terça-feira, 9 de outubro de 2007

Celebremos a Vida

No dia seguinte, a vila toda foi enfeitada e preparada para a celebração da Estação da Seara. Os habitantes estavam animados e eufóricos pois, após tantos anos sendo coibidos e proibidos pela Igreja e pelo Governo de Roma de celebrarem suas festas, graças ao novo governador eles podem voltar a festejar.
Na fortaleza, Lapidatus se prepara para participar da festa, tendo liberado todos os legionários para se juntarem aos civis na festa. O oficial do dia achou por bem acautelá-lo de possíveis resistências.
- Senhor, eu não desejo criticar tua posição, mas o senhor pensou no que os Romanos e os sacerdotes Crestanos podem tentar fazer contra o senhor?
- Sim, Fidius, eu imaginei. Mas como a maior parte das pessoas e dos legionários crêem no mesmo que eu, não há riscos.
- Por via das dúvidas, não é melhor deixar um destacamento de sobreaviso?
- Eu pensei bem, Fidius e tenho uma solução mais prática. Venha comigo.
Fidius, um frígio que se tornou centurião e conhecia bem os Romanos sabia bem o que podia acontecer, mas a firmeza de Lapidatus o surpreendeu. Ambos foram até o edifício da administração romana, onde Lapidatus deu um ultimato aos funcionários públicos que ali trabalhavam.
- Senhores e senhoras. Como governador de Belarum e comandante da VIII coorte, eu os convido a se juntarem na festa. Mas eu não admitirei rebeldia ou traição.
Lapidatus sai em olhar para trás e segue em direção da igreja, para dirigir um ultimato menos ameno aos sacerdotes ali presentes.
- Senhores, vós tendes duas escolhas. Ou convivem e toleram as crenças locais, ou peguem vossos pertences e partam imediatamente. Se aqui permanecerem e houver qualquer reação de Roma, vós sereis os primeiros a serem responsabilizados e punidos por traição.
Não houve qualquer resposta ou ruído vindo da igreja, mas Lapidatus não se importava com o que aqueles sacerdotes tramavam.
Sem demora, Lapidatus e Fidius foram até o terreno sagrado onde, segundo as crenças locais, os Deuses desceram e se juntaram com esse povo. Ali, uma imensa e farta mesa cheia de comida e bebida os aguardava.
Ao longo da noite, em volta da fogueira, as pessoas cantavam, dançavam nuas, celebrando o fim do inverno e a véspera da primavera, a Estação da Seara. Debaixo da lua minguante, não haviam mais diferenças, não haviam velhos ou jovens, os apaixonados podiam se amar sem restrições, os vivos dançavam com os mortos.
Lapidatus estava se divertindo bastante com duas belas moças que lhe ofereciam vinho, comida e seus corpos para saciá-lo quando um velho embriagado lhe contou uma história.
- Um brinde ao governador! Ele realizou a profecia da sacerdotisa!
- Uma sacerdotisa passou por aqui?
- Sim, três semanas antes do senhor chegar.
- Como era ela?
- Ah, meu senhor, impossível descrever uma beleza que pertence à Deusa.
- O que ela disse?
- Que não devemos nos dobrar a um Deus estranho nem entrar em templos que ensinam a desprezar a Vida. Ela nos predisse que logo viria alguém que nos devolveria a alegria.
- Ela carregava uma criança?
- Sim, um filho sagrado que todos nós vimos que se tornará um grande rei.
- Havia mais alguém com ela?
- Apenas um homem, de cabelos castanhos cacheados e uma roupa típica dos povos que vivem pelos mares do sul.
- Sabe para onde foram?
- Eles foram para o norte, em direção dos Saxões.
- Meu velho, tu achas que nada nessa vida é uma coincidência?
- Meu senhor, eu não sei. Os Deuses desenham o futuro, mas nós trilhamos o presente.
- Pois a Fortuna e o Destino são caprichosos, mesmo quando são moldados pelos Deuses ou pelos homens. Eu conheci esta sacerdotisa, aquela criança é meu filho e aquele homem é um mestre que veio de Ephesus. Esta bem pode ser a última vez que podemos celebrar a vinda da primavera. Celebremos a Vida!

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