segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O exílio de Domiciano

Usando os documentos e as ordens falsificadas dadas pelo Papa Lino, Domiciano foge de Roma, percorre a Gália e chega em Belarum. Ele se dirige até a fortaleza romana e apresenta os papéis ao guarda do portão, que o conduz até o centurião Silvano.
- Marco Leto, legionário da II coorte, X centúria. Tu pareces ser muito jovem. Tu estiveste em combate?
- Sim, como aspirante, durante o terrível incêndio que devastou Roma e nos levantes de Toscana e Vicena.
- Ótimo. Belarum foi recentemente recuperada de seus usurpadores e iremos precisar de legionários com experiências em lidar com os hereges e os pagãos. Tu deves te apresentar ao oficial do dia com esta ordem.
Domiciano se apresenta ao oficial do dia, um germânico desconfiado e arisco por ter sido um dos poucos legionários que restaram da coorte rebelde.
- Muito bem, Marco Leto, tu farás parte das patrulhas na fronteira, em busca de rebeldes. Se tu fizeres um bom serviço, eu te incluirei nas tropas avançadas e poderá participar das conquistas de Roma contra os Godos.
- Isso será feito para a glória de Deus.
- Muito cuidado com o que diz, novato. Nós estamos na fronteira entre o Deus de Roma e os Deuses desse mundo. Aqui mesmo tu hás de encontrar diversas visões e opiniões, não convém se indispor com teus colegas. Se uma adaga cravar em tuas costas, ninguém dará por tua falta.
Domiciano guarda consigo o conselho e saberia dar a resposta num momento mais adequado. O oficial do dia o leva até um grupo de quatro legionários e emite a ordem.
- Muito bem, meninas! Eu trouxe uma novata para que troquem receitas culinárias e conselhos de beleza. Nos intervalos, se não for pedir muito, vós devereis levar a boneca para passear no bosque, para que tenham todas juntas um agradável piquenique com os Godos! Divirtam-se!
O mais velho e mais experiente se levanta e dá as boas vindas com um forte tapa nas costas.
- Bem vindo ao Inferno, novato. Eu sou Patmos, grego. Aquele é Remix, gaulês. O mais escuro é Cratos, trácio. Esse magrelo é Baruc, persa.
- Ave. Eu sou Marco, romano.
- Enfim, a patrulha dos cães terá um romano! Quem sabe agora nós recebamos mérito? Muito bem, novato, fora as regras conhecidas, essa patrulha tem uma única regra que é não falar em Deus, entendido? Nós não pensamos, não discutimos, não ponderamos. Nós nos concentramos no serviço, entendido?
- Perfeitamente.
- Ótimo. Então venha conosco e mostre o que sabe fazer. Vejamos quantos coelhos tu consegues tirar da toca.
A patrulha dos cães atravessam os campos e embrenham-se na floresta acirrada, em busca de sinais de rebeldes ou de Godos. Domiciano percebe facilmente sinais que indicam a presença dos seguidores da Religião Antiga pelo que aprendeu com sua mãe, Magdala. Por simples associação, esses sinais deveriam ser indícios da presença dos rebeldes ou de seus acampamentos, em alguma direção.
- Atenção, colegas, nós estamos muito perto dos rebeldes.
Repentinamente, dois grupos surgem na frente e atrás da patrulha, atacando-a com lanças e espadas.
- Evoe!
- Agrupem! Agrupem!
Domiciano não perde tempo e acerta um golpe fatal naquele que deveria ser o líder do bando, pois tinha um lírio bordado no uniforme, fazendo com que alguns se dispersassem e outros se rendessem.
- Muito bom! Como tu sabia que estavam perto e quem era o líder?
- Eu não posso dizer sem quebrar meu voto com a patrulha dos cães.
- Então tu decides o que fazer com os prisioneiros.
Domiciano os liberta, com a condição de que levem o recado de que ele estava na região. Patmos questionou a decisão de Domiciano.
- Por que os libertou? O que disse a eles?
- Nada do que disserem, mesmo sob tortura, será verdade e nada acrescentará. Se os levássemos, poderíamos arriscar os postos avançados. Livres, eles podem semear o medo com o que eu disse a eles, mas isso é outro segredo.
- Haha! Se tu não fosses romano, eu poderia jurar que tu pertences a alguma escola de mistérios!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Bran cresce

No povoado de Teutos, no vale da montanha Druar, na Saxônia, a presença da nova sidhe desperta a curiosidade dos outros povoados e a inveja das sidhes locais.
Ketar tem vinte anos, mas mantém a mesma exuberância que tinha desde seus doze anos. O talento e a sabedoria que ela tem nas Artes Secretas surpreendem as sidhes que vão visitá-la e maravilham as pessoas que a consultam.
Muitas sidhes vão apenas para desafiar Ketar, certas de que é impossível a alguém tão jovem possuir tanto conhecimento e poder, mas elas desistem ao sentir sua forte aura. Felizmente a maioria vai para trocar experiências, receitas e técnicas para então voltarem ao seu povoado, não mais com um conhecimento fragmentado, mas consistente.
Convites chegam vindo de toda a Saxônia para que Ketar realize as cerimônias aos Deuses Antigos em seus povoados, muitos reis vêm pessoalmente e isso suscita um certo ciúme do rei Roden. Então este tem a idéia de fazer um grande ritual a todos os reinados na Saxônia, com todos os reis e sidhes, para celebrar a Estação da Colheita, no que Ketar concordou, pois ela estava mais interessada no desenvolvimento de seu filho.
Bran tem seis anos, mas demonstra perfeito domínio e habilidade da Arte da Batalha, desconsertando os velhos soldados com a força e resistência que ele demonstra. Roden e Ketar chegam no horário do descanso, onde são distribuídas comida e bebida aos jovens soldados.
- Então, querido, como estão as coisas?
- Estão ótimas, mamãe. Tio Andros tem muita paciência comigo, me ensinando como manejar a espada, seja na batalha, seja no círculo.
- Que bom, querido. Assim que tu estiver com o tio Andros, diga a ele que estamos preparando um grande ritual para toda a Saxônia. Gostaria de ir e ajudar a mamãe?
- Oh sim, eu gostaria muito. Eu ainda não vi a senhora abrir o véu entre os mundos.
- Que bom, meu amor. Da forma como tu estás se desenvolvendo, tu certamente será admitido entre os soldados e passará por um rito de passagem. Eu acharei uma sidhe bem bonita para iniciá-lo na Religião Antiga, no dia do grande ritual.
- Ah, mamãe! Não tem sidhe mais bonita que a senhora!
Ketar ri e abraça seu filho enquanto o rei Roden conversa com Corman, o instrutor dos jovens soldados, que confirma que não há mais o que ensinar a Bran e que ele deve ter sua admissão formal entre os soldados.
Roden vai então ao templo de Wodan, onde os soldados se reúnem e, ao entrar, conversa com os soldados presentes sobre a situação inusitada e especial do jovem Bran. Todos recebem com satisfação e alegria, fazendo questão de ir até a Escola de Armas para anunciar para o dia seguinte o rito de passagem para Corman e Bran.
Ao perceber a chegada da comitiva, Corman se aproxima de Ketar e Bran para avisá-los do que ia ocorrer.
- Sidhe, vosso filho cresceu e não há mais o que eu tenha para ensiná-lo. Ele irá começar sua vida como soldado e defenderá nosso povo.
- Viu? Eu não disse, querido? Em breve tu irá lutar e serás rei.
Corman sabe que deve se calar e deixar a temível sidhe curtir um pouco mais seu filho. A confraria chega e o rei Roden faz o convite formal, acertando para o dia seguinte o rito de passagem.
Mal o sol nasceu, Corman vai até a casa de Bran e o encontra pronto para o rito. O jovem está vestido apenas com uma rústica roupa de couro e armado com uma adaga. Corman o deixa na entrada do povoado com o objetivo de caçar e matar um cervo sagrado, banhar-se em seu sangue, comer seu coração e levar a pele e a cabeça ao templo de Wodan.
No templo de Wodan, os soldados esperam pela chegada de Bran, fazendo apostas, bebendo comendo e fazendo graça às mulheres que lá estão para servi-los. De tempos em tempos, as mulheres ficam do lado de Ketar, a única mulher que não era incomodada, mas não porque Ketar quisesse ser tratada de forma diferente ou que fizesse questão de sua posição como sidhe.
Enquanto seu filho não chega, Ketar tratou de divertir a si e as outras mulheres, provocando os homens, fazendo piadas, comendo, bebendo e apostando. Ela mostra às mulheres que elas são igualmente consagradas, sendo femininas e participando do jogo da sedução.
Por volta do meio dia, Bran chega vitorioso, trazendo seu troféu, sendo efusivamente aclamado por alguns solados enquanto outros resmungavam porque tinham apostas a pagar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Deuses morrem

Os planos de Galba estão prestes a se concretizar e ele lê com satisfação os relatórios das vitórias apesar das baixas, o que é de se esperar quando se luta por Deus contra Satan.
A única frente em que a luta tem causado muitas baixas e prejuízos a ambos os lados é a liderada pelas Igrejas Orientais.
Militarmente, Galba sabe que o conflito pode se estender indefinidamente e ele deseja poder celebrar sua procissão de triunfo até a festa do Sol Invictus, uma das poucas cerimônias tradicionais romanas que Galba assimilou como parte das cerimônias da Igreja Romana. Então ele enviou diplomatas aos governantes e bispos das províncias orientais com uma oferta irrecusável para o apoiarem em troca de benécies.
As províncias da Pérsia e do Egito concordaram com os termos e não apenas suspenderam a ajuda à província da Judéia como também passaram a ajudar no cerco. Em pouco tempo, Galba teve seu desfile de triunfo em plena Jerusalém, sentado em um trono no alto de uma torre móvel enfeitada com a cabeça dos líderes dos revoltosos.
Em Bizâncio, Galba teve a recepção digna de um Deus e como ele achava merecida a homenagem, tolerou esse pequeno pecado. Diante da multidão, ele e todos os bispos assinaram a Encíclica Universal, contendo os pontos fundamentais da Igreja Romana, que praticamente tornava oficialmente canônicas as epístolas anteriores ditadas por Galba. Como parte do acerto, a capital do Império passaria a ser em Bizâncio e anularam-se todas as ordens sacerdotais das mulheres.
Galba então parte para Roma para ter mais um desfile de triunfo, como os antigos Césares, além de ordenar e iniciar a transferência do núcleo de comando do Império para Bizâncio. Paralelamente, ele mandou aos bispos para prepararem a festa do Sol Invictus em nome dele. Ele teve o cuidado de acompanhar pessoalmente cada detalhe da cerimônia, inclusive trocar toda sua guarda pessoal para evitar ser vitima de uma cilada.
Estando tudo pronto e faltando poucas horas para o início do desfile e da cerimônia, Galba vai com sua escolta pessoal até a Escola Militar para pegar seu filho com Magdala, Domiciano, que estava sendo treinado para suceder Galba no trono.
No caminho até a Via Capitulina onde Galba teria seu triunfo e seria aclamado Sol Invictus, este conta a seu filho o que ele pretende fazer nos longos anos que Deus o concederá, antes que o menino possa herdar tal honra.
- Excelso Augusto César, vosso reino está unificado pelas graças de Deus. Não é hora de levarmos a Verdade e a Palavra de Deus às nações bárbaras e pagãs?
- Chama-me de pai, Domiciano. Mas tu me enche de orgulho, ao mostrar tua preocupação pelos povos que ainda jazem nas trevas, dominados pelo Maligno. Eu te prometo que te darei o comando de várias coortes para levar o domínio de Deus e de Roma aos bárbaros. Eu te dei o nome de Domiciano exatamente por isto, Deus me revelou teu destino.
- Eu confio em Deus, pai, mas desejo não receber qualquer privilégio. Eu devo conquistar e construir minha carreira militar como tu.
- Muito justo. Mas por esta noite, tu serás o convidado especial do Imperador. Eu quero que tu vejas e te acostumes com as honrarias e glórias que hás de receber.
Galba e Domiciano chegam no palanque montado para receber os nobres e os eclesiásticos, onde são efusivamente cumprimentados e saudados. No camarim reservado do Imperador, vinho e mulheres o esperavam para trocá-lo e satisfazê-lo. Mas Domiciano mostrava estar incomodado com tanto consumo de vinho e mulheres, trocando-se sozinho em um canto.
Galba escolheu um traje de gala imperial todo branco, tendo apenas bordados em fio de prata como contraste. Ele não deu muita importância que Domiciano vestia o uniforme comum de um legionário, apenas saiu em direção ao púlpito assim que o Papa Lino chegou.
O átrio que cercava o púlpito estava reservado apenas às pessoas de confiança do Imperador e, por ser uma área consagrada, apenas Domiciano e o Papa Lino puderam entrar. Galba estava a pouco mais de dez passos do púlpito e da aclamação popular quando sentiu uma forte estocada nas costas.
Instintivamente, Galba põe a mão nas costas e sente algo líquido e quente nas mãos. Olhando-as, estas estão cheias de sangue. Galba olha na direção de onde veio o golpe e vê Domiciano com um punhal. Antes que Galba pudesse gritar ou reagir, Domiciano descerra um golpe certeiro no pescoço de Galba e o vê agonizar com indiferença.
- Deixe o resto comigo, agora, fuja!
Domiciano corre através dos corredores, sai na rua e some pela noite romana. No púlpito, o Papa Lino comunica ao público que César estará ausente na cerimônia devido a um mal estar. Como tais coisas eram naturais, as cerimônias seguem seu curso normal e uma efígie de Galba recebe as honras. Nos bastidores, o Papa Lino inicia com seus conjurados as negociações pela sucessão de Galba.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Honra

Conforme as guerras e os rumores dos conflitos se espalham, em outras cidades chegam exilados e sobreviventes trazendo mais medo e pânico.
Para os civis e legionários que chegam em Belarum, Lapidatus deixa bem claro as regras para entrar e permanecer na cidade. Os sacerdotes Crestanos entram por outros meios e procuram os seus, que os avisam da política local.
A contragosto, os sacerdotes exilados chegam e vão se estabelecendo, sabendo que nada poderiam fazer senão viver em clausura, enquanto a cidade se preparava para o solstício de inverno, até a chegada recente de mais um sacerdote exilado.
- Meus irmãos, eu me junto a vós nesse momento de angústia e provação com boas novas! Eu vi, bem próximo dessa vila dominada pelos demônios, o santo exército enviado pelo Imperador para varrer toda essa idolatria, feitiçaria e orgia profana! Regozijemos, pois em breve Belarum será liberta!
- Oh não! Isso é terrível! Assim que o governador ver a chegada do Exército Romano, nós seremos massacrados!
- Ânimo, meus irmãos! Pois é melhor entregar a vida por Deus e viver no Paraíso do que viver por este mundo e morrer no Inferno.
- Tu deves ter feito teus votos recentemente. Teu entusiasmo é compreensível, mas infelizmente não terás oportunidade de ter a mesma experiência que nós.
- Ah, meus pobres irmãos! Eu percebo que vossa fé esfriou devido a essa convivência com os hereges. Mas vós vereis que Crestos é o mesmo hoje, ontem e sempre!
- Tolo! Quer nos ensinar o que sabemos de cor? Tu ainda cheira a leite do seminário e quer discutir teologia? Saiba então, pobre novato, que muito do que se ensina vem da boca dos homens, não de Deus.
- Isso é heresia! A palavra de Deus é uma só!
- Se isso fosse verdade, as Igrejas do Ocidente e do Oriente não estariam em guerra.
- Mentiras espalhadas pelo maligno! Certamente as poucas igrejas rebeldes existentes foram dominadas por um espírito imundo!
- Tolo novato! Se as igrejas estão tão fracas que um espírito imundo pode se apossar delas, como tu podes saber qual é de Deus e qual é de Satan?
O diálogo é interrompido pelo barulho dos vitrais das janelas se quebrando e com flechas incendiárias se cravando no assoalho de madeira. Alguns sacerdotes correm em busca de água, outros tentam fugir da igreja. O poço da igreja está seco e a porta está bloqueada.
Mais uma saraivada de flechas incendiárias entram pelas janelas da igreja, acertam bancos, cortinas e alguns sacerdotes desafortunados. O fogo se espalha e intensifica, a fumaça começa a preencher o altar, fazendo alguns sacerdotes tentarem uma fuga pela torre do sino.
A escada que sobe pela torre até o sino é pequena e frágil, logo cede pelo peso e calor, isolando alguns na pequena campânula onde fica o sino e jogando outros de volta à fornalha.
O fogo domina a igreja, os gritos sobem com a fumaça, a torre do sino cai com o calor e então silêncio. Lapidatus envia alguns legionários até a ruína da igreja, com ordens de se certificarem que todos morreram, de uma forma ou outra.
Conforme chega a manhã, soam as trombetas do Exército Romano anunciando sua chegada. Lapidatus dá suas últimas ordens e responde com o toque indicando estado de atenção. Não é muito, mas a cidade sabe que deve se preparar para lutar e o Exército Romano entende que será tratado como invasor.
Lapidatus está feliz e tranqüilo. A manhã é uma boa hora de desafiar o destino.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A devastação se alastra

Em Tamar, Ceres e Eleaser tentam se movimentar entre a população apavorada, tentando fugir da invasão do exército romano com o máximo de pertences. Todos os templos em Tamar foram abandonados e seus sacerdotes carregavam o máximo possível de manuscritos e pertences sagrados, para que não caíssem nas mãos dos sacerdotes Crestanos.
Ao redor da cidade, as centúrias de legionários haviam dominado e fechado todas as entradas de acesso, cercando cada vez mais a cidade, mas sem pressa em tomá-la. O desespero dos habitantes trazia para sua sequiosas mãos os bens e as vidas para serem colhidas.
Conforme o cerco aperta e os habitantes percebem o massacre iminente, uma enorme massa vai se concentrando no pequeno porto, dando início a brigas a mortes entre as pessoas.
Não há navios mercantes em número suficiente, muitas pessoas mergulham no mar, outras tentam tomar os navios à força. Os capitães dos navios que deviam chegar e desembarcar vêem a cena, alguns seguem para outros portos, outros dão meia volta.
Miriam fica sabendo que o capitão de seu navio pretende seguir em frente e só desembarcar em algum porto na Hispânia. Miriam se angustia, pois vê no meio dessa luta pela sobrevivência a sacerdotisa Ceres e Eleaser.
Do lado do porto, Ceres se despede de Miriam, pois os Romanos iniciam a marcha que irá varrer e apagar a cidade de Tamar e seus habitantes da existência.
Como uma orquestra tocando uma ópera belicosa, as catapultas lançam as novas bolas de ferro com fogo grego que explodem tudo ao redor assim que tocam o chão.
Nenhum edifício tem estrutura para suportar tal ataque e se estilhaçam ou caem sobre a população indefesa. As casas, que em maior parte são feitas de madeira, se incendeiam instantaneamente com as fagulhas das explosões, carbonizando famílias inteiras ou asfixiando crianças e bebês com a grossa fumaça.
No segundo movimento dessa opera bélica, os legionários atiram sem parcimônia suas pesadas lanças para atingir as pessoas, trespassando muitos jovens e mulheres.
Os legionários passam então em executar os sobreviventes, sem poupar ninguém do gosto do fio de seus gládios. As espadas seguem golpeando e seccionando cabeças, braços e torsos. O sangue espirra sobre os legionários para depois se juntar aos corpos que vertem rios de sangue.
Ao chegarem ao porto, tudo o que resta de Tamar são ruínas fumegantes sobre um lago de sangue.
Miriam chora copiosamente, sem entender como tal coisa pôde acontecer e se pergunta onde estão seus Deuses agora. Seu pensamento chocalha como o navio onde ela e muitos outros tentam exílio. Uma enorme nau de guerra romana impede o prosseguimento da viagem, com seus ganchos de abordagem e não pretendem fazer prisioneiros.
O último pensamento de Miriam foi se perguntar se valeu a pena todo o esforço e trabalho que ela teve em servir dedicadamente os Deuses Antigos.
No porto, os legionários tocam a trombeta da vitória. Os sacerdotes Crestanos se juntam à festa de triunfo e colocam uma cruz sobre os corpos mutilados, iniciando com os legionários uma oração para agradecer a Deus por ter dado a eles a oportunidade de conquistar e purificar a cidade em nome de Deus.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os conflitos se expandem

Os conflitos entre o Império e governantes provincianos e entre a Igreja Romana e igrejas locais nem sempre são contendidos por meio de palavras ásperas ou excomunhões recíprocas. Em algumas cidades, as disputas chegavam a serem resolvidas com agressões mais físicas. Os habitantes eram levados ora a apoiar um lado, ora outro, em troca de mais pão. Em alguns casos, os habitantes formavam pequenas milícias que, sob as ordens do governante ou do bispo, atacavam de forma organizada e metódica ou a postos militares ou a templos religiosos.
No templo de Ishtar, em Esmirna, Roe organizou com os homens do templo um contingente para vigiar e proteger o templo. Na maior parte das vezes, as tentativas de invasão eram facilmente frustradas, as milícias não passavam de três pessoas que rapidamente se dispersavam quando percebiam que a resistência no templo era grande. Isso mesmo assim prejudicava o serviço do templo, que estava ficando abandonado por causa do medo das pessoas e muitas cerimônias não foram realizadas por estas circunstâncias.
A intuição de Roe disparou naquela tarde e ordenou a todos os servos e servas do templo para pegar em armas e ficarem na porta da frente. Ele correu até o quarto de Miriam e a conduziu pela saída dos fundos.
- Onde está Magdala?
- Ela foi ao mercado para comprar vinho.
- Eu não poderei ajudá-la, mas tu deves fugir. Vá até Tamar e se refugie no templo com Ceres.
Roe montou Miriam em um camelo e o colocou em disparada. Seguiu então para a porta, tomando em mãos a sua velha e preciosa espada que o acompanhou por tantas batalhas, pronto para enfrentar seu destino.
Ao se juntar aos demais servos do templo, se deparou com uma milícia de vinte pessoas reforçada com o destacamento de uma centúria de legionários. O centurião que devia estar organizando esse ataque proferiu a ordem que supostamente veio cumprir, como se fosse uma sentença de condenação.
- Por ordem do governador Plínio e do bispo Teodósio, vosso templo cessará suas atividades para que aqui seja instalada uma Igreja Romana. Vós deveis pegar vossos pertences e desocuparem este templo ou enfrentareis as conseqüências.
O embate inevitável se inicia e Roe sabe que não há chances de vitória. Ele é o único acostumado ao campo de batalha e servos armados só assustam ladrões de galinhas. Roe bem que gostaria de ser um Leônidas e morrer em batalha em nome de um propósito maior, mas a mulher que ele ama está em terras muito distantes.
Os milicianos não são um oponente, aqueles que ousam enfrentá-lo caem feito moscas. Os legionários são outro nível e compensam o esforço.
O gosto pela luta e a emoção de estar de novo em campo de batalha faz Roe esquecer de sua Ketar e dos Deuses por um instante. Nesse precioso instante, o centurião trespassa o corpo de Roe com sua lança. Uma voz feminina doce e suave dá a despedida da Vida ao velho soldado.
- Como ousa duvidar de meu amor por ti? O amor nunca se divide ou diminui, apenas multiplica e aumenta. Adeus, Roe, nos vemos na Terra da Juventude.
O sangue se espalha pela rua, correndo dos corpos caídos. Os legionários entram no templo e iniciam a reformá-lo, quebrando todas as estátuas e pilhando seus tesouros. O telhado é removido para dar lugar à abóbada e à torre do sino. Ainda com os legionários ocupados com o saque do templo, chegam três sacerdotes Crestanos, que vieram para purificar e consagrar o local, para poderem ali ministrarem, dando fim a qualquer indício de seu propósito original.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Entre os Saxões

Dois meses se passaram, a estrada romana deixou de existir e não há qualquer marco romano indicando a rala trilha por onde Andros e Ketar seguem. Em ambos os lados da trilha, uma floresta exuberante e densa, quase intocada pelo homem.
Em algumas dessas árvores, peles e crânios de animais e de humanos enfeitam os galhos como sinal de aviso aos invasores. Quatro homens surgem na trilha, vindo de dentro da floresta e apontam suas lanças para os viajantes.
- Laedenware?
- Nan. Hofu Gotten peows.
Andros se espanta. Ketar consegue compreender e falar a língua dos bárbaros.
- An cuman nean?
- An cuman Esmirna. Stan cuman Epheso.
- Tu falas bem nossa língua. Quem te ensinou?
- Eu sirvo a Deuses que conhecem todas as línguas.
Os estranhos soldados ficam assustados, baixam as lanças e se ajoelham.
- Perdão, sidhe! Não nos machuque!
- Os Deuses nos ensinam a nenhuma dor causar. Eu vim aqui para criar meu filho e preservar a Antiga Religião.
- Será uma honra e um prazer em receber tua família em nosso povo, sidhe.
Os soldados mostram aos viajantes o caminho pela trilha até o povoado, onde Ketar foi recebida com aclamação.
- Sidhe! Sidhe!
Um homem alto, forte, barbado e usando um elmo feito de ouro se aproxima dos visitantes e acalma os habitantes. Um dos soldados que os tinham acompanhado cochicha algo a este homem, que então dá as boas vindas aos peregrinos.
- Saudações, sidhe! Eu sou Roden, o rei dos Saxões destes vales. A nossa sidhe irá providenciar uma cama para dormir, um quarto para teus pertences e um berço para teu filho.
- Muito obrigada. Assim eu posso trocar idéias com uma sidhe como eu.
Uma velha senhora, que tinha anéis feitos de osso nos cabelos trançados, aproxima-se de Ketar e a saúda com um sinal que Andros lembra de ter visto em Lívia. Certamente este era um sinal de saudação trocado entre as sacerdotisas que existia desde tempos imemoriais.
A velha parou diante de uma amoreira selvagem, próximo a uma casa nova porém abandonada e empoeirada.
- Esta casa era para os jovens Eric e Gilia. Eles estavam para se casar, mas os Romanos vieram e eles morreram na batalha.
- Nesse caso, nós temos que fazer uma oferenda a seus espíritos, para que eles não se ofendam com nossa estadia aqui.
Ketar deixa Bran na cama e pega de seu alforje um punhado de mirra, um maço de sálvia, um maço de alcaçuz e uma raiz de olíbano. Andros estendeu um almofariz enquanto preparava um incensário em cima de uma cômoda. Prestimosamente, Ketar reduziu os ingredientes em pedaços minúsculos e os lançou em cima da brasa no incensário.
Estavam todos bem dispostos, na forma de um triângulo na frente do incensário, prontos para proferir uma runa ao casal falecido, mas foi Bran que se adiantou e mostrou um talento incomum para um menino de quatro anos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A coroa da Igreja

Magdala está acuada. Diariamente chegam cartas e emissários das igrejas, com reclamações e relatos do conflito entre as vilas e o governo romano por causa da ordem de César para unificar a religião.
Por causa da posição inflexível de Galba, o lento e delicado trabalho de infiltração, instalação e fixação das igrejas nas vilas periféricas do Império Romano corre o risco de fracassar. Mesmo os acordos feitos com as Igrejas Orientais está ameaçado e o clima de repúdio e revolta podem explodir em uma guerra civil em larga escala.
Como Suma Sacerdotisa, Magdala é constantemente cobrada para tomar uma posição, o que ameaça sua frágil aliança com Galba que, por sua vez, exige que ela referende as decisões dele. Ela estava de mãos atadas, qualquer que fosse a decisão dela, as conseqüências seriam fatais para ela.
A indefinição e indecisão de Magdala também eram um sinal inaceitável. Ela não se surpreendeu quando seu secretário particular, o bispo Lino, entrou em seu escritório com um guarda pretoriano fortemente armado.
- Santa Senhora, vós estais ficando velha demais. Nós cremos que é momento de vós vos aposentar.
- E tu trouxeste este guarda pretoriano para garantir nossa retirada para o Orco?
O bispo Lino deixa escapar um sorriso pérfido e, estendendo uma ânfora, oferece uma alternativa, como se estivesse fazendo um imenso favor.
- Tu não precisas ser tão dramática. Tu podes beber do vinho de Sócrates e sair com todas as honras.
Magdala compreende muito bem o que significa o eufemismo. O bispo Lino não chegaria a este ponto se não tivesse o apoio de Galba, dos senadores e dos bispos. Entre ser humilhada em uma procissão pública, onde ela seria exposta e enxovalhada, conduzida como cativa e penitente, com os bispos declamando seus supostos pecados ao povo para então ser garroteada, esquartejada e queimada em praça pública, ela preferiu beber o vinho envenenado e receber as exéquias com a dignidade que merecia.
Poucos instantes depois, o guarda pretoriano sai e vai até o Imperador e anuncia conforme uma senha combinada.
- Ave, Excelso Augusto César! O bispo Lino me enviou para vos comunicar, com grande pesar, que a Suma Sacerdotisa foi chamada por Deus.
- Que seja proclamado e apregoado por todo o Império o passamento da Suma Sacerdotisa e o luto oficial por três semanas. Que sejam convocados todos os senadores e cônsules para as exéquias e o funeral de nossa amada Suma Sacerdotisa.
As três semanas se reduziram a três dias, a cerimônia do funeral foi um mero evento protocolar. O bispo Lino foi aclamado pelo Imperador e pela alta hierarquia da Igreja como Papa Lino, um título que seria passado aos seus sucessores, todos homens.
O primeiro ato do Papa Lino foi assinar todas as epístolas que Galba queria para dar ao Império Romano a unidade espiritual, dentro da Igreja Romana.
Vários emissários foram enviados às províncias para afixar as epístolas em todas as igrejas e templos, com a ajuda de uma escolta de três centúrias de legionários.
As epístolas determinavam a todas as igrejas e templos que somente se adorasse a Deus e cultuasse a Mithra, Yeshu e César. Para isso, o fofo para qualquer decisão doutrinária é a Santa Sede em Roma, a quem todas as igrejas e templos devem se submeter, conforme a hierarquia. Todas as comunidades, fraternidades, ordens e conventos devem se submeter ao bispo local. Aos bispos locais ficará o encargo de cuidar da boa conduta e moral de suas dioceses, para que estas sigam conforme a mais pura doutrina da Santa Sede. Considera-se banido e proibido os demais cultos.
As medidas foram bem recebidas pelos bispos das províncias na península itálica, que eram favoráveis a essa moralização e estavam fartos das cerimônias profanas. Na prática, isso diminuiria a força e a influência das mulheres na Igreja e apagaria o nome de Magdala.
Entretanto, quanto mais longe de Roma as províncias eram, maior resistência aparecia. Em parte porque cada vila se orgulhava das tradições que preservavam e em parte porque a igreja local tinha seus próprios objetivos. Assim, tornou-se comum haver acordos paralelos entre os sacerdotes e os governantes, que se apoiavam mutuamente por meio da força ou do dinheiro contra eventuais interferências ordenadas pelo Imperador. Apenas nas Igrejas do Oriente não houve conciliações, uma resistência foi formada pelos bispos do Egito, Judéia e Pérsia, decretando a Igreja Romana anátema, excomungando o Imperador e aclamando o Patriarca Nicodemo de Bizâncio o verdadeiro Papa da Igreja de Crestos.
Com isso tem inicio a disputa pela coroa da Igreja.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Celebremos a Vida

No dia seguinte, a vila toda foi enfeitada e preparada para a celebração da Estação da Seara. Os habitantes estavam animados e eufóricos pois, após tantos anos sendo coibidos e proibidos pela Igreja e pelo Governo de Roma de celebrarem suas festas, graças ao novo governador eles podem voltar a festejar.
Na fortaleza, Lapidatus se prepara para participar da festa, tendo liberado todos os legionários para se juntarem aos civis na festa. O oficial do dia achou por bem acautelá-lo de possíveis resistências.
- Senhor, eu não desejo criticar tua posição, mas o senhor pensou no que os Romanos e os sacerdotes Crestanos podem tentar fazer contra o senhor?
- Sim, Fidius, eu imaginei. Mas como a maior parte das pessoas e dos legionários crêem no mesmo que eu, não há riscos.
- Por via das dúvidas, não é melhor deixar um destacamento de sobreaviso?
- Eu pensei bem, Fidius e tenho uma solução mais prática. Venha comigo.
Fidius, um frígio que se tornou centurião e conhecia bem os Romanos sabia bem o que podia acontecer, mas a firmeza de Lapidatus o surpreendeu. Ambos foram até o edifício da administração romana, onde Lapidatus deu um ultimato aos funcionários públicos que ali trabalhavam.
- Senhores e senhoras. Como governador de Belarum e comandante da VIII coorte, eu os convido a se juntarem na festa. Mas eu não admitirei rebeldia ou traição.
Lapidatus sai em olhar para trás e segue em direção da igreja, para dirigir um ultimato menos ameno aos sacerdotes ali presentes.
- Senhores, vós tendes duas escolhas. Ou convivem e toleram as crenças locais, ou peguem vossos pertences e partam imediatamente. Se aqui permanecerem e houver qualquer reação de Roma, vós sereis os primeiros a serem responsabilizados e punidos por traição.
Não houve qualquer resposta ou ruído vindo da igreja, mas Lapidatus não se importava com o que aqueles sacerdotes tramavam.
Sem demora, Lapidatus e Fidius foram até o terreno sagrado onde, segundo as crenças locais, os Deuses desceram e se juntaram com esse povo. Ali, uma imensa e farta mesa cheia de comida e bebida os aguardava.
Ao longo da noite, em volta da fogueira, as pessoas cantavam, dançavam nuas, celebrando o fim do inverno e a véspera da primavera, a Estação da Seara. Debaixo da lua minguante, não haviam mais diferenças, não haviam velhos ou jovens, os apaixonados podiam se amar sem restrições, os vivos dançavam com os mortos.
Lapidatus estava se divertindo bastante com duas belas moças que lhe ofereciam vinho, comida e seus corpos para saciá-lo quando um velho embriagado lhe contou uma história.
- Um brinde ao governador! Ele realizou a profecia da sacerdotisa!
- Uma sacerdotisa passou por aqui?
- Sim, três semanas antes do senhor chegar.
- Como era ela?
- Ah, meu senhor, impossível descrever uma beleza que pertence à Deusa.
- O que ela disse?
- Que não devemos nos dobrar a um Deus estranho nem entrar em templos que ensinam a desprezar a Vida. Ela nos predisse que logo viria alguém que nos devolveria a alegria.
- Ela carregava uma criança?
- Sim, um filho sagrado que todos nós vimos que se tornará um grande rei.
- Havia mais alguém com ela?
- Apenas um homem, de cabelos castanhos cacheados e uma roupa típica dos povos que vivem pelos mares do sul.
- Sabe para onde foram?
- Eles foram para o norte, em direção dos Saxões.
- Meu velho, tu achas que nada nessa vida é uma coincidência?
- Meu senhor, eu não sei. Os Deuses desenham o futuro, mas nós trilhamos o presente.
- Pois a Fortuna e o Destino são caprichosos, mesmo quando são moldados pelos Deuses ou pelos homens. Eu conheci esta sacerdotisa, aquela criança é meu filho e aquele homem é um mestre que veio de Ephesus. Esta bem pode ser a última vez que podemos celebrar a vinda da primavera. Celebremos a Vida!

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os Deuses do campo

Lapidatus acorda bem cedo e sai do dormitório dos oficiais para participar da refeição matinal comunitária junto com os legionários, um hábito que ele adquiriu quando era legionário e admirava os oficiais que dispensavam o tratamento especial.
Depois, pediu ao legionário nativo mais jovem que encontrou, para conhecer os pontos principais da vila, os hábitos, os costumes, as tradições e crenças do povo.
A vila não tem muitas construções, a maior parte eram prédios e marcos romanos. Apenas as casas de fazenda mantêm as características peculiares.
As ferramentas têm ferro, que estava mais bem trabalhado graças às forjas romanas, mas o equipamento continuava bem rústico.
A plantação é separada em colunas, cada qual com uma hortaliça. Terrenos mais extensos são preparados para o plantio de frutas, mas os campos de trigo são maiores.
Os frutos são colhidos e postos em cestos feitos de palha de faia, sendo estocados em celeiros reforçados para resistir ao frio e protegidos dos ataques de animais com maços de açafrão e caledônia.
- estas coisas teu povo sempre fez ou aprenderam com os Romanos?
- Muitas destas coisas nossos velhos nos ensinaram, outras aprendemos com os povos vizinhos, mas os Romanos também trouxeram suas experiências.
- Os Romanos tiveram suas origens em povos que viveram como o teu, mas teu povo acredita em quais Deuses?
- Os velhos nos contam de uma época muito mais fria que hoje, quando nós vivíamos como feras. Então os Deuses desceram do monte Carpus, nos juntaram, nos ensinaram a lavrar a terra e a criar gado. Eles nos ensinaram a importância de velar os que partem, de libertar a alma do corpo na pira e de honrar anualmente a memória de nossos ancestrais. Os Deuses se misturaram a nós e nos deram nossos reis e sacerdotisas, assim surgiu nosso povo.
- O que aconteceu com a chegada dos Romanos?
- Os velhos nos dizem que isto estava predito, mas que mesmo assim nós tínhamos que provar nossa honra e a honra dos Romanos.
- Então não foi difícil ao seu povo se adaptar ao modo Romano.
- No início não, até a chegada da Igreja de Roma. Os sacerdotes chegaram, se instalaram e até mostraram simpatia, ajudando os órfãos e pobres. Conforme o tempo passou, a Igreja cresceu e foi se intrometendo em nossos costumes e cerimônias. O governador anterior ao senhor enfrentou uma rebelião de meu povo, ao tentar nos fazer adorar ao Deus da Igreja Romana, chamando os nossos Deuses de espíritos malignos.
- Igreja de Roma? Eu nunca ouvi falar de tal Igreja nem da obrigação em adorar só um Deus. Leve-me a tal Igreja.
O legionário levou Lapidatus até a igreja, toda feita em pedra esculpida, cheia de adornos e imagens desconhecidas por ele. Por dentro, a igreja parecia muito com os templos mithraicos, por causa do piso e bancos de madeira. Um sujeito franzino, em uma túnica escura, se aproxima para recebê-lo.
- A paz do Senhor Yeshu.
Lapidatus seque se move. Em sua armadura de comandante e usando o medalhão de governador, deu uma boa volta pela igreja, deteve-se no altar e olhou enigmaticamente para a imagem de Yeshu pendurado na cruz.
- Sabe, jovem Catus? Eu estive em várias cidades, conheci vários templos, vários sacerdotes, vários Deuses. Este templo é o primeiro que eu conheço que não sinto a presença de Deus algum. Vai ver que é por isso que não sinto qualquer santidade nos homens que ocupam este lugar, apenas trapaça e hipocrisia. Venha, vamos fazer o primeiro discurso público.
Lapidatus saiu e, ao passar pelo portal da igreja, fechou a porta de madeira que separava o altar da rua, mostrando suas intenções. Conforme se aproximava do grande auditório que ficava na praça central da vila, ele e o legionário convidavam a todos, civis e militares, para ouvirem o discurso.
No auditório, as pessoas foram afluindo, curiosas para ouvir o que o novo governador tinha a dizer, muito embora os mais velhos mostrassem certo receio.
- Povo de Belarum! Eu aqui vim, como estrangeiro, por ordem de César, mas quero aqui ficar, como convidado, por vossas vontades. Assim como vós, eu honro aos meus ancestrais, celebro as estações e louvo aos Deuses do campo. Assim como vós, eu prezo a tradição, os costumes e a vossa cultura. Assim como vós, todas estas coisas eu quero preservar para aqueles que herdarão essa terra, para que possam se orgulhar de onde nasceram. A custo de minha posição ou de minha vida, eu me disponho a lutar contra qualquer um que ameace aquilo que é mais valioso para esta comunidade, seja este um rei, um César ou Deus!
O povo aplaude e faz um grande clamor. Os sacerdotes Crestanos, na igreja, sentem seu prestígio ameaçado e começam tramar contra Lapidatus. O jovem Catus, ao seu lado, disse extasiado, um segredo local.
- Sabe, senhor? O senhor escolheu o melhor dia para teu discurso.
- E porque, Catus?
- Hoje meu povo comemora a chegada dos Deuses e o fim do Inverno.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Lapidatus, comandante e governador

Lapidatus chega na vila em Belarum, uma vila pouco urbanizada, mas com extensos terrenos para plantio. De todo lado da estrada, os campos se perdem de vista e os camponeses olhavam com curiosidade para ele.
Lapidatus só se sentiu mais à vontade ao entrar na fortificação onde se estabeleceu a coorte. Cobrindo-se precariamente com uma manta, mostrou suas ordens ao guarda do portão que, assustado, chamou o oficial do dia.
- Ave, comandante Lapidatus. Permita-me conduzi-lo ao setor dos oficiais, onde o senhor poderá trocar teu uniforme por outro mais apropriado.
No salão reservado aos oficiais, mais quente graças à calefação e uma lareira, Lapidatus pode deixar de lado a manta e refazer as forças com um bom vinho. O oficial do dia trouxe, logo a seguir, o uniforme de comandante que havia preparado para ele.
Lapidatus estranha as duas peças, uma que encobre dos ombros até os quadris e outra que encobre dos quadris até a canela.
- Esse uniforme é bem diferente. Será que nas outras coortes longe de Roma também tem diferenças?
- Eu creio que sim, comandante. Os primeiros Romanos que aqui chegaram adaptaram vestes locais ao uniforme, por causa de nosso clima mais frio. Esta peça que cobre o tronco e os braços é chamada de camisa. A peça que cobre o torso até as canelas é chamada de calça. Também forma substituídas as alparcatas por botas.
- Confortáveis e elásticas. Houve mais alguma adaptação?
- Sim, senhor. As lanças são mais compridas e pesadas, com uma ponta curta terminada em seta. As espadas são feitas de ferro, com lados que cortam.
- Eu gostei do cabo feito em osso. Vejamos agora meus legionários.
Lapidatus veste o elmo e as botas, enquanto o oficial do dia toca um sino para chamar todos os legionários. Assim que Lapidatus sai na varanda que tem na frente do setor dos oficiais, os legionários estão prontos, dispostos em cinco filas encabeçadas pelos seus respectivos centuriões.
- Saudações, legionários. A partir de hoje eu sou vosso comandante. Eu vejo que muitos são nascidos aqui, mas eu vos digo que cada um tem a mesma possibilidade que eu de fazer careira na Legião Romana. Eu nasci em Dácia, Macedônia e cheguei aqui. Sirvam bem a Roma, honre vossas espadas e nós conquistaremos muitos méritos.
Muitos brados, muitas salvas. Lapidatus então cumprimenta um a um de seus legionários, fazendo questão de saber o nome e onde nasceu. Em seguida, conferiu os mantimentos, os recursos, os armamentos e a situação da fortaleza.
Lapidatus fica satisfeito com a parte militar, a parte mais fácil. Deixa o comando ao oficial do dia e se dirige aos prédios da administração civil.
Lapidatus se esforça para esconder a aversão e o nojo que ele nutre contra essa classe de gente, funcionários públicos de carreira, cheios de fanatismo burocrático.
Na entrada, Lapidatus apresenta o edital ao funcionário que o recebe com indiferença e desânimo, mostrando que é recíproco o sentimento.
- Ave, governador Lapidatus. O senhor pode contar conosco. Todos os funcionários da administração são Romanos e seguem carreira. Eu vou apresentar ao senhor teus secretários.
Lapidatus passeia por várias salas e conhece diversos funcionários, cada um encarregado de uma parte da vida da comunidade. Um secretário de finanças, de habitação, de estradas, de construções, da semeadura, da colheita, da estocagem e assim por diante. O dia passa e Lapidatus se esgota, o que o faz deixar para o dia seguinte a parte mais delicada que é quebrar o muro que existe entre ele e os habitantes locais.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Enfrentando o Destino

Magdala retorna a Roma após duas semanas de intensos debates em Bizâncio com os bispos da região oriental do Império Romano. Neste concílio, Magdala percebeu estar perdendo sua base de sustentação, os bispos que estavam intimamente ligados a ela estavam ficando velhos ou morrendo, dando lugar a bispos nomeados por suas comunidades e mais interessados nas necessidades locais.
Este é um fenômeno comum, toda instituição acaba tomando rumos que o fundador ou administrador não previa e não pode controlar.
De Roma, Magdala não pode ver a mudança que se operou entre as comunidades dos Crestanos no oriente, resistindo às epístolas vindas da Santa Sede, resistindo às interferências do Imperador.
Os bispos, com um pensamento mais provinciano, estavam resgatando algumas tradições que vieram dos movimentos messiânicos da Judéia, como a recusa da adoração a César e o sacerdócio das mulheres. Ao invés das cerimônias que lembravam os Ritos Ancestrais, uma missa com uma liturgia mais ligada ao simbolismo gnóstico.
As questões e pendências foram diminuídas, mas não resolvidas. A nova Igreja, assim como Roma reconstruída, tem fome de poder e não ficará satisfeita enquanto não dominar o mundo. A fissura entre as igrejas do ocidente e do oriente aumentava pouco a pouco e Magdala sabia que isso levaria a um cisma, a guerras, ao sucesso e ao fracasso dos Crestanos, quando então a humanidade ficará cansada de tanto sofrimento e opressão e redescobrirá a Religião Antiga.
Enquanto Magdala se entretém com sonhos se neste futuro ela será lembrada e se nesta geração ela terá seu trabalho reconhecido, o condutor da caravana a alerta da aproximação de uma coorte.
- Saudações, Vossa Santidade. Eu sou o centurião Anquilum da II legião da VI coorte para vos escoltar em vossa volta a Roma.
Magdala sabe que o centurião mente, a missão dele é o de providenciar um acidente que a mate. Potencialmente, muitos nobres de Roma ou bispos adversários podem ter contratado o serviço deste centurião, mas o maior interessado é Galba. Magdala faz uma insinuação ao centurião para garantir a ela mais alguns meses.
- Nós agradecemos a preocupação do Imperador conosco, mas não necessitamos de proteção. Ninguém ousaria nos atacar sabendo que carregamos a semente do Imperador.
O centurião fica pálido, retém a marcha e cochicha algo no ouvido de um legionário que, em seguida, sai em disparada. Com certeza, foi avisar ao mandante sobre a condição dela. O centurião volta a se aproximar da liteira de Magdala, com olhos perturbados.
- Vossa Santidade, vós sabeis que temos que cumprir nossas ordens e o nosso Imperador nos puniria se descuidássemos de vós e de vosso santo herdeiro.
Magdala pode transcorrer sossegada até Roma, onde foi recebida com festas e honrarias. Como boa conhecedora dos protocolos da corte, somente por indicar estar grávida de César garante a ela alguns privilégios, mas ao mesmo tempo jogava um escândalo dentro de sua Igreja. Enquanto Galba estiver no poder, ela estará no rol das amantes dele e seu futuro filho no rol dos possíveis sucessores muito embora ela saiba que isso possa reverter.
Apesar de toda a aparência, Roma não é assim tão diferente das cidades ditas bárbaras. A única diferença são os adereços e a crença cega de que essa fachada é real, lhe concedendo a aura de ser uma civilização evoluída e superior.