segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A coroa da Igreja

Magdala está acuada. Diariamente chegam cartas e emissários das igrejas, com reclamações e relatos do conflito entre as vilas e o governo romano por causa da ordem de César para unificar a religião.
Por causa da posição inflexível de Galba, o lento e delicado trabalho de infiltração, instalação e fixação das igrejas nas vilas periféricas do Império Romano corre o risco de fracassar. Mesmo os acordos feitos com as Igrejas Orientais está ameaçado e o clima de repúdio e revolta podem explodir em uma guerra civil em larga escala.
Como Suma Sacerdotisa, Magdala é constantemente cobrada para tomar uma posição, o que ameaça sua frágil aliança com Galba que, por sua vez, exige que ela referende as decisões dele. Ela estava de mãos atadas, qualquer que fosse a decisão dela, as conseqüências seriam fatais para ela.
A indefinição e indecisão de Magdala também eram um sinal inaceitável. Ela não se surpreendeu quando seu secretário particular, o bispo Lino, entrou em seu escritório com um guarda pretoriano fortemente armado.
- Santa Senhora, vós estais ficando velha demais. Nós cremos que é momento de vós vos aposentar.
- E tu trouxeste este guarda pretoriano para garantir nossa retirada para o Orco?
O bispo Lino deixa escapar um sorriso pérfido e, estendendo uma ânfora, oferece uma alternativa, como se estivesse fazendo um imenso favor.
- Tu não precisas ser tão dramática. Tu podes beber do vinho de Sócrates e sair com todas as honras.
Magdala compreende muito bem o que significa o eufemismo. O bispo Lino não chegaria a este ponto se não tivesse o apoio de Galba, dos senadores e dos bispos. Entre ser humilhada em uma procissão pública, onde ela seria exposta e enxovalhada, conduzida como cativa e penitente, com os bispos declamando seus supostos pecados ao povo para então ser garroteada, esquartejada e queimada em praça pública, ela preferiu beber o vinho envenenado e receber as exéquias com a dignidade que merecia.
Poucos instantes depois, o guarda pretoriano sai e vai até o Imperador e anuncia conforme uma senha combinada.
- Ave, Excelso Augusto César! O bispo Lino me enviou para vos comunicar, com grande pesar, que a Suma Sacerdotisa foi chamada por Deus.
- Que seja proclamado e apregoado por todo o Império o passamento da Suma Sacerdotisa e o luto oficial por três semanas. Que sejam convocados todos os senadores e cônsules para as exéquias e o funeral de nossa amada Suma Sacerdotisa.
As três semanas se reduziram a três dias, a cerimônia do funeral foi um mero evento protocolar. O bispo Lino foi aclamado pelo Imperador e pela alta hierarquia da Igreja como Papa Lino, um título que seria passado aos seus sucessores, todos homens.
O primeiro ato do Papa Lino foi assinar todas as epístolas que Galba queria para dar ao Império Romano a unidade espiritual, dentro da Igreja Romana.
Vários emissários foram enviados às províncias para afixar as epístolas em todas as igrejas e templos, com a ajuda de uma escolta de três centúrias de legionários.
As epístolas determinavam a todas as igrejas e templos que somente se adorasse a Deus e cultuasse a Mithra, Yeshu e César. Para isso, o fofo para qualquer decisão doutrinária é a Santa Sede em Roma, a quem todas as igrejas e templos devem se submeter, conforme a hierarquia. Todas as comunidades, fraternidades, ordens e conventos devem se submeter ao bispo local. Aos bispos locais ficará o encargo de cuidar da boa conduta e moral de suas dioceses, para que estas sigam conforme a mais pura doutrina da Santa Sede. Considera-se banido e proibido os demais cultos.
As medidas foram bem recebidas pelos bispos das províncias na península itálica, que eram favoráveis a essa moralização e estavam fartos das cerimônias profanas. Na prática, isso diminuiria a força e a influência das mulheres na Igreja e apagaria o nome de Magdala.
Entretanto, quanto mais longe de Roma as províncias eram, maior resistência aparecia. Em parte porque cada vila se orgulhava das tradições que preservavam e em parte porque a igreja local tinha seus próprios objetivos. Assim, tornou-se comum haver acordos paralelos entre os sacerdotes e os governantes, que se apoiavam mutuamente por meio da força ou do dinheiro contra eventuais interferências ordenadas pelo Imperador. Apenas nas Igrejas do Oriente não houve conciliações, uma resistência foi formada pelos bispos do Egito, Judéia e Pérsia, decretando a Igreja Romana anátema, excomungando o Imperador e aclamando o Patriarca Nicodemo de Bizâncio o verdadeiro Papa da Igreja de Crestos.
Com isso tem inicio a disputa pela coroa da Igreja.

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