada que esta seja, a Fatalidade sempre encontra um meio para surpreender os habitantes com tragédias imprevisíveis e incontroláveis.
Andros guia Ketar e seu filho para o lado sudoeste de Roma, tentando contornar o incêndio e evitar as pessoas fugindo. Quanto mais aumenta o incêndio, mais aumenta a massa de gente, menores ficam as ruas. Andros usa toda suas habilidades e com dificuldade vai forçando a passagem com seu cavalo, procurando praças ou vias secundárias sem pessoas, se arriscando a seguir pelo instinto através desse intrincado labirinto de ruas desconhecidas.
O calor parecia estar se distanciando, mas o barulho do crepitar das chamas parecia estar se aproximando e a fuligem das coisas incineradas caía feito neve sobre eles.
Andros e Ketar chegam em uma praça que fica no cruzamento de três ruas, achando ali uma mulher assustada, segurando uma criança no colo, ao lado da estátua de Hecate. Ketar desmonta de seu cavalo e se aproxima da mulher.
- Tu és a tal da Suma Sacerdotisa?
Coberta de fuligem, Magdala aperta a criança contra si e olha em direção de Ketar, mas evita olhar de frente.
- Por misericórdia, não façam mal a meu menino.
- Este é teu filho com o rabino?
- Sim e ele está predestinado a reerguer Roma como um Império Sagrado de Deus.
Ketar põe seu filho Bran, que mal completou quatro anos, diante do garoto que beira os sete anos. O jovem se desvencilha do abraço de Magdala e se ajoelha diante de Bran.
- Excelente. Não será na próxima geração a Era do Terror. Mas esse incêndio foi o batismo de fogo de teu credo.
- O que será de nós, agora?
- Tu deves seguir em frente, não há como voltar atrás. Tua igreja renascerá das cinzas e ganhará aliados poderosos. Eu espero que teus sucessores aprendam e não tentem se aventurar mais na política. Todo credo que abandona seu compromisso espiritual está destinado à decadência.
- Tarde demais. Minha igreja está mergulha no mar de lama da política e as mãos cheias de sangue inocente. Eu temo pelo destino de minha alma.
- Isto é parte do plano. Os Deuses Antigos confiaram a ti uma tarefa ingrata. Tu deves cumprir com teu destino, os Deuses Antigos não a abandonarão, nem a condenarão.
- Eu sinto que será em breve. Eu preferia vos encontrar em uma situação mais propícia.
- Não desanime! Nós teremos muito tempo para tagarelar quando nos encontrarmos em Tirnanog.
Magdala toma seu filho e some entre a nuvem de fumaça. Ketar pega Bran, sobe em seu cavalo e resolve a direção que deseja seguir.
- Vamos embora, querido. Nós temos uma longa viagem até o norte deste mundo, até encontrarmos os Saxões.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A coroa de Roma

Os ventos do mar Mediterrâneo anunciam a chegada de mais um outono encontram a cidade de Roma em um frenético reboliço.
Finalmente Messalina torna-se vítima de sua própria voracidade, o Senado a substitui por Júlia Agripina, a filha de Agripina que havia desposado Calígula, que havia sido exilada com esta e Júlia Livila, retornando graças a Cláudio César, quando este substituiu Calígula.
Esse intrincado jogo do poder tem sido jogado desde Júlio César e Júlia Agripina demonstrou ter aprendido bem a lição e recompensou a Cláudio César por tudo o que ele fez a ela o envenenando, para que seu filho Nero fosse aclamado César.
Júlia Agripina teria que esperar pela confirmação do Senado que estava, junto com os cônsules e os guardas pretorianos, deliberando as implicações dessa sucessão, ao mesmo tempo em que dividiam o poder da regência provisória.
Não demorou em que Magdala fosse convidada, assim como outros sacerdotes, para participar das deliberações, para que o novo César recebesse as bênçãos dos Deuses.
Quando Magdala chegou ao Senado, ela era esperada pelo Sumo Sacerdote dos Mithraicos, o general Galba.
- Saudações, Vossa Santidade. Nós gostaríamos de vos falar em particular.
- No que esta humilde serva pode vos ajudar?
- Ora vamos, Magdala! Tu podes deixar esta hipocrisia para enganar os tolos!
- Pois então, Galba, o que tu queres que possa me interessar?
- Existe uma indignação crescente contra a dinastia de César e esse Nero será igual a Calígula.
- Nós não podemos fazer nada senão alimentar as intrigas enquanto apoiamos discretamente o lado mais poderoso.
- Podemos e devemos fazer algo. Roma irá sucumbir se continuar à mercê do Imperador ou das regências provisórias. Nós precisamos nos aproximar mais da coroa de Roma.
- Nós quem, Galba? Se formos suspeitos de conspiração, o primeiro ato de Nero será nos decapitar.
- Precisamente, minha cara. Eu tenho a força da Guarda Pretoriana e tu a força do Clamor Popular. Nero, se quiser ser César, deverá entrar em acordo conosco. Em troca de nossos serviços, Nero retifica os acordos anteriores e nos reconhece como religiões oficiais.
- Tu estás certo quanto a pedir de Nero a confirmação dos editais anteriores que nos afetam, mas isso não nos deixará mais próximos da coroa de Roma.
- Agora, não. Mas se juntarmos nossas Igrejas como uma só instituição, vinculada e identificada com o poder do Império, teremos mais poder que os outros templos e credos. No devido tempo, nossa instituição será a única reconhecida.
- Como tu pretendes modificar a tolerância de Roma a essa diversidade de cultos?
- Simples, minha cara. Nós faremos com que Nero veja que seu poder e a integridade do Império dependem da adoção de um único credo.
- Isso pode nos levar de volta ao tempo de Calígula, que exacerbou o culto a César.
- Nós daremos corda para que Nero se enforque. O que nos importa agora é ganhar a confiança de Nero para aumentar nossa influência para agir contra os outros credos.
- O teu plano é ousado e arriscado. Que garantias tu me dás em troca de meu apoio?
- A garantia da Guarda Pretoriana que não esqueceu de tua visita e manifestação diante de Appis. Muitos pretorianos a consideram como uma sacerdotisa de Mithra.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Os povos dos carvalhos

Os Apeninos possuem Deuses terríveis que costumam cobrar um alto preço dos que ousam passar por seu território e as pilhas de pedras indicam aos viajantes para que façam a devida oferenda ou se junte aos ossos dos aventureiros enterrados.
Andros e Ketar encontram tais Deuses em uma estranha condescendência. O frio é intenso, mas não há nevascas ou avalanches. O sol brilha pálido, a maior parte do brilho vem da neve e ainda assim é possível ver a trilha que outrora Asdrúbal usou com sua armada em sua tentativa de conquistar Roma.
Aqui e ali se juntam pequenas trilhas novas, indicando caminhos às pequenas vilas, cujos habitantes acabaram se adaptando a viver nas montanhas ou em seus vales. Assim estava demarcada a trilha que os Romanos fizeram para partir de Etrúria para conquistar a Gália, uma descida intrincada pelas escarpas dos Apeninos até o vale do rio Arno. Conforme se desce, se aproximando do vale, os Deuses dos Apeninos perdem sua influência e Apolo reclama seu território, afastando a neve, trazendo verdes campos.
A Via Gallica se estende ao lado do rio Arno, uma estrada que existia antes dos Romanos, mas que estes souberam reforçar e reconstruir conforme seus gostos. Mas a despeito das vilas e dos marcos miliares construídos pelos Romanos, ainda era possível notar os sinais e as ruínas deixados pelos Etruscos, um povo que cedeu muito de sua cultura aos Romanos que os conquistaram. O Império Romano deve muito de seu sucesso ao que este assimilou não somente dos Etruscos, mas também dos Macedônios, Helênicos, Persas e Egípcios.
Etrúria, a cidade província que mantém essa memória orgulhosamente viva, virou de capital de uma civilização em um subúrbio pobre e esquecido. As casas se apinhavam, uma ao lado da outra ou em forma de sobrados, todas feitas com madeira de terceira categoria, sem qualquer infra estrutura.
Andros e Ketar se dirigem para o bairro comercial e a zona portuária, o local onde ainda se mantém uma certa dignidade, graças ao fluxo financeiro e a presença da administração romana. Com tanta gente seria difícil encontrar um templo ou estalagem e menos ainda algum vestígio do culto local da Religião Antiga. Mesmo assim, Ketar encontra alguém muito familiar, contra todas as possibilidades, casualidades e coincidências. O Destino sempre encontra um meio para se cumprir.
- Ketar! Minha querida! Aqui! Nós estamos aqui!
Andros mal pode crer no que via. Em trajes helênicos simples, lá estavam diante deles a rainha Nefter, mãe de Ketar e o faraó Akenat, seu padrasto.
- Mamãe! Papai! O que vós fazeis aqui em Etrúria?
- O mesmo que tu e teu amigo. Nós viemos visitar os templos locais.
- Mas e o Egito?
- Ah, seu pai foi aposentado por Cláudio César.
- Cláudio agora é César? Parece que foi no ano passado que Calígula havia sucedido Tibério!
- Ah, minha querida, esses Romanos são todos loucos!
- A senhora ouviu falar da tal Suma Sacerdotisa que está em Roma?
- Oh sim, meu amor. Ela é uma de nós, com certeza. Mas eu nada tenho com ela. Eu e seu pai vamos seguir daqui à Macedônia, Bizâncio e além.
- Eu estou curiosa de vê-la e conhecer esse novo culto que tem se espalhado pelo Império Romano.
- E depois, meu amor, o que tu farás?
- Isso depende de Andros. Eu quero um lugar bom para poder criar meu filho e teu neto na Religião Antiga.
- Isso é possível, jovem Andros? Existe algum lugar onde a Religião Antiga ainda é preservada, longe da influencia de Roma?
- Em minha primeira viagem pela Gália eu ouvi falar sobre os povos mais ao norte, além das fronteiras Romanas, chamados de bárbaros.
- Eu lembro ter ouvido falar de Belarum. Depois de Roma, eu quero ir até lá e então seguir rumo norte até o fim do mundo.
- Mais além existem as florestas fechadas e os povos dos carvalhos. Eu não sei o que encontraremos nessas terras misteriosas.
- E tu achas que a Religião Antiga nasceu aonde? Em meio de espessas florestas, entre os povos dos ciprestes, na Arcádia da Suméria!
- Vós podeis discutir isto depois. Vamos todos juntos conhecer os cultos dos Etruscos.
Enquanto Bran dormia, os dois casais acompanharam um rito fúnebre. Uma das bases das religiões vem dessa preocupação com as exéquias para os que morrem. Curiosamente, a celebração dos ritos fúnebres muitas vezes eram ou se tornaram extensões dos ritos de fertilidade. Tristeza e alegria, morte e vida, noite e dia eram coisas vistas com naturalidade e devidamente celebrados com cerimônias sagradas.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O terror estende seus ramos

Magdala trabalha incansavelmente com uma equipe de escribas confiáveis para traduzir os muitos manuscritos vindos das comunidades de Crestanos, para enfim consolidar a Boa Nova como uma obra consistente e hegemônica. Ela não tem mais celebrado nem os ritos antigos, nem participa das celebrações da Igreja. Ela se concentra no projeto de construir um alicerce sólido para que a Igreja cresça, mas teve que fazer uma pausa para atender a um oficial do Império.
- Vossa Santidade, o Augusto Cláudio César deseja vos consultar imediatamente.
Sem demorar, Magdala segue o oficial até o palácio imperial. Ela sabe que César não convida, manda. A última vez que ela atendeu à solicitação de César, esta veio de Calígula, que a recebeu ao lado de Druzila, sua bela prima e Agripina, sua escandalizada mãe.
- Vossa Santidade, não é verdade que Deus renasceu como homem?
- Sim, Excelso César. Não apenas nós, mas muitos credos acreditam que Deus renasceu como homem, em épocas de crise de um povo, por intermédio de uma mulher consagrada.
- Nós somos Deus, não somos, Vossa Santidade?
- Sim, Augusto Divino César. Vós sois Deus como Yeshu Cresto, Filho de Deus.
- Então para o nosso bem e o de Roma, convém que nós renasçamos por intermédio de uma mulher consagrada de nossa estirpe.
- Meu Imperador, eu vos peço que não leve Druzila a vosso leito.
- Nós não conhecemos mulher alguma mais indicada. Nós somos Deus e Druzila, por ser de nossa família, é uma mulher consagrada.
Calígula levou Druzila ao leito, aplicou uma multa simbólica à Igreja por adorar Yeshu como igual a César, mas mandou exilar e executar Agripina.
Intrigas, exílios, perseguições e mortes eram coisas comuns na corte de Roma. Agripina provou desse remédio e Calígula herdou dela todo o rancor e ódio contra Roma e sua corte, que Calígula sabia demonstrar em suas vítimas.
Magdala foi convidada a participar da sucessão, quando o núcleo do poder não suportou mais Calígula. Os senadores e cônsules se valeram de sua influência para tentar controlar os comandantes da Guarda Pretoriana.
A Guarda Pretoriana sentiu o gosto do poder na sucessão de Tibério a Calígula e não estavam mais dispostos a aceitar uma regência provisória comandada por senadores e cônsules.
Com a ajuda de Magdala, houve o consenso de fazer Cláudio César e este soube manter o indulto de Calígula, além de conceder fundos para as missões da Igreja. Em troca, Magdala o ajudou a se unir com Messalina, apesar da resistência de sua família e da nobreza romana.
Magdala entrou no escritório particular de Cláudio César, que a recebeu ao lado de Messalina, que transbordava pelos olhos sua enorme e insaciável ambição.
- Vossa Santidade, nós resolvemos conquistar a Bretanha em definitivo. Nós percebemos que as províncias tuteladas não mais podem seguir à revelia do poder do Império. A Judéia e o Egito concordaram em se submeter a nós e seus reis abdicaram em favor de nossos governadores. Infelizmente a Bretanha possui diversos reis, muitos ainda se mantêm rebeldes ao nosso edital. Vossa Santidade nos concederia vossas bênçãos?
- Excelso César, nos seria fácil abençoar-vos para que sejas vitorioso, mas nós ainda não desfrutamos dos privilégios concedidos às religiões reconhecidas oficialmente. Isto tem limitado nossas ações, nós temos constantemente que pedir autorização para as nossas missões, sem falar da extorsiva cobrança de impostos dos praefectus locais, que tem se enriquecido sem dar a devida parte ao Império.
- Pois que se registre. Em nosso retorno vitorioso, nós saberemos recompensar todos os templos que nos deram as bênçãos de seus Deuses. Nós garantimos à vossa Igreja a mesma isenção de impostos dada aos cultos reconhecidos e salvo conduto total para ir e vir por todo o território do Império.
- Vós sois justo, Excelso César. Pelos poderes a mim conferidos, eu vos abençôo e que Deus te conceda a vitória.
Por alguns gestos e palavras, Magdala consegue conquistar algo muito mais valioso do que a Bretanha. Ela sabia que Cláudio seria bem sucedido nessa ilha, onde ainda se dizia existir seguidores da Religião Antiga, mas o triunfo de César não duraria muito. Cláudio demonstra ser um César muito morno, que cumpre burocraticamente seu posto de Imperador. Não demorará muito para que Messalina desse lugar a outra Imperatriz que, para fazer de seu filho o César, envenenaria o atual Imperador.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A guerra das vassouras

Nos dias seguintes, Andros e Ketar seguiram o misterioso guia pela estrada que seguia até Nicius, detendo-se próximo a uma encruzilhada.
- Aqui vós podereis encontrar com as bruxas. Infelizmente eu não posso vos acompanhar, porque nas terras destas bruxas os homens não são bem vindos.
- Não te preocupeis com meu amigo. Antes de partir, diga-me teu nome para que eu me lembre de ti.
- Meu nome é Virgílio, senhora, tal como o poeta que dizem ter acompanhado Dante ao Submundo.
- Eu te agradeço, Virgílio. Mas creia-me, o Submundo não é mais terrível que este mundo.
Virgílio fez uma misura e volta para Aquiléia em busca de mais clientes. Ketar nota que Andros está mais amuado do que o costume, o que a faz iniciar uma conversa despretensiosa.
- Tu estiveste aqui antes, Andros?
- No ano passado, a caminho para Bretanha. Eu creio ter conhecido estas bruxas de quem Virgílio falou.
- Como eu te conheço bem, eu sei que estas bruxas não são a razão de tua preocupação. O que te incomoda?
- Eu estava confiante de que havia visto de tudo em minha primeira viagem, a ponto de achar melhor te avisar, mas eis que eu fui surpreendido.
- Meu querido, por mais que viajemos pelo mundo e vejamos todas as suas maravilhas, ainda teremos muitas surpresas com as pessoas, a vida e além. Há algo mais que te incomoda.
- Eu perdi o controle por causa de Sorano. Como que ele abriu mão de tudo por causa desse farsante do Dioscoros?
- Meu querido, a iniciação é um momento que marca a nossa vida sacerdotal, mas não nos torna imunes às falhas. Tu mesmo tens dificuldades e limitações, mas a firmeza de teu espírito o tem mantido dentro dos Caminhos Antigos. Apesar de tu vir da escola de Ephesus, tu tiveste uma nova experiência na Bretanha.
- Sim e é por isso que não entendo a transformação de Sorano. Como alguém que sentiu e passou pela iniciação pode desprezar este princípio tão básico da Religião Antiga?
- Isso é compreensível pelo momento em que passamos. Em breve, um novo culto dominará o mundo. Então é de se esperar que haja tanta confusão e conflito sobre a Religião Antiga. A nova religião, para se estabelecer, precisa matar a antiga.
- Esta nova religião seria aquela que encontramos próximo a Lutécia?
- Sim, meu querido. Assim que acabarmos de visitar as bruxas de Nicius, seguiremos para Etrúria e, em seguida, para Roma. Eu quero conhecer a Suma Sacerdotisa.
Andros tentava vislumbrar quais seriam as intenções de Ketar, mas a aproximação de algumas bruxas interrompeu suas confabulações. Ele percebeu que as bruxas o olhavam com desconfiança, o que o fez considerar que eram bruxas feministas. Antes de Ketar falar algo, aproximou-se destas bruxas um grupo misto de bruxos e bruxas, vestidos de curiosas túnicas brancas amarradas com cordões vermelhos. Assim que o segundo grupo foi avistado, uma das bruxas deu um sinal, sendo respondido por outro sinal.
- Avante, em nome de Diana!
- Avante, em nome de Sabazios!
Cada grupo levantou sua bandeira. De um lado, a bandeira era um talo de erva doce; do outro, a bandeira era um ramo de hissopo. O combate entre os grupos foi travado com vassouras, umas feitas com palha de freixo e outras com palha de teixo. Cada um dos combatentes tentava varrer os pés de seu oponente. Aquele que tinha o pé varrido caía feito morto. O combate seguiu até sobrar apenas um, do grupo que lutava por Sabazios.
- Vitória! Hoje celebraremos a lua cheia por Sabazios!
Os bruxos e bruxas caídos se levantaram e se cumprimentaram cordialmente, enquanto alguns homens se aproximaram dos combatentes.
Andros sabia que as bruxas locais que cultuavam Diana não admitiam homens, mas a presença destes entre estas bruxas era uma novidade, muito embora devessem cumprir apenas com pequenas tarefas, como auxiliares das bruxas.
O bruxo vitorioso resolveu convidar à inusitada platéia para se juntar na cerimônia.
- Sacerdotisa, eu vos peço que vós e teu aprendiz venhais comemorar conosco!
Ketar seguiu na direção onde seria feita a cerimônia, sendo seguida por Andros, sem se queixar de ter de cumprir um papel secundário. Afinal, Ketar não se incomodou com seu papel secundário entre os druidas.