quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Deuses morrem

Os planos de Galba estão prestes a se concretizar e ele lê com satisfação os relatórios das vitórias apesar das baixas, o que é de se esperar quando se luta por Deus contra Satan.
A única frente em que a luta tem causado muitas baixas e prejuízos a ambos os lados é a liderada pelas Igrejas Orientais.
Militarmente, Galba sabe que o conflito pode se estender indefinidamente e ele deseja poder celebrar sua procissão de triunfo até a festa do Sol Invictus, uma das poucas cerimônias tradicionais romanas que Galba assimilou como parte das cerimônias da Igreja Romana. Então ele enviou diplomatas aos governantes e bispos das províncias orientais com uma oferta irrecusável para o apoiarem em troca de benécies.
As províncias da Pérsia e do Egito concordaram com os termos e não apenas suspenderam a ajuda à província da Judéia como também passaram a ajudar no cerco. Em pouco tempo, Galba teve seu desfile de triunfo em plena Jerusalém, sentado em um trono no alto de uma torre móvel enfeitada com a cabeça dos líderes dos revoltosos.
Em Bizâncio, Galba teve a recepção digna de um Deus e como ele achava merecida a homenagem, tolerou esse pequeno pecado. Diante da multidão, ele e todos os bispos assinaram a Encíclica Universal, contendo os pontos fundamentais da Igreja Romana, que praticamente tornava oficialmente canônicas as epístolas anteriores ditadas por Galba. Como parte do acerto, a capital do Império passaria a ser em Bizâncio e anularam-se todas as ordens sacerdotais das mulheres.
Galba então parte para Roma para ter mais um desfile de triunfo, como os antigos Césares, além de ordenar e iniciar a transferência do núcleo de comando do Império para Bizâncio. Paralelamente, ele mandou aos bispos para prepararem a festa do Sol Invictus em nome dele. Ele teve o cuidado de acompanhar pessoalmente cada detalhe da cerimônia, inclusive trocar toda sua guarda pessoal para evitar ser vitima de uma cilada.
Estando tudo pronto e faltando poucas horas para o início do desfile e da cerimônia, Galba vai com sua escolta pessoal até a Escola Militar para pegar seu filho com Magdala, Domiciano, que estava sendo treinado para suceder Galba no trono.
No caminho até a Via Capitulina onde Galba teria seu triunfo e seria aclamado Sol Invictus, este conta a seu filho o que ele pretende fazer nos longos anos que Deus o concederá, antes que o menino possa herdar tal honra.
- Excelso Augusto César, vosso reino está unificado pelas graças de Deus. Não é hora de levarmos a Verdade e a Palavra de Deus às nações bárbaras e pagãs?
- Chama-me de pai, Domiciano. Mas tu me enche de orgulho, ao mostrar tua preocupação pelos povos que ainda jazem nas trevas, dominados pelo Maligno. Eu te prometo que te darei o comando de várias coortes para levar o domínio de Deus e de Roma aos bárbaros. Eu te dei o nome de Domiciano exatamente por isto, Deus me revelou teu destino.
- Eu confio em Deus, pai, mas desejo não receber qualquer privilégio. Eu devo conquistar e construir minha carreira militar como tu.
- Muito justo. Mas por esta noite, tu serás o convidado especial do Imperador. Eu quero que tu vejas e te acostumes com as honrarias e glórias que hás de receber.
Galba e Domiciano chegam no palanque montado para receber os nobres e os eclesiásticos, onde são efusivamente cumprimentados e saudados. No camarim reservado do Imperador, vinho e mulheres o esperavam para trocá-lo e satisfazê-lo. Mas Domiciano mostrava estar incomodado com tanto consumo de vinho e mulheres, trocando-se sozinho em um canto.
Galba escolheu um traje de gala imperial todo branco, tendo apenas bordados em fio de prata como contraste. Ele não deu muita importância que Domiciano vestia o uniforme comum de um legionário, apenas saiu em direção ao púlpito assim que o Papa Lino chegou.
O átrio que cercava o púlpito estava reservado apenas às pessoas de confiança do Imperador e, por ser uma área consagrada, apenas Domiciano e o Papa Lino puderam entrar. Galba estava a pouco mais de dez passos do púlpito e da aclamação popular quando sentiu uma forte estocada nas costas.
Instintivamente, Galba põe a mão nas costas e sente algo líquido e quente nas mãos. Olhando-as, estas estão cheias de sangue. Galba olha na direção de onde veio o golpe e vê Domiciano com um punhal. Antes que Galba pudesse gritar ou reagir, Domiciano descerra um golpe certeiro no pescoço de Galba e o vê agonizar com indiferença.
- Deixe o resto comigo, agora, fuja!
Domiciano corre através dos corredores, sai na rua e some pela noite romana. No púlpito, o Papa Lino comunica ao público que César estará ausente na cerimônia devido a um mal estar. Como tais coisas eram naturais, as cerimônias seguem seu curso normal e uma efígie de Galba recebe as honras. Nos bastidores, o Papa Lino inicia com seus conjurados as negociações pela sucessão de Galba.

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