terça-feira, 11 de setembro de 2007

Os povos dos carvalhos

Os Apeninos possuem Deuses terríveis que costumam cobrar um alto preço dos que ousam passar por seu território e as pilhas de pedras indicam aos viajantes para que façam a devida oferenda ou se junte aos ossos dos aventureiros enterrados.
Andros e Ketar encontram tais Deuses em uma estranha condescendência. O frio é intenso, mas não há nevascas ou avalanches. O sol brilha pálido, a maior parte do brilho vem da neve e ainda assim é possível ver a trilha que outrora Asdrúbal usou com sua armada em sua tentativa de conquistar Roma.
Aqui e ali se juntam pequenas trilhas novas, indicando caminhos às pequenas vilas, cujos habitantes acabaram se adaptando a viver nas montanhas ou em seus vales. Assim estava demarcada a trilha que os Romanos fizeram para partir de Etrúria para conquistar a Gália, uma descida intrincada pelas escarpas dos Apeninos até o vale do rio Arno. Conforme se desce, se aproximando do vale, os Deuses dos Apeninos perdem sua influência e Apolo reclama seu território, afastando a neve, trazendo verdes campos.
A Via Gallica se estende ao lado do rio Arno, uma estrada que existia antes dos Romanos, mas que estes souberam reforçar e reconstruir conforme seus gostos. Mas a despeito das vilas e dos marcos miliares construídos pelos Romanos, ainda era possível notar os sinais e as ruínas deixados pelos Etruscos, um povo que cedeu muito de sua cultura aos Romanos que os conquistaram. O Império Romano deve muito de seu sucesso ao que este assimilou não somente dos Etruscos, mas também dos Macedônios, Helênicos, Persas e Egípcios.
Etrúria, a cidade província que mantém essa memória orgulhosamente viva, virou de capital de uma civilização em um subúrbio pobre e esquecido. As casas se apinhavam, uma ao lado da outra ou em forma de sobrados, todas feitas com madeira de terceira categoria, sem qualquer infra estrutura.
Andros e Ketar se dirigem para o bairro comercial e a zona portuária, o local onde ainda se mantém uma certa dignidade, graças ao fluxo financeiro e a presença da administração romana. Com tanta gente seria difícil encontrar um templo ou estalagem e menos ainda algum vestígio do culto local da Religião Antiga. Mesmo assim, Ketar encontra alguém muito familiar, contra todas as possibilidades, casualidades e coincidências. O Destino sempre encontra um meio para se cumprir.
- Ketar! Minha querida! Aqui! Nós estamos aqui!
Andros mal pode crer no que via. Em trajes helênicos simples, lá estavam diante deles a rainha Nefter, mãe de Ketar e o faraó Akenat, seu padrasto.
- Mamãe! Papai! O que vós fazeis aqui em Etrúria?
- O mesmo que tu e teu amigo. Nós viemos visitar os templos locais.
- Mas e o Egito?
- Ah, seu pai foi aposentado por Cláudio César.
- Cláudio agora é César? Parece que foi no ano passado que Calígula havia sucedido Tibério!
- Ah, minha querida, esses Romanos são todos loucos!
- A senhora ouviu falar da tal Suma Sacerdotisa que está em Roma?
- Oh sim, meu amor. Ela é uma de nós, com certeza. Mas eu nada tenho com ela. Eu e seu pai vamos seguir daqui à Macedônia, Bizâncio e além.
- Eu estou curiosa de vê-la e conhecer esse novo culto que tem se espalhado pelo Império Romano.
- E depois, meu amor, o que tu farás?
- Isso depende de Andros. Eu quero um lugar bom para poder criar meu filho e teu neto na Religião Antiga.
- Isso é possível, jovem Andros? Existe algum lugar onde a Religião Antiga ainda é preservada, longe da influencia de Roma?
- Em minha primeira viagem pela Gália eu ouvi falar sobre os povos mais ao norte, além das fronteiras Romanas, chamados de bárbaros.
- Eu lembro ter ouvido falar de Belarum. Depois de Roma, eu quero ir até lá e então seguir rumo norte até o fim do mundo.
- Mais além existem as florestas fechadas e os povos dos carvalhos. Eu não sei o que encontraremos nessas terras misteriosas.
- E tu achas que a Religião Antiga nasceu aonde? Em meio de espessas florestas, entre os povos dos ciprestes, na Arcádia da Suméria!
- Vós podeis discutir isto depois. Vamos todos juntos conhecer os cultos dos Etruscos.
Enquanto Bran dormia, os dois casais acompanharam um rito fúnebre. Uma das bases das religiões vem dessa preocupação com as exéquias para os que morrem. Curiosamente, a celebração dos ritos fúnebres muitas vezes eram ou se tornaram extensões dos ritos de fertilidade. Tristeza e alegria, morte e vida, noite e dia eram coisas vistas com naturalidade e devidamente celebrados com cerimônias sagradas.

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