quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Batismo de fogo

Andros e Ketar chegam em Roma na véspera do equinócio de outono e se maravilham com a capital do Império. Roma não é apenas fria e cruel, como toda metrópole, ela também oferece cordialidade e oportunidade a todos que chegam.
O ar está mais quente e úmido do que o normal. Conforme Andros e Ketar se aproximam do centro pelas largas avenidas, aumenta o burburinho dos populares e faces assustadas. O céu que apresenta a umbra do fim da tarde se torna laranja enquanto colunas de fumaça saem dos edifícios.
Chegando ao lado da estátua de Júlio César, Andros e Ketar vêem um incêndio, cujas labaredas devoram vorazmente a grande cidade.
Esse é o paradoxo comum em todas as metrópoles. Por mais bem sucedida e planejada que esta seja, a Fatalidade sempre encontra um meio para surpreender os habitantes com tragédias imprevisíveis e incontroláveis.
Andros guia Ketar e seu filho para o lado sudoeste de Roma, tentando contornar o incêndio e evitar as pessoas fugindo. Quanto mais aumenta o incêndio, mais aumenta a massa de gente, menores ficam as ruas. Andros usa toda suas habilidades e com dificuldade vai forçando a passagem com seu cavalo, procurando praças ou vias secundárias sem pessoas, se arriscando a seguir pelo instinto através desse intrincado labirinto de ruas desconhecidas.
O calor parecia estar se distanciando, mas o barulho do crepitar das chamas parecia estar se aproximando e a fuligem das coisas incineradas caía feito neve sobre eles.
Andros e Ketar chegam em uma praça que fica no cruzamento de três ruas, achando ali uma mulher assustada, segurando uma criança no colo, ao lado da estátua de Hecate. Ketar desmonta de seu cavalo e se aproxima da mulher.
- Tu és a tal da Suma Sacerdotisa?
Coberta de fuligem, Magdala aperta a criança contra si e olha em direção de Ketar, mas evita olhar de frente.
- Por misericórdia, não façam mal a meu menino.
- Este é teu filho com o rabino?
- Sim e ele está predestinado a reerguer Roma como um Império Sagrado de Deus.
Ketar põe seu filho Bran, que mal completou quatro anos, diante do garoto que beira os sete anos. O jovem se desvencilha do abraço de Magdala e se ajoelha diante de Bran.
- Excelente. Não será na próxima geração a Era do Terror. Mas esse incêndio foi o batismo de fogo de teu credo.
- O que será de nós, agora?
- Tu deves seguir em frente, não há como voltar atrás. Tua igreja renascerá das cinzas e ganhará aliados poderosos. Eu espero que teus sucessores aprendam e não tentem se aventurar mais na política. Todo credo que abandona seu compromisso espiritual está destinado à decadência.
- Tarde demais. Minha igreja está mergulha no mar de lama da política e as mãos cheias de sangue inocente. Eu temo pelo destino de minha alma.
- Isto é parte do plano. Os Deuses Antigos confiaram a ti uma tarefa ingrata. Tu deves cumprir com teu destino, os Deuses Antigos não a abandonarão, nem a condenarão.
- Eu sinto que será em breve. Eu preferia vos encontrar em uma situação mais propícia.
- Não desanime! Nós teremos muito tempo para tagarelar quando nos encontrarmos em Tirnanog.
Magdala toma seu filho e some entre a nuvem de fumaça. Ketar pega Bran, sobe em seu cavalo e resolve a direção que deseja seguir.
- Vamos embora, querido. Nós temos uma longa viagem até o norte deste mundo, até encontrarmos os Saxões.

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