segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A consumação da aliança

Magdala olha estarrecida para os restos fumegantes do que fora sua igreja enquanto seu filho brinca com os tições carbonizados, desenhando no calçamento. Em sua volta, Roma vai se reconstruindo aos poucos, ao mesmo tempo em que enterra seus mortos.
A tragédia foi tão extensa que falta tudo em Roma. A prioridade é atender aos feridos, estocar comida, guardar água, restaurar as estradas. Os mortos são empilhados, falta espaço nos cemitérios e os crematórios não dão conta. As famílias não podem contar com o consolo dos sacerdotes, muitos fugiram assustados e outros morreram.
No meio desse cenário desolado, dois legionários se aproximam de Magdala.
- Vossa Santidade, o Excelso Augusto César solicita vossa presença.
- Eu não tenho mais minha igreja, só me restou meu filho.
- Isso não nos diz respeito, Vossa Santidade. Tome teu filho e nos acompanhe.
Fingindo ter um resto de dignidade, Magdala sacode a fuligem de cima do que restou de sua túnica sacerdotal, pega seu filho e segue altivamente os legionários até o palácio do Imperador. Na entrada do palácio, um grupo de pretorianos davam salvas e elogios a César. Estes, ao verem Magdala se aproximando, fizeram reverência e louvores a Suma Sacerdotisa.
Magdala entrou no palácio do Imperador, cujas paredes mantinham presas as almas das vítimas inocentes mortas pelos Césares que ali reinaram. Magdala foi conduzida até uma parte onde ficava o templo imperial de Júpiter, ali encontrando com o general Galba, outros generais da Guarda Pretoriana, senadores e cônsules.
- Seja bem vinda, Vossa Santidade.
- Nobres senhores, eu não mereço este título. Minha igreja foi arrasada e a sentença de César contra nós se espalhou tão rápido quanto as chamas que destruíram Roma.
- Nós vos garantimos, Vossa Santidade, que vosso cargo é vitalício e que vossa igreja será reconstruída em um local mais digno de vossa posição.
- Mas e quanto ao decreto de Nero César?
- Por isso que Vossa Santidade foi convidada a comparecer a esta distinta assembléia. Nós esperamos de vós que se junte na aclamação de Galba César e nos conceda a benção de Deus.
- Eu não entendo. O Império primeiro nos ignorou, depois nos tolerou, nos usou, nos descartou e de repente nos pede ajuda?
- Nós vos dissemos, Vossa Santidade, que nossa aproximação vos renderia alguma vantagem. O Império reconhece vossa contribuição para a união e a paz no reino.
- Oh bem...sendo assim, o que eu ganho por te aclamar César, Galba?
Galba ri ruidosamente enquanto a confraria espantada cochichava pela falta de formalidade e decoro de Magdala. Galba sabe que Magdala está ciente de que o apoio que ele tem dos generais, senadores e cônsules custou muito ouro e trocas de favores. Toda circunstancia e protocolo soa apenas atos de fachada para dar um ar de austeridade, mas a despeito das togas refinadas e dos altos cargos, todos ali eram salteadores.
- No devido tempo, Magdala! Eu quero primeiro consumar a aliança entre o Império e a Igreja. Tu ainda celebras os Ritos Ancestrais?
- Então é assim? Para compartilhar a coroa eu devo compartilhar meu leito? Assim seja.
Aqueles distintos e empertigados senhores enrubesceram com a vulgaridade de Magdala. Galba se diverte com seus aliados e admite para si mesmo que, em certas circunstâncias, o eufemismo é uma afetação inconveniente e é melhor deixar de lado o verniz da cultura. Por seu lado, Magdala sabe que nem isso garante seu futuro, pois assim como os verdadeiros senhores de Roma se cansam de seu César e o substitui por outro, ela é substituível. Magdala acompanha Galba até seu leito, sentindo apertar a corda no pescoço.

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